As conseqüências políticas do analfabetismo funcional do brasileiro

Eu tenho espírito de corno: sou sempre o último a saber das primeiras. Era assim na escola, na faculdade, no primeiro emprego, no segundo emprego, na vida em geral. Só venho a conhecer o que quer que seja polêmico quando todo mundo já sabe há tempos. É da minha natureza, não tenho como fugir. E por essa falta de conexão social, fui mais um dos brasileiros enganados por Bolsonaro e seus asseclas. Mas não, talvez, como o leitor imagine.

Conforme escrevi em ”A falácia sobre a educação”, ”Discussão e debate no país dos analfabetos” e em meu projeto de monografia de especialização em docência, o Brasil vive uma grave crise de analfabetismo funcional. Até mesmo pessoas com dois ou mais doutoramentos são incapazes de compreender o que lêem. Os trabalhos realizados em nível superior têm desprezíveis citações por papel e não contribuem efetivamente para o progresso científico. As instituições não preparam para o mercado de trabalho (tema de meu TCC), nem ao menos estão sintonizadas com as demandas do mesmo (ver: Um exército de doutores desempregados). Hoje em todos os níveis temos uma formação acadêmica precária, mas eficientemente projetada para servir como mecanismo de reprodução de idéias dominantes (Relações de poder no mundo acadêmico)

Esse fato agrava-se com a peculiar queda na capacidade intelectual do brasileiro médio (Brasil, um país de gente estúpida.). Não bastasse sua incompetência racional, devido a múltiplas causas, esta é agravada por sua baixa capacidade cognitiva. Não estamos mais tratando apenas de pessoas que não aprenderam a raciocinar, a inquirir, a questionar, a duvidar. Estamos também tratando de indivíduos intrinsecamente inaptos. Não é apenas não saber como, é não ser capaz de tanto, tais como as crianças com prejuízo cognitivo em minha postagem Deficiência de aprendizado infantil. Nesse caso, os prejuízos na construção da cidadania são irreversíveis, permanentes. E, como vimos nas últimas semanas, perigosíssimos.

Nesta era da informação em que a cada segundo nada é mais obsoleto que o dia de ontem, a quantidade de dados a que somos continuamente expostos é imensurável. A disputa pela audiência dos grandes meios de comunicação tem como principal rival a velocidade das redes sociais. Entremeadas ao consolidado 4º poder da imprensa e da mídia, penetram as Big Techs, que com seus algoritmos impelem e restringem dados conforme seus interesses. Não havia checadores de fatos quando somente a grande mídia falava e a massa escutava. Sob aparente liberdade de expressão, oculta-se um fortíssimo mecanismo de controle, censura e engenharia social.

Nesse cenário timidamente surgiu a onda conservadora no Brasil. Após décadas de aplicação da cartilha gramsciana (controle social por meio do controle cultural – universidades, meios de comunicação, artes), durante a chegada das ondas neomarxistas pós-modernas (feminismo contemporâneo, ações afirmativas de raça, ideologia de gênero, relativização da moralidade, hook up culture, rejeição ao patriotismo e soberania nacional) oriundas dos Estados Unidos e Europa ocidental, irromperam as sementes do conservadorismo. Vozes mudas vociferavam contra a degradação dos valores fundamentadores da sociedade. Sem haver um representante, alguém que pudesse se fazer ouvir, o grito de basta estava preso na garganta, até o surgimento excepcional de Jair Bolsonaro.

Apresentando-se como irascível, briguento e não corrompido pela cleptocracia, vimos nele alguém que iria por nós ”comprar a briga”, lutar para afastar de nossa nação o mal que há tanto se impunha e somente há pouco descobríamos. Ele seria a ponta da lança e seus apoiadores a força de que necessitava. Descobríamos o ”teatro das tesouras”, descobríamos Olavo de Carvalho, descobríamos o Foro de São Paulo. E ele, somente ele, estava disposto a lutar contra isso tudo. #Elenão perdeu e acreditávamos que o sonho do país do futuro finalmente chegaria. Mas não foi assim.

De um lado a mídia é cooptada e parcial. Não temos mais órgãos de imprensa, temos apenas militantes políticos, a maioria vinculada ao neomarxismo. O grupo Globo apresenta pautas contra a família e os bons costumes, a CNN é abertamente defensora do Partido Democrata estadunidense e o Grupo Bandeirantes tem parte significativa de seus ativos controlada pelo Partido Comunista Chinês. O SBT, a Rede Record e a Jovem Pan não possuem uma linha editorial consistente e alinham-se conforme a situação. Ou seja, ao recebermos informações da grande mídia estamos sendo desinformados, ou ao menos tendo as informações manipuladas, deturpadas.

Dois pesos, duas medidas. E a Lei 13.260/2016 discrimina explicitamente que ambos os atos não são terrorismo.

Nesse contexto, optei por obter minhas informações por meios alternativos e, tal como muitos, caí na teia da desinformação bolsonarista. E aqui está a diferença entre mim e boa parte da população: não fui enganado, mas sim não fui suficientemente informado.

Eu critiquei abertamente o governo Bolsonaro por sua inépcia em defender aquilo ao que ele se propôs em vários momentos:

E também quando não cumpriu suas promessas de campanha:

Mas me mantive fiel ao pressuposto de quando votei nele:

Em um cenário de profunda e contínua desinformação tanto pela oposição quanto pela situação, o homem médio brasileiro se viu cerceado da possibilidade de fazer bons julgamentos de valor. Os muitíssimos erros de Bolsonaro foram acobertados por seus seguidores, enquanto que inverdades eram inventadas por seus opositores. Às cegas, não vimos o que estava surgindo no Brasil. Nesses últimos quatro anos a polarização e a radicalização intensificaram-se ao ponto de que não foi mais possível diálogo civilizado. Embora eu tenha percebido que havia uma questão de fé envolvida (Dando nomes ao gado (Texto 2 de 3)), não tinha dimensão de seu tamanho. Acreditei que as manifestações em favor do então presidente não eram diferentes das manifestações contra-revolução de 1964, ou seja, famílias defendendo os valores tradicionais. Porém as eleições demonstraram o bolsonarismo ser muito mais do que isso.

O analfabetismo funcional, associado à baixa capacidade intelectual e a desinformação formaram o ambiente propício para que a figura do ”salvador da pátria” fosse piamente idolatrada. Bolsonaro apoderou-se de elementos da religiosidade, da imagem ainda bem considerada das forças armadas e do discurso de uma economia liberal para formar sua figura pública. Apoiadores em mídias alternativas ajudaram-no a capilarizar organicamente apenas a imagem que lhe favorecia, ocultando todas as traições que ele fez ao povo brasileiro. Sim, Bolsonaro traiu todos aqueles em que nele votaram e somente agora após ter saído do poder estamos vendo quem realmente ele é. Ao centralizar sobre si, e somente sobre si, um nome viável para a disputa das eleições, permitindo que diversos outros conservadores fossem censurados, Bolsonaro ajudou a matar a incipiente formação de uma direita de verdade no país.

E também estamos vendo o que o bolsonarismo realmente é. Vemos o fanatismo de um povo inepto e ignorante que tornou política em matéria de fé. As pessoas não acreditam em verdades, as pessoas acreditam naquilo em que querem acreditar. Estão tão insortas na histeria política coletiva que já não mais vêem o que está diante dos seus olhos. Que seu líder era falso. Que enquanto ele bradava ser a favor da família e dos bons costumes, destruía os mecanismos de combate à corrupção e sancionava medidas deletérias ao futuro. Que foram usadas como massa política, exatamente como os militantes do MTST. Que o bolsonarismo é exatamente igual ao lulopetismo, apenas mudando as cores. Que o capitão abandonou o barco.

A conseqüência política do analfabetismo funcional se mostra temerária. Tornamo-nos um povo facilmente manipulável. Vivemos às cegas num país onde não sabemos de onde podemos obter informações fidedignas. A grande imprensa não é mais crível. Ao obter informações da mídia paralela, eu mesmo fui logrado. Um exemplo meu foi no texto Generais-melancia? onde acuso Silas Malafaia de ter instigado a permanência de pessoas nos quartéis. Obtive essa informação de um dos apoiadores de Bolsonaro, e acreditei que era verdade. Isso me alertou que ambos os lados são mentirosos (e que também cometo erros levado por emoções políticas…).

Acreditei sim que ele estava defendendo a direita, pois desconhecia suas traições convenientemente acobertadas por seus seguidores (a quem eu escutava). Minhas críticas se referiram somente ao seu estilo de governo, acreditando que ele não estava sendo forte o suficiente, quando na realidade ele estava fortalecendo o que jurou combater. As boas notícias da economia, da infra-estrutura, dos programas sociais estavam à frente das notícias administrativas. E também fui enganado.
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Donde pergunto: onde obter informação, quando todos somente informam o que lhes convém? Se eu que tenho algum raciocínio fui logrado, o que dizer do homem menos afortunado? O que ver, o que ler, o que ouvir? Mesmo se tivéssemos informações imparciais, a maioria esmagadora da população não saberia o que fazer com ela. Ainda mais agora que não podemos fazer mais nada (Brasil, um país de efeminados).

Brasil, um país de efeminados.

Antes que o Ministério Público queira me processar por crime análogo ao racismo exigindo danos morais coletivos, informo que estou utilizando tanto o termo virtude quanto o termo efeminamento em seu sentido maquiaveliano, conforme expus em meu livro “Introdução ao Estudo de O Príncipe de Maquiavel”, publicado em 2012, cujo inteiro teor pode ser obtido na Biblioteca Nacional. Este texto parte do pressuposto de que você, caro leitor, leu meu primeiro livro.

Efeminado: aquele que não possui virtude, isto é, a virilidade combativa frente à rapina alheia, a capacidade/habilidade/impulso de defender seus próprios interesses.

*

Mártir: acima do herói, é aquele que se sacrifica por algo maior que sua própria vida.

Herói: aquele que inspira outros a seguirem por seu caminho de virtude.

Tolo: aquele que luta por nada.

Este é meu último texto sobre política brasileira e nossos estimados governantes, servidores públicos assim como eu, porém em posição de maior relevância, seja por eleição, seja por indicação. Doravante somente escreverei sobre teoria política (se escrever), independentemente dos destinos desta terra, como dizia meu avô, ”da liberdade”. Liberdade para uns poucos, servidão voluntária para os demais.

Escrevo e publico críticas ao governo brasileiro desde 2014. Muitas delas bastante ácidas, algumas ao ponto da vulgaridade. Porém ao aproximarmo-nos do final do ano de 2022, já é possível antever como será a doravante política pública brasileira, e não me sinto à vontade para expor livremente o que penso. Se antes não podia escrever livremente na Academia, agora não poderei escrever livremente fora dela também.

Em meu último texto/vídeo (Generais-melancia?) um segmento não ficou muito claro. Reconheço que me expressei muito mal e isso tem perturbado minha mente nas últimas semanas. Optei por aguardar até o último instante para ver como se dariam os desdobramentos brasilienses para daí publicar minha reação final. Obtive com sucesso a resposta à pergunta que fiz no texto/vídeo: agora eu sei quais são as regras do jogo. E agora que sei, basta eu jogar segundo as novas regras. Acato, pois o que mais eu poderia fazer? Disso, segue este texto.

A parte do texto que fica me encafifando é a em que digo: “[…] Porque este é um país de homens emasculados, covardes e efeminados. Ninguém aqui tem colhões para desobediência civil.” No que repito e reafirmo: de fato, não há. Mamãe reclamou da generalização, pois eu estaria me inserindo no contexto da covardia brasileira. “Meu filho, você reclamou que o brasileiro é covarde e sem colhões, mas também disse que acata a decisão. Isso não é incoerente? Você está se colocando como covarde também.” Eu expliquei na postagem referente, mas ainda acho que não me deixei claro o suficiente.

Não há sociedade de um homem só. Uma sociedade é composta por várias pessoas, que, de acordo com interesses comuns, organizam-se espontaneamente das mais variadas formas. O comportamento individual é pautado diretamente pelos parâmetros sociais nos quais aquele indivíduo vive. Há aquilo que pode ser feito (permitido), o que é estimulado e o que é proibido.

O Brasil é um país de frouxos e covardes. O que isso significa? Que a cultura arraigada, enraizada, estimulada, esperada é a do pacifismo, que critiquei em meu penúltimo texto. Cito-me: “Ele não é pacífico, isto é, aquele que não procura conflito; ele é pacifista, isto é, aquele que mesmo quando o conflito vem a ele, ele não age, não revida, permitindo que o mal se torne cada vez maior.” É a ideologia continuamente pregada pelos pais de estudantes que sofrem bullying na escola, pelos repórteres de programas policialescos, pelos agentes de segurança pública: não revidar, não reagir. Somos continuamente doutrinados pela sociedade a aceitar o que está errado. A não revidar, não reagir.

Quando você reage às provocações, qual é a primeira coisa que te falam? “Você perdeu a razão.” Tomam automaticamente como errado o revide ao ultraje. Nesta terra, o correto é aceitar calado, tal como minha bisavó falava: “sim, sim; amém, amém”. Pois “é preferível viver em paz a estar com a razão”. Aquilo que é certo, que é verdadeiro, que é justo, que é razoável não importa, desde que se evite o conflito (mesmo que você seja o único prejudicado).

É exatamente essa nociva mentalidade que impede que haja qualquer ensaio de desobediência civil no Brasil. Ela é impossível numa sociedade de pacifistas. Aquele que tentar transgredir os parâmetros sociais a todos impostos será considerado o errado, mesmo que em sua perspectiva esteja fazendo o que acredita ser benéfico para todos. Esses parâmetros proíbem o indivíduo de transgredir a norma cultural da não reação. Em suma, será dado como louco.

Não há ”valentia” em um homem só. As ações sociais humanas só têm valor a partir da perspectiva de seus pares. Numa sociedade emasculada, desvirtuada, rompe-se o limiar entre a coragem a e a temeridade. Numa sociedade pacifista, quem reclamar, quem lutar, quem tentar fazer alguma coisa será tratado como o errado.

Por isso não faz sentido lutar contra o que aí vem pela frente. Um homem que não está em posição de poder, sem o apoio de seus pares, não pode fazer nada para mudar a ordem da sociedade em que está. E aquele que está em situação de poder deve negociar segundo os interesses de seus pares. É o princípio básico da manutenção do status quo em Maquiavel.

Façamos um exercício mental. Imagine que alguém realmente queira hoje (2022) questionar a política brasiliense por meio de insurreição popular. Primeiro, tem que encontrar nesta sociedade de covardes um grupo que esteja disposto a se sacrificar em conjunto ”pelo bem do país”, ”pelas futuras gerações”, ou por outra frase de efeito. Missão quase impossível, pois haverá desculpas mil. Desde o sujeito que tem família para cuidar e não está disposto a se ferrar (meu caso), até quem precisa ir comprar pão.

Suponhamos então que esse intrépido, corajoso e eloqüente visionário consiga ludibriar 100 cabeças (e estou sendo bastante pródigo nessa digressão). Pois bem, já se tem o grupo, agora é necessário tomar em armas. Que armas? Não há cultura armamentista no Brasil, o povo é desarmado. A menos que resolvam enfrentar o governo com estilingues…

Curiosidade: sabia que os tribunais federais, pagos com seu imposto, cogitam considerar os bodoques como armas de caça?

Mas sejamos ainda mais pródigos com nosso protagonista imaginário. Ele consegue, de alguma forma, entrar em contato com grupos fora-da-lei e importar (ilegalmente, claro) o equipamento necessário. Ou seja, para supostamente lutar por um país melhor, comete um sem número de crimes e alia-se às mesmas pessoas contra quem veementemente vitupera. Típico miliciano fluminense (sem referência a futuros ex-presidentes).

Pois bem, já tem voluntários estúpidos o suficiente e já tem o material necessário para fazer barulho: finalmente é chegada a hora do Putsch! Assim, felizes e ditosos, com o verde e amarelo no coração, com a pátria na mente, seguem os valentes para frente do primeiro batalhão de polícia militar. Despreparados, destreinados, não doutrinados e inexperientes, em quinze minutos estão todos mortos. Mais quinze minutos, a imprensa nacional fervilha a notícia da tentativa de golpe e anarquia, avalizando ao governo legalmente instituído todas as decisões imagináveis (e inimagináveis) para a ”manutenção da ordem social e da democracia”.

E sabe qual a melhor parte nisso tudo? A população em massa irá reagir contra esses que tentaram, ainda que ingenuamente, lutar por alguma coisa. O povo brasileiro é contra a luta (e o esforço de um modo geral). Prefere placidamente esperar deitado eternamente em berço esplêndido, embalado por mãe gentil, que outros resolvam seus problemas por si. (Edições Independentes) Não é possível nascer heróis dum povo sem virtude. Não é possível ser valente numa nação acovardada.

Para sobreviver socialmente é necessário adequar-se às regras do jogo, à moral e aos costumes do lugar. Se você não se adequar, será punido por sua transgressão. Deixe-me ampliar o exemplo do texto que me encafifou, o caso de Roberto Jefferson.

Qual é a principal função de um homem livre ter armas em sua casa? Defender a si, a sua família, a sua propriedade e, se necessário, a sua liberdade frente a um governo tirânico, eliminando o monopólio da força coercitiva do Estado. Frente a mais um cumprimento de ordem judicial pela Polícia Federal, ordens as quais se questiona sua situação jurídica, Jefferson tomou em armas para defender sua liberdade e a de sua família. Quando os agentes do Estado que deveriam proteger os cidadãos usam de força coercitiva para persegui-los, o que a estes resta fazer? Ele fez exatamente o que se espera de um homem encurralado: revidou, reagiu. E nossa sociedade o punirá por isso.

Nenhum jornalista, nem mesmo os mugidores gados bolsonaristas, o apoiaram. O imbrochável líder, que tanto fala em armas ”para defender a liberdade”, foi o primeiro a condená-lo publicamente. Se isso ocorreu para um homem público em situação de desespero, o que dizer dos desconhecidos populares que estão chegando a seus limites? Eles não são mais punidos por ações, hoje já são punidos pela mera suspeita de intenções…

Aprender com o erro dos outros é muito melhor do que com os próprios erros. Ao observar os erros dos demais, e as conseqüências de suas aventuras, pondero que não vale a pena nem ao menos questionar os eventos de 2022. Se meras palavras podem incriminar um homem por aqui, de que vale reclamar? Não me importo que a mim recaia a pecha de acovardado também, sou brasileiro, pois. E não sou tolo. Sim, sim; amém, amém. Aceitemos que dói menos. Afinal, senhores generais, nós o povo vamos fazer o quê?

Agora com licença, que estou indo comprar pão (enquanto ainda temos para comer).

Wolf Guy – Ookami no Monshou, Elfen Lied e outros títulos.

Caro parco leitor, as linhas a seguir podem ser sumamente desconsideradas. Nos próximos parágrafos vossa senhoria encontrará palavras de baixo calão e conteúdo escatológico que em nada lhe acrescentarão algo. Esta página serve para mim, dentre outras coisas, como uma terapia. Sem ter uma vivência social considerada saudável, (seja por vontade própria, seja por maioria de votos) encontro aqui um lugar para vomitar todas as coisas ruins que vez ou outra ficam entaladas na garganta e, em ato de catarse, tiro o que não presta de dentro do peito e o jogo fora.

A mim agradam temas relacionados ao oculto, dentre eles a criptozoologia (um nome rebuscado para folclore). Fascinam-me essas histórias populares. Como culturas tão diferentes e não inter-relacionadas conseguem convergir para os mesmos arquétipos? Em especial dragões, gigantes e monstros marinhos. Também há o caso do homem-fera (wendigo, sasquatch, yeti, licantropo, kitsune, kurtadam…) que inicia o escopo deste texto. Como, tanto na América pré-colombiana, quanto na antigüidade européia e também na Ásia, são recorrentes os relatos de feras humanóides? E por que essas histórias normalmente as tratam como perigosas? Trazendo isso para a atualidade, esses mitos atemporais continuam inspirando a arte contemporânea.

Já fui consumidor ávido de histórias de terror em todo tipo de mídia (escrita, desenhada, animada ou cinematográfica). Porém em certo ponto de minha vida simplesmente enfastiei-me. A cultura perdeu a elegância, o carisma e a criatividade dos ”bons tempos” (Ver também: mother!). Optei por rejeitar trazer para mim a vulgaridade alheia travestida de arte. Infelizmente as histórias de terror hodiernas não trazem mais o símbolo do heroísmo, do bem vencendo o mal. Ora temos meramente cópias de cópias da visão lovecraftiana de desesperança e desalento humanos frente a um mal inefável, impassível e invencível. Decidi repudiar todas essas coisas. Só quero em minha vida aquilo que traga algo de bom, algo que promova o belo, algo que incite à justiça. Ou ao menos que instigue a uma boa reflexão sobre a vida.

Houve uma época em que eu fazia questão de ver uma obra inteira antes de criticá-la. Considero que, para criticar algo, é necessário conhecer bem o que será criticado, conhecer seu inteiro teor para poder bem exercer o juízo de valor. No caso de uma obra artística seriada, como quadrinhos, ler a história toda. Mas isso mudou com o título Shingeki no Kyojin. A história começou de um jeito e, quando o personagem principal mudou sua bússola moral de herói para vilão, desagradou-me e parei de ler. Não senti falta de continuar lendo ”para saber o fim da história” pela primeira vez. Cansei e larguei. Foi uma vitória contra o TOC de complecionismo.

Leitor de quadrinhos dos mais diversos gêneros, recentemente em minhas andanças ouvi falar de um título que chamou minha atenção: Wolf Guy – Ookami no Monshou. O título se apresenta com a premissa de ser o reboot (reinício) das “aventuras de um lobisomem” (título original Wolf Guy). O título original fez grande sucesso na década de 1970, ao ponto de terem sido produzidos dois filmes e seis animações nas décadas posteriores, demonstrando seu importante impacto cultural. Acreditei então que essa adaptação à ”nova geração” (2007) seria um bom ponto de partida para conhecer a coisa.

E cometi o erro de iniciar a leitura. Minha paciência esgotou-se na metade da ”história”.

Que merda é essa? Esse é único termo técnico existente adequado para qualificar Wolf Guy – Ookami no Monshou: é uma M-E-R-D-A. Não há absolutamente nada nesse título que possa redimi-lo do status de ser uma bosta. Este é o motivo de toda minha raiva: pela primeira vez em minha vida decidi não terminar de ler uma obra por tão ruim que ela é. (E, olha, eu já vi coisas horríveis…)

Tenho raiva do fato de que alguém teve a petulância de escrever o roteiro;
tenho raiva de que alguém teve a audácia de desenhar esse troço;
tenho raiva de que alguém teve o atrevimento de publicar essa coisa;
e tenho ainda mais raiva de que haja quem tem a desfaçatez de dizer que gosta de DOZE volumes dessa joça.
Já disse que estou com raiva?

E por que tanto ódio em meu coraçãozinho? Deixe-me colocar no microscópio e fazer o exame de fezes.

Da arte

Pequenos erros de proporção e perspectiva existem em todos os quadrinhos. Sempre há algo que escapa, não tem jeito. Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem erros grosseiros de tridimensionalidade. Quem desenha sabe que a parte mais difícil de desenhar são as mãos e os pés dos personagens, e mesmo nisso há pouquíssimos equívocos. Há também algumas falhas de continuidade, mas nada grave.

O principal problema estético em Wolf Guy – Ookami no Monshou é a altíssima flutuação da qualidade da arte. Ora de excelente qualidade, em poucos quadros (frames) decai para um amontoado de rabiscos incompreensíveis, para logo depois retornar a alto nível de qualidade. A arte é suja: há muitas tentativas de efeitos visuais, uso excessivo de onomatopéias sobrepostas às composições (subjects), exagero no uso de hachuras e inarmonia no uso de texturas (background)… Há a sensação de sujeira visual (noisy visuals), desproporcionalidade e desnecessariedade no uso de aproximações (close-up) e, especialmente, repetições, repetições, repetições… Voltarei a falar dessas repetições na parte do enredo, mas na questão da arte ela demonstra pobreza na composição visual, pois não é usada com qualquer efeito estratégico, mas sim apenas para preencher espaço.

Esses problemas são ainda mais graves nas cenas de ação. Essas, que deveriam ser claras para o leitor acompanhar o movimento dos personagens, são tão ofuscadas pelo ”ruído visual” que, confesso, houve momentos em que eu não consegui distinguir o que estava acontecendo. Isto mesmo: eu olhei, olhei e não conseguir entender o que eu estava vendo. Isso numa cena de luta é equivalente ao camera shaking (edição com câmera trêmula mais 50 cortes por minuto) que a franquia Bourne lamentavelmente trouxe para o cinema.

Há páginas que se parecem com testes de Rorsharch, como se coubesse ao leitor imaginar, descobrir ou supor o que estava acontecendo. Isso até poderia ser um recurso visual usado para ocultar a verdadeira imagem do monstro e fazer suspense. Esse argumento é inválido, pois o problema continuou mesmo após o monstro (que é bonitinho ಠ_ಠ) ter sido revelado em alta definição no primeiro volume. Essa péssima qualidade contrasta tanto com a alta qualidade e detalhamento das cenas de tranqüilidade que não seria difícil crer que, apresentando a quem não leu, a pessoa diria se tratar de obras ou até de autores diferentes.

Do desenvolvimento do enredo

O nome deveria ser Wolf Guy – Encheção de lingüiça. 90% do enredo consiste em rechear lingüiça com preenchimento sem valor (fillers) e erotização apelativa (fan service) que em nada contribuem para o avanço da história (que não há). Há apenas motes para situações de violência sem sentido. Esses motes (repetidos) se dão em capítulos enfadonhos com demasiada repetição de quadros (acima mencionado), ao ponto de páginas inteiras serem repetidas em plano de fundo para preencher espaço onde não há o que colocar. Os personagens são sempre exibidos nas mesmas posições de efeito, de retrato ou de perfil, contribuindo para a sensação de repetição e ausência de progressão na história.

Os capítulos são desconexos entre si, não há linearidade no compasso. Há momentos em que mil coisas acontecem ao mesmo tempo, enquanto que em outros há apenas morosa exposição (recurso usado quando você precisa explicar algo ao leitor). Os personagens são apenas exibidos ao leitor, mas não são desenvolvidos, não evoluem. São tão somente cascas vazias com sentimentos superficiais. Não possuem motivos reais para suas ações incoerentes, nem os eventos que os envolvem contribuem para contar uma história coesa no geral.

Há sim uma suposta linha condutora central, que seria o desolamento lovecraftiano frente à tragédia inevitável (maldição). (A obra do autor Lovecraft trata da impotência e da pequenez humanas frente a poderosas e inescapáveis forças incompreensíveis.) Porém todas as tragédias do enredo envolvendo tal ”maldição” são facilmente evitáveis e são culpa exclusiva das ações voluntárias dos próprios personagens. A ”maldição do lobisomem” é só uma expressão temática empregada para indultar/relevar/transigir/contemporizar/condescender/justificar as péssimas escolhas das pessoas e as funestas conseqüências negativas dessas escolhas. Conseqüências perfeitamente evitáveis se não tivessem feito besteira em primeiro lugar.

Ou seja, a história não ensina nada, não agrega nada, não soma nada. É uma história de pessoas imbecis que se lascam por sua própria estupidez, eximem-se de responsabilidade e culpam o metafísico por seu infortúnio. E quem são essas pessoas? Quais são suas histórias?

Dos personagens

Ainda que sejam personagens, caracteres fictícios, como em toda obra de arte, eles são facetas da psique humana. Uma forma de vermos, no outro, outro aspecto de nós mesmos. É a idéia do teatro, do cinema, da literatura: mostrar, no outro, outra face de nós, ou melhor, daquilo que poderíamos ser. Em uma boa história, nós nos identificamos com os personagens, nos colocamos em seu lugar, vivemos com eles suas aventuras e emoções. Quem não chorou quando morreu Artax, o cavalo de Atreyu (História sem fim)? Quem não ficou feliz quando Babe, o porquinho, venceu o concurso de cães de pastoreio? Nós acompanhamos a jornada dos personagens a seu lado, nos colocamos em seu lugar, pensamos no que faríamos diferentemente. Os personagens são um recurso que os autores usam para tomar o leitor pela mão e conduzi-lo adentro da trama. Identificar-se com os personagens é ponto essencial para a constituição de uma boa história.

Mas é impossível se identificar com qualquer um numa história com enredo tão ruim quanto a de Wolf Guy – Ookami no Monshou. A história se passa com jovens de 14~15 anos que se comportam e vivem como adultos em uma escola pública japonesa para onde decide ir o personagem principal. Antes de falar do personagem principal, quero falar da coadjuvante. Creio que se eu explicitar a história dela primeiro você entenderá porque eu tenho tanta raiva desse título.

Akiko Aoshika é apresentada como uma jovem professora divorciada. O motivo do divórcio? Não se sabe e em nenhum momento tem qualquer relevância para a história. Não faz diferença. Por que adulta? Somente para se encontrar com o personagem principal na primeira cena de violência, que se passa de madrugada, pois jovens normais de 15 anos não caminham de madrugada sozinhos na rua. Apenas por causa dessa cena ela precisa ser caracterizada como adulta. Fora isso, não faz diferença alguma, ela poderia perfeitamente bem ser apenas mais outra adolescente. E por que professora? Foi a forma (conveniente para o enredo) de pô-la na mesma escola para onde vai o personagem principal. Ela não existe por si mesma, existe em função da história.

Ela é vítima de estupro quando adolescente, sua família (que não aparece) não a apóia, ela se casa e se divorcia (motivo não revelado) e vai trabalhar como professora. Daí num período de dois meses (dois meses) ela:
……a) na mesma noite presencia um linchamento seguido de dezenas de mortes brutais, e é molestada sexualmente;
……b) em outra noite é molestada sexualmente (de novo), e atacada por um leão;
……c) a escola em que trabalha é vítima de um adolescente atirador: 82 mortos e dezenas de feridos;
……d) na semana seguinte a mesma escola é vítima de um segundo atentado: 30 e tantos mortos e sei lá quantos feridos;
……e) a imprensa torna a vida dela um inferno e repórteres a assediam sexualmente (de novo);
……f) na semana seguinte é seqüestrada e molestada sexualmente (de novo).

E parei de ler. Porra, que merda é essa? Ela existe só para ser estuprada? A desculpa é a de que ela estaria sob ”a maldição do lobisomem”, por culpa do personagem principal. Não, isso se chama: ”a maldição do roteirista taradão”. E ela não apresenta nenhum sinal de trauma psicológico! Pelo contrário, ela nutre tensão sexual para com seu aluno (o personagem principal), menor de idade. É como se ser uma pedófila estuprada fosse totalmente normal. Cara, se em dois meses (antes mesmo do seqüestro) esses eventos acontecerem com um ser humano de verdade, uma pessoa normal tem que parar numa sala de terapia, no mínimo. A pior parte nisso tudo é ela ser apresentada no início como o alívio cômico* do enredo! (*toda história pesada precisa de um alívio cômico, normalmente usado no entre-atos)

O desgraçado do personagem principal, Akira Inugami, 15 anos. Teoricamente ele é amaldiçoado por ser um lobisomem. Sim, isso deveria ser uma história de lobisomem. Só que:
……a) seus pais são mortos quando ele tem 5 anos e ele não faz nenhum esforço para investigar o assassinato, mesmo sabendo que tem ligação com o fato de serem lobisomens e ele ser obcecado com o tema;
……b) ele dedica sua vida a estudar lobisomens, mas não conseguiu encontrar um que mora na mesma cidade em que ele;
……c) ele afirma que as tragédias que acontecem ao seu redor se referem à ”maldição do lobisomem”, se sente culpado e deprimido por isso, mas não faz absolutamente nada para evitá-las (pelo contrário, instiga as coisas a ficarem ainda piores);
……d) ele tem parentes milionários que nunca aparecem, o que resolve todo o problema com dinheiro (conveniente para o enredo);
……e) ele mora sozinho aos 15 anos e ninguém liga para isso.

Até aí, é só um personagem incoerente. Porém ele tem uma grave falha de caráter, que é o pacifismo. Ele não é pacífico, isto é, aquele que não procura conflito; ele é pacifista, isto é, aquele que mesmo quando o conflito vem a ele, ele não age, não revida, permitindo que o mal se torne cada vez maior. Pelo contrário, sua apatia travestida de orgulho e pretensão de superioridade alimenta os ímpetos de conflito. É exatamente sua inação frente ao mal que causa todos os problemas que acontecem. Cada vez que ele se recusa a revidar, as forças do mal se tornam mais e mais fortes, ao ponto de afetar os inocentes ao seu redor.

Além disso, ele, com pena de si mesmo, reiteradamente afirma que quer ficar sozinho e se afastar da humanidade. Então por que diabos fica mudando de uma escola para outra, instigando agitações por cada lugar que passa? Ele afirma que não quer lutar. Então por que diabos enfrenta delinqüentes com arrogância e desdém? O discurso do personagem é completamente díspar de suas ações e posturas. Em última análise, é culpado de tudo de ruim que acontece ao seu redor não por uma ”maldição”, mas por suas próprias atitudes. Não passa de um autocomiserante irresponsável.

E o enredo trata de eventos desconexos ligados a esse sujeito apenas para justificar cenas violência e sexo explícito.

Da história

A professora bêbada (Akiko) sai à noite e encontra Inugami caminhando. Ela se apaixona pelo adolescente e o segue. Então uma gangue aparece do nada e o lincha enquanto molesta a professora. Daí ele vira lobisomem, mata todo mundo e deixa a Akiko desmaiada lá mesmo. Ele tem super-força mesmo na forma humana, então poderia ter evitado tudo isso. No dia seguinte vai para a escola como se nada tivesse acontecido. Akiko chega com os policiais à escola para trabalhar, vindo direto da delegacia (quem é que vai trabalhar depois de uma noite dessas?) e reconhece o garoto, mas fica por isso mesmo.

Daí aparece uma garota pervertida que passa o tempo todo usando roupa erótica. Essa guria é chama-se Ryuuko, 15 anos. Ela também foi estuprada, mas foi quando era criança. Depois ela foi vendida de mão em mão para mercadores de escravos sexuais até ser comprada pela Yakuza. E por alguma razão vai para a escola estudar (não sei o quê). Diferentemente da professora, ela ficou viciada em sexo e fica sexualmente excitada com violência. Ela aparece várias vezes no roteiro apenas para ter relações sexuais, mostrar nudez aleatória ou masturbar-se vendo outros sendo agredidos. Não serve em absolutamente nada para a história e está lá somente para ”cenas de sexo explícito com uma adolescente pervertida”.

No primeiro dia de escola, Inugami já arruma confusão com a gangue local. Levam-no para tomar uma surra perto de outro aluno que estava sendo estuprado. Nos dias seguintes, a escalada da violência toma proporções exponenciais. Você percebe claramente que o roteirista perdeu o controle da própria história quando (ainda no primeiro volume) traz de volta um personagem que estava para morrer. Aparece ”seu irmão gêmeo” que agora quer vingança. Esse gêmeo aparece como um atirador escolar descontrolado, não após um capítulo inteiro dedicado à sua masturbação.

Também há o recorrente mote de pessoas se urinando nas calças. Por algum motivo, o autor resolveu que todo mundo deveria se urinar nas calças de vez em quando. Akiko se mija quando vê o lobisomem pela primeira vez, o diretor se mija quando vai ser morto, uma aluna se mija quando é molestada pelo atirador da escola que também é mijão, tal como seu irmão gêmeo, ambos com fimose (sim, isso está descrito e é parte do enredo).

No meio dessa bagunça, é construído o real vilão da história, que é o filho do chefe da Yakuza, Harugo. Ele tem 15 anos, mas mostra o porte atlético de adulto olímpico, aleijou um campeão adulto de MMA, é especialista em armas, explosivos, táticas de combate urbano, praticamente um Rambo. E a cada dois ou três capítulos tem uma cena de sexo com a pervertida. (na primeira cena em que ele aparece eles estão transando) Daí Haguro descobre que Inugami é lobisomem e passa a caçá-lo. Não o encontrando, ele mutila, estupra e defeca sobre um amigo de Inugami. Esse amigo morre no hospital e vira lobisomem-zumbi. O tal zumbi mata um monte de bandidos da Yakuza, mas (conveniente para o enredo) perde seus poderes logo antes de matar Haguro.

Nada disso teria acontecido se Inugami tivesse revidado Harugo e sua gangue. Sua incoerência é evidente, pois durante isso tudo ele mata aleatoriamente outros vagabundos. Não precisava nem matar, eu já disse que ele tem super-força, uma surra já ‘tava bom. Não há qualquer motivo para não revidar a gangue de Haguro, exceto ser conveniente para o enredo.

No meio disso tudo tem um jornalista, que também é lobisomem, mas não faz diferença alguma para a história, então eu não o mencionei, mesmo tendo uns dez capítulos só para ele. Depois de toda essa confusão, Inugami resolve fugir para viver sozinho em sua autodepreciação. Ele se muda para outra cidade e resolve cortar contato com todas as pessoas. E o que ele faz? Vai fazer compras perto de um ponto turístico cheio de gente. Raios, afinal quer viver sozinho ou não? O que está fazendo no meio da cidade? Vai para a montanha, para o meio do mato, vai capinar um roçado. Ele é o típico Emo (aqueles insuportáveis adolescentes melodramáticos).

Nesse ponto turístico cheio de gente para onde ele foi se isolar (ಠ_ಠ), ele reencontra uma garota que estava gostando dele e a maltrata sem motivo. Daí a professora é seqüestrada e parei de ler.

O único termo técnico existente adequado para qualificar o personagem principal é babaca. O sujeito é um babaca, só faz merda e ainda se tem a presunção de maltratar os outros que lhe querem bem. Tem mais é que se foder mesmo.

Para sanar sua curiosidade, eu posso resumir o resto da história, pois li a sinopse completa. Procurei saber se algo que presta aconteceria e se valeria a pena continuar lendo essa bosta, antes de atirá-la pela janela.

Só depois de a professora ser estuprada (de novo), Inugami resolve salvá-la. Ele cata a mulher em todo lado, mas não a acha em lugar algum. Enquanto isso ela vai sendo estuprada e vídeos disso sendo postos na internet. Um tempo depois ele entra em contato telepático com a mulher e (conveniente para o enredo) descobre sua localização. (De onde ele tirou telepatia? Do cú? Desde quando lobisomem tem telepatia? Por que não podia ter feito isso antes?)

Daí ele vai atrás dela e é atacado por tudo possível e imaginável, mas consegue sobreviver (conveniente para o enredo) graças ao ”real poder do lobisomem”, uma aura dourada que salva ele e a mulher. Ou seja, ele vira super-sayajin Dragon Ball. E morre no final. Daí a professora se muda para o Alaska para viver isolada com lobos. (Com que dinheiro? No primeiro capítulo ela era uma pé-rapada e agora pode custear férias infinitas?) E o Inugami ressuscita, porque é lobisomem, mas ficou com amnésia de tudo o que aconteceu e vira cobaia dos militares. Fim da história.

Pela puta que pelo cú pariu o diabo: que merda é essa? Em quê que essa história pode ser considerada boa? Nem ao menos final feliz tem. Em quê essa história eleva o leitor? Em quê essa história traz esperança? Em quê essa história mostra o mal sendo vencido? O quê de bom você pode aprender com isso? Que raios o autor quis passar? Alguém pode me explicar o que leva pessoas a gostarem disso? E tem fãs! O que mais me dá raiva é que há mercado consumidor para esse lixo. Não é só o troço ser ruim, é também haver quem goste… Ah, se me fosse possível estapear telepaticamente os outros…

O problema com a telebasura (Ver também: Gosto se discute, sim.), é que ela só existe porque há quem a consuma. Se não houvesse mercado consumidor, o editor não a teria publicado. Cada vez mais e mais somos saturados com todo tipo de lixo, chafurdando cada vez mais profundamente numa torrente de esgoto intelectual. Essa não é a primeira vez que me decepciono com uma grande bosta, mas é a primeira vez que ela é tão ruim que sou obrigado a parar no meio.

Crítica comparativa

Sobre outros títulos que também foram uma bosta, um dos que eu tenho em péssima conta é Elfen Lied. E, refletindo agora, ambos apresentam um traço em comum, que é a ”tortura dos personagens”. De forma sádica, o autor impõe a seus personagens situações de grande sofrimento físico ou psicológico. Ele deleita-se com o cruel martírio contínuo a que são lançados os personagens. E, creio, a única explicação para que tais títulos sejam apreciados, seja a de que os leitores também compartilhem do mesmo sadismo e crueldade.

Em Elfen Lied, porém, o autor faz uso de ganchos de enredo (cliffhangers), isto é, a cada capítulo ou fase ele cria uma situação que atiça a curiosidade do leitor para continuar querendo saber mais. Entre as seqüências de ondas de tragédias, o autor não destrói o fio de esperança de que algo bom aconteça. O grande problema em Elfen Lied é que isso nunca acontece. Até o final, até o último capítulo, nada de bom acontece. Todos sofrem (especialmente dor psicológica). Sempre que uma situação aparenta se encaminhar para a resolução, um inesperado revés surge do nada e tal situação fica ainda pior. E, sim, Elfen Lied também é carregado de violência sem sentido, erotização apelativa e gente se urinando nas calças.

Eu li Elfen Lied integralmente e foi uma grande decepção. O autor conseguiu me reter com os ganchos de enredo, tal como iludiu os personagens com a falsa esperança, com a expectativa a ser frustrada, de tempos melhores. A frustração em ver que, naquela horrível história, os personagens não encontram paz nem mesmo após suas mortes é revoltante.

Essa é a mesma sensação que tenho com Wolf Guy – Ookami no Monshou. Parece-me que esses autores expressaram seus sadismos, e seus consumidores aprouveram-se com esses sadismos, numa mórbida cumplicidade. Não tenho outra explicação para esses títulos fazerem algum sucesso, a não ser a de que essa gente, mais do que anestesiada frente ao mal, está mentalmente corrompida, degenerada, pervertida. E não tendo como, em agir, expressar essa psicopatia /sociopatia no mundo real, seja por covardia, seja por incompetência, contentam-se em encontrar na ficção o prazer com o sofrimento alheio.

Esse tipo de título não traz nada de bom para o leitor. Apenas contribui para a doentia apatia frente às mazelas do mundo. É diferente de outros títulos dos quais eu não gostei por questões técnicas ou de desenvolvimento do enredo. Por exemplo, Doragon Kuesuto: Dai no Daibōken. Dragon Quest – A grande aventura de Fly é uma história amável do bem vencendo o mal. Trata do amor, da amizade, do perdão, da superação, da perseverança. Eu não gostei tão somente do desenvolvimento, pelo excessivo uso dos recursos deus ex machina (artifício de enredo) e cliffhangers. Ou seja, minhas divergências são apenas técnicas e não com o teor da obra (muito boa por sinal). Já Death Note é exatamente o contrário: o uso dos recursos de enredo é a chave para fazer a história funcionar, pois o enredo é horrível, partindo de uma premissa impossível e inviável. Os personagens em Death Note são densos, coerentes, podemos nos identificar dentro da história por conta da genialidade como o autor a conta, mesmo partindo de uma idéia estúpida.

Mas Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem nada. Não tem arte, não tem enredo, não tem personagens, não tem premissas, não tem desenvolvimento, não tem final feliz. Só tem público… Mas mesmo uma ruma de bosta na estrada também atrai moscas, então… cada qual com seu igual.

Generais-melancia?

O roteirinho que li:

Generais-melancia

Respondendo à crítica de mamãe:

Durante a visualização do vídeo, mamãe fez a seguinte crítica: “Meu filho, você reclamou que o brasileiro é covarde e sem colhões, mas também disse que acata a decisão. Isso não é incoerente? Você está se colocando como covarde também.”.

No que respondo:

“Mamãe, melhor um covarde vivo, fora da cadeia e com emprego, do que um patriota. Não existe sociedade de um homem só. Se o povo não se une para defender um ideal comum, quem sou eu para sozinho fazer qualquer coisa? Sem a razão, a tênue linha entre a coragem e a loucura do desespero desaparece. Eu vou lá me explodir para quê? Pra nada. Não, obrigado. Prefiro viver placidamente escondido numa caverna, porque, todas as vezes em minha vida em que tentei lutar por algo, não tive apoio de ninguém.

O povo é covarde sim, efeminado sim, emasculado sim. Egoísta e atento apenas aos próprios interesses. E se você não aderir a esse sistema, você não sobrevive socialmente no Brasil. Quem for lá tentar fazer alguma coisa será tachado como louco, não como herói. E eu não tenho inclinação nem para um nem para outro.

Se as forças armadas defenderem o que aconteceu em 2022, então não há o que fazer. Quem sou eu para sozinho enfrentar o exército? Melhor aceitar e aprender a conviver com isso do que lutar por uma idéia natimorta. Afinal, como já dizia um grandioso jurista por aí: ‘Eleição não se vence, se toma. Perdeu, mané, não amola.‘”

Textos citados:

O que ocasionou a derrota de Jair Bolsonaro?

Carta aberta a um funcionário patriota. (lado B)

O povo no poder – Uma crítica ao governo de Jair Bolsonaro

Dando nomes ao gado (Texto 2 de 3)

Guia da pandemia: o vírus corona no Brasil e no mundo.

Brasil, pátria achacadora V – A diarréia contínua continua.

Mensagem nº 329

Desobediência civil frente a leis injustas?

A situação popular:

A desobediência civil:

A imagem da corporação:

E já tem fila…


03/12/2022 Nova informação: acabei de ver que Malafaia se posicionou. Ele não convocou as pessoas para irem às portas dos quartéis. A informação que eu tinha quando fiz o vídeo era errada. Eu não sabia que era mentira da imprensa. Aqui, segue a errata e pedido de desculpas.

O que ocasionou a derrota de Jair Bolsonaro?

Resposta: o próprio Bolsonaro.

Bolsonaro perdeu as eleições em 2019 quando permitiu que seu direito discricionário de indicar o chefe da Polícia Federal fosse tolhido pelo Supremo Tribunal Federal. Naquele mesmo dia eu disse que ali seu governo havia acabado. Perdeu a posição de chefia; tornou-se apenas chefe de direito, não de fato. Não exerceu o poder que lhe foi confiado.

Não existe vácuo no mundo político. Quando alguém não exerce seu poder, outrem o exercerá por si. Destarte o partido vencido nas urnas em 2018 continuou mandando de fato no país tal como se no poder de direito estivesse. Ao mesmo tempo em que o STF cumpria as determinações do Foro de São Paulo; em que a Rede Globo (dominada por repórteres maconheiros) e a Rede Band (dominada pelo Partido Comunista Chinês) e a CNN (dominada pela calhorda neomarxista estadunidense) incessantemente o caluniavam sem serem objetadas; em que os presidentes de ambas as casas do Congresso Nacional prevaricavam às claras; Bolsonaro se omitia de seus deveres para com a nação.

Além da omissão, Bolsonaro começou a trair a esperança depositada nas urnas quando abriu diálogo com o Centrão — grupo dos partidos fisiológicos, isto é, partidos que não possuem qualquer tipo de ideologia bem definida, apenas participam das disputas por poder — algo que prometeu que não iria fazer. Bolsonaro viu as casas legislativas conspirarem às claras contra si e não usou seu capital político (amplo apoio popular) pós-eleições para desmantelar o mecanismo de poder cleptocrata. Todas as pautas morais que o levaram à vitória, a sanha de expurgar os corruptos, foram postas em segundo plano. Ou completamente esquecidas.

Durante a pandemia, Bolsonaro viu senhoras sendo presas em praças públicas, mães em trajes de banho presas na frente de seus filhos, carros proibidos de hastear a bandeira nacional, lojistas tendo seus estabelecimentos lacrados à solda, trabalhadores impedidos de trabalhar, transeuntes proibidos de ir e vir, pessoas obrigadas a se vacinar. Bolsonaro permitiu que proto-ditadores reinassem em seus feudos e cerceassem a liberdade das pessoas. Viu a corrupção do Covidão e nada vez para impedir que hospitais de campanha superfaturados fossem construídos dentro de estádios de futebol superfaturados. Viu bilhões de reais sendo jogados no lixo ou nos bolsos dos mesmos coronéis lulistas. Viu a desinformação de uma imprensa homicida MATAR pessoas por medo. Viu a ganância farmacêutica MATAR pessoas ao lhes negar tratamento precoce (que funciona e salva vidas), mas permitiu prefeitos sugerirem espalhar álcool em gel por aviões ou introduzir ozônio no ânus. Viu vacinas inúteis serem compradas às pressas apenas para apascentar seus opositores, sem se importar com os danos em longo prazo nas pessoas, até mesmo em bebês.

E não fez nada.

Ou melhor, fez carreatas, motociatas, tanqueciatas, bicicletatas… Fez caras e bocas para seus cegos adoradores, que aplaudiam tudo o que o ”ungido do senhor” fazia (ou deixava de fazer). Aos berros, bradava palavras de ordem contra Alexandre de Moraes, porém na frente deste o tratava com subordinada deferência. E viu este, acompanhado por seus supremos asseclas, instaurar o que ficou conhecido como ”inquérito do fim do mundo”. Em uma inacreditável inversão de poder, em que se esperava que Bolsonaro usasse sua posição para desarticular as entidades comunistas no país, ele viu passivamente o STF impedir/sabotar a ainda embrionária formação de um movimento liberal conservador.

Bolsonaro permitiu que seus aliados fossem perseguidos e presos.
Quando blogueiros apoiadores foram perseguidos, Bolsonaro não fez nada.
Quando o jornalista Allan dos Santos teve de se exilar no exterior, Bolsonaro não fez nada.
Quando o ministro Abraham Weintraub teve de fugir para o exterior para não ser morto, Bolsonaro não fez nada.
Quando o jornalista Oswaldo Eustáquio foi preso, torturado e aleijado na cadeia, Bolsonaro não fez nada.
Quando o ativista Zé Trovão teve de fugir e depois foi preso, Bolsonaro não fez nada.
Quando o congressista André Silveira foi ilegalmente perseguido e preso, Bolsonaro não fez nada.
Quando Roberto Jefferson foi perseguido e preso, Bolsonaro não fez nada. E quando aquele lutou por sua própria liberdade, Bolsonaro o tratou como criminoso.
Quando Lula foi solto, Bolsonaro não fez nada.
Quando o TSE fez todas as ilegalidades, Bolsonaro não fez nada.

Lula venceu. Vai fazer o que agora?

Omitiu-se. Prevaricou. Perdeu. E com essa derrota, a esquerda retorna com toda a força ao poder. Já conhecendo as novas regras do jogo e a força das redes sociais, dificilmente eles sairão do poder. Já Bolsonaro terá o que merece: irá para a cadeia. Seu crime? Ser um homem fraco.

O que esperar daqui para a frente? Bem, creio que Lula não dure muito tempo como presidente: o Merendeiro Alckimin já está salivando pelo poder. Com um congresso dividido, sem a maioria em ambas as casas legislativas, o PT terá dificuldades em manter seu maior expoente filosófico por muito tempo. Lula foi útil para eles retomarem o poder, mas isso não significa que ele continuará sendo útil por muito tempo. Assim é a política comunista.

Não importa seu passado, só importa se você é útil ao partido.

General Villas Boas  @Gen_VillasBoas

O que podemos esperar de um governo da oposição:

  •  Desmontagem das estruturas produtivas que tão arduamente foram recuperadas, criando unia base capaz de sustentar-se sem depender de governos;
  •  A volta do aumento do desemprego, compensado por programas sociais demagógicos;
  •  A submissão ao globalismo com a consequente perda da identidade nacional;
  •  A destruição do civismo; A ridicularização do patriotismo e dos símbolos nacionais;
  •  A contaminação ideológica do ensino, impondo a aceitação de verdadeiras perversões às crianças;
  •  O retorno do estelionato profissional, que os jovens dar-se-ão conta ao enfrentar o mercado de trabalho;
  •  A perda do valor da pala-vra e da vida;
  •  A substituição da verdade pelas narrativas;
  •  A perda de pruridos pelo uso da mentira;
  •  A disfunção das Instituições; o desrespeito à Constituição;
  •  A relativização da soberania da Amazônia;
  •  A natureza acima das pessoas;
  •  Dos índios como ferramentas de ONGs e Organismos Internacionais;
  •  A política externa orientada por simpatias ideológicas;
  •  Apoio a ditaduras;
  •  O desaparecimento do culto à honra, à pátria e à liberdade. A desesperança das pessoas que vestem o verde-amarelo.

General Villas Boas Outubro 2022.

20:35 • 29/10/2022


 

Zona… eleitoral

Favelados molambentos gritando como se fosse carnaval, mulheres porcas, um drogado tossindo nas minhas costas (literalmente), insipiência quanto ao conceito primário de formação de uma fila, indivíduos carecendo de noções rudimentares de civilidade incapazes de respeitar o espaço pessoal de outrem esbarrando em mim o tempo todo, corruptos fazendo boca de urna e papelzinho do inferno sujando o passeio público com o dinheiro público, todos os botequins abertos e sufragistas calibradamente alcoolizados, uma urna que dá pane e só volta a funcionar depois de uma hora. Culminado com o barulho multifônico indiscernível tal como chiado de estática, onipresente, perfurando meus tímpanos e inundando meu cérebro que, após uma hora de espera em tal lugar, já estava fervendo meu líquido cefalorraquidiano.

As eleições brasileiras recepcionam indivíduos que, apenas pelo semblante, se percebe que são inaptos para o exercício político (não sou lombrosista). Cada vez mais se aproxima o tempo de eu publicar meu texto ”A falácia sobre a democracia”. Não quero publicá-lo. Não quero acreditar que estou certo. Porém, quanto mais o tempo passa, mais me decepciono com a sociedade em que me encontro.

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Em tempo: acabo de descobrir que o e-mail do Hotmail rejeitou minhas postagens sobre eleições. Não aparecem nem na caixa de spam. Provavelmente o mesmo aconteceu com quem tem Yahoo ou Gmail. Ou seja, já estamos sob censura ditatorial: só temos acesso ao que eles permitem que vejamos, mesmo em conversas privadas.

 

Eleições 2022 – parte 8 (o que esperar de um presidente?)

Metodologia de governança costa-riquenha:
“Quem manda aqui sou eu e a partir de agora é assim. Meus eleitores mandaram eu fazer isto e isto estou fazendo. Não gostou? Foda-se.”

É fato notório que eu, de apoiador do presidente Bolsonaro, tornei-me seu crítico. Não critico seu programa de governo, uma vez que é o mais alinhado ideologicamente com minha perspectiva política, mas critico sua forma de governar.

Bolsonaro mostrou-se um homem frouxo. Na frente da multidão que o apóia, brada ferozmente contra tudo e contra todos, deleitando os ouvintes carentes por alguém que dê voz e visibilidade às tão conhecidas queixas de nossa nação. Insulta magistrados alopécicos, auto-intitula-se imbrochável (como se sua vida sexual fosse-nos importante) e passeia de moto escoltado por bajuladores.

Porém, uma vez à frente dos mesmos a quem acusa de serem detratores da pátria, trata-os com deferência digna de lacaios. Não enfrenta quem diz enfrentar, nem o que diz enfrentar. Permite, por omissão, que nossa Constituição seja sistematicamente desrespeitada, que nossos direitos sejam tolhidos, que nossas vidas se tornem um inferno sob curatela da corja de marxistas infiltrada em todas as instituições.

Não farei um texto longo, aqui, apenas registrarei a realidade dos fatos. Nossa Constituição é uma bosta, mas é a nossa bosta e precisamos usá-la se quisermos resolver o problema democraticamente. Ela se baseia no princípio de tripartição de poderes (colocando o Ministério Público, as Procuradorias, as Auditorias etc. numa espécie de limbo; Tribunais de Contas são auxiliares do Legislativo, Tribunais Eleitorais são jabuticabas administrativas…). Nesse sistema, se um dos poderes erra, cabe aos demais corrigi-lo.

Perceba, porém, que não há poderes: há servidores públicos investidos em funções governamentais. Não são ”poderes” que erram, são servidores públicos que mal uso fazem das atribuições que lhes foram concedidas pelo povo.

Quando os servidores do Poder Judiciário abusam de seu poder, há dois remédios constitucionais que podem ser usados. O remédio dito ”típico” é função do poder Legislativo, e se apresenta na forma de decreto-lei. O congresso tem a atribuição exclusiva de defender alterações na lei.

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
XI – zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes;

Por que então nossos congressistas não enfrentam os desmandos do poder judiciários? Porque nós caímos no círculo vicioso da pior jabuticaba de nosso sistema: o foro privilegiado. Segundo essa joça, somos todos iguais perante a lei, pero no mucho. Alguns são menos iguais que outros e são julgados por seus amiguinhos. Juízes são julgados por seus pares e, caso matem, estuprem, seqüestrem, prevariquem etc. podem ser brutalmente condenados à aposentadoria com salário integral. (exagero meu, mas, se você tiver meio neurônio, entendeu a crítica) Senadores só podem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal e os ministros do STF só podem ser julgados pelos Senadores.

Neste país em que todos os brasileiros desconfiam de todos os políticos, é natural que haja uma grande desconfiança de que se formou ali uma organização criminosa em que ambos os lados se protegem juridicamente das acusações que pairam sobre si. Originalmente o foro privilegiado era para impedir que todo mundo fosse processado o tempo todo por qualquer coisa por seus adversários políticos. Imagine: o presidente indica seus ministros e todos sofrem uma enxurrada de processos em longínquos tribunais, factualmente impedindo-os de exercerem suas funções. Uma arma que certamente seria utilizada pelos incontáveis micropartidos políticos para confundir ainda mais o já confuso sistema administrativo brasiliense.

Ocorre que em lugar de organizar a suruba governamental, essa gambiarra parece ter sido desvirtuada para servir como instrumento de impunidade aos que se encontram no poder. O sentimento popular é de desconfiança total em nossos governantes e em como eles são escolhidos para governar.

Mas se é assim, como a gente resolve? Nisto se apresenta o segundo remédio constitucional, dito ”atípico”, isto é, quando um dos poderes extrapola suas atribuições originais. Estamos vendo o Congresso inerte frente às ações do STF. Portanto, cabe ao Executivo, que tem o PODER-DEVER de agir para fazer cumprir a Constituição (sua função originária), sanar o problema. E esse poder está descrito no artigo 142 de nossa Constituição.

Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

O quê esse homem espera para fazer cumprir a Constituição? O que ele espera para cumprir o juramento que fez quando assumiu a Presidência desta república de bananas? O que ele espera para presidir este país?

Em tempo, apenas uma curiosidade vernacular: superior significa ”o que está acima”, máximo significa ”o que está acima de todos”, supremo significa ”o que está acima de tudo”. Nossos constituintes escolheram pessimamente o nome de certos órgãos administrativos…

A Páscoa e os valores sociais

Editado em 25/04/2022: correção a partir de outros argumentos.

A maioria dos cristãos desconhece os princípios de sua própria religião, não entende sua mensagem, não compreende a proposta da história de Jesus. O texto de hoje é inspirado por pensamentos advindos de uma Páscoa celebrada lado a lado com o Carnaval.

1ª parte: minhas considerações acerca da data propriamente

Antes, vamos relembrar um pouco de história antiga e contemporânea. Nossa sociedade ocidental latina é formada por três grandes valores: o direito romano, a ética grega e a moral cristã. Ainda que haja críticas quanto a cada um dos três pontos, o mero fato de estarmos inseridos na sociedade torna inescapável a influência desses valores na formação dos indivíduos enquanto constituintes da sociedade mesma. Vivemos, pois, numa sociedade eminentemente cristã, ou ao menos que se diz ser cristã.

Católicos, protestantes, kardecistas e (certo modo) umbandistas, cada qual celebra a vida e a morte de Jesus à sua maneira, e interpreta sua mensagem também a seu modo. Para a esmagadora maioria da população, o principal evento é o Natal do Senhor, comemorado em 25 de dezembro. Pouco se diz que tal feriado é uma corruptela das antigas celebrações pagãs do solstício, a mais longa noite do ano no hemisfério norte (e o dia mais longo no hemisfério sul, daí o calorão). Ninguém sabe ao certo qual o dia de nascimento de Jesus de Nazaré, de tal sorte que era necessário arbitrar uma data. A Igreja Católica e o Império Romano, com vistas a substituir as religiões anteriores pelo cristianismo como religião de estado, optaram por usurpar a antiga tradição das Saturnálias, substituindo-as pela nova religião. Tal movimento, em meu entender, deu-se a partir de um já existente sincretismo religioso, muito parecido com a relação entre o Candomblé africano dos escravos negros e o Cristianismo dos escravistas. Sendo os cristãos, originalmente, em menor número e perseguidos, parece-me plausível supor que utilizavam as celebrações oficiais a seu modo, tal como os candomblecistas ocultavam seus orixás, fazendo-os passar por santos cristãos. Especulo que, ao chegarem oficialmente ao poder, tão somente formalizaram e ritualizaram o que já era prática corrente.

Assim, com o passar do tempo, surge o Natal que conhecemos. Os presentes vêm da antiga tradição romana de presentear no aniversário, o banquete se dá por ser uma festa em celebração, e a bagunça é por safadeza mesmo. Assim, a maior nação cristã do hemisfério sul celebra com mais ardor o Dia de Papai Noel por ter presentes, consumo desenfreado, churrasco, bebedeira e esbórnias, que emenda etilicamente até dia 2 de janeiro, quando o povo sente a ressaca e tenta voltar ao meio-trabalho, pois trabalho de verdade, só após o Carnaval. Já escrevi sobre isso anteriormente.

E se esquecem completamente de que o dia mais importante da religião cristã é a Páscoa, ou ”Domingo da Ressurreição”. De que os eventos do martírio à ascensão são a fundamentação de toda a mensagem da história do cristo. Eu não quero entrar aqui na discussão da origem da Páscoa, de como o feriado judaico se relaciona com os festejos à deusa da fertilidade primaveril Istar / Astarte / Eostre / Ostara (Easter em inglês), de que ovos e coelhos simbolizam a fertilidade dos animais, e das orgias em honra à deusa. Neste texto, quero apenas me referir à Páscoa cristã, seu significado e o que ela deveria a princípio representar para as pessoas desta sociedade. (Apenas como nota, a Páscoa judaica comemora a data da saída dos hebreus do Egito, o dia da libertação. Para os cristãos, foi ressignificada como a libertação por meio de Jesus.).

Quando você pergunta para um cristão o que Jesus fez de tão importante, a primeira coisa que ele vai ter responder é: ”ele morreu por nós”, ou ”ele morreu por nossos pecados”, ou qualquer coisa do tipo. E, quando você pede para a pessoa explicar o que isso significa, surge um sem número de explicações estapafúrdias que nada explicam e apenas demonstram que o seu interlocutor é mais um analfabeto funcional.

A afirmação de que Jesus ”deu a vida por nós” é uma intepretação errada. Sua história diz claramente que ele ressuscitou ao terceiro dia. Ele só teria ”dado sua vida” se tivesse continuado morto, oras! Jesus, portanto, deu foi só um final de semana… O cerne, o princípio, o fundamento, o núcleo, a base da religião cristã é este: Jesus não morreu por nós, ele venceu a morte por nós. E entender o que isso significa faz toda a diferença. Mas vivo numa sociedade infestada de falsos imaculados que batem no peito e bradam aos quatro ventos que são seguidores de cristo, mas não entendem (nem seguem) o mais básico princípio de sua religião. Isso me enfastia, me irrita, me incomoda. Como podem professar algo que não entendem? Como podem pretender ensinar algo que não sabem? E então tenho eu, que não sou cristão, que vir e gastar minhas letras para explicar isso? Que seja.

2ª parte: a Páscoa, por Pedro Figueira

O que será que Jesus quis dizer aqui???

Quando Jesus afirma ser o caminho, ele está dizendo que sua vida é o exemplo de vida a ser seguido, a ser trilhado. Uma vida pacífica, compassiva, branda e vigorosa. Com sua própria vida ele demonstra como seguir o caminho de retidão, mesmo que o mundo inteiro esteja contra você, e que deve se manter firme nessa senda frente a toda e qualquer adversidade. Que será difícil, que muitos o tentarão para que se desvie, que muitos testarão sua convicção, que encontrará aqueles que nem melhoram a si mesmos nem aceitam que os ao seu redor progridam. Que ao dar as costas a um mundo corrupto/adúltero, que ao não aceitar corromper-se/adulterar-se como os demais, você fará inimigos, mas também encontrará amigos. Que você também poderá inspirar os demais a libertarem-se da influência do mal.

Ao aceitar as agressões sem revidar (Mateus 5:39; Lucas 6:29), você demonstra que não é escravo do orgulho tolo que compele a agir conforme brios e melindres, e também que recusa a violência como primeira forma de se defender. Ao compreender e perdoar seus desafetos (Mateus 18:22 ; Lucas 17:4), você pára o ciclo de raiva e vingança de nossa sociedade beligerante. Ao agir com parcimônia com seus bens, tomando para si só o necessário (Marcos 10:21)¸ você demonstra que a vida material está em segundo lugar comparada à espiritual. E ao enfrentar veementemente os homens de má-fé (João 2:15), você coloca seus princípios frente a todas as outras coisas.

Ao dar aos poderosos o que eles querem (Mateus 22:21), você os deixa soterrarem-se em sua própria ganância, perderem-se por sua própria cupidez, inebriarem-se em seu próprio falso poder, devorarem-se por seu próprio ego. É exatamente nisso que está o significado do martírio e da crucificação: mesmo sendo assassinado mediante tortura, manter-se íntegro ao ideal que representa. Demonstrar que a vida espiritual é muito mais importante que a mundana vida material, e que é naquela onde se encontra a verdade de todas as coisas. Demonstrar que a riqueza, o poder, os títulos e todas as coisas a que os homens dão valor neste mundo de nada valem frente à vida espiritual.

A mensagem não está na morbidez com que expectadores ávidos por brutalidade assistiram ao filme ”A paixão de Cristo (2004)”, atentos ao espetáculo de um sacrifício humano, tal como povos tribais primitivos imolam cordeiros para ”expiar pecados”. Ela está no ato da ressurreição, no símbolo de que mesmo contra tudo o que puderem fazer contra ti, sua vida e o que você representa continuará eternamente, vencendo a morte todos os dias na memória daqueles que lhe seguirem no caminho correto. No símbolo de que não podem matar o espírito, de que os poderosos deste mundo nada podem contra o que vem do alto. Na perpétua esperança da vitória do bem sobre o mal. Afinal, se ele pôde enfrentar toda essa dor por sua fé, o que são os meros contratempos e inconvenientes da vida para nós?

O exemplo de vida pacífica é o caminho e a recompensa por trilhá-lo é a memória da vida após a morte do corpo. Porém vejo as pessoas se lembrarem apenas das partes da vida de Jesus que mais lhe interessam e se distanciarem diariamente de seus ensinamentos. Querem o cumprimento de uma antiga promessa, mas não querem o esforço de serem merecedores dela. Querem aceitar cristo apenas pela esperança de viverem eternamente, ou de terem seus desejos satisfeitos no paraíso, tal como fosse um jardim de delícias. Têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não escutam. (salmo hebraico 115; Mateus 13:13). E eu os vejo fofocar, espiar e maldizer, quando lhes foi dito para arrancarem seus olhos frente ao escândalo (Mateus 5:29). Eu os vejo cobrirem-se de ritos e vestes e cânticos e procissões, quando lhes foi dito para orarem em silêncio em seus quartos (Mateus 6:1).

A Páscoa é momento de comemorar a retidão de vida intimamente. Como pode a Igreja pedir modéstia, quando incoerentemente seus sacerdotes encapotam-se em sete vestes e enfeitam-se em púrpuras? De que vale persignar-se em cinzas para então colocar selfie no Instagram? De que vale o senta e levanta e ajoelha sem fim, ou louvores aos berros frente a multidões? Sua recompensa, pois, está dada nos likes que recebe pelas redes sociais. Está dada pelos comentários benfazejos dos demais ”obreiros”, que certamente também lhe notaram as vestes com que foi ao culto. Está dada conforme pediu (Mateus 7:7, Marcos 11:24; Lucas 11:5) e não lhe foi negada. Nada o é.

Depois, acrescenta: “Tome a sua cruz aquele que me quiser seguir”, isto é, suporte corajosamente as tribulações que sua fé lhe acarretar, dado que aquele que quiser salvar a vida e seus bens, renunciando-me a mim, perderá as vantagens do reino dos céus, enquanto os que tudo houverem perdido neste mundo, mesmo a vida, para que a verdade triunfe, receberão, na vida futura, o prêmio da coragem, da perseverança e da abnegação de que deram prova. Mas, aos que sacrificam os bens celestes aos gozos terrestres, Deus dirá: “Já recebestes a vossa recompensa.” (ESE XXIV, 19)

Mas isso não traz conforto ao homem de nossa sociedade… Não basta ser cristão, é necessário que todos o vejam sendo. Que vejam o quanto é bom, que vejam o quanto é um bom exemplo aos ”olhos do senhor”, tal como fariseus e publicanos. E que melhor exemplo do que o de ser um homem próspero? Que melhor exemplo de ser abençoado do que uma gorda conta bancária? Pois a benção, isto é, o ”bem em ação”, não lhe é o bem viver, mas os bens em sua posse, ao cúmulo de escrever em suas faces: ”foi deus quem me deu”. Pois a história de Jesus não lhe chama a atenção pelo exemplo de bem viver, tampouco pelas poéticas recomendações de boa ação. Não… pois as pessoas dão mais valor ao fenômeno do que à mensagem, ao extraordinário do que ao significado, à imagem do que à palavra. Pois ”Jesus venceu o mundo”, e vencer o mundo lhes significa ter superpoderes, caminhar sobre o mar, curar os enfermos, voar e soltar raio laser pelos olhos.

Vencer o mundo, pois, é tê-lo em suas mãos, moldá-lo conforme sua mesquinha vontade e saciar seus desejos de fama, fortuna e glória… A vitória de cristo converte-se em vitória financeira. Esse hodierno ”evangelho da prosperidade” deixaria corados mesmos os mercadores do templo de Jerusalém (ou talvez não: algumas coisas não mudam com o tempo…). Qual parte do ”meu reino não é deste mundo” não entendem? (João 18:36) Mais uma vez, qual parte de depreciar a mundanidade e entregar-se à espiritualidade não entendem? Que a riqueza dos homens nada vale perante a riqueza dos céus? (Lucas 18:24) De dar a César o que é de César, de não servir a Mammon, de repudiar as tentações do deserto? (Mateus 4:1)

A história diz que Jesus veio justamente libertar o homem disso, mas fazem exatamente o contrário… Viver ”em cristo” é viver dentro de sua nova proposta de vida. Seguir o caminho com cristo é seguir seu exemplo de vida. Não se trata de realizar milagres assombrosos, ou ficar rodando como pião, balbuciando sílabas desconexas. Vencer o mundo significa seguir o caminho do bem, mesmo contra todas as adversidades.

Vejo que as pessoas não entendem o que significa o ”sangue da nova aliança”. Nisto considero necessário retomar um pouco os textos mais antigos. Os judeus esperam a chegada de um messias, um rei para a construção de um mundo novo. Jesus afirmou que não veio para repudiar as escrituras, mas para cumpri-las. (Mateus 5:17) Uma vez cumpridas, encerra-se a parte pretérita e se constrói uma nova aliança entre os céus e os homens, selada simbolicamente por seu profetizado martírio e representada pelo seu sangue. Enquanto que nas alianças anteriores muitos morreram, desta vez apenas um morreu, dando seu exemplo a ser seguido pelos demais. Para os católicos, ela é representada no fenômeno da transubstanciação que ocorre durante a consagração da hóstia e do vinho. Assim, dentro da cultura judaico-cristã, com sua vida, Jesus liberta os homens de seus pecados passados e funda uma nova lei acerca de si mesmo, sendo essa libertação o novo significado da Páscoa.

Pois toda a Lei se resume num só mandamento, a saber: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Gálatas 5:13, Marcos 12:28; Lucas 10:25, Mateus 22:39). Todo o resto fora tão somente a tentativa de interpretação da lei divina pelos homens. Ao apresentar-se como o messias, como o novo rei, ele cumpre a lei anterior e, com seu poder real, estipula a nova era. A libertação que Jesus deu aos homens com sua vida, a Páscoa, encerra (ou ao menos deveria ter encerrado) a época de guerras santas, dos holocaustos, dos comportamentos tribais, da obsoleta lei judaica, e funda uma nova era de amor ao próximo, de paz na terra e boa vontade entre os homens. Liberta o homem das amarras terrestres, da avareza material, das questões mundanas menores; liberta-o para perseguir o crescimento espiritual e as riquezas dos céus. A história ensina que Jesus vence a morte, assim nem mesmo a toda-poderosa morte pode impedir o aperfeiçoamento moral do homem. Essa liberdade última é a Páscoa do Senhor.

Nisso vejo uma proximidade entre o Xintoísmo e a simplicidade da mensagem de Jesus. Dentro do Xintoísmo, considera-se que a natureza, as divindades e o homem são naturalmente bons e puros. As faltas e falhas são oriundas das influências malignas de espíritos inferiores. O homem, pois, sabe naturalmente qual é o caminho correto, não sendo dependente de um conjunto restrito de normas morais. Os preceitos de pureza estão acima dos ritos e dos cultos, tornando a moralidade xintoísta generalista, vaga e simples, sem rigidez ou codificação.

O teólogo xintoísta Motoori (1730-1801) apresenta a teoria de que os homens foram dotados inatamente dos conceitos do certo e do errado, por isso não precisam de códigos morais. Se precisassem, seriam inferiores aos animais, que sabem como proceder. Para ele, quanto menos códigos, mais o homem se guia pela moral do coração e pela pureza espiritual. Já as abundantes teorias morais refletem uma sociedade de pessoas perversas e depravadas.

Mas o que vemos? Que muitos dão mais valor a picuinhas do que à nova aliança, a discussões verborrágicas acerca dos textos sagrados antigos, e até à aplicabilidade dos deuteronômios contemporaneamente. Crêem num deus único onipotente, capaz de fazer colidir estrelas e ordenar os átomos, e que essa divindade, por alguma razão, gosta de fiscalizar o que as pessoas fazem com seus traseiros. E que isso é mais importante que o amor e a caridade para com o próximo. O sujeito pode ser um anjo que caminha sobre a terra, mas só se escutam as fofocas sobre o que faz na cama, as roupas que veste ou suas escolhas alimentares. Muitas regras para uma sociedade perversa e depravada.

3ª parte: da hipocrisia social

Pieter Bruegel, O Combate do Carnaval e da Quaresma – 1559, detalhe.

Falando sobre depravação, chegamos à motivação deste texto: a correlação entre a Páscoa e o Carnaval. Neste ano pós-pandemia, a quem de direito cabe decidir decidiu decididamente que o Carnaval seria celebrado na semana do domingo de Páscoa. E não vi reclamações sobre isso. Confesso que fiquei um tanto estupefato com a idéia de haver Carnaval tão logo o fim das restrições pandêmicas, com a época do ano inusitada, enfim com tudo o que envolve o assunto.

É de notório saber público que os donos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo são ligados ao jogo do bicho. Contravenção tipicamente tolerada, até mesmo certos agentes públicos fazem suas apostas de vez em quando… Não é de hoje que aparece nos noticiários policialescos que volta e meia eles matam uns aos outros por disputas sobre áreas de jogatina. São essas as pessoas responsáveis pelo Carnaval e, para organizarem o evento, utilizam-se dos sempre parcos (os prefeitos sempre choram miséria) recursos do erário público. Desse modo, a sociedade carioca/paulista usa anualmente dinheiro do pagador de impostos para licitamente enriquecer contraventores.

Basta observar os vínculos políticos de tudo o que está envolvido: chefe de tráfico, escola de samba, pão e circo, orgia e jogatina, prefeito e eleições. O Carnaval é, portanto, a perfeita representação de como funciona a vida política nos municípios brasileiros. Dá-se um pouco de divertimento anual à custa de quatro anos de péssimos serviços públicos. Nada disso me é novidade, mas o que realmente me incomodou desta vez foi a hipocrisia geral da população, sua completa falta de noção da realidade.

Ao fazer uma grandiosa festa fora de época após o anômalo período de dois anos, busca-se demonstrar o ”retorno à normalidade”. Mas como dizer que voltamos à normalidade após uma fase tão conturbada e transformadora quanto a pandemia? Onde, então, está a crise de que tanto falam? Onde está a inflação, o preço dos gêneros no mercado, o preço dos combustíveis, o desemprego, o atraso escolar, e o genocídio de que a TV tanto falou? E a questão das vacinas… Há realmente clima para festejos? Seria esse Carnaval uma forma de extravasar a angústia de dois anos perdidos, ou será que a tal crise não é tão crítica assim?

Esquecem-se facilmente dos mortos e da ladroagem. Das famílias que não puderam enterrar dignamente seus entes queridos, e dos bilhões desviados em hospitais de campanha superfaturados. Por que buscar punir esses grandes infratores, se o povo mesmo deseja impacientemente, por sua vez, descumprir suas pequenas obrigações? Ironicamente celebram sua escravidão à devassidão (anti-pascoalina) na semana da Inconfidência (anti-governamental). Optam pela prisão de seus vícios e costumes em lugar de aproveitar a oportunidade que a vida lhes deu para suplantar velhos hábitos e libertarem-se para uma vida nova. Abdicam da Páscoa do Senhor em favor do Bacanal Dionisíaco: Panis et circenses.

Eu não sou puritano. Acredito que cada um deva cuidar de sua própria vida da forma como melhor lhe convier e seguir o seu próprio caminho. Cada qual que decida o que fazer com o tempo que lhe foi concedido nesta terra. A orgia, a jogatina, a embriaguez e todas as coisas ruins que se dão livremente durante o Carnaval (em qualquer época do ano, só que no Carnaval a bagunça é socialmente tolerada) são escolhas individuais, e as lições que eventualmente aprenderão com essas escolhas também.

O que eu defendo é que há lugar e hora para tudo. Desde a Grécia antiga (veja aí os valores), os festivais eram o momento apropriado para contemporizar as convenções sociais e fazer o que não era socialmente permitido durante o tempo comum. De criticar os governantes (sem medo de represálias), de embriagar-se publicamente, de buscar prazeres carnais. O Carnaval é exatamente o descendente desse antigo costume, de dar a uns poucos dias do ano tolerância para transgredir os protocolos, como uma salutar forma de escape.

E por isso ele é celebrado antes da Quaresma. Esse distanciamento temporal é uma forma de respeito religioso ao tempo da Páscoa. A momentânea subversão à ordem (liberdade mundana) antecede quarenta dias de jejum e penitência, isto é, antecede a preparação espiritual para comemorar a liberdade dada por Jesus Cristo (liberdade espiritual). Ao celebrar lado a lado Carnaval e Páscoa, a sociedade demonstra ter esquecido suas raízes e valores, quais as origens de suas datas festivas, quais os motivos para festejar. As celebrações agora nada passam de datas e feriados, de dias para ovos de chocolate e carros alegóricos, de dias de comércio fechado e bares abertos, festas por serem festejos e nada mais. Esse esquecimento dos valores fundantes da sociedade é de gravíssima periculosidade.

4ª parte: as conseqüências de uma sociedade que esquece seus valores

A sociedade ocidental está enfrentando, como escrevi anteriormente, dois grandes inimigos, a saber: o comunismo e o islamismo. O primeiro, uma ideologia materialista que visa a desvirtuar a sociedade, especialmente os jovens, conspurcando os valores tradicionais e substituindo-os pelo poder do Estado e do Partido. O segundo, longe de ser uma religião, trata-se de uma ideologia política teocrática, conforme já escrevi aqui. Este último, muito mais agressivo, tem encontrado na Europa terreno fértil para disseminar-se, exatamente porque a sociedade ocidental vem continuamente preterindo seus valores tradicionais em favor das novíssimas ideologias da cartilha neomarxista pós-moderna. Aqui parece que dou um salto, mas não: eu vejo claramente uma conexão entre todas essas coisas.

Nossa sociedade brasileira é em muito beneficiada pela geografia, que, dentre outras coisas, nos mantém fisicamente longe de áreas politicamente problemáticas na esfera terrestre. Porém, ainda que não sintamos diretamente o problema, não significa que ele não existe. Ele existe sim e, caso continue crescendo, poderá se tornar também uma grande dor de cabeça para nós.

Continuamente a sociedade perde a reminiscência de seus valores. Fato agravado ainda mais neste país sem memória, alguns valores maiores são mantidos apenas pelos costumes tradicionais. Ou seja, sem maiores reflexões, a nação e os indivíduos funcionam praticamente no piloto automático. Preocupa-me como enfrentaremos esse problema quando aqui ele chegar, uma vez que, mesmo neste período de aparente paz, sem intervenções diretas dos agentes interessados no caos, somos incapazes de valorar nós mesmos.

Neste período de Páscoa, os ”agentes interessados no caos”, por meio da grande mídia, ocultaram o problema dos ataques muçulmanos a cristãos. Com o objetivo de impedir as celebrações da Páscoa cristã, muçulmanos realizaram violentos distúrbios por toda a Europa. Veja as imagens:

Em resposta, cristãos fizeram manifestações contra esses ataques, que logo foram alcunhadas como ”manifestações de extrema direita contra os imigrantes”, ou ”manifestações anti-islâmicas”.

Nas redes sociais, encontramos exemplos de protestos virtuais contra a ocupação islâmica na Europa, tais como na galeria a seguir.

O modus operandi está claro: primeiro destroem os valores tradicionais; destroem os valores familiares; destroem o senso de pertencimento a uma nação; paulatinamente retiram as liberdades individuais; enfraquecem um povo, tornam-no manso; e finalmente tomam-lhe o poder. Está acontecendo na Europa (mais adiantado), está acontecendo nos EUA (há resistência), está acontecendo em vários países da América Latina (em menor grau) e está acontecendo no Brasil (incipientemente). O povo brasileiro está esquecendo suas origens, suas tradições, seus símbolos, o significado dos eventos sociais. Esta geração está perdendo as referências de seus antepassados e seus valores. Não há vácuos no mundo político e social: sempre há algo para ocupar o lugar do que se perdeu. Quando os valores da sociedade ocidental se perdem, o que tomará o seu lugar?

Deixo, mais uma vez, a quem por aqui passar, o alerta de um perigo que ainda está longe, mas que está se aproximando cada vez mais. Pois ser brando e pacífico não significa ser um cordeiro esperando placidamente por seu abate.

Ele lhes disse: “Mas agora, se vocês têm bolsa, levem-na, e também o saco de viagem; e, se não têm espada, vendam a sua capa e comprem uma.” Lucas 22:36

 

 

Qual o tamanho do problema na educação brasileira?

Messias Basques é um exemplo da atual situação de grande parte do sistema educacional básico (e superior) brasileiro.

Professor humilha aluno que defendeu o agronegócio; ouça áudio | Os Pingos nos Is

Ingratidão

Editado em 02/07/2022: acrescentado vídeo.

Imagine que você nasceu em 1900.
Aos 14 anos, começou a Primeira Grande Guerra.
Aos 18 anos, ela termina com 22 milhões de mortos.
Logo após, uma pandemia, a Gripe Espanhola, mata 50 milhões de pessoas.
Você sobrevive.
Você tem 20 anos.
Então, aos 29 anos, você sobrevive a uma crise econômica mundial que começou com o colapso da Bolsa de Valores de Nova Iorque, causando inflação, desemprego e fome.
Aos 33 anos, o Partido Nacional Socialista Alemão chega ao poder.
Aos 39 anos, se inicia a Segunda Grande Guerra.
Aos 45 anos, ela termina com 85 milhões de mortos, 3% da humanidade à época.
Também começa a Guerra Fria, um estado não declarado de conflito por procuração, fundado em medos, incertezas, suspeitas e inseguranças.
Aos 52 anos, começa a Guerra da Coréia.
Aos 64 anos, começa a Guerra do Vietnã, que termina em seus 75 anos.
Você viu o homem inventar o avião aos 6 anos e chegar ao espaço aos 60 anos.
Você viu o socialismo chegar ao poder na Rússia aos 17 anos e cair aos 91 anos com mais de 60 milhões de mortos.
Você viu o socialismo chegar ao poder na China aos 49 anos e ocultar o real número de mortos, os massacres e o canibalismo.
Você viu a fissão nuclear ser descoberta aos 38 anos e ser usada como arma aos 45 anos.
Você viu nascer o disco de vinil, a fita cassete, o fax, os primeiros computadores.
Viu a televisão se tornar o centro do lar, a viu ganhar cores, controle remoto, se tornar digital.
Viu tecnologias se tornarem obsoletas em pouco tempo, viu o advento da rede de informações.
Viu computadores saírem de prédios inteiros para a palma da mão.

Quem nasceu de 1980 para cá não tem idéia de como a vida de seus avós e bisavós era difícil. Mas eles sobreviveram a diversas guerras e desastres. Quem nasceu de 2000 para cá acha que o fim do mundo é quando a entrega de uma compra da internet leva mais de 3 dias para chegar ou quando não consegue mais de 15 likes na foto do Facebook ou Instagram. Em 2020, vivemos confortavelmente, temos acesso a diferentes formas de entretenimento. Coisas que não existiam antes, como antibióticos, são tratadas com banalidade. Você, leitor, vive mais confortavelmente que um rei absolutista europeu.

O século XX mudou o mundo muito mais do que todos os outros juntos. Foi o mais sangrento e o mais inovador. E as novas gerações, vivendo as benesses conquistadas com esforço, não demonstram gratidão pelo que têm. Tomam a liberdade por garantida, vivem imaturamente, dispensam limites e responsabilidades.

Será que se eles soubessem que o futuro seria assim, teriam lutado por ele?

Eles morreram para que fôssemos livres, não para gente imatura ”se sentir ofendida”.

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