Zona… eleitoral

Favelados molambentos gritando como se fosse carnaval, mulheres porcas, um drogado tossindo nas minhas costas (literalmente), insipiência quanto ao conceito primário de formação de uma fila, indivíduos carecendo de noções rudimentares de civilidade incapazes de respeitar o espaço pessoal de outrem esbarrando em mim o tempo todo, corruptos fazendo boca de urna e papelzinho do inferno sujando o passeio público com o dinheiro público, todos os botequins abertos e sufragistas calibradamente alcoolizados, uma urna que dá pane e só volta a funcionar depois de uma hora. Culminado com o barulho multifônico indiscernível tal como chiado de estática, onipresente, perfurando meus tímpanos e inundando meu cérebro que, após uma hora de espera em tal lugar, já estava fervendo meu líquido cefalorraquidiano.

As eleições brasileiras recepcionam indivíduos que, apenas pelo semblante, se percebe que são inaptos para o exercício político (não sou lombrosista). Cada vez mais se aproxima o tempo de eu publicar meu texto ”A falácia sobre a democracia”. Não quero publicá-lo. Não quero acreditar que estou certo. Porém, quanto mais o tempo passa, mais me decepciono com a sociedade em que me encontro.

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Em tempo: acabo de descobrir que o e-mail do Hotmail rejeitou minhas postagens sobre eleições. Não aparecem nem na caixa de spam. Provavelmente o mesmo aconteceu com quem tem Yahoo ou Gmail. Ou seja, já estamos sob censura ditatorial: só temos acesso ao que eles permitem que vejamos, mesmo em conversas privadas.

 

Eleições 2022 – parte 8 (o que esperar de um presidente?)

Metodologia de governança costa-riquenha:
“Quem manda aqui sou eu e a partir de agora é assim. Meus eleitores mandaram eu fazer isto e isto estou fazendo. Não gostou? Foda-se.”

É fato notório que eu, de apoiador do presidente Bolsonaro, tornei-me seu crítico. Não critico seu programa de governo, uma vez que é o mais alinhado ideologicamente com minha perspectiva política, mas critico sua forma de governar.

Bolsonaro mostrou-se um homem frouxo. Na frente da multidão que o apóia, brada ferozmente contra tudo e contra todos, deleitando os ouvintes carentes por alguém que dê voz e visibilidade às tão conhecidas queixas de nossa nação. Insulta magistrados alopécicos, auto-intitula-se imbrochável (como se sua vida sexual fosse-nos importante) e passeia de moto escoltado por bajuladores.

Porém, uma vez à frente dos mesmos a quem acusa de serem detratores da pátria, trata-os com deferência digna de lacaios. Não enfrenta quem diz enfrentar, nem o que diz enfrentar. Permite, por omissão, que nossa Constituição seja sistematicamente desrespeitada, que nossos direitos sejam tolhidos, que nossas vidas se tornem um inferno sob curatela da corja de marxistas infiltrada em todas as instituições.

Não farei um texto longo, aqui, apenas registrarei a realidade dos fatos. Nossa Constituição é uma bosta, mas é a nossa bosta e precisamos usá-la se quisermos resolver o problema democraticamente. Ela se baseia no princípio de tripartição de poderes (colocando o Ministério Público, as Procuradorias, as Auditorias etc. numa espécie de limbo; Tribunais de Contas são auxiliares do Legislativo, Tribunais Eleitorais são jabuticabas administrativas…). Nesse sistema, se um dos poderes erra, cabe aos demais corrigi-lo.

Perceba, porém, que não há poderes: há servidores públicos investidos em funções governamentais. Não são ”poderes” que erram, são servidores públicos que mal uso fazem das atribuições que lhes foram concedidas pelo povo.

Quando os servidores do Poder Judiciário abusam de seu poder, há dois remédios constitucionais que podem ser usados. O remédio dito ”típico” é função do poder Legislativo, e se apresenta na forma de decreto-lei. O congresso tem a atribuição exclusiva de defender alterações na lei.

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:
XI – zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes;

Por que então nossos congressistas não enfrentam os desmandos do poder judiciários? Porque nós caímos no círculo vicioso da pior jabuticaba de nosso sistema: o foro privilegiado. Segundo essa joça, somos todos iguais perante a lei, pero no mucho. Alguns são menos iguais que outros e são julgados por seus amiguinhos. Juízes são julgados por seus pares e, caso matem, estuprem, seqüestrem, prevariquem etc. podem ser brutalmente condenados à aposentadoria com salário integral. (exagero meu, mas, se você tiver meio neurônio, entendeu a crítica) Senadores só podem ser julgados pelo Supremo Tribunal Federal e os ministros do STF só podem ser julgados pelos Senadores.

Neste país em que todos os brasileiros desconfiam de todos os políticos, é natural que haja uma grande desconfiança de que se formou ali uma organização criminosa em que ambos os lados se protegem juridicamente das acusações que pairam sobre si. Originalmente o foro privilegiado era para impedir que todo mundo fosse processado o tempo todo por qualquer coisa por seus adversários políticos. Imagine: o presidente indica seus ministros e todos sofrem uma enxurrada de processos em longínquos tribunais, factualmente impedindo-os de exercerem suas funções. Uma arma que certamente seria utilizada pelos incontáveis micropartidos políticos para confundir ainda mais o já confuso sistema administrativo brasiliense.

Ocorre que em lugar de organizar a suruba governamental, essa gambiarra parece ter sido desvirtuada para servir como instrumento de impunidade aos que se encontram no poder. O sentimento popular é de desconfiança total em nossos governantes e em como eles são escolhidos para governar.

Mas se é assim, como a gente resolve? Nisto se apresenta o segundo remédio constitucional, dito ”atípico”, isto é, quando um dos poderes extrapola suas atribuições originais. Estamos vendo o Congresso inerte frente às ações do STF. Portanto, cabe ao Executivo, que tem o PODER-DEVER de agir para fazer cumprir a Constituição (sua função originária), sanar o problema. E esse poder está descrito no artigo 142 de nossa Constituição.

Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

O quê esse homem espera para fazer cumprir a Constituição? O que ele espera para cumprir o juramento que fez quando assumiu a Presidência desta república de bananas? O que ele espera para presidir este país?

Em tempo, apenas uma curiosidade vernacular: superior significa ”o que está acima”, máximo significa ”o que está acima de todos”, supremo significa ”o que está acima de tudo”. Nossos constituintes escolheram pessimamente o nome de certos órgãos administrativos…

A Páscoa e os valores sociais

Editado em 25/04/2022: correção a partir de outros argumentos.

A maioria dos cristãos desconhece os princípios de sua própria religião, não entende sua mensagem, não compreende a proposta da história de Jesus. O texto de hoje é inspirado por pensamentos advindos de uma Páscoa celebrada lado a lado com o Carnaval.

1ª parte: minhas considerações acerca da data propriamente

Antes, vamos relembrar um pouco de história antiga e contemporânea. Nossa sociedade ocidental latina é formada por três grandes valores: o direito romano, a ética grega e a moral cristã. Ainda que haja críticas quanto a cada um dos três pontos, o mero fato de estarmos inseridos na sociedade torna inescapável a influência desses valores na formação dos indivíduos enquanto constituintes da sociedade mesma. Vivemos, pois, numa sociedade eminentemente cristã, ou ao menos que se diz ser cristã.

Católicos, protestantes, kardecistas e (certo modo) umbandistas, cada qual celebra a vida e a morte de Jesus à sua maneira, e interpreta sua mensagem também a seu modo. Para a esmagadora maioria da população, o principal evento é o Natal do Senhor, comemorado em 25 de dezembro. Pouco se diz que tal feriado é uma corruptela das antigas celebrações pagãs do solstício, a mais longa noite do ano no hemisfério norte (e o dia mais longo no hemisfério sul, daí o calorão). Ninguém sabe ao certo qual o dia de nascimento de Jesus de Nazaré, de tal sorte que era necessário arbitrar uma data. A Igreja Católica e o Império Romano, com vistas a substituir as religiões anteriores pelo cristianismo como religião de estado, optaram por usurpar a antiga tradição das Saturnálias, substituindo-as pela nova religião. Tal movimento, em meu entender, deu-se a partir de um já existente sincretismo religioso, muito parecido com a relação entre o Candomblé africano dos escravos negros e o Cristianismo dos escravistas. Sendo os cristãos, originalmente, em menor número e perseguidos, parece-me plausível supor que utilizavam as celebrações oficiais a seu modo, tal como os candomblecistas ocultavam seus orixás, fazendo-os passar por santos cristãos. Especulo que, ao chegarem oficialmente ao poder, tão somente formalizaram e ritualizaram o que já era prática corrente.

Assim, com o passar do tempo, surge o Natal que conhecemos. Os presentes vêm da antiga tradição romana de presentear no aniversário, o banquete se dá por ser uma festa em celebração, e a bagunça é por safadeza mesmo. Assim, a maior nação cristã do hemisfério sul celebra com mais ardor o Dia de Papai Noel por ter presentes, consumo desenfreado, churrasco, bebedeira e esbórnias, que emenda etilicamente até dia 2 de janeiro, quando o povo sente a ressaca e tenta voltar ao meio-trabalho, pois trabalho de verdade, só após o Carnaval. Já escrevi sobre isso anteriormente.

E se esquecem completamente de que o dia mais importante da religião cristã é a Páscoa, ou ”Domingo da Ressurreição”. De que os eventos do martírio à ascensão são a fundamentação de toda a mensagem da história do cristo. Eu não quero entrar aqui na discussão da origem da Páscoa, de como o feriado judaico se relaciona com os festejos à deusa da fertilidade primaveril Istar / Astarte / Eostre / Ostara (Easter em inglês), de que ovos e coelhos simbolizam a fertilidade dos animais, e das orgias em honra à deusa. Neste texto, quero apenas me referir à Páscoa cristã, seu significado e o que ela deveria a princípio representar para as pessoas desta sociedade. (Apenas como nota, a Páscoa judaica comemora a data da saída dos hebreus do Egito, o dia da libertação. Para os cristãos, foi ressignificada como a libertação por meio de Jesus.).

Quando você pergunta para um cristão o que Jesus fez de tão importante, a primeira coisa que ele vai ter responder é: ”ele morreu por nós”, ou ”ele morreu por nossos pecados”, ou qualquer coisa do tipo. E, quando você pede para a pessoa explicar o que isso significa, surge um sem número de explicações estapafúrdias que nada explicam e apenas demonstram que o seu interlocutor é mais um analfabeto funcional.

A afirmação de que Jesus ”deu a vida por nós” é uma intepretação errada. Sua história diz claramente que ele ressuscitou ao terceiro dia. Ele só teria ”dado sua vida” se tivesse continuado morto, oras! Jesus, portanto, deu foi só um final de semana… O cerne, o princípio, o fundamento, o núcleo, a base da religião cristã é este: Jesus não morreu por nós, ele venceu a morte por nós. E entender o que isso significa faz toda a diferença. Mas vivo numa sociedade infestada de falsos imaculados que batem no peito e bradam aos quatro ventos que são seguidores de cristo, mas não entendem (nem seguem) o mais básico princípio de sua religião. Isso me enfastia, me irrita, me incomoda. Como podem professar algo que não entendem? Como podem pretender ensinar algo que não sabem? E então tenho eu, que não sou cristão, que vir e gastar minhas letras para explicar isso? Que seja.

2ª parte: a Páscoa, por Pedro Figueira

O que será que Jesus quis dizer aqui???

Quando Jesus afirma ser o caminho, ele está dizendo que sua vida é o exemplo de vida a ser seguido, a ser trilhado. Uma vida pacífica, compassiva, branda e vigorosa. Com sua própria vida ele demonstra como seguir o caminho de retidão, mesmo que o mundo inteiro esteja contra você, e que deve se manter firme nessa senda frente a toda e qualquer adversidade. Que será difícil, que muitos o tentarão para que se desvie, que muitos testarão sua convicção, que encontrará aqueles que nem melhoram a si mesmos nem aceitam que os ao seu redor progridam. Que ao dar as costas a um mundo corrupto/adúltero, que ao não aceitar corromper-se/adulterar-se como os demais, você fará inimigos, mas também encontrará amigos. Que você também poderá inspirar os demais a libertarem-se da influência do mal.

Ao aceitar as agressões sem revidar (Mateus 5:39; Lucas 6:29), você demonstra que não é escravo do orgulho tolo que compele a agir conforme brios e melindres, e também que recusa a violência como primeira forma de se defender. Ao compreender e perdoar seus desafetos (Mateus 18:22 ; Lucas 17:4), você pára o ciclo de raiva e vingança de nossa sociedade beligerante. Ao agir com parcimônia com seus bens, tomando para si só o necessário (Marcos 10:21)¸ você demonstra que a vida material está em segundo lugar comparada à espiritual. E ao enfrentar veementemente os homens de má-fé (João 2:15), você coloca seus princípios frente a todas as outras coisas.

Ao dar aos poderosos o que eles querem (Mateus 22:21), você os deixa soterrarem-se em sua própria ganância, perderem-se por sua própria cupidez, inebriarem-se em seu próprio falso poder, devorarem-se por seu próprio ego. É exatamente nisso que está o significado do martírio e da crucificação: mesmo sendo assassinado mediante tortura, manter-se íntegro ao ideal que representa. Demonstrar que a vida espiritual é muito mais importante que a mundana vida material, e que é naquela onde se encontra a verdade de todas as coisas. Demonstrar que a riqueza, o poder, os títulos e todas as coisas a que os homens dão valor neste mundo de nada valem frente à vida espiritual.

A mensagem não está na morbidez com que expectadores ávidos por brutalidade assistiram ao filme ”A paixão de Cristo (2004)”, atentos ao espetáculo de um sacrifício humano, tal como povos tribais primitivos imolam cordeiros para ”expiar pecados”. Ela está no ato da ressurreição, no símbolo de que mesmo contra tudo o que puderem fazer contra ti, sua vida e o que você representa continuará eternamente, vencendo a morte todos os dias na memória daqueles que lhe seguirem no caminho correto. No símbolo de que não podem matar o espírito, de que os poderosos deste mundo nada podem contra o que vem do alto. Na perpétua esperança da vitória do bem sobre o mal. Afinal, se ele pôde enfrentar toda essa dor por sua fé, o que são os meros contratempos e inconvenientes da vida para nós?

O exemplo de vida pacífica é o caminho e a recompensa por trilhá-lo é a memória da vida após a morte do corpo. Porém vejo as pessoas se lembrarem apenas das partes da vida de Jesus que mais lhe interessam e se distanciarem diariamente de seus ensinamentos. Querem o cumprimento de uma antiga promessa, mas não querem o esforço de serem merecedores dela. Querem aceitar cristo apenas pela esperança de viverem eternamente, ou de terem seus desejos satisfeitos no paraíso, tal como fosse um jardim de delícias. Têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não escutam. (salmo hebraico 115; Mateus 13:13). E eu os vejo fofocar, espiar e maldizer, quando lhes foi dito para arrancarem seus olhos frente ao escândalo (Mateus 5:29). Eu os vejo cobrirem-se de ritos e vestes e cânticos e procissões, quando lhes foi dito para orarem em silêncio em seus quartos (Mateus 6:1).

A Páscoa é momento de comemorar a retidão de vida intimamente. Como pode a Igreja pedir modéstia, quando incoerentemente seus sacerdotes encapotam-se em sete vestes e enfeitam-se em púrpuras? De que vale persignar-se em cinzas para então colocar selfie no Instagram? De que vale o senta e levanta e ajoelha sem fim, ou louvores aos berros frente a multidões? Sua recompensa, pois, está dada nos likes que recebe pelas redes sociais. Está dada pelos comentários benfazejos dos demais ”obreiros”, que certamente também lhe notaram as vestes com que foi ao culto. Está dada conforme pediu (Mateus 7:7, Marcos 11:24; Lucas 11:5) e não lhe foi negada. Nada o é.

Depois, acrescenta: “Tome a sua cruz aquele que me quiser seguir”, isto é, suporte corajosamente as tribulações que sua fé lhe acarretar, dado que aquele que quiser salvar a vida e seus bens, renunciando-me a mim, perderá as vantagens do reino dos céus, enquanto os que tudo houverem perdido neste mundo, mesmo a vida, para que a verdade triunfe, receberão, na vida futura, o prêmio da coragem, da perseverança e da abnegação de que deram prova. Mas, aos que sacrificam os bens celestes aos gozos terrestres, Deus dirá: “Já recebestes a vossa recompensa.” (ESE XXIV, 19)

Mas isso não traz conforto ao homem de nossa sociedade… Não basta ser cristão, é necessário que todos o vejam sendo. Que vejam o quanto é bom, que vejam o quanto é um bom exemplo aos ”olhos do senhor”, tal como fariseus e publicanos. E que melhor exemplo do que o de ser um homem próspero? Que melhor exemplo de ser abençoado do que uma gorda conta bancária? Pois a benção, isto é, o ”bem em ação”, não lhe é o bem viver, mas os bens em sua posse, ao cúmulo de escrever em suas faces: ”foi deus quem me deu”. Pois a história de Jesus não lhe chama a atenção pelo exemplo de bem viver, tampouco pelas poéticas recomendações de boa ação. Não… pois as pessoas dão mais valor ao fenômeno do que à mensagem, ao extraordinário do que ao significado, à imagem do que à palavra. Pois ”Jesus venceu o mundo”, e vencer o mundo lhes significa ter superpoderes, caminhar sobre o mar, curar os enfermos, voar e soltar raio laser pelos olhos.

Vencer o mundo, pois, é tê-lo em suas mãos, moldá-lo conforme sua mesquinha vontade e saciar seus desejos de fama, fortuna e glória… A vitória de cristo converte-se em vitória financeira. Esse hodierno ”evangelho da prosperidade” deixaria corados mesmos os mercadores do templo de Jerusalém (ou talvez não: algumas coisas não mudam com o tempo…). Qual parte do ”meu reino não é deste mundo” não entendem? (João 18:36) Mais uma vez, qual parte de depreciar a mundanidade e entregar-se à espiritualidade não entendem? Que a riqueza dos homens nada vale perante a riqueza dos céus? (Lucas 18:24) De dar a César o que é de César, de não servir a Mammon, de repudiar as tentações do deserto? (Mateus 4:1)

A história diz que Jesus veio justamente libertar o homem disso, mas fazem exatamente o contrário… Viver ”em cristo” é viver dentro de sua nova proposta de vida. Seguir o caminho com cristo é seguir seu exemplo de vida. Não se trata de realizar milagres assombrosos, ou ficar rodando como pião, balbuciando sílabas desconexas. Vencer o mundo significa seguir o caminho do bem, mesmo contra todas as adversidades.

Vejo que as pessoas não entendem o que significa o ”sangue da nova aliança”. Nisto considero necessário retomar um pouco os textos mais antigos. Os judeus esperam a chegada de um messias, um rei para a construção de um mundo novo. Jesus afirmou que não veio para repudiar as escrituras, mas para cumpri-las. (Mateus 5:17) Uma vez cumpridas, encerra-se a parte pretérita e se constrói uma nova aliança entre os céus e os homens, selada simbolicamente por seu profetizado martírio e representada pelo seu sangue. Enquanto que nas alianças anteriores muitos morreram, desta vez apenas um morreu, dando seu exemplo a ser seguido pelos demais. Para os católicos, ela é representada no fenômeno da transubstanciação que ocorre durante a consagração da hóstia e do vinho. Assim, dentro da cultura judaico-cristã, com sua vida, Jesus liberta os homens de seus pecados passados e funda uma nova lei acerca de si mesmo, sendo essa libertação o novo significado da Páscoa.

Pois toda a Lei se resume num só mandamento, a saber: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Gálatas 5:13, Marcos 12:28; Lucas 10:25, Mateus 22:39). Todo o resto fora tão somente a tentativa de interpretação da lei divina pelos homens. Ao apresentar-se como o messias, como o novo rei, ele cumpre a lei anterior e, com seu poder real, estipula a nova era. A libertação que Jesus deu aos homens com sua vida, a Páscoa, encerra (ou ao menos deveria ter encerrado) a época de guerras santas, dos holocaustos, dos comportamentos tribais, da obsoleta lei judaica, e funda uma nova era de amor ao próximo, de paz na terra e boa vontade entre os homens. Liberta o homem das amarras terrestres, da avareza material, das questões mundanas menores; liberta-o para perseguir o crescimento espiritual e as riquezas dos céus. A história ensina que Jesus vence a morte, assim nem mesmo a toda-poderosa morte pode impedir o aperfeiçoamento moral do homem. Essa liberdade última é a Páscoa do Senhor.

Nisso vejo uma proximidade entre o Xintoísmo e a simplicidade da mensagem de Jesus. Dentro do Xintoísmo, considera-se que a natureza, as divindades e o homem são naturalmente bons e puros. As faltas e falhas são oriundas das influências malignas de espíritos inferiores. O homem, pois, sabe naturalmente qual é o caminho correto, não sendo dependente de um conjunto restrito de normas morais. Os preceitos de pureza estão acima dos ritos e dos cultos, tornando a moralidade xintoísta generalista, vaga e simples, sem rigidez ou codificação.

O teólogo xintoísta Motoori (1730-1801) apresenta a teoria de que os homens foram dotados inatamente dos conceitos do certo e do errado, por isso não precisam de códigos morais. Se precisassem, seriam inferiores aos animais, que sabem como proceder. Para ele, quanto menos códigos, mais o homem se guia pela moral do coração e pela pureza espiritual. Já as abundantes teorias morais refletem uma sociedade de pessoas perversas e depravadas.

Mas o que vemos? Que muitos dão mais valor a picuinhas do que à nova aliança, a discussões verborrágicas acerca dos textos sagrados antigos, e até à aplicabilidade dos deuteronômios contemporaneamente. Crêem num deus único onipotente, capaz de fazer colidir estrelas e ordenar os átomos, e que essa divindade, por alguma razão, gosta de fiscalizar o que as pessoas fazem com seus traseiros. E que isso é mais importante que o amor e a caridade para com o próximo. O sujeito pode ser um anjo que caminha sobre a terra, mas só se escutam as fofocas sobre o que faz na cama, as roupas que veste ou suas escolhas alimentares. Muitas regras para uma sociedade perversa e depravada.

3ª parte: da hipocrisia social

Pieter Bruegel, O Combate do Carnaval e da Quaresma – 1559, detalhe.

Falando sobre depravação, chegamos à motivação deste texto: a correlação entre a Páscoa e o Carnaval. Neste ano pós-pandemia, a quem de direito cabe decidir decidiu decididamente que o Carnaval seria celebrado na semana do domingo de Páscoa. E não vi reclamações sobre isso. Confesso que fiquei um tanto estupefato com a idéia de haver Carnaval tão logo o fim das restrições pandêmicas, com a época do ano inusitada, enfim com tudo o que envolve o assunto.

É de notório saber público que os donos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo são ligados ao jogo do bicho. Contravenção tipicamente tolerada, até mesmo certos agentes públicos fazem suas apostas de vez em quando… Não é de hoje que aparece nos noticiários policialescos que volta e meia eles matam uns aos outros por disputas sobre áreas de jogatina. São essas as pessoas responsáveis pelo Carnaval e, para organizarem o evento, utilizam-se dos sempre parcos (os prefeitos sempre choram miséria) recursos do erário público. Desse modo, a sociedade carioca/paulista usa anualmente dinheiro do pagador de impostos para licitamente enriquecer contraventores.

Basta observar os vínculos políticos de tudo o que está envolvido: chefe de tráfico, escola de samba, pão e circo, orgia e jogatina, prefeito e eleições. O Carnaval é, portanto, a perfeita representação de como funciona a vida política nos municípios brasileiros. Dá-se um pouco de divertimento anual à custa de quatro anos de péssimos serviços públicos. Nada disso me é novidade, mas o que realmente me incomodou desta vez foi a hipocrisia geral da população, sua completa falta de noção da realidade.

Ao fazer uma grandiosa festa fora de época após o anômalo período de dois anos, busca-se demonstrar o ”retorno à normalidade”. Mas como dizer que voltamos à normalidade após uma fase tão conturbada e transformadora quanto a pandemia? Onde, então, está a crise de que tanto falam? Onde está a inflação, o preço dos gêneros no mercado, o preço dos combustíveis, o desemprego, o atraso escolar, e o genocídio de que a TV tanto falou? E a questão das vacinas… Há realmente clima para festejos? Seria esse Carnaval uma forma de extravasar a angústia de dois anos perdidos, ou será que a tal crise não é tão crítica assim?

Esquecem-se facilmente dos mortos e da ladroagem. Das famílias que não puderam enterrar dignamente seus entes queridos, e dos bilhões desviados em hospitais de campanha superfaturados. Por que buscar punir esses grandes infratores, se o povo mesmo deseja impacientemente, por sua vez, descumprir suas pequenas obrigações? Ironicamente celebram sua escravidão à devassidão (anti-pascoalina) na semana da Inconfidência (anti-governamental). Optam pela prisão de seus vícios e costumes em lugar de aproveitar a oportunidade que a vida lhes deu para suplantar velhos hábitos e libertarem-se para uma vida nova. Abdicam da Páscoa do Senhor em favor do Bacanal Dionisíaco: Panis et circenses.

Eu não sou puritano. Acredito que cada um deva cuidar de sua própria vida da forma como melhor lhe convier e seguir o seu próprio caminho. Cada qual que decida o que fazer com o tempo que lhe foi concedido nesta terra. A orgia, a jogatina, a embriaguez e todas as coisas ruins que se dão livremente durante o Carnaval (em qualquer época do ano, só que no Carnaval a bagunça é socialmente tolerada) são escolhas individuais, e as lições que eventualmente aprenderão com essas escolhas também.

O que eu defendo é que há lugar e hora para tudo. Desde a Grécia antiga (veja aí os valores), os festivais eram o momento apropriado para contemporizar as convenções sociais e fazer o que não era socialmente permitido durante o tempo comum. De criticar os governantes (sem medo de represálias), de embriagar-se publicamente, de buscar prazeres carnais. O Carnaval é exatamente o descendente desse antigo costume, de dar a uns poucos dias do ano tolerância para transgredir os protocolos, como uma salutar forma de escape.

E por isso ele é celebrado antes da Quaresma. Esse distanciamento temporal é uma forma de respeito religioso ao tempo da Páscoa. A momentânea subversão à ordem (liberdade mundana) antecede quarenta dias de jejum e penitência, isto é, antecede a preparação espiritual para comemorar a liberdade dada por Jesus Cristo (liberdade espiritual). Ao celebrar lado a lado Carnaval e Páscoa, a sociedade demonstra ter esquecido suas raízes e valores, quais as origens de suas datas festivas, quais os motivos para festejar. As celebrações agora nada passam de datas e feriados, de dias para ovos de chocolate e carros alegóricos, de dias de comércio fechado e bares abertos, festas por serem festejos e nada mais. Esse esquecimento dos valores fundantes da sociedade é de gravíssima periculosidade.

4ª parte: as conseqüências de uma sociedade que esquece seus valores

A sociedade ocidental está enfrentando, como escrevi anteriormente, dois grandes inimigos, a saber: o comunismo e o islamismo. O primeiro, uma ideologia materialista que visa a desvirtuar a sociedade, especialmente os jovens, conspurcando os valores tradicionais e substituindo-os pelo poder do Estado e do Partido. O segundo, longe de ser uma religião, trata-se de uma ideologia política teocrática, conforme já escrevi aqui. Este último, muito mais agressivo, tem encontrado na Europa terreno fértil para disseminar-se, exatamente porque a sociedade ocidental vem continuamente preterindo seus valores tradicionais em favor das novíssimas ideologias da cartilha neomarxista pós-moderna. Aqui parece que dou um salto, mas não: eu vejo claramente uma conexão entre todas essas coisas.

Nossa sociedade brasileira é em muito beneficiada pela geografia, que, dentre outras coisas, nos mantém fisicamente longe de áreas politicamente problemáticas na esfera terrestre. Porém, ainda que não sintamos diretamente o problema, não significa que ele não existe. Ele existe sim e, caso continue crescendo, poderá se tornar também uma grande dor de cabeça para nós.

Continuamente a sociedade perde a reminiscência de seus valores. Fato agravado ainda mais neste país sem memória, alguns valores maiores são mantidos apenas pelos costumes tradicionais. Ou seja, sem maiores reflexões, a nação e os indivíduos funcionam praticamente no piloto automático. Preocupa-me como enfrentaremos esse problema quando aqui ele chegar, uma vez que, mesmo neste período de aparente paz, sem intervenções diretas dos agentes interessados no caos, somos incapazes de valorar nós mesmos.

Neste período de Páscoa, os ”agentes interessados no caos”, por meio da grande mídia, ocultaram o problema dos ataques muçulmanos a cristãos. Com o objetivo de impedir as celebrações da Páscoa cristã, muçulmanos realizaram violentos distúrbios por toda a Europa. Veja as imagens:

Em resposta, cristãos fizeram manifestações contra esses ataques, que logo foram alcunhadas como ”manifestações de extrema direita contra os imigrantes”, ou ”manifestações anti-islâmicas”.

Nas redes sociais, encontramos exemplos de protestos virtuais contra a ocupação islâmica na Europa, tais como na galeria a seguir.

O modus operandi está claro: primeiro destroem os valores tradicionais; destroem os valores familiares; destroem o senso de pertencimento a uma nação; paulatinamente retiram as liberdades individuais; enfraquecem um povo, tornam-no manso; e finalmente tomam-lhe o poder. Está acontecendo na Europa (mais adiantado), está acontecendo nos EUA (há resistência), está acontecendo em vários países da América Latina (em menor grau) e está acontecendo no Brasil (incipientemente). O povo brasileiro está esquecendo suas origens, suas tradições, seus símbolos, o significado dos eventos sociais. Esta geração está perdendo as referências de seus antepassados e seus valores. Não há vácuos no mundo político e social: sempre há algo para ocupar o lugar do que se perdeu. Quando os valores da sociedade ocidental se perdem, o que tomará o seu lugar?

Deixo, mais uma vez, a quem por aqui passar, o alerta de um perigo que ainda está longe, mas que está se aproximando cada vez mais. Pois ser brando e pacífico não significa ser um cordeiro esperando placidamente por seu abate.

Ele lhes disse: “Mas agora, se vocês têm bolsa, levem-na, e também o saco de viagem; e, se não têm espada, vendam a sua capa e comprem uma.” Lucas 22:36

 

 

Qual o tamanho do problema na educação brasileira?

Messias Basques é um exemplo da atual situação de grande parte do sistema educacional básico (e superior) brasileiro.

Professor humilha aluno que defendeu o agronegócio; ouça áudio | Os Pingos nos Is

Ingratidão

Editado em 02/07/2022: acrescentado vídeo.

Imagine que você nasceu em 1900.
Aos 14 anos, começou a Primeira Grande Guerra.
Aos 18 anos, ela termina com 22 milhões de mortos.
Logo após, uma pandemia, a Gripe Espanhola, mata 50 milhões de pessoas.
Você sobrevive.
Você tem 20 anos.
Então, aos 29 anos, você sobrevive a uma crise econômica mundial que começou com o colapso da Bolsa de Valores de Nova Iorque, causando inflação, desemprego e fome.
Aos 33 anos, o Partido Nacional Socialista Alemão chega ao poder.
Aos 39 anos, se inicia a Segunda Grande Guerra.
Aos 45 anos, ela termina com 85 milhões de mortos, 3% da humanidade à época.
Também começa a Guerra Fria, um estado não declarado de conflito por procuração, fundado em medos, incertezas, suspeitas e inseguranças.
Aos 52 anos, começa a Guerra da Coréia.
Aos 64 anos, começa a Guerra do Vietnã, que termina em seus 75 anos.
Você viu o homem inventar o avião aos 6 anos e chegar ao espaço aos 60 anos.
Você viu o socialismo chegar ao poder na Rússia aos 17 anos e cair aos 91 anos com mais de 60 milhões de mortos.
Você viu o socialismo chegar ao poder na China aos 49 anos e ocultar o real número de mortos, os massacres e o canibalismo.
Você viu a fissão nuclear ser descoberta aos 38 anos e ser usada como arma aos 45 anos.
Você viu nascer o disco de vinil, a fita cassete, o fax, os primeiros computadores.
Viu a televisão se tornar o centro do lar, a viu ganhar cores, controle remoto, se tornar digital.
Viu tecnologias se tornarem obsoletas em pouco tempo, viu o advento da rede de informações.
Viu computadores saírem de prédios inteiros para a palma da mão.

Quem nasceu de 1980 para cá não tem idéia de como a vida de seus avós e bisavós era difícil. Mas eles sobreviveram a diversas guerras e desastres. Quem nasceu de 2000 para cá acha que o fim do mundo é quando a entrega de uma compra da internet leva mais de 3 dias para chegar ou quando não consegue mais de 15 likes na foto do Facebook ou Instagram. Em 2020, vivemos confortavelmente, temos acesso a diferentes formas de entretenimento. Coisas que não existiam antes, como antibióticos, são tratadas com banalidade. Você, leitor, vive mais confortavelmente que um rei absolutista europeu.

O século XX mudou o mundo muito mais do que todos os outros juntos. Foi o mais sangrento e o mais inovador. E as novas gerações, vivendo as benesses conquistadas com esforço, não demonstram gratidão pelo que têm. Tomam a liberdade por garantida, vivem imaturamente, dispensam limites e responsabilidades.

Será que se eles soubessem que o futuro seria assim, teriam lutado por ele?

Eles morreram para que fôssemos livres, não para gente imatura ”se sentir ofendida”.

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Todos os ateus são pessoas más?

1ª Parte

— Você acredita em Deus?
— O que você quer dizer com isso?
— Como assim?
— Em nossa sociedade, essa pergunta pode assumir três contextos:
saber se fulano acredita na existência de divindades;
saber se fulano acredita na existência de um deus único criador;
ou saber se fulano é cristão.

E, se partindo dessa simples pergunta, a maioria esmagadora de interlocutores não entende a multiplicidade de interpretações, como esperar que possam debater racionalmente um tema tão subjetivo? Embora tenha interesse pessoal em Filosofia da Religião, minha formação se deu em Filosofia Política e Militar. Nunca tive a oportunidade de discutir religião de forma saudável e construtiva. Optei, então, por estudar por conta própria e jamais discutir o assunto. Vamos à minha história.

— Quero saber se você é cristão?
— Não, não sou…
— Então você é ateu e todo ateu é uma pessoa ruim.

Não me recordo exatamente como se deu, mas desde que eu era bem pequeno eu tinha uma certa repulsa quanto à religiosidade cristã. Criado em família católica e estudante de colégios católicos, sempre achava as missas algo muito estranho: rituais que eu não entendia, palavras que eu não conhecia, e uma artificialidade que eu sentia (muito bem). O ambiente me desagradava, a sensação era ruim. Aquele lugar e aquelas coisas não pareciam estar certos para mim.

Eu fazia perguntas que ninguém sabia me responder. Como é esse Deus? Por que tanta cerimônia? Por que tanto medo? Eu via as pessoas rezando, pedindo coisas e com medo de serem punidas. Nada daquilo fazia sentido para mim. Mas me diziam que a gente ia para o céu depois que morremos. ”— E porque a gente não morre logo?“. Sorrisos amarelos e nenhuma resposta.

Eu nunca acreditei verdadeiramente naquelas coisas, mas seguia os rituais e rezava de vez em quando. Devia ter Tinha por volta de 6 ou 7 anos, não mais do que isso. (mamãe confirmou!) Tínhamos uma cadelinha, a Lilica, que havia se acidentado há pouco. Lembro claramente do episódio do acidente, mas não me recordo do relato a seguir. Minha mãe disse que nessa época eu perguntei para o padre se as almas dos cachorros também vão para o céu e ele teria me respondido que os cachorros não têm alma.

Nesse dia eu repudiei completamente a Igreja Católica e o Cristianismo de forma geral. Aos sete seis anos (? mamãe confirmou!), declarei-me ateu. Minha família demorou a entender. Nem meus avós, nem meus tios, nem minha mãe reagiram bem. Meu pai não se importou muito. Quando eu recusei fazer a primeira comunhão foi um escândalo familiar. Por anos tive de enfrentar a pressão familiar e somente por pura teimosia consegui me manter firme. “— Eu não acredito nessas coisas. Por que eu tenho que mentir só para agradar vocês?“.

— O fantasma de São Francisco de Paula vai bater em você.
— Isso não é coisa de católico.
— Não estou muito católico hoje. (quando estava doente)
— Você tem que respeitar a Virgem Maria.
— Deus está vendo tudo isso.

O desapontamento de minha avó mais as insinuações de meus tios alimentaram minha repulsa contra o Cristianismo. Meus primos paternos diziam que eu não era ateu, mas ”à toa”. Do lado materno, não ser católico era sinônimo de ser ruim. E na escola era exatamente igual: nunca sofri intolerância, mas incompreensão. Os colegas achavam estranho, mas não discutiam muito. Os professores nada de mais falavam: ética profissional. Mas os pais dos alunos que por vezes eu encontrava eram bastante incisivos. Em suma, eu era o pária que mais se destacava. O ”do contra”. Faziam perguntas para mim, questionando meu ateísmo, para as quais eu ficava sem respostas. Isso me levou a estudar religião, a interessar-me por religião, a estudar a lógica e os argumentos religiosos e contra-religiosos. Cresci e continuei não acreditando no Cristianismo, só que agora eu tenho as respostas para as perguntas que me faziam quando eu era pequeno.

Como a toda ação se põe contra uma reação, durante décadas fui o que hoje chamo de ”ateu afetado”. Não contente em apenas repudiar a fé alheia, também passei a fazer todo tipo de chacota, grosseiramente interpelando cristãos caso me sentisse importunado. Reconheço que fui bastante ofensivo e que estava errado ao agir assim. Levou bastante tempo para eu amadurecer e aprender a respeitar a fé das outras pessoas, a colocar-me no lugar delas e compreender seus sentimentos, a entender o motivo pelo qual me tratavam daquela forma. Levou tempo para eu ver que nem tudo na religião cristã é ruim. Que embora muitos dos seus seguidores não sigam os mandamentos da própria fé, parte dos argumentos e instruções apresentadas podem sim ensinar uma forma justa de viver. Hoje já estou em paz com o Cristianismo. Porém alguns cristãos não estão em paz comigo ou com os ateus de forma geral.

O texto de hoje teve como inspiração mais um pastor evangélico fanático que em sua pregação instila em sua congregação preconceito contra os ateus, imputando-lhes crimes contra a humanidade e a pecha de serem inerentemente maus. Eu acreditei que havia superado essa questão: sempre que escuto tais preconceitos, simplesmente olho para o outro lado. Porém desta vez ao escutar tamanhas difamações minha repulsa reaflorou e precisei fazer algo. Denunciei-o e aqui desabafo.


2ª Parte

The Heretic! (as originally told by Emo Philips) | JokeToons

O grande problema que vejo nas religiões abraâmicas é a auto-intitulação de serem ”detentoras da verdade”. Somente minha religião está certa, todas as demais estão erradas. Mais ainda, somente meu deus único é verdadeiro, todos os demais deuses únicos são falsos. Mais ainda, somente tais e tais escrituras são válidas, todas as demais são inválidas. Mais ainda, somente determinada intepretação é correta, todas as demais intepretações são errôneas. Assim, as religiões abraâmicas têm por natureza fundamental separar as pessoas entre crentes e não crentes. Entre ”salvos e ”não salvos”. Entre certos e errados. Entre nós, os ”bons”, e todos os outros, os ”maus”. “Esses que não acreditam em nossa fé são os ateus/gentios/infiéis. Todos eles são maus, perigosos e capazes das piores atrocidades. Não têm religião, não tem moral. Vão todos para o inferno.”

Uma das principais falácias que escuto de cristãos é a de que ”todas as religiões levam ao mesmo deus” (no caso, o deus em que eles acreditam). Dessa afirmação eu depreendo algumas coisas. A primeira é que demonstram total ignorância específica acerca das demais religiões do mundo. Não sabem ou não compreendem que sua religião não é a única manifestação possível de fé. Também não entendem que a humanidade cultuou e cultua muitos deuses, muitas entidades, e que a questão acerca do sobrenatural não é exclusiva de sua cultura.

Do grande deus dragão Quetzacoatl, aos deuses irmãos Izanagi e Izanami. Nos nove mundos seguros pela grande Yggdrasill, Thor, filho de Odin, este filho de Börr, este filho Búri, este criado por Ymir, a vaca primordial mãe de todos os Aesir. Oxum, Xangô e tantos orixás que foram pessoas como nós, mas diferentes dos santos, pois os orixás vieram do criador de todo o axé, Olorum. Urano desposou Gaia, que concebeu os titãs, donde vieram os deuses, dentre eles Zeus, Poseidon e Hades. Tupã e Iara, filhos de Nhanderuvuçu, controlam a natureza e protegem os homens. Brahma cria, Vishnu mantém, Shiva destrói… dependendo da tradição, pois Ganesha também faz parte da ”administração celeste”. Krishna fez milagres durante o grande Mahabharata, a hedionda guerra fratricida entre os Kaurava e os Pandava, e personificou-se como o universo, segundo o Baghavad Gita. Amon, Osíris, Hathor, Ptah, Anúbis vivem conforme as cheias do Nilo. Cada Xamã, cada Pajé, cada Alquimista que viveu neste mundo teve sua fé, sua crença, sua história.

Afirmar que somente você está certo e que todos os outros estão errados é muitos mais do que egocentrismo aos meus olhos: é arrogância. Acreditar que faz parte de um povo escolhido? Delusão de prepotência.

Se você, leitor, for cristão, e chegou até aqui, deve estar se perguntando o que eu penso sobre o Cristianismo, sobre os milagres, sobre Jesus? É fácil explicar: do mesmo modo que você considera que os deuses acima são mitologias, para mim, as escrituras bíblicas também são mitológicas. São tão críveis e verossímeis como as façanhas de Héracles (ou Hércules, se quiser usar o nome romano).

Moisés abriu o mar vermelho com seu cajado, tanto quanto Héracles abriu o Estreito de Gibraltar com a força de seus braços. Noé construiu a arca, tanto como Héracles navegou com os Argonautas atrás do Velocino de Ouro. Davi matou o gigante Golias, o Filisteu, tal como Héracles matou Gerião, o gigante de três cabeças. Jesus tornou água em vinho, tal como Héracles limpou os estábulos de Áugias, desviando o curso de dois rios. E quanto a trazer de volta os mortos? Bem, nesse caso Héracles não fez nada. Mas Krishna trouxe de volta à vida várias pessoas, incluindo os seis filhos de Devaki e Vasudeva. Attis (Grécia) e Mithra (Pérsia) também ressuscitaram ao 3º dia.

O que torna uma história verdadeira e a outra falsa? Por que acreditar que uma é verídica e a outra fantasiosa? Por não acreditar no Cristianismo, eu sou chamado ateu, embora eu mantenha minha mente aberta ao extraordinário e não negue o transcendental. (O termo técnico seria, portanto, agnóstico). Eu creio no mundo espiritual, ainda que eu não faça idéia de como ele funciona. E acredito que ninguém sabe ao certo como ele é, embora todo mundo goste de dar palpites… Eu, portanto, aprendo e apreendo o que há de bom de todas as religiões do mundo, mas não venero nenhum deus tampouco nenhum homem. É isso que me torna ateu aos olhos das congregações.

NOTA: ”Ateu” é uma alcunha dada por alguns religiosos para identificar quem não adora sua(s) divindade(s). Ou apóstata (que nome feio!) para quem deixou de acreditar. Ninguém se apresenta como ”não-futebolista” ou ”não-pianista” ou ”não-filatelista”, ou seja, ninguém se apresenta a partir do que não é.

A idéia de um deus único criador não faz sentido para mim. Também não acredito que ética e moralidade sejam derivadas de religiões, mas sim do reconhecimento do conceito transcendental de justiça. Acredito que devemos fazer o bem por ser o certo e não devemos fazer o mal por ser errado. Não espero recompensa por fazer o bem, nem evito o mal por temer punições. Acredito que isso é tão evidente por si mesmo que procurar agir bem por ”temor a deus” é em si uma falha de caráter.

Eu acredito que devemos deixar os deuses resolverem os assuntos divinos e cuidarmos nós dos assuntos mundanos. Se eles quisessem mudar o mundo, já o teriam feito. Cabe a nós resolvermos nossos próprios problemas (a maioria deles, criados por nós mesmos). Em lugar de olhar para o céu, olhe para o lado: você vai encontrar alguém que pode ajudar. Se cada um de nós ajudar um pouquinho, fazendo só a própria parte, podemos tornar este nosso próprio mundo no paraíso prometido.


3ª Parte

Há uma separação entre a vida pública e a vida privada dos indivíduos. O que é privado não é público, não concerne à sociedade (às outras pessoas). E dentre as coisas privadas, a religião é matéria de foro íntimo, isto é, é algo que diz respeito somente ao próprio indivíduo. É uma decisão subjetiva, emotiva, afetiva, intuitiva. Não é passível de argumentação racional, mas sim é um ”salto de fé”.

O proselitismo inerente às religiões/ideologias monoteístas abraâmicas é um caso sui generis na história das religiões. Enquanto cristãos, judeus e muçulmanos esforçam-se para converter outras pessoas à sua crença, budistas, hindus, animistas e xamanistas tão somente seguem sua fé, convidando quem quiser conhecê-la e pedindo que lhes deixem em paz. Não catequizam, nem proscrevem do seu meio quem não tem a mesma crença.

A intolerância religiosa, o fanatismo, essa falta de consideração com o coração do próximo é bastante comum entre os monoteístas. Querer impor algo tão pessoal a outrem é sintoma de pequenos proto-ditadores sem poder, pessoas que querem dominar o mundo, moldá-lo segundo sua própria vontade, escondendo-se covardemente atrás de seletas escrituras. E todo tolo que quer dominar o mundo tão somente quer forçar os outros a fazer o que ele mesmo não pode. São pessoas que não aceitam que o mundo não gira ao redor delas, que não são especiais, que não têm importância neste vasto universo. E que podem estar erradas.

Um dos mais importantes sutras (texto sagrado) dentro do budismo é o Sutra do Diamante, que abaixo segue. Além dele sugiro também considerar uma máxima do Hinduísmo: ”se quiseres apoio, apóia-te em ti mesmo”. Afinal, a prece vem do coração, e este nunca te faltará.

Kalama Sutra – O Sutra do Diamante (adaptado)

Tenha confiança não no mestre, mas no ensinamento.
Tenha confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras.
Tenha confiança não na teoria, mas na experiência.
Não creia em algo simplesmente porque ouviu.
Não creia nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração.
Não creia em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos.
Não creia em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados.
Não creia no que imagina, pensando que um deus lhe inspirou.
Não creia em algo meramente baseado na autoridade de seus mestres e anciãos.

Mas após contemplação e reflexão, quando perceber que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para você quanto para os outros, então o aceite e faça disto a base de sua vida.

Sidarta Gautama, príncipe dos Shakyas. Venceu todos os males do mundo e despertou para a verdade do universo: a morte não é o fim de tudo; a morte não é mais do que outra transformação.

Bandeira nacional

Publicado originalmente em 02/02/2017 (revisado, adaptado e ampliado em 02/02/2021)

Você sabia que as letras são escritas com a mesma cor verde-oliva?

Neste país de analfabetos funcionais, em que doutos apedeutas julgam o universo ao seu redor com a propriedade de magistrados da mais alta corte e a onisciência infalível de repórteres de TV, volta e meia a proposta para alteração do pavilhão nacional instiga os mais primitivos instintos cívico-tribais e falaciosa verborragia contra a ”evidente” afronta à pátria…

Veja mais: Discussão e debate no país dos analfabetos

Vamos com calma…

Embora a bandeira nacional seja símbolo do país, protegido pela Constituição Federal (que hoje é apenas um conjunto de rabiscos com meras sugestões), a apresentação em si da bandeira é objeto de lei ordinária. Basta o Congresso decidir e vai para a sanção presidencial. Como nosso Congresso Nacional aparenta não ter muito trabalho a fazer, tampouco palpite para dar, uma simples iniciativa deveria ser suficiente. Mas nem tudo nestas terras sul-americanas é como ”deveria” ser.

1º – a proposta é antiga;

Há muito tenta-se colocar a palavra ”amor” na bandeira. Há projetos de lei tramitando há décadas (e arquivados também) para tal fim. Essa proposta não é nova e não deveria surpreender. Mas, como se diz, o povo brasileiro não tem memória, tem apenas uma vaga lembrança.

2º – a proposta tem fundamento;

O lema desta República vem da frase ”Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim.”, lema positivista. Gostem ou não, esta republiqueta foi fundada com base na ideologia positivista e até hoje a máquina pública é permeada por ela. Não se está criando nada novo, apenas completando a frase original.

3º – a proposta faz sentido.

Nosso país precisa mesmo de mais amor (fé, esperança e caridade — as três virtudes teologais — se considerarmos que é um país eminentemente cristão). Além do mais, os símbolos nacionais devem simbolizar (desculpe a redundância) a nação. E essa bandeira não simboliza o que almejamos para a nação: simboliza um país que não queremos mais, simboliza a burro-cracia que é esta República, simboliza nosso fracasso enquanto sociedade, simboliza a orgia pós 1988.

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Veja mais: O povo no poder – Uma crítica ao governo de Jair Bolsonaro

Ora, essa nova versão com 27 estrelas (e vários erros astronômicos) foi legalizada em 1992. Já tivemos 9 constituições, a última mais remendada que as minhas meias! Não vejo mal algum em colocar um pouco mais de amor neste país. Talvez assim, mudar a bandeira deixe de ser um assunto mais importante do que sanear a cultura pervertida desta sociedade.

Como a política de cotas atrapalha os negros e os pobres

Em continuação à minha postagem anterior, O erro da política de cotas, segue vídeo em que Thomas Sowell evidencia os problemas pertinentes às chamadas ”políticas de ações afirmativas”. Conceito importado do estrangeiro, aplica-se no Brasil a idéia de que é necessário baixar os requisitos mínimos necessários para o ingresso na carreira acadêmica ou na carreira de trabalho. Por algum motivo que ainda não entendi, os defensores dessa idéia consideram que diferenciar pessoas segundo a cor de suas peles não é racismo.

Ofertar vantagens a grupos selecionados sob pretexto de ”reparação histórica” ou qualquer outro motivo não tem ajudado em nada os grupos a que se supõe beneficiar. Pelo contrário, em todos os lugares em que é aplicada, há a diminuição dos índices de proficiência dos acadêmicos e trabalhadores formados, e rejeição do mercado de trabalho (empregadores) para a contratação de pessoas formadas dentro desse contexto. Veja mais em meu artigo A falácia sobre a Educação, em: Edições Independentes.

Ações afirmativas são um movimento com fundo político, não social. Visam a manipulação da percepção da população sobre sua realidade histórica e socioeconômica, deturpando valores, padrões e parâmetros; criam artificialmente segregação, selecionando segundo interesses escusos e estratégicos grupos de pessoas que podem ser manipuladas politicamente; depreciam a formação resultante, conseqüentemente formando (meramente licenciando ou diplomando) profissionais/acadêmicos inabilitados para o exercício da práxis em seus ofícios; e o mais temerário: tendem a capturar ideologicamente os beneficiários dessas ações, cooptando-os à doutrina neo-marxista pós-moderna gramsciana.

How Affirmative Action Creates Dangerous Double Standards | Thomas Sowell | Sowell Explains

Affirmative Action is held as a practice to help minority students reach equal life outcomes as their non-minority counterparts. It does so by lowering the admission standards and accepting a pool of candidates who otherwise wouldn’t have qualified for that seat, in order to maintain a ‘diverse’ student body.

This double standard can lead to unseen and dangerous outcomes that are often ignored in the pursuit of social justice. Thomas Sowell explores this topic in this video and discusses how the costs of this double standard can lead to more harm than good.

This is an excerpt from the book ‘The Thomas Sowell Reader’.

 

Affirmative Action: Who does it really help? | Thomas Sowell | Sowell Explains

Affirmative Action has been a long-standing policy in most universities and government departments. It is carried out under the unquestioned assumption of ‘Diversity’ being our greatest strength.

Thomas Sowell discusses how it affects various minority groups at each other’s expense, and how it may be producing the opposite results that it was intended to produce.

This is an excerpt from the book ‘The Thomas Sowell Reader’

Protesto contra decisão da UERJ em exigir passaporte sanitário.

Novembro de 2021.

Meu nome é Pedro Figueira, sou servidor do Estado do Rio de Janeiro vinculado à UERJ.
Estou gravando este vídeo com o propósito de registrar meu protesto público contra aquilo que acredito ser uma violação aos meus direitos individuais.

O Conselho Universitário da UERJ decidiu que vai exigir o passaporte da vacina para os servidores: só entra para trabalhar quem foi vacinado. Quem não foi vacinado, é proibido de trabalhar e deve ser registrada falta não abonada. No meu entender, não é uma falta, porque o funcionário foi impedido de entrar, ele não se negou a ir. E não abonar a suposta falta, no meu entender, é punir o servidor que não se vacinou antes mesmo de um processo administrativo.

Eu entrei em contato com o RH, e a resposta que eu tive por escrito foi um copia e cola da nota da reitoria dizendo que é obrigatório ou vai ser dada falta.

Eu acredito que isso é uma irregularidade administrativa, possivelmente talvez até uma ilegalidade, mas não cabe a mim dispor sobre isso, isso é atribuição das autoridades competentes. O fundamento do meu argumento está por escrito no meu site. pedrofigueira.pro.br para quem quiser ver mais a fundo.

Ainda assim eu quero deixar meu protesto. Eu defendo que meu empregador, seja ele quem for, não tem o direito de interferir nas escolhas que faço em minha vida pessoal, em minha vida privada. A própria reitoria da UERJ já havia reconhecido em janeiro deste ano não ter competência jurídica para definir isso. Só que agora ela me obriga a escolher entre a vacina ou o desemprego. E eu acho que isso não é certo nem justo.

Outro assunto.

Disso posto, eu também gostaria de deixar registrada minha frustração com relação aos mandatários do executivo federal. Nestes últimos dois ou três anos, cotidianamente vi nossa liberdade de opinião, liberdade de expressão, liberdade de locomoção, liberdade de trabalho, nossas liberdades individuais serem… restringidas.

Gente foi presa por “falar o que não devia”, controlam o que a gente diz, apagam conteúdo ”impróprio” sobre remédios… Para mim está sendo só uma vacina. Mas e quem teve suas lojas fechadas? Quem viu seu ganha pão sendo tomado do dia para a noite? Quem foi arruinado durante esse período?

Eu quero registrar minha frustração com o governo federal, que não se impôs como eu acredito que podia e deveria. Eles juraram proteger e defender a constituição e as leis, proteger e defender nossos direitos e nossas liberdades, mas foram omissos. Viram o que estava acontecendo e permitiram. Foram coniventes com tudo o que aconteceu.

Eu não aceito o argumento, “não fui eu quem mandou fechar”, “me tiraram a responsabilidade”. Um líder toma a responsabilidade para si. Se os demais estão (e ainda estão) agindo fora dos limites, se o legislativo federal é omisso, cabia ao executivo impedir que essas coisas tivessem acontecido e proteger os mais fracos..

Ele tem o povo e as leis ao seu lado. Se não faz, lamento concluir, é por covardia. E isso custou carreiras… e vidas… Para mim é só uma injeção. Para a nação é a falta de alguém que EFETIVAMENTE defenda sua liberdade. Não só no discurso, mas na ação.

É obrigação moral de todo homem de bem rejeitar a injustiça, vindo ela de onde for, e usar o que estiver ao seu alcance para combatê-la. Eu só tenho minha palavra. Então tudo o que posso fazer aqui é registrar o meu protesto e minha frustração.

Passaporte sanitário

Atualizado em 26/11/2021: inserida imagem.

O que pode um único homem contra o poder coercitivo do Estado?

De meu caso particular.

Conforme previ em {meu último texto}, as atividades regulares retornariam brevemente quando do fim do inquérito investigativo realizado pelo Senado Federal. À semana passada, recebi com todos os servidores do Estado do Rio de Janeiro a convocação para o retorno ao trabalho presencial a partir de 1º de dezembro de 2021.

O órgão de Estado a que estou vinculado, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, preparando-se para o retorno às atividades presenciais, optou por exigir de todos o chamado ”passaporte sanitário”, algum documento que comprove que o indivíduo vacinou-se contra a COVID-19. Os funcionários que se recusarem a tomar a vacina não poderão entrar para trabalhar e suas ”faltas” não serão abonadas. Veja o anúncio público: {PS1}

Tendo sido um dos que optaram por não se vacinar, temendo efeitos colaterais, neste momento vejo-me constrangido a fazer a escolha: vacina ou desemprego.

Por que optei por não me vacinar? 

Que conste: eu fui contaminado duas vezes nesta pandemia pelo coronavírus. Estou naturalmente imunizado. Mas nada disso conta: o que vale é o papel, a vacina e a burocracia. (E será que a vacina interfere na imunização natural? Ninguém sabe ao certo.)

1) Não posso escolher a vacina: dentre todas as vacinas, a Coronavac é que a que se apresentou mais segura; porém os responsáveis pela distribuição e imunização não permitem que os cidadãos escolham qual vacina tomar; tenho justificados temores quanto a possíveis efeitos colaterais dos demais imunizantes, embora não apresente neste momento os sintomas das doenças congênitas de meus familiares;

2) Faço uso continuado de remédios (alguns pesados) que afetam o sistema motor, e há casos reportados de vacinados que foram acometidos pela síndrome de Guillan-Barré (veja o próximo tópico). Até que ponto o uso concomitante da vacina e dos medicamentos que uso pode influenciar ou aumentar o risco de problemas motores futuros? Não há dados estatísticos ou estudos acerca disso.

3) Meu pai faleceu em dezembro do ano passado por problemas cardíacos, tal como meu avô paterno. Minha mãe tem problema cardíaco congênito e sua prima faleceu esta semana pelo mesmo problema. Essa prima aparentemente apresentou complicações derivadas da vacinação. Há sabidamente casos de desenvolvimento de miocardite em jovens adultos sem prévio diagnóstico. Embora eu tenha 35 anos e não apresente problemas cardíacos evidentes, qual é a possibilidade de isso acontecer comigo? Não há estudos acerca disso também.

4) E finalmente o risco de trombose. Trombose após a vacinação foi um dos primeiros efeitos colaterais relatados. Eu sofro de má circulação nos membros inferiores e estou acabando de me recuperar de uma úlcera venosa. O risco existe, ainda que pequeno, e é inegável mesmo para o maior defensor da vacinação em massa. Por que eu devo me submeter a esse risco, se minha não vacinação é negligenciável para os vacinados?

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Contra fatos não há argumentos

Ainda que eu seja criticado por ter medo em excesso com relação à vacinação, ninguém está em meus sapatos para saber como é minha vida. Todos os meus parentes faleceram. Nesta vida, sou somente eu e minha mãe com sua saúde frágil. Se eu faltar, como ela faz? Seguro de vida e de casa bastarão? Eu aprendi uma vida inteira a nunca correr riscos, por vezes, mesmo os necessários.

Da questão jurídica

A UERJ não tem competência jurídica para exigir a vacinação de seus funcionários. Ela não é órgão participativo da Secretaria de Saúde, a quem compete definir as políticas sanitárias. Essa falta de competência jurídica já foi examinada pela Reitoria em 31 de janeiro deste ano, conforme o arquivo a seguir: Nota de esclarecimento à comunidade acadêmica da Uerj  – UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro 

A UERJ também não tem competência jurídica para declarar antecipadamente faltas não abonadas a quem não se vacinar. Não houve o devido processo administrativo. Não há previsão legal dentro do regulamento dos servidores públicos do Estado (Decreto Estadual 2479/1979). Impedir o acesso ao local de trabalho é o mesmo que uma suspensão, punição prevista, porém não aplicável sem os devidos trâmites. E em quê se baseia essa punição antecipada?

Ao observarmos o emaranhado de leis que em que este país vive, devemos partir do decreto do Governo do Estado, responsável por determinar o retorno às atividades presenciais. Nele:

Decreto Estadual 47.801/21, Art. 6 § 1º:

Observado o disposto no caput, os agentes públicos integrantes da Administração Direta e Indireta, que não tenham optado pela vacinação […] deverão retornar às atividades de trabalho presencial.

Há, portanto, previsão legal do Governo do Estado sobre a conduta dos não vacinados, uma vez que ele reconhece explicitamente que a vacinação é uma opção.

Porém, segundo divulgado no site da UERJ, o retorno às atividades presenciais ocorrerá seguindo o Decreto Municipal 49.335/21 da prefeitura do Rio de Janeiro, que exige o chamado ”passaporte sanitário”:

“O uso de máscara e a apresentação do passaporte de vacina serão obrigatórios para todos que circularem nas dependências da Universidade. A comprovação de imunização contra a Covid-19 poderá ser feita pelo cartão de vacinação ou pelo aplicativo Conecte SUS.”

Entretanto, o próprio 49.335/21, não abrange em seu texto instituições de ensino, pertencentes a qualquer esfera governamental. Aderir ao decreto é, pois, discricionariedade administrativa interna da UERJ. Convém também lembrar que decretos não têm força de lei e às leis Federais e Estaduais são submetidos.

Tal matéria não foi examinada pelo plenário do STF e, conforme os dispositivos legais seguintes, a exigência de ”passaporte sanitário” é uma atividade ilegal:

a) Lei 6.259/75 art.3º: Cabe ao Ministério da Saúde a elaboração do Programa Nacional de Imunizações, que definirá as vacinações, inclusive as de caráter obrigatório.

b) Lei 10.406/02 art.15: Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica.

c) Constituição Federal art.5º II, XV, LIV;

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;

LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;

d) DUDH/1948 art. 7, 12, 13.1, 23.1.

Artigo 7 Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Artigo 12 Ninguém será sujeito à interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataque à sua honra e reputação. Todo ser humano tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.

Artigo 13 1. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.

Artigo 23 1. Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.

e) Portaria MTP 620/21

Art. 1º É proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso à relação de trabalho, ou de sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar, deficiência, reabilitação profissional, idade, entre outros, ressalvadas, nesse caso, as hipóteses de proteção à criança e ao adolescente previstas no inciso XXXIII do art. 7º da Constituição Federal, nos termos da Lei nº 9029, de 13 de abril de 1995.

  • 1º Ao empregador é proibido, na contratação ou na manutenção do emprego do trabalhador, exigir quaisquer documentos discriminatórios ou obstativos para a contratação, especialmente comprovante de vacinação, certidão negativa de reclamatória trabalhista, teste, exame, perícia, laudo, atestado ou declaração relativos à esterilização ou a estado de gravidez.

E, por fim, o princípio da autonomia universitária (CF88 art. 207) garante que sua administração interna é autônoma, porém não é soberana. O Estado não pode dizer como a Universidade deve se administrar, mas a mesma não pode violar direitos e deveres a todos impostos por força das leis. Sua autonomia restringe-se às atividades internas, não à vida particular de seus funcionários ou usuários.

Da derrota consumada antes do pleito

A lei e o bom senso estão evidentemente ao meu lado. Todos os argumentos estão bem cobertos e, definitivamente, eu estou com a razão.

E o quê isso importa? De quê isso vale? O que pode um único homem contra o poder coercitivo do Estado? O que pode um servidor público fazer para se proteger de seu empregador?

Façamos uma experiência mental. Suponhamos que eu siga os protocolos, que eu impetre um mandado de segurança para garantir meu direito de trabalhar, de ingressar em meu local de trabalho, de me permitir cumprir o que foi decretado pelo Governador do Estado. A análise deste pleito dependerá do juiz que for designado para apreciá-lo e, quem vive no mundo jurídico, sabe que mandados de segurança contra o Estado raramente são acatados. Eu sei, já passei por isso duas vezes antes, mesmo tendo ganhado os processos.

Suponhamos que eu decida processar meu empregador. Um servidor público na defensoria pública processando um órgão público. Sem garantia de que eu ganharei a ação, pelas mesmas razões apresentadas: o Estado Brasileiro é corporativista e se defende de seus cidadãos.

Contratar um advogado? Veja você mesmo, é mais do que meu salário: https://www.oabrj.org.br/sites/default/files/tabela_11_2021_site.pdf

Se eu optar pela batalha, será uma luta praticamente perdida. Talvez o mais razoável seja abaixar a cabeça e aceitar o poder dos poderosos. Mas aí eu entro em outro conflito interno: e os princípios? Ou nos apoiamos em princípios, ou não nos apoiamos em nada.

// Aqui inicia-se o escopo de um texto crítico à UERJ, conforme permitido em lei.1

Da questão política

O atual Magnífico Reitor da UERJ, Ricardo Lodi Ribeiro, foi advogado de Dilma Vana Rousseff durante seu processo de impedimento e remoção da Presidência da República. Essa senhora foi posteriormente convidada a ministrar a aula magna do novo período de reitoria. Rogo ao leitor perscrutar as matérias selecionadas pelo ”CLIPPING UERJ”, bem como o conteúdo dos simpósios e convenções ministrados à distância nos canais das redes sociais da UERJ, como Youtube e Facebook.

Do modo como essa exigência do passaporte sanitário está sendo feita, qualquer homem médio pode vir a suspeitar que uma possível motivação ideológica possa estar subjacente a essa postura da UERJ, o que não condiz com os princípios democráticos que ela defende. Por que uma ação tão enérgica (e a priori ilegal) para obrigar a vacinação, se o Governo Federal já se manifestou contrário a essa obrigatoriedade?

Tal como assinou o reitor, “Até porque, o interesse na proteção à saúde de todos prevalece sobre o direito individual de não se vacinar, pois a saúde pública deve se sobrepor ao obscurantismo.” Colocar os direitos individuais abaixo dos direitos coletivos não apenas não é uma interpretação unânime no mundo jurídico, como tem exemplos históricos profundamente questionáveis em que foi aplicada. Tem a UERJ direito de impor tal entendimento jurídico sobre seus funcionários? Quem lhe outorgou tal autoridade?

E quanto ao termo ”obscurantismo”? Esse termo foi freqüentemente utilizado durante a última Comissão Parlamentar de Inquérito, em que a população viu diariamente senadores utilizarem-no para referirem-se contra o Governo Federal. O uso desse termo em um comunicado público pode levantar questionamentos quanto à imparcialidade das decisões tomadas e à transparência das motivações das mesmas.

// Aqui encerra-se o escopo do texto crítico.

Do fim da liberdade

Eu sou um libertário. Defendo a liberdade. Defendo o indivíduo frente ao Estado.

Mas o que pode um único homem contra o poder coercitivo do Estado?

O que pode um único homem quando aqueles que deveriam protegê-lo se abnegaram de seu juramento?

O que ora ocorre comigo, esta invasão em minha vida particular, essa imposição da vontade de outrem sobre minha vida, sob escusas mil, é exatamente tudo o que eu sou contra.

De que adianta defender o Governo Federal, se o mesmo não nos protege? Não protege nossa liberdade?

Liberdade… O mais sagrado de todos os direitos, que é o de que ninguém mais forte que você te obrigará a fazer o que você não quer.

Não há liberdade neste maldito país socialista.

Ou nos apoiamos em princípios, ou não nos apoiamos em nada.

E este país não se apóia em nada além da luta pelo poder.


  1. Este texto está de acordo com as restrições que tenho enquanto servidor público de escrever e publicar artigos críticos aos órgãos de Estado.
    DECRETO Nº 2479 DE 08 DE MARÇO DE 1979
    APROVA O REGULAMENTO DO ESTATUTO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS CIVIS DO PODER EXECUTIVO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
    CAPÍTULO III
    Das Proibições
    Art. 286 – Ao funcionário é proibido:
    I – referir-se de modo depreciativo, em informação, parecer ou despacho, às autoridades e atos da Administração Pública, ou censurá-los, pela imprensa ou qualquer outro órgão de divulgação pública, podendo, porém, em trabalho assinado, criticá-los, do ponto de vista doutrinário ou da organização do serviço;