O mau caráter coletivo brasileiro e sua ignorância específica

Esta postagem é uma promoção de meu último texto!
Nesta segunda parte, analiso a conjuntura sociocultural brasileira e explico alguns conceitos sobre argumentação.

Leia em: Discussão e debate no país dos analfabetos: Parte 2 de 3

Fonte: https://www.flickr.com/photos/markcarey/2310361322/

A ignorância coletiva brasileira

Esta postagem é uma promoção de meu último texto!
Nesta primeira parte, analiso o problema do analfabetismo funcional juntamente com a manipulação falaciosa de dados estatísticos pelo governo.

Leia em: Discussão e debate no país dos analfabetos: Parte 1 de 3

200 milhões de babacas

1 criminoso
11 comparsas
40 milhões na manada
200 milhões de babacas

Babaca: adjetivo e substantivo de dois gêneros (por que só existem dois); diz-se do indivíduo que, por inocência ou ingenuidade, deixa-se enganar.

Um ano se passou desde as eleições. A festa acabou: os convivas foram embora, e do convescote sobraram as migalhas do pão que o diabo amassou. A população acreditou que apenas votando as coisas mudariam para melhor, que o novo presidente resolveria tudo por elas. Como escrevi, o esporte nacional é o jogo da batata quente: joga-se o problema nas mãos de outrem para que o resolva. Os convivas foram embora: as grandiosas manifestações pró-Bolsonaro e pró-Brasil tornaram-se pífias hashtags #tamojunto. E o anfitrião se vê só no Planalto.

As migalhas que ora devoramos são o que sobrou do sonho de ver ainda nesta encarnação um Brasil melhor. Jogamos um presidente no covil das feras, deixamo-lo sozinho para que resolva os nossos problemas. Sem militância devidamente organizada o resultado não poderia ser outro que ver todas as suas propostas barradas ou anuladas, além de vê-lo tomar algumas atitudes que não fazem sentido.

Conforme disse ano passado, não acreditava que Bolsonaro seria um estadista de altíssimo nível. Meu objetivo ao votar nele foi especificamente tirar o PT do poder. Conseguimos de brinde alguém que não roubasse e que defendesse pautas conservadoras e liberais.

Tiramos os vermelhos do poder central, mas não apoiamos o presidente a enfrentá-los ao seu redor. O Congresso e o Judiciário estão infestados de marxistas com suas pautas deletérias à humanidade. E o “plano B” do chefe da quadrilha se concretizou.

O brasileiro foi ingênuo acreditando que apenas votando tudo se resolveria. Deixou nas mãos de um só a batata assada e jogou-o ao forno ligado. Foi ingênuo acreditando que havia justiça no país dos ladrões.

40 milhões de doutrinados aplaudem o bandido. E ainda vai ter gente dizendo que vivemos numa ditadura…

Somos todos babacas.


Em adendo:

Nem tudo vai mal. Durante os últimos 10 anos só se via e ouvia na mídia escândalos de corrupção. Petrolão, Mensalão, Propinoduto e um sem número de alcunhas que demonstram a criatividade brasileira para nomes chamativos. Desde outubro passado, falou-se de tudo, criticou-se tudo, mas não houve um único escândalo de corrupção. Os escândalos são quanto ao enxugamento do Estado e sua descentralização, bem como as pautas de valores familiares, pró-vida, contra-vagabundo, ordem e progresso — aquela coisa escrita na bandeira…

Coisas boas vêm ocorrendo todos os dias. Muitas mesmo. O país vem avançando a passos largos. Porém a soltura do maior criminoso do país para posar de oprimido é estupefatora. O mais perplexador nisso tudo é o fato de ainda haver quem realmente acredite em PT, PSOL, PSTU, PCdoB, PDT, PQP e CIA. Puxa vida, será que realmente não vêem que estão MENTINDO o tempo todo? Será que não percebem que os marxistas são uma organização criminosa mundial que vende sonhos e rouba vidas? Que se aproveitam dos mais pobres e mais ignorantes para fazê-los sua massa de manobra em sua ânsia pelo poder?

É como uma manada inteira indo alegremente ao próprio abatedouro…

Gosto se discute, sim.

Caverna de Chauvet
Cavalos da caverna de Chauvet – Local da descoberta: Grotte Chauvet, Ardèche, França
Data: 31.000 AEC (Aurignaciano)
Fonte:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chauvethorses.jpg

“O principal trabalho de um artista é encontrar as coisas na natureza que a pessoa comum não consegue ver e colocá-las na tela, mas fazendo um trabalho melhor do que a natureza, pois a natureza é tudo exceto uma artista. Somente o ser humano pode apreciar arte e somente um ser humano pode criar arte. O problema de muitos artistas é meramente copiar o trabalho da natureza em lugar de criar arte baseados nas regras da natureza.”

Benjamin Albert Stahl (1910 ~ 1987)

As artes são (dentre outras coisas) algo que distingue o homem dos demais animais. Essa talvez seja a mais notória diferença entre nós e as demais espécies deste planeta. Até onde sabemos, somente nós somos capazes de fazer e apreciar arte, perceber e sentir a beleza em suas mais variadas formas. Somos capazes de compreender a beleza da natureza, o modo como ela trabalha e como se dá, e não somos apenas passivos: podemos criar coisas belas.

E quais são as filhas de Mnemosine? A Memória, mãe de todas as musas, mantém imperecível na eternidade finita da História só aqueles que em si vencem o sagrado e infinito poder destrutivo do tempo.

Dentre todas as artes, a mais importante das musas é a Música. É a Matemática que se faz tangível, tocável; que permite ao inculto e ao iletrado ingressar fisicamente no universo das esferas celestes. São as equações cognoscíveis pela razão pura mostrando-se materialmente na grosseira mundanidade cotidiana aos astrofísicos e aos metafísicos. Ondas e vibrações invisíveis, um vislumbre da perfeita geometria dos céus permitido caridosamente aos homens para igualar os doutos aos ignorantes, ambos, talvez, inconscientemente.

A mais simples dentre todas é a Pintura. E também, a mais poderosa. A brincadeira com as cores permite criar o jogo de ilusões. Um quadro é uma janela (ou talvez o buraco de uma fechadura) para o mundo visto pelo pintor com seu coração, por onde podemos espiar. Uma imagem fixa no tempo daquele instante vista por seus olhos d’alma. Minutos, semanas ou anos de trabalho que podem ser admirados por apenas alguns segundos. No espaço finito de uma tela, o pintor por meio de seu equipamento tem o poder infinito de ver e mostrar absolutamente tudo o que quiser, real ou não, possível ou não, inteligível ou não. O poder divino da criação de mundos visível por uma janela que não temos como atravessar.

Mais delicada e complexa é a Escultura. Em lugar de abrir uma janela ao seu mundo, o escultor traz (literalmente) parte de seu mundo para o nosso. Torna palpável sua imaginação, real suas idéias, tocável seus sentimentos. Molda a maleável argila ou o rijo metal até se conformarem à sua vontade. Ou delicadamente desbasta a pedra, cuidadosamente removendo os excessos, revelando a beleza que já estava lá. A confusão entre imaginação e realidade que levou Pigmalião a amar sua Galatéia e Michelângelo a gritar com Davi demonstra que a delicadeza e a complexidade não estão somente na confecção da obra, mas na relação do artista com a mesma.

A mais difícil talvez seja o Desenho. Conferir à bidimensionalidade de uma tela a ilusão de espaço é uma tarefa simples se comparada com o intento reverso. Alçar linhas e cores à grandeza da vida requer técnica e talento. Qualquer falta menor se mostra um erro gritante. Contar uma história por meio de imagens exige precisão e sensibilidade do autor. Em cada quadrinho ou página inteira, a fatia de uma vida que nunca existiu. Se é árduo capturar a imagem de uma idéia no papel, colocá-la em movimento o é muito mais. A Animação é das mais laboriosas e extenuantes artes coletivas, de cujo resultado final depende muito esforço, organização e disciplina de seus colaboradores.

A Dramaturgia é a mais polêmica. Platão já a descartava como sem valor. Segundo ele, vivemos num mundo falso, uma cópia do verdadeiro mundo que há nas idéias. O Teatro, portanto, é uma cópia falsa da cópia falsa que vivemos. Mas se na Dramaturgia vemos aquilo que não somos, também podemos ver o que poderíamos ser e as vidas que poderíamos ter. A representação da emoção humana é um retrato de nós mesmos. Como agiríamos se fôssemos nós? Se bem feito, pode instruir, pode edificar, pode servir como instrumento para nos melhorarmos, alertando sobre aspectos de nossa própria natureza que por vezes não enxergamos, ou mostrando caminhos que não havíamos percebido antes também poder trilhar.

E por fim a Literatura, a mais íntima e solitária das artes. A linguagem, ferramenta de trabalho do filósofo, cela e portal da razão humana, tentando expressar o que move o coração, deixa para trás a frieza científica e a superficialidade da comunicação vulgar para se tornar transporte de almas, levando-as a um mundo que não é visto com olhos do corpo, mas efetivamente criados pela imaginação de cada leitor. Dramaturgia de um para um, completa-se quando o que o leitor torna-se ator e contra-regra da mesma peça, cujo figurino e cenário, brechas não escritas no conto, são preenchidas por sua criatividade. Efetivamente, cada leitor-espectador cria sua própria versão da história; e a cada vez mais surge uma nova história para contar.

Ludwig van Beethoven
Sinfonia nº 9 – Excerto
Filarmônica de Berlim
Regência de Claudio Abbado


”A vida passa cada vez mais depressa” já diziam os antigos. E mesmo reclamando, continuamos acelerando sem perspectivas de apreciar a paisagem que se torna um borrão fugaz na janela dum veículo ou uma monótona cena da mesmice do engarrafamento.

E a dual natureza humana, capaz dos mais belos sonhos e dos piores pesadelos, também se manifesta através da arte. Natureza contestadora por natureza contesta o contestável e o incontestável. Irreprimível e bélica, a alma humana encontra no embate e no combate seu lócus no cosmos. O homem critica o mundo em que vive e (que) não se dobra à sua vontade, tal como o adolescente contesta os costumes da família em que nasce e como a criança manhosa contesta a realidade em que nasceu. Crescemos, mas não mudamos muito. Apenas o nível, o objeto e a forma da crítica se complexificam. É da natureza humana questionar, indagar, perguntar e não se conformar, mas querer sim que todo o resto (o mundo, a sociedade e o universo) a aceite e se conforme sem questioná-la.

É como o militante que não se conforma com o corpo com o qual nasceu, com a família que o criou, com a sociedade que o educou, e exige que todos o aceitem tal como é.

Em mais pacífico tom, o homem pode também ser movido pelo singelo desejo de mudança ou pela curiosidade. A busca pelo diferente e pelo exótico, o olhar de criança que se encanta facilmente com a novidade de um brinquedo ou de algo inédito são combustíveis para os motores da originalidade (por vezes, não tão originais). Mas sempre tendo em comum aquela busca por algo melhor do que aquilo que o cerca. O fantástico, o incrível, o maravilhoso sempre são mais atraentes que o dia-a-dia!

O homem pode ser alcunhado de dois codinomes: ou é saudosista ou é futurista. Seu contentamento e sua esperança estão num passado imaginado como melhor ou num futuro e sua promessa de felicidade. Assim a História da Arte se fez, ciclo após ciclo retornando ciclicamente a celebrar o passado e a inventar um futuro melhor. Ora para contestar o mundo, ora para deleitá-lo, a Arte sempre foi a expressão dessa natureza humana.

Bem-vindo ao século XX!

Daí veio o século XX e tudo virou bagunça. Pela primeira vez o homem teve noção do quão pequeno é nosso planeta. E seu mundo se apequenou. Os vastos horizontes da época dos ”descobrimentos” haviam se tornado páginas nos livros de História ou cartões postais em um aeroporto qualquer. A corrida espacial trouxe até mesmo as longínquas estrelas para tão perto. Os computadores que antes serviam para calcular trajetórias balísticas se tornaram instrumento de comunicação, modificando o alvo e aumentando o alcance. Toda a informação do mundo na palma da mão a qualquer instante. Fronteiras e limites desapareceram nos Estados e nas instituições. E também na vida

Pela primeira vez o homem teve noção do quão perto esteve de seu fim. E sua estrada se encurtou. A Guerra Fria com sua constante sombra de iminente desastre trouxe a antiga máxima de Carpe Diem a um novo patamar. A ausência de fronteiras e limites criou uma geração de mimados emocionalmente instáveis e socialmente incapacitados. A liberdade tornou-se libertinagem. E a falta de algo por que lutar ou contra o que combater criou um exército de soldados sem causa a encontrar um inimigo imaginário para suprir sua carência de limites, de embates, de fantasias. E de afeto.

Máquinas e computadores que deveriam ter vindo para livrar o homem do trabalho, acorrentaram-no num mundo apático. Não se conversa mais com pessoas: conversa-se com máquinas. Não há mais o olhar, o toque, o sorriso. Apenas a fria tela de um computador ou telefone e a impessoalidade da distância. Livramo-nos do trabalho? Não, mas em seu lugar, da empatia humana, parte inerente da natureza humana.

A Verdade deixou de ser um ideal máximo a ser alcançado. Tornou-se algo criado conforme a necessidade. Ou, o interesse… Confundindo opiniões com argumentos, pensadores contemporâneos se esforçaram em afirmar que a verdade deveria ser construída por meio do diálogo. E, numa peculiar e muito bem quista defesa da liberdade, que todas as opiniões deveriam ser livremente expressas para poder haver um bom diálogo. O problema ocorreu quando a defesa de que ”tudo pode ser expresso” passou a ser interpretada como ”tudo deve ser admitido”, “tudo deve ser aplaudido“. Passaram a confundir respeito e tolerância com aceitação, aprovação, concordância.

Não concordar foi igualado a desrespeitar. E este é o perigo do ”politicamente correto”. Perdemos o direito de discordar, de recusar, de dizer não sob pretexto de que estaríamos ”desrespeitando” o outro. Não condescender tornou-se sinônimo de intolerar. Não consentir, de oprimir. E o homem torna-se agressor ao não se alinhar e consoar a quem discorda do status quo. “Discordar é preciso!” Mas de quê?

E assim, o discurso de ”defesa da liberdade” foi maliciosamente apropriado por quem de interesse (gramsciano) para sua defesa da libertinagem.

Usar a arte como instrumento de crítica social não é novidade (já os gregos faziam isso muito bem). Ocorre que falaciosamente criaram um instrumento de deturpação social sob o nome “Arte”. Não considero tais ”produções” Arte; essas coisas não são arte; nunca foram e nunca serão arte. Mas neste texto usarei o termo corrente ”arte contemporânea” para designar o movimento cultural presente pela falta de outro nome e para facilitar o entendimento do leitor.

A arte contemporânea está repleta dos mais horrendos exemplos de mau gosto, isto é, produções que não têm como objetivo a busca pelo ideal de beleza, de ser aprazível aos sentidos ou de em algo contribuir ao avanço e progresso humano. Temos em seu lugar produções feitas com o propósito mesmo de chocar a audiência ou a sociedade, ou tão somente servir como material de consumo aos consumidores de nossa sociedade consumista.

Muitos agora poderão afirmar que gosto não se discute, pois que cada indivíduo vê beleza em coisas diferentes. Discordo e defendo minha posição a seguir.

O gosto… Em primeiro lugar, o fato de que cada indivíduo pode encontrar beleza em coisas diferentes em nada sustenta a tese de que gosto não se discute. Indica apenas que eles possuem parâmetros de beleza diferentes. Tal fato não é causa necessária nem suficiente à tese. Portanto, argumento errado. Em segundo lugar, afirmo que o bom gosto é algo que pode ser aprendido. Tal como qualquer habilidade, a capacidade de perceber e reconhecer o Belo pode ser treinada, exercitada, cultivada, adequando o gosto ao belo ideal. Assim como ”o homem [são] só age mal porque não conhece o bem”, afirmo que o homem [são] só aprecia a feiúra por não conhecer a beleza.

.* O acréscimo [são] é meu.

Lembra aquela ”verdade” que lhe disseram que deve ser ”construída”? Ela é falsa. Uma mentira contada para sustentar a falsidade do mundo em que você se encontra. Logos é razão. Dia, dois. O Diálogo ocorre no encontro entre duas razões, que juntas formam um resultado melhor. Ao elidir os limites; ao considerar que a verdade é construída; ao afirmar que todos os argumentos são opiniões que têm o mesmo peso, o mesmo valor, a mesma importância; todos têm razão e estão igualmente certos. E se todos estão certos, ninguém está.

Esse argumento é um maléfico artifício, uma armadilha epistemológica que blinda os atuais sofistas no debate. O resultado é a ruína dos alicerces fundadores sobre os quais se erguem valores perenes. Isso que vivemos hodiernamente é o Relativismo Cultural. Prega-se que cada sociedade tem sua cultura; cada grupo tem seus costumes; cada indivíduo tem sua própria forma de ver o mundo; e que nada disso pode ser julgado, pois os valores advêm de cada construção social, sendo mutáveis ao longo do tempo. Sem a definição de Bem ou Mal, é o fim da própria Ética e, por conseqüência, da Estética.

Se a arte é uma manifestação cultural e cada cultura é igualmente válida, não havendo superioridade ou inferioridade entre elas, não é possível questionar ou criticar noções estéticas alheias. Tudo é válido e igualmente aceitável. Tudo tem o mesmo valor. E se tudo é belo, então nada é belo…

E encontramos todo tipo de lixo cultural baseados nessa falácia, acintes mesmo contra as Belas Artes e contra o legado de vidas inteiras dedicadas (e por vezes sacrificadas) à Arte. Em todos os campos e estilos encontramos lixo. Na música, lixo cultural. Nas exposições, lixo visual. Na dramaturgia, lixo intelectual. Desde o urinol no museu e a lata de fezes, até gente pelada introduzindo objetos em seus orifícios ou profanando iconografia sacra, a arte contemporânea perdeu o senso de estética, daquilo que é belo. E com isso perdeu também seu sentido Ético.

A conseqüência dessa abominação ideológica pode ser facilmente discernida ao notar que o termo ”Arte” é igualmente usado para designar:

    1. As grandiosas obras da música erudita; e Funk, Axé, Samba, Pagode, Sertanejo universitário (seja lá o que isso for);
    2. Os quadros e afrescos dos grandes mestres da Renascença; e borrões de tinta sem sentido exibidos nos museus de arte contemporânea;
    3. A perfeição dos corpos de deuses e heróis em bronze e mármore; e objetos que poderiam facilmente ser confundidos com matéria-prima de centro de reciclagem;
    4. Os complexos e rebuscados traços dos grandes estúdios de animação, com suas histórias que marcaram gerações; e desenhos reciclados em computador, sem nada a acrescer às crianças;
    5. As grandes tragédias que sobreviveram aos séculos, tal como o grande teatro que ela inspirou; e a teledramaturgia televisiva presente;
    6. As grandes obras de literatura do passado; e as pífias páginas mal escritas de hoje.

E são igualmente artistas os grandes mestres e os presunçosos.


Francesco Queirolo – Il Disinganno (1753-54)
Francesco Queirolo – Il Disinganno (1753-54) detalhe

Eu discordo. Defendo que há o certo e o errado; que há limites. E que nem todos têm razão. O correto e o verdadeiro assim o devem ser em qualquer caso, em qualquer situação, em qualquer circunstância. Não há meio termo. Um argumento só se sustenta verdadeiro se não for possível oposição lógica. Uma conduta só é moral se for possível considerá-la ética sob qualquer hipótese. Algo só é imanentemente belo se se aproxima do ideal de beleza transcendente e universal.

Mas é mesmo possível definir o certo e o errado? Ao nos depararmos com perguntas morais, dificilmente a resposta será ”sim” ou ”não”. Respondemos: ”depende… ”. Nesse momento percebemos claramente a diferença platônica entre o mundo ideal e o mundo real. Todavia reconhecer a abstração do ideal não é negar sua existência tampouco rejeitar sua busca.

A Filosofia é a busca pela Verdade, por aquilo que é racional (de razão ou Logos) e que faça sentido. E a Verdade possui três características fundamentais: ela é Bela, Boa e Justa. Justiça é o caminho do meio, a justa medida, a rejeição dos extremos e a eleição da virtude, é o ”razoável”. Ser bom possui duas interpretações, tanto prática quanto moral. Diz-se que algo é bom tanto se serve bem ao seu propósito, como um bom instrumento, quanto se é eticamente e moralmente desejável, como uma boa conduta.

Por isso é impossível abordar Estética sem abordar Ética. É belo o que apraz aos olhos, mas é ainda mais belo o que apraz às almas. É inegável que encontramos beleza em belos corpos, em belas paisagens, em belas obras. Mas também é inegável dizermos ser mais bela a ação de ajudar o próximo. Imagine um homem levando alimentos a um lugar imundo com muitas pessoas maltrapilhas e distribuindo aos necessitados. Ninguém negará que é uma bela ação, ainda que a cena seja desagradável aos sentidos.

Uma mãe amamentando seu filho. Um neto cuidando de seus avós. Um abnegado médico. Alguém se sacrificando pelos demais. O Amor, o Bem e a Justiça são codinomes da Beleza. Boas ações são belas ações. E quando somos pequenos, nossos pais docemente dizem ao nos repreender: “Não faça isso que é feio!“.

Há, portanto, um ideal de beleza que transcende a idéia de cultura, de sociedade, de indivíduo, tal como há o ideal de justiça e o ideal de ética. As Belas Artes consistem na ação eminentemente humana de reconhecer, contemplar e buscar esse ideal, tal como reconhece, contempla e busca a justiça, a ética e a verdade. A Arte verdadeira é aquela que consagra o Belo, e também aquela que transmite uma mensagem benéfica para a humanidade.

É uma ocupação bela. E em sendo bela, tem a sua utilidade. […] No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.
Afirmo ser falacioso afirmar que todas as produções artísticas são igualmente valoráveis. Afirmo que podemos sim julgar o gosto estético alheio pelo simples fato de sermos capazes de reconhecer a beleza. Podemos graduá-la, compará-la, classificá-la e estudá-la nas obras humanas e nas da natureza.

Gosto se discute, sim. Se a beleza está nos olhos de quem vê, basta então ensinar esses olhos a reconhecer a beleza onde ela verdadeiramente está. E então o homem, mesmo navegando em um mar de rostos, reconhecerá a face da Musa dentre a multidão de mortais.

Jean-Eugène Buland: A alegria dos pais (1903)

Por cima do meu cadáver.

Basta trocar a geografia, e “Al Gore” por Macron…

Toda vez que nossa pátria se encontra diante do perigo, um instinto parece surgir nos seus melhores, aqueles que a entendem de verdade.

Quando a independência estremece na sombra fria de um perigo verdadeiro, são sempre os patriotas que primeiro ouvem o chamado.

Quando a perda de liberdade paira sobre nós, como agora, o alarme soa primeiro nos corações da vanguarda da independência.

O cheiro de fumaça no céu […] é sempre sentido primeiro pelos homens do campo, que saem de suas casas simples para encontrar o fogo e a luta.

Porque eles sabem que uma substância sagrada reside naquele pedaço de madeira e no aço azulado – algo que garante para o homem comum a mais incomum independência.

Quando mãos ordinárias podem possuir um instrumento tão extraordinário, isso simboliza a plena medida de dignidade humana e liberdade.

É por isso que aquelas cinco palavras nos trazem um chamado irresistível, e nós nos reunimos.

Então, enquanto nos preparamos […] este ano para derrotar as forças da discórdia que tomariam a nossa independência, quero dizer as palavras de luta para que todos ao alcance da minha voz possam ouvir e prestar atenção:

POR CIMA DO MEU CADÁVER

Sentimentos mais duradouros

Leighton, Edmund Blair; The Wedding Register; Bristol Museums, Galleries & Archives; http://www.artuk.org/artworks/the-wedding-register-188739

Lamento ver que, com o tempo avançando e grandes nomes partindo, as carreiras dos últimos remanescentes da verdadeira dramaturgia estão encerrando. Com a partida desses artistas, finda-se uma era. “Não se produz mais como antigamente” não é mero saudosismo: é a constatação da decadência intelectual, cultural e social em que os millennials subvivem.

Afirmo que a arte, infelizmente, se tornou apenas algo mais a ser vendido. Não se produzem mais clássicos. Não se produzem mais obras que marquem a História. Foi-se o tempo de Shakespeare. Hoje se produz para o consumo.

O mesmo consumo que clama por novos produtos pede novas obras. Creio que um exemplo demonstre melhor meu pleito: o caso Prosdócimo. Os mais jovens que lerem este texto não se recordarão (ou conhecerão) essa marca de excelência de eletrodomésticos. Excelência tão excelente que suas geladeiras ainda funcionam.

E o resultado de toda essa qualidade? A empresa fechou, claro! Se todo mundo compra uma geladeira que nunca dará defeito, para quê comprar outra? Os equipamentos eram assim: geladeiras, fogões, ventiladores, rádios, televisores, tudo era feito para durar uma eternidade. E as empresas perceberam que produtos muito bons dão lucro momentâneo; e que produtos de menor qualidade (praticamente descartáveis) dão lucro permanente.

Lição conhecida de há muito pela indústria farmacêutica. Por que colocar no mercado um remédio que cure, se é muito mais lucrativo manter as pessoas permanentemente doentes? E o melhor: remédios cujos efeitos colaterais precisem de mais remédios! Uma indústria de abutres… E nós somos a carniça.

A continuidade do consumo, de saber que aquela TV ou geladeira precisará ser trocada de tanto em tanto tempo, é o que mantém o mercado industrial funcionando. Primeiro a venda, depois o produto! Mais updates e upgrades, patches e afins. Não interessa, pois, fazer produtos excelentes. Apenas produtos a ser consumidos por um tempo. E apenas o tempo necessário para agradar o consumidor, que cautelosamente deve ser instigado a comprar mais e mais. O importante é trocar.

Vivemos uma era em que a velocidade da troca é mais importante do que o que é trocado. O novo é invariavelmente substituto do antigo, mesmo que o mais velho seja melhor. O apelo da novidade, do brilho, da tecnologia, da conectividade é mais forte que a segurança da tradição e da estabilidade. O resultado: a formação de uma geração de conectados inseguros em sua insegurança insegura.

Afinal, se tudo muda o tempo todo, se sempre há novidade a substituir o atual sem nem ao menos dar-lhe tempo de envelhecer, como criar o vínculo, o laço de familiaridade que se forma ao longo do tempo, aquela certeza de poder contar com isso ou aquilo amanhã? E depois de amanhã… E para o resto da vida… (?)

Antigamente, quando algo quebrava, a gente aprendia a consertar em lugar de jogar fora.

Enquanto isso acontecia, a Prosdócimo já havia sido comprada pela Electrolux, patentes de curas foram registradas (para ninguém usar) e o mundo das artes também começou a aprender a lição.

Onde estão os grandes autores? Onde estão os grandes clássicos? Paulo Coelho (sempre me criticaram por eu gostar dele) demonstrou que é possível fazer arte para consumo também. E ironicamente demonstrar que a arte efêmera basta para se tornar imortal.

Paz e Guerra, Os miseráveis, MacBeth não têm mais espaço em um público acorrentado às telinhas de seus smartphones. Leitura muito difícil… Requer muito mais que os dois neurônios anestesiados necessários para acessar rede social, brincar em joguinhos, ou ver um post de fofoca ou piadinha.

Não que aqueles que se servem da tecnologia para isso sejam tolos ou estúpidos. A palavra-chave no parágrafo acima é ”anestesiados”. Os grandes clássicos tocam a alma. Tocam o coração. Mexem com a pessoa. Mudam a pessoa. Arte é aquilo que te muda. É o que te torna diferente (para melhor). É o que te faz pensar, te faz refletir, te faz viver. Sem sentimentos, não há arte (sua forma pura de expressão e manifestação). A verdadeira arte não se consome: se aprecia. Não é possível consumir algo que é eterno.

Porém a superficialidade hodierna não permite mais isso. Não há mais o cultivo a sentimentos profundos, aqueles que formam raízes fortes. Boa fundação necessária à árvore crescer e, quem sabe, dar bons frutos. Pouco se semeia em terreno ora infértil. Ninguém tem mais paciência para esperar a semente crescer, se tornar árvore e florir.

Uma pena. As flores são o sorriso da terra… Ainda que volta e meia encontremos uma pérola perdida no oceano, ou um oásis no deserto…

Mas então, o que oferecemos a essas mentes e corações anestesiados e perplexos com a velocidade acelerada do amanhã que já chegou? Telebasura! Lixo por todos os lados. Produzimos um lixo cultural tão inverso em seus valores que é ele quem nos aterra.

”Harry Potter” para esquecer a realidade… E livros de auto-ajuda para lidar com ela. Biografias póstumas enormes saindo antes de o defunto esfriar! E já tive o desprazer de escutar alguém afirmando que a saga ”Crepúsculo” estava no mesmo nível de importância sociocultural que As Brumas de Avalon. Ao menos não a comparou com ”50 tons de cinza”, a prova cabal de que mulheres também adoram pornografia (basta vender com outra cara).

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

Os grandes quadros foram trocados por duvidosa ”arte contemporânea”. As grandes bandas cujos nomes continuam sendo lembrados com carinho (e ainda lotam os espetáculos) foram trocadas (pela grande mídia) por ”música contemporânea”. O grande teatro foi trocado por ”teatro contemporâneo”. E os grandes nomes da dramaturgia são substituídos por carinhas bonitas saídas de uma fábrica de ”novos talentos” ou de reality shows.

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

Telenovelas que mais parecem lavagem cerebral. Importação de séries e filmes sem expressividade. Refilmagens de clássicos, apelando ao saudosismo que citei no primeiro parágrafo. Mais computação gráfica que atores. Mais qualidade de imagem, menos de enredo.

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

E continuamos trocando… E continuamos inseguros… E o tempo continua avançando cada vez mais depressa… E cada vez mais olhamos para o passado com a idéia de que os tempos eram melhores… A culpa não é da cultura atual. Ela é mero reflexo da superficialidade que vivemos, pois arte (seja qual for) é apenas um reflexo do coração humano. Que hoje está anestesiado, perplexo, apático…

Qual a conseqüência dessa apatia? Ora, se não me fiz claro até aqui, explicito: a inviabilidade da construção de laços perenes entre as pessoas, o isolamento coletivo em que vivemos, e o perpétuo sentimento de falta, de não pertencimento, de inadequação formam uma legião de pessoas doentes. Não do corpo, mas de suas almas.

A vida era mais difícil. Muita coisa melhorou. Mas em algum ponto erramos alguma curva no caminho e agora estamos um tanto perdidos. Espero em breve encontrarmos a trilha certa… Enquanto isso, podemos aprender um pouco mais sobre o coração com atores (de verdade), trabalhadores dos sentimentos humanos, pérolas e oásis. Ao menos até o cerrar das cortinas.

Glória Menezes e Tarcísio Meira | Persona em Foco | 09/08/2019

Glória Menezes e Tarcísio Meira – Part.2 | Persona em Foco

Ninjutsu – análise a partir da visão de um leigo.

Eu acompanho o canal de Marco Gimenez no Youtube já há algum tempo e recentemente surgiu uma discussão a partir de um teste de graduação dentro da escola Bujinkan. Ele afirma que o teste é fraudulento, os integrantes da escola afirmam que Marco não o compreendeu. Considerei interessante ver como dentro do meio marcial é possível ainda encontrar tanta divergência frente a opiniões contrárias e sectarismo em prol da própria escola e em detrimento a quem está fora.

Seguem os dois vídeos e logo em seguida meus comentários.

Sakki Test desvendado? Habilidade Ninja ou Maracutaia???

Respostas NINJA para haters mal educados!

Eu vi a discussão, tanto no Facebook, quanto aqui. Aguardei para escrever, pois esperava que alguém mencionasse, mas algo não foi mencionado esse tempo todo. A Bujinkan possui, dentre suas bases, o que chamam ”refinamento espiritual”.

1 – Há sim um conteúdo que (de certo modo) reflete a religiosidade xintoísta japonesa. Meditação, culto, honra etc. mesclam-se com a arte marcial. Eu não sei exatamente como estão abordando isso agora, mas quando me aproximei havia a clareza por parte dos instrutores de que era uma organização marcial e filosófica (não mística). Uma escola de luta e de pensamento.

2 – Sua informação está correta, a Bujinkan é a única organização com reconhecimento do governo japonês a atribuir a si própria a ”preservação da arte ninja”. Mas e o que isso significa? Equivale a aqui apresentar-se como curador de obra imaterial tombada ou algo do tipo.

3 – A Bujinkan é imensa, conta com escolas por todo o mundo. Ao apresentar algo contra seu líder, você afetou a credibilidade da escola como um todo. E como toda grande organização, seus integrantes são orientados a preservar a marca e a imagem da empresa.

4 – Em adendo, Masaaki Hatsumi chegou a esse posto todo por ser o último sucessor do Budo Taijutsu. Resumindo uma longa história, ele é o líder sucessor (SOKE) de 9 (sim, nove) escolas de artes marciais e as unificou sob um nome só. Daí seu grande prestígio, inclusive no meio internacional.

5 – Nomenclaturas:
SOKE – Líder sucessor.
SHIHAN – Mestre graduado líder local.
SHISHO – Mestre graduado, instrutor.
SENSEI – Professor, de um modo geral.
BUDO – ”Caminho do guerreiro”, a parte filosófica da coisa.
KOBUDO – Antiga arte da guerra (uso de armas)
KARATE – Luta com mãos nuas.

6 – Minha contribuição:
Creio que se as informações que apresentei agora tivessem sido elencadas, a discussão teria sido mais fértil: a Bujinkan preza muito por seu nome não apenas pelo lado comercial, mas também por representar oficialmente o Ninjutstu HISTÓRICO (patrimônio cultural japonês), também por sua FILOSOFIA (xintoísta) interna e também pela imagem do mestre (seu representante).

Houve maracutaia? Não sei. O que esperei que dissessem era: “O objetivo do SAKKI é detectar a intenção de ataque do oponente por seu KI (energia interna). Ao perceber que seus alunos não estavam conseguindo detectar, o SOKE percebeu que não havia intento maligno em sua espada. Ele mesmo não tinha intenção de matar em seu golpe. Portanto decidiu aumentar o uso de KI e fazer-se simular como um agressor real. O salto seria então um mero ato reflexo não intencional ao impor mais energia ao golpe. Aos olhos externos ele deveria ter dado nova oportunidade aos primeiros alunos, mas como é uma cerimônia tradicional, possui regras e etiqueta próprias, logo naquele momento não foi possível.”

Mas não vi nada disso partindo dos integrantes.
Lamento que não tenha havido um diálogo construtivo.
E lamento a Bujinkan ter manchado sua reputação dessa forma…


Editado: 15/06/2019

Esta é a melhor resposta contrária:

Sakki-Test: A polêmica do ninjutsu

Lula e a Filosofia

A Filosofia é a ciência do dissenso. É a aversão ao dogma. Se há consenso, não há Filosofia. Filosofia é a busca, não a resposta.

A última ”polêmica do momento” é o corte de gastos para os cursos superiores de ciências humanas que o Governo Federal pretende realizar. Afirma-se que os recursos devem ser destinados ou para a educação básica, ou para a formação científica e profissional superior (exatas, biomédicas) e média (técnicos).

Mais do que natural perguntarem a mim (ninguém perguntou, mas escrevo mesmo assim…), enquanto enveredado e meio perdido ao longo dos caminhos de Direito, Filosofia, Sociologia, Antropologia, História, Educação e afins: o que tenho a dizer sobre isso?

Creio que a análise de outro fato político relevante recente possa contribuir para minha resposta.

Assisti à entrevista de Lula dada à Folha de São Paulo e ao El País; e ela mostra:

Oratória esplêndida, carisma carismaticamente carismático, respostas para todos que quiserem ouvi-las. Pérolas de sabedoria de um homem com trajetória sem igual na história deste país. Sua capacidade política ímpar capta a atenção de seus ouvintes e seu amor inato pelo povo, o afeto de nossos corações. Descobrimos que mesmo a morte de seus familiares e toda a perseguição política influenciada pela ingerência americana não demovem o inabalável líder do partido que mais fez pelos pobres. Pelo contrário, ele, o homem que recuperou o orgulho e a auto-estima dos brasileiros, escolheu ser preso para provar sua inocência e lutar para que nossa pátria seja um lugar melhor…     ಠ_ಠ

Ou é mitômato ao ponto de que realmente perdeu a noção da realidade, ou ”o chefe da quadrilha” ainda não mostrou todo ”o plano B”. ¹

A entrevista (ou discurso) é uma cornucópia para alimentar a fogueira do Planalto. Ele afirma que seu governo criou 100 milhões de pequenos empreendedores (mais do que toda nossa população adulta), que participou do Foro de São Paulo, que está ao lado da “democracia venezuelana” e de Maduro, que precisa reconstruir o país (quem destruiu?).

Em uma coisa, porém, sou obrigado a concordar: ele afirma que o PT é o único partido político de verdade do Brasil; os outros são apenas legendas com interesses difusos. Para mim isso demonstra não apenas a idéia marxista de hegemonia de partido único (como em Cuba, China e Coréia do Norte), mas também, como já escrevi, o PT ser muito bem organizado, com pautas bem definidas.

Ao afirmar que Bolsonaro não conseguirá governar se não criar um partido organizado para si como o seu próprio, ele externa seu modus operandi político, sua forma de pensar, trabalhar e governar. Parece não acreditar que possa haver outro modo, sendo coerente com seus ideais.

E o que tudo isso tem a ver com Filosofia e Humanas?

Certa vez escrevi brevemente sobre minha experiência no curso superior de Filosofia. Há muito mais para falar, mas creio ser adequado a outro momento. Indo direto ao ponto: tal como foi exposto pelo documentário acerca da Ditadura Militar, a metodologia gramsciana de hegemonia cultural para controle da sociedade vem sendo sistematicamente implementada nas universidades públicas brasileiras de longa data.

Em especial os cursos de ciências humanas estão ora evidentemente aparelhados não para a formação de profissionais, mas sim para a solidificação e reprodução irrefletida e acrítica do pensamento marxista, culminando na formação não de especialistas, mas sim de reprodutores de discursos e narrativas de um único viés. E esse aparelhamento partidário-ideológico é nutrido por dinheiro público (nosso dinheiro).

Neste momento, na UERJ, estou fazendo mais um curso: Ética e Filosofia do Direito. A interação e interesse (ou falta dele) demonstrados em sala de aula pelos alunos da casa (a maioria jovens em sua primeira formação acadêmica) indicam claramente a orientação de suas formações educacionais prévias.

Os discursos apresentam pessoas com pouca capacidade crítica e pouca compreensão da matéria em si. Possivelmente habituados a terem respostas prontas previamente construídas, alguns nem ao menos demonstram um esforço intelectual para tentar entender. Ou até, quem sabe, seja uma possível inabilidade de interpretação.

Pouca importância é dada à matéria. As questões levantadas são superficiais e um debate mais profundo mostra-se infértil ou inexistente. Sob essa perspectiva, a mentalidade da próxima safra de operadores do Direito é preocupante. Afinal, supõe-se que formandos em Direito deveriam ter grande interesse por Ética!

Isso exemplifica uma defesa minha muito criticada por meus pares: a de que Filosofia não é para todos. “Filosofia é algo com o qual e sem o qual se vive tal e qual.” Interessante ser apresentada; não exigida. Considero que o pensamento reflexivo, aquele que vai além do cotidiano, sem aplicação prática, advém de vocação. Pouco importa se ”a vida dos vivos é influenciada por filósofos mortos”, ou ”é a mãe da ciência”, ou ”a mais nobre atividade humana”. Se a pessoa não tem o coração voltado para o estudo de Filosofia, não adianta forçar. Ser ”amigo do saber” é, como o nome diz, questão de amizade. E não se força uma amizade, ela apenas se dá.

Mas esse problema é mais sistêmico do que o visto numa sala de aula suburbana. Os ”pensadores”, isto é, os filósofos de carteirinha, sociólogos, cientistas políticos e especialistas da TV são formados na academia. E essa academia é impregnada dos pensamentos pós-moderno, marxista e existencialista. E forma indivíduos para invariavelmente reproduzir especificamente essa narrativa. E focam em indivíduos não na área científica, mas exatamente nas áreas humanas: de artistas, passando por juristas, até jornalistas.

E formando jornalistas hipnotizados, qual o resultado? A entrevista de Lula supramencionada! Talvez nem entrevista, mas sim comício particular do Grande Líder a dois de seus asseclas. Aplaudido à distância por militantes formados em universidades públicas, como talvez parte dos alunos dos cursos de Ética e Filosofia do Direito da UERJ. Futuros advogados e juízes aplaudindo um bandido, entrevistado por jornalistas que, talvez, não estudaram Ética…

Nisto finalmente respondo a pergunta: o que acho de tudo isso? Acho que a estratégia de Bolsonaro está certa. Lamentavelmente o sistema educacional está muitíssimo comprometido, servindo a propósitos escusos à educação. Abordar frontalmente o problema teria muito desgaste e muito esforço. É mais viável repetir o feito em outras frentes: ”desidratando” ao ”fechar a torneira”; cortando a verba governamental. Destinando-a a cursos que preparem trabalhadores à abertura de mercado por que o Brasil intenciona passar nos próximos anos, dá-se um tiro para dois alvos.

Fico triste, mas creio ser um passo importante para combater o marxismo no país.


Em tempo, faço nota em justiça: em meu caso particular os professores de meu curso de Filosofia não trataram em momento algum de questões político-partidárias em sala de aula. Nenhum. Mas tenho ciência de que outros professores da casa, com os quais não tive aula, assim o fizeram. Reitero ainda que as manifestações ideológicas e políticas aconteciam rotineiramente por conta de alunos, centros acadêmicos e organizações estranhas à instituição.

¹ Creio Lula ser culpado por corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro. Ele alega que não há provas nos autos do processo que o condenou, mas há mais de 200 páginas de provas testemunhais, documentais e periciais em seu corpo aceitos em segunda instância. Há controvérsias quanto à forma do processo, porém seu teor indica culpabilidade.

2019 – O Brasil entre picuinhas e futricas

Continuando sintonizado no assunto do momento, seguem alguns pensamentos sobre o cenário político atual.

Finalmente chegamos ao centésimo dia de governo. Não foi implantada nova ditadura. ”Esquerdistas” não estão sendo torturados ou censurados. Não há tanques nas ruas. Não vivemos num estado de exceção. O novo presidente é aplaudido de pé por prefeitos e governadores¹. É bem quisto no exterior. Cumpriu promessa de campanha de não haver indicação política para ministérios. E de buscar abertura econômica sem viés ideológico. A bolsa de valores está otimista. Acordos bilaterais e propostas unilaterais para trazer recursos e investimentos estão surtindo efeito. Aumento imediato do interesse turístico e de investimentos estrangeiros. Perspectivas a médio e a longo prazo muito boas.

Pôs em prática diversas ações antes restritas às cartas de intenções. Obras emergenciais nas estradas, grande sucesso na concessão de aeroportos, revogação de decretos inúteis, bom exemplo de abordagem em casos de desastres, cortes de gastos e de cargos. A meta dos 100 dias será apresentada em breve com excelentes resultados a despeito de todos os empecilhos encontrados. E a caixa-preta do BNDES vem aí…²

Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, não obstante tudo isso, é impossível agradar todos. Quem tentou ”ou está preso, ou com processo nas costas, ou estocando vento em algum lugar”. Durante muitos dos mais recentes anos, a ”direita” e a ”falsa direita” foram a oposição do governo. E durante todo esse tempo, quase que diariamente algum escândalo surgiu. Mensalão, petrolão, mensalinho, petrolinho (talvez) um sem número de aberrações contábeis, jurídicas e jornalísticas invariavelmente inundando os noticiários com o descalabro dos governos de ”esquerda”.

E vemos exatamente nisso a principal diferença entre o governo atual e o anterior.

Partidos e seus políticos, a grande mídia e mais de “340 artistas” se calam quando:
1 – Battisti admite ser assassino;
2 – Descobrem quem matou Marielle;
3 – Haddad é condenado por irregularidade eleitoral;
4 – Temer (chamado golpista) é preso. E é solto logo em seguida;
5 – Lula confessa que é criminoso.

Mas gritam a plenos pulmões sobre:
1- Azul x Rosa;
2- Hino nacional;
3- Pessoas urinando;
4- Março de 1964;
5- Horário de verão.

Tais atitudes colocam a imagem da ”esquerda” ou ”resistência” numa pífia e ridícula posição de insignificância e irrelevância. Nenhum indivíduo que se declare pró-governo nem ao menos considera essas alegações. É o que chamamos ”mimimi”. Não estão apresentando ações que realmente façam diferença. Levantando questões que efetivamente contribuam com o progresso do país. Ao ponto de estarem sendo comparados a crianças mimadas que perderam a chupeta! Para ser um oponente de peso, é necessário obter respeito de seu adversário. Respeito que a ”esquerda” não tem mais. Perdeu-o por suas próprias ações indevidas (ou inatividade quando precisava agir).

Pois ao que parece, para eles esses são os assuntos realmente importantes para o país… Que resistência é essa que não reage nem resiste? Onde estão as passeatas contra os ”desatinos” do governo? Contra o racismo, homofobia, machismo, nazismo, fascismo etc. etc. etc.? Onde estão as propostas? Onde estão os argumentos? Estariam turistando na Europa? Ou talvez nos opressores Estados Unidos?

Isso demonstra a meus olhos a hipocrisia, a incompetência, a leviandade e a imoralidade do projeto de ”esquerda” neste país. Hipocrisia por mentirem abertamente, sem reservas ou pudores, e sem reconhecer seus próprios erros. Incompetência por não argumentarem sobre os possíveis defeitos do atual governo. Oposição incapaz de levantar argumentos contumazes, restringindo-se a bradar sobre amenidades como se isso representasse alguma ”resistência”. Leviandade por agirem sem nem ao menos perceber sua própria insensatez ou volubilidade; momentos que quem estiver em seu juízo minimamente perfeito chamará de ”vergonha alheia”. E imoralidade de um projeto em que agem por perfídia quando seus mentores traem o crédito depositado por seus apoiadores.

Entretanto, por mais que não haja espaço para eles no cenário político atual, e eu já tenha me declarado absolutamente contrário ao marxismo e seus movimentos, sou obrigado a convir que eles são bons em duas coisas: são muito bem organizados e são bastante barulhentos.

Além disso, há outra questão importante: e quanto à massa enganada? Afinal, sabemos muito bem que os mentores conseguiram gramscianamente convencer uma imensa quantidade de pessoas de bem de que a ”esquerda” é ”a solução”. E estão tão convencidos disso a tal ponto que mesmo com todas as provas, mesmo com todos os argumentos, mesmo com todas as evidências, não percebem o engano ao qual foram estrategicamente e maldosamente submetidos.

Cogitei sobre como utilizar a força das pessoas de bem cooptadas pela ”esquerda” para interesses que sejam, de fato, bons para todos (e não só para seus mentores, como estes assim o desejam e Lênin assim o diria). Pois bem, a solução é instigá-los a conhecer a Auditoria Cidadã da Dívida Pública.

Pesquise você também! São 6 trilhões em dívidas: https://auditoriacidada.org.br/

Esse movimento aponta vários fatos sobre modo como os governos anteriores lidaram perniciosamente com a dívida pública. Os papéis das dívidas são uma verdadeira caixa-preta e há claros indícios de que o dinheiro de nossos tributos é desviado por meio de papéis de mercado para bancos privados e não chega aos cofres públicos. Se os cálculos estiverem certos, a reforma da previdência seria absolutamente desnecessária, pois haveria recursos muito mais do que suficientes para cobrir todas as despesas públicas atuais e muito mais. Desvios no sistema financeiro interbancário em uma sucessão de acordos espúrios com os impostos do contribuinte. Seria isso verdade? Até que ponto o governo atual tem poder para fazer a devassa? Que restrições eles encontraram e não podem falar?

Neste ponto e deste modo, distribuindo esse tipo de informação para ambos os lados (governo e oposição), podemos alinhar eleitores em um objetivo comum. Se conseguirmos finalmente a devassa irrestrita das contas públicas, teremos uma bela vitória em prol de nosso país. Afinal, independentemente de se ”de esquerda” ou ”de direita”, todas as pessoas de bem concordam com isso: para onde vai nosso dinheiro?

Vamos nos unir para o bem de todos nós!

Fattorelli explica PLP 459/2017 ao programa Direto de Brasília.

Desgosto intelecual

Estou profundamente chateado com o fato de que neste país atrasado, em especial nesta arrogante e presunçosa cidade, não temos nada (ou quase isso…).

Sinto-me agastado/enfadado ao deparar-me com a dificuldade em obter informações para aprender coisas novas. Para um autodidata, a carência de boas fontes é muito desagradável. Sempre que procuro conhecimento ou boas referências sobre assuntos “alternativos”, só acho em inglês. E coisas nos EUA. Eu realmente não consigo encontrar (com a facilidade esperada) informação fidedigna vinda de terras tupiniquins.

A exceção foi marcenaria, que realmente dispõe de informação muito boa em português. Mas de resto, é lixo em demasia. Tem que garimpar muito para achar algo que preste. Oásis no deserto intelectual de mediocridade e/ou vulgaridade chamado Brasil… A quantidade de gente que resolve colocar um inútil vídeo que se resume a “Fala, galera! Beleza?” é enorme. Alcunhar a produção de conteúdo intelectual ou informativo como deficitária é elogio. O nível de analfabetismo funcional específico é assustador.

Por hora, estou aprendendo programação de computadores.  Daí descobri um sujeito que diz ensinar Python e chama ‘*’ de “Astrelisco”. Apenas um exemplo dentre os incontáveis que há na rede. Pessoas que nem ao menos dominam seu próprio idioma, querendo ensinar o que também não entendem.

Não espero que tais “programadores” chamem o símbolo “&” de eitza (pronúncia: “éitssa”), ou que reconheçam o “¬” como negação lógica. Já concluí que isso seria pedir demais. Mas, ao menos que entendam minimamente do que estão falando, ou estudem um pouco o assunto antes de se exporem como ignorantes perante o resto do mundo.

Quer aprender sobre ciência? O sujeito tenta “lacrar” (verbo da moda) falando de política.
Quer aprender como se trabalha com Arduino? Não tem.
Quer aprender como se trabalha com Rapsberry? Não tem.
Quer aprender a personalizar seu teclado mecânico? Não tem.
Quer aprender algo de alguma comunidade legal? Não tem.
Quer aprender mais sobre artes clássicas (pintura, escultura, música)? Não tem.
Quer aprender mais sobre caravanas e rulotes? Muito pouco.
Quer aprender mais sobre esportes que não sejam futebol? Praticamente não tem.
Levantamento de peso? Nem pensar!
Levantamento básico? O que é isso?!

Quer aprender mais sobre qualquer coisa? Procure em inglês.

Antes de criticar-me: é claro que há conteúdo. E há fontes realmente muito boas, saliento. Minha queixa é ao fato de esse conteúdo ser muito escasso e/ou pouco aprofundado se comparado ao conteúdo em inglês. Em português, a didática também peca em vários pontos. Cogito isso ser reflexo da inópia de nosso sistema educacional…

A falta de cultura deste país me enoja. E ainda pior é a invisível barreira quase metafísica para obter os recursos, caso eu queira experimentar algum desses “inusitados” projetos. Entenda isso como entraves ou empecilhos para descobrir uma nova afecção (ou se preferir o termo em inglês: hobby). Simplesmente “não tem no Brasil”. E “se tiver no Brasil, só em São Paulo”. E “se tiver no Rio de Janeiro, só nos confins da cidade”.

Meu breve contato com o Levantamento de Peso findou infrutuoso em parte por causa disso. Encontrei um treinador que estava disposto a me treinar gratuitamente, mas não segui no esporte pela distância física até os centros de treinamento.

Não sendo isso bastante, se você se interessar por qualquer coisa que não faça parte da vidinha comum, da mesmice em que a sociedade chafurda e em que o homem comum se contenta, além de ter de aprender a lidar com os olhares de menoscabo / curiosidade / desdém / repúdio (caso dê valor à opinião alheia) e com a ignorância coletiva previamente mencionada, também terá de lidar com a imperante escassez de acesso a recursos e o exorbitante preço das ferramentas/materiais.

Uma ou outra marca por aqui ou acolá comparado com dúzias de dúzias de marcas variadas no exterior. Preços surrealmente aleatórios, completamente desvinculados do valor de uso das mercadorias, capazes de enrubescer o mais avarento dos atravessadores. Isso se tem e quando tem. Na maior parte das vezes, terás de aprender como funciona o maravilhoso processo de importação e fiscalização alfandegária.

Conheci uma empresa americana que exporta para o mundo todo. Menos para o Brasil. Alegam que o mercado consumidor daqui é prejudicial aos negócios de lá. As taxas são abusivas e para eles não vale a pena comercializar. Eles até fazem, mas você, caro brazuca, precisa aceitar termos especiais.

Informações, produtos e serviços. Parece que nada que procuro tem fácil acesso!

Normal indagar a partir de minha personalíssima dificuldade em lidar com a sociedade a que involuntariamente pertenço se o problema estaria em mim… Por minha vida até o presente momento já fui surpreendido por questões vindas doutrem que demonstram minha estranheza a seus olhos. Já me perguntaram se eu era testemunha de jeová, rabino, japonês, autista e tantas outras coisas que nem lembro!

No que pergunto: será que sou tão diferente assim? Será que o problema sou eu? Por várias vezes, em relação a outros temas, cheguei à mesma conclusão e, em ato por sinal satisfatoriamente benéfico à minha saúde, mudei de hábitos. Porém, neste caso é diferente. O problema não está em mim. Está na anestesia coletiva que enfrento diariamente. Que seja: mesmo com todas as dificuldades, não deixarei de lado as coisas de que gosto para adequar-me à deplorável exigüidade dos demais.