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Suicídio na adolescência – A morte evitável

SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA
A morte evitável
Mario Louzã
Fonte: Le Monde diplomatique Brasil, Edição 131, 04/06/2018

Detectar precocemente que uma pessoa está em risco de suicídio — ou seja, quando ela apresenta ainda “somente” idéias suicidas, mas nenhum plano concreto de executá-lo — é a principal “janela de oportunidade” para preveni-lo

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada quarenta segundos morre uma pessoa por suicídio, uma das principais causas de mortalidade no mundo, especialmente entre os jovens. Outro dado preocupante é o aumento significativo, cerca de 35% a 40%, das taxas de mortalidade por suicídio, especialmente na adolescência e idade adulta jovem nos últimos dez anos.

Enquadram-se no conceito de suicídio três situações de risco progressivo: o pensamento suicida, a intenção suicida (quando já há planos mais ou menos detalhados de como cometer o suicídio) e o ato suicida em si (resultando ou não em morte). Incluem-se também nesse conceito os atos de autoferimento [self-harm], com ou sem intenção suicida.

Embora muitos fatores biológicos, emocionais e sociais possam influenciar o risco de suicídio, o principal deles é a depressão. Depressão aqui deve ser entendida como algo muito diferente da tristeza normal. Trata-se de um transtorno mental caracterizado por tristeza profunda e contínua, dificuldade de sentir prazer nas atividades cotidianas, pensamento negativo, ansiedade e falta de esperança, além de sintomas físicos como insônia e diminuição do apetite e da libido. Nos casos graves, o pensamento negativo e de culpa e a falta de esperança desembocam no pensamento suicida; este pode evoluir para o planejamento e o ato em si.

Além da depressão, fatores de risco para suicídio incluem: tentativas prévias de suicídio, ser do sexo masculino, condições desfavoráveis do ponto de vista pessoal, familiar, social e econômico (separação dos pais, experiências adversas na infância, como abuso físico ou sexual, transtorno mental ou história de suicídio na família, bullying, dificuldades interpessoais, baixa auto-estima, impulsividade, abuso de álcool e drogas, entre outros). Estresse, competitividade e pressão por resultados e alto desempenho escolar parecem ter um impacto importante no risco de suicídio entre adolescentes.

A adolescência é um período de transformações significativas do ponto de vista biológico, psicológico e social. O adolescente é particularmente vulnerável às avaliações e aos julgamentos de seus pares, algo que se multiplicou com a internet e as mídias sociais. O cyberbullying tornou-se um fator a mais de risco para o jovem; em poucos minutos, mensagens, fotos ou vídeos “viralizam” e expõem o adolescente mais fragilizado de forma devastadora. Muitos se vêem sem saída, humilhados e expostos, e reagem com um ato suicida.

O suicídio é a morte evitável. Detectar precocemente que uma pessoa está em risco de suicídio — ou seja, quando ela apresenta ainda “somente” idéias suicidas, mas nenhum plano concreto de executá-lo — é a principal “janela de oportunidade” para preveni-lo. Esse é o momento ideal. Na situação já de planejamento suicida, é importante estar atento aos indícios de que a pessoa começa a procurar saber como cometer o suicídio, qual método usar. Ela pode ir em busca de armas de fogo ou começa a estudar quais são os venenos ou os medicamentos mais perigosos. Há nessa situação um aumento da impulsividade da pessoa, em parte pelo fato de que ela vê no suicídio a única saída para si, o que a leva a ter “forças” para o ato.

Alguns sinais de que a pessoa tem pensamentos suicidas são: falta de esperança, angústia, sentimentos de vergonha, humilhação e culpa, falta de perspectiva futura e sofrimento intenso (muitas vezes por algum fato marcante da vida, recentemente acontecido). Eventualmente a pessoa verbaliza “gostaria de dormir e não acordar mais”, “não vejo mais sentido em viver”, “a vida está muito difícil, insuportável”, “sou um peso para as pessoas, não quero mais isso”, “quero me livrar deste sofrimento todo”, “nada mais importa”, “a vida não vale a pena”. Nem sempre os sinais são claros; freqüentemente o adolescente busca o isolamento, reduz o contato com os familiares, busca a privacidade de seu quarto e substitui o contato com amigos e colegas “reais” por contatos “virtuais”. Esse isolamento muitas vezes pode ser confundido com a “crise da adolescência”, sendo relevado pelos familiares.

Em geral, familiares e amigos são os primeiros a perceber que a pessoa não está bem e tem pensamentos suicidas. Nessa situação, devem conversar com ela e levá-la a um médico psiquiatra para uma avaliação mais detalhada. O risco de suicídio é uma indicação formal para internação psiquiátrica. No hospital psiquiátrico, a pessoa é acompanhada 24 horas por dia, seus atos são monitorados e introduz-se o tratamento necessário para alívio do sofrimento psíquico. Em casa é muito difícil conseguir vigiar a pessoa o tempo todo; em contrapartida, é muito fácil o acesso a potenciais métodos de suicídio, que pode ser cometido de forma abrupta, sem que haja tempo de evitá-lo.

Vivemos numa época de grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Muitos questionam sobre os prós e contras de falar ou não sobre suicídio. Alguns acham que isso encoraja o ato, outros dizem que é um meio de prevenção. A questão principal é a forma como o assunto é tratado. Muitas vezes a mídia aborda o tema com certo “glamour”, dando a impressão de algo parecido com um ato de heroísmo ou de conquista, que fará os outros admirarem a pessoa que se suicidou. Essa abordagem evidentemente é negativa e muitas vezes “incentiva” o suicídio (o chamado “contágio social”, ou “efeito Werther”, em referência ao personagem do romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe). O tema deve ser tratado com um enfoque de prevenção, visando auxiliar o reconhecimento do risco de alguém cometer suicídio. Muitas pessoas com pensamentos suicidas se sentem constrangidas em falar sobre isso, pois receiam ser estigmatizadas por familiares ou amigos. Nesse contexto estão inseridas as campanhas do Setembro Amarelo e mesmo a divulgação do Centro de Valorização da Vida (CVV), que tem um papel importante no auxílio a pessoas com risco suicida. Do mesmo modo que há sites que abordam o suicídio de modo negativo, “ensinando” métodos e criando “jogos” que podem levar seus participantes à morte, estudos mostram que sites ou fóruns que promovem a prevenção do suicídio têm um papel importante no auxílio a pessoas em risco. Especialmente os jovens procuram apoio e aconselhamento com maior frequência entre seus pares do que com profissionais especializados.

O suicídio é um problema médico-social complexo e uma grande preocupação na atualidade. É importante estar atento e antever essa possibilidade diante de uma pessoa que apresente depressão e esboce pensamentos negativos, desesperança e outros. Agir nesse momento pode ser a diferença entre a vida e a morte.

*Mario Louzã é médico psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha. CRMSP 34.330. Site: <www.saudemental.net>.

Referências

Gustavo Turecki e David A. Brent, “Suicide and suicidal behavior” [Suicídio e comportamento suicida], Lancet, n.387, p.1227-1239, 2016.

Keith Hawton, Kate E. A. Saunders e Rory C. O’Connor, “Self-harm and suicide in adolescents” [Autoferimento e suicídio em adolescentes], Lancet, n.379, p.2373-2382, 2012.

Jo Robinson et al., “Social media and suicide prevention: a systematic review” [Mídia social e prevenção de suicídio: uma análise sistemática], Early Intervention in Psychiatry, n.10, p.103-121, 2016.

Magid Calixto Filho e Talita Zerbini, “Epidemiologia do suicídio no Brasil entre os anos de 2000 e 2010”, Saúde, Ética & Justiça, v.21, n.2, p.45-51, 2016.

World Health Organization, “Suicide prevention” [Prevenção de suicídio]. Disponível em: <www.who.int/mental_health/suicide-prevention/en/>.

 

Crítica ao artificial amplo acesso ao ensino universitário

Encontrei este interessante texto em redes sociais e o compartilho aqui.
Não tenho certeza da autoria nem da data em que foi publicado.


Queridos formandos, burros e jumentos!
Maurício Mühlmann Erthal (autoria disputada / Rosalvo Reis?)
Relações Internacionais da UFRGS, em Porto Alegre/RS
Texto adaptado.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida, o ranking do Pisa provou de uma vez por todas que a tal “pátria educadora”, que encheu péssimas universidades com péssimos alunos formados por péssimos professores, era apenas um embuste.

Distribuir diplomas a pessoas de baixa inteligência, nenhum talento, estúpidas, cotistas etc., é como marcar a ferro o traseiro de bois e vacas que estão indo para o abate. Neste caso justificável.

Na nossa cultura deformada pelo “coitadismo”, ou para falar mais academicamente, pelo “ethos-igualitarista moderno”, teimamos em achar que a Universidade é para todos.

Nunca foi e nunca será.

Essa é uma das maiores mentiras da modernidade.

A decadência da civilização se iniciou com a universalização do ensino, com a troca da formação espiritual e intelectual puras, “ars gratia artis“, no sentido aristotélico, pelo adestramento meramente utilitarista para fins de sobrevivência.

Universidade é para uma elite intelectual. É para quem realmente tem talentos, gosta de estudar e tem uma inteligência privilegiada. Sua prioridade é produzir conhecimento e não formar mão de obra… E, muito menos ainda, formar militantes revolucionários que pretenderão implantar no país regimes ultrapassados e falidos como o comunismo para proveito de poucos, por exemplo.

Para formar profissionais e mão de obra, existe o ensino profissionalizante e técnico.

As oportunidades que devem ser oferecidas a todos, é a de uma boa formação de base onde, por meio da meritocracia, serão revelados aqueles mais capazes de ir para a Universidade e, lá, produzirem conhecimento.

Transformar todo mundo em universitário apenas para não ferir a auto-estima do jovem maconheiro que usa piercing no nariz e alargador na orelha, é algo completamente estúpido!

Tudo que os governos conseguiram, foi queimar centenas e centenas de bilhões de reais, para produzir o pior, o mais idiota, o mais ignorante, o mais analfabeto, e por conseqüência, o mais mimado, alienado e arrogante aluno do mundo!

Nivelaram todo mundo por baixo, destruíram qualquer possibilidade de formar uma verdadeira elite intelectual para o país. São décadas jogadas inteiramente no lixo! Trocaram a meritocracia (de alunos e professores) pela “universalização”, pela “política de cotas” e pela “ideologização”.

Nunca reconhecendo que as pessoas são essencialmente diferentes, umas mais inteligentes, mais capazes, mais interessadas e mais esforçadas que outras. E tentam enfiar, goela abaixo de todos, o maldito igualitarismo que sempre favorecerá o vulgar, o grosseiro e o ignorante. Sempre nivelará por baixo, rebaixará a tudo e a todos, e produzirá os piores resultados.

Reúna vários alunos inteligentes e todos se tornarão mais inteligentes ainda.

Cerquem um gênio de medíocres e vulgares, e testemunhará sua lenta e gradual decadência.

Numa era em que a humanidade enfrenta a sua mais radical transformação tecnológica, a civilização cibernética põe em xeque toda a cultura humanista, havendo uma mudança profunda de quase todos os paradigmas científicos, sociais e econômicos. Nanotecnologia, microbiologia, projeto genoma, matriz energética, 5G, Internet das coisas etc.

Nós gastamos trilhões em décadas para produzir uma geração “Nem-Nem” de mimados, estúpidos, deprimidos, feminizados ou masculinizados, vazios, idiotas e arrogantes, que votam em marxistas e morrem de medo de se tornar adultos.

Uma legião de falsos graduados sem possibilidade de emprego, endividados com o FIES, caminhando para a meia idade, morando com os pais e freqüentando a marcha da maconha porque precisam urgentemente se alienar e legalizar seu suicídio.

As conseqüências políticas do analfabetismo funcional do brasileiro

Eu tenho espírito de corno: sou sempre o último a saber das primeiras. Era assim na escola, na faculdade, no primeiro emprego, no segundo emprego, na vida em geral. Só venho a conhecer o que quer que seja polêmico quando todo mundo já sabe há tempos. É da minha natureza, não tenho como fugir. E por essa falta de conexão social, fui mais um dos brasileiros enganados por Bolsonaro e seus asseclas. Mas não, talvez, como o leitor imagine.

Conforme escrevi em ”A falácia sobre a educação”, ”Discussão e debate no país dos analfabetos” e em meu projeto de monografia de especialização em docência, o Brasil vive uma grave crise de analfabetismo funcional. Até mesmo pessoas com dois ou mais doutoramentos são incapazes de compreender o que lêem. Os trabalhos realizados em nível superior têm desprezíveis citações por papel e não contribuem efetivamente para o progresso científico. As instituições não preparam para o mercado de trabalho (tema de meu TCC), nem ao menos estão sintonizadas com as demandas do mesmo (ver: Um exército de doutores desempregados). Hoje em todos os níveis temos uma formação acadêmica precária, mas eficientemente projetada para servir como mecanismo de reprodução de idéias dominantes (Relações de poder no mundo acadêmico)

Esse fato agrava-se com a peculiar queda na capacidade intelectual do brasileiro médio (Brasil, um país de gente estúpida.). Não bastasse sua incompetência racional, devido a múltiplas causas, esta é agravada por sua baixa capacidade cognitiva. Não estamos mais tratando apenas de pessoas que não aprenderam a raciocinar, a inquirir, a questionar, a duvidar. Estamos também tratando de indivíduos intrinsecamente inaptos. Não é apenas não saber como, é não ser capaz de tanto, tais como as crianças com prejuízo cognitivo em minha postagem Deficiência de aprendizado infantil. Nesse caso, os prejuízos na construção da cidadania são irreversíveis, permanentes. E, como vimos nas últimas semanas, perigosíssimos.

Nesta era da informação em que a cada segundo nada é mais obsoleto que o dia de ontem, a quantidade de dados a que somos continuamente expostos é imensurável. A disputa pela audiência dos grandes meios de comunicação tem como principal rival a velocidade das redes sociais. Entremeadas ao consolidado 4º poder da imprensa e da mídia, penetram as Big Techs, que com seus algoritmos impelem e restringem dados conforme seus interesses. Não havia checadores de fatos quando somente a grande mídia falava e a massa escutava. Sob aparente liberdade de expressão, oculta-se um fortíssimo mecanismo de controle, censura e engenharia social.

Nesse cenário timidamente surgiu a onda conservadora no Brasil. Após décadas de aplicação da cartilha gramsciana (controle social por meio do controle cultural – universidades, meios de comunicação, artes), durante a chegada das ondas neomarxistas pós-modernas (feminismo contemporâneo, ações afirmativas de raça, ideologia de gênero, relativização da moralidade, hook up culture, rejeição ao patriotismo e soberania nacional) oriundas dos Estados Unidos e Europa ocidental, irromperam as sementes do conservadorismo. Vozes mudas vociferavam contra a degradação dos valores fundamentadores da sociedade. Sem haver um representante, alguém que pudesse se fazer ouvir, o grito de basta estava preso na garganta, até o surgimento excepcional de Jair Bolsonaro.

Apresentando-se como irascível, briguento e não corrompido pela cleptocracia, vimos nele alguém que iria por nós ”comprar a briga”, lutar para afastar de nossa nação o mal que há tanto se impunha e somente há pouco descobríamos. Ele seria a ponta da lança e seus apoiadores a força de que necessitava. Descobríamos o ”teatro das tesouras”, descobríamos Olavo de Carvalho, descobríamos o Foro de São Paulo. E ele, somente ele, estava disposto a lutar contra isso tudo. #Elenão perdeu e acreditávamos que o sonho do país do futuro finalmente chegaria. Mas não foi assim.

De um lado a mídia é cooptada e parcial. Não temos mais órgãos de imprensa, temos apenas militantes políticos, a maioria vinculada ao neomarxismo. O grupo Globo apresenta pautas contra a família e os bons costumes, a CNN é abertamente defensora do Partido Democrata estadunidense e o Grupo Bandeirantes tem parte significativa de seus ativos controlada pelo Partido Comunista Chinês. O SBT, a Rede Record e a Jovem Pan não possuem uma linha editorial consistente e alinham-se conforme a situação. Ou seja, ao recebermos informações da grande mídia estamos sendo desinformados, ou ao menos tendo as informações manipuladas, deturpadas.

Dois pesos, duas medidas. E a Lei 13.260/2016 discrimina explicitamente que ambos os atos não são terrorismo.

Nesse contexto, optei por obter minhas informações por meios alternativos e, tal como muitos, caí na teia da desinformação bolsonarista. E aqui está a diferença entre mim e boa parte da população: não fui enganado, mas sim não fui suficientemente informado.

Eu critiquei abertamente o governo Bolsonaro por sua inépcia em defender aquilo ao que ele se propôs em vários momentos:

E também quando não cumpriu suas promessas de campanha:

Mas me mantive fiel ao pressuposto de quando votei nele:

Em um cenário de profunda e contínua desinformação tanto pela oposição quanto pela situação, o homem médio brasileiro se viu cerceado da possibilidade de fazer bons julgamentos de valor. Os muitíssimos erros de Bolsonaro foram acobertados por seus seguidores, enquanto que inverdades eram inventadas por seus opositores. Às cegas, não vimos o que estava surgindo no Brasil. Nesses últimos quatro anos a polarização e a radicalização intensificaram-se ao ponto de que não foi mais possível diálogo civilizado. Embora eu tenha percebido que havia uma questão de fé envolvida (Dando nomes ao gado (Texto 2 de 3)), não tinha dimensão de seu tamanho. Acreditei que as manifestações em favor do então presidente não eram diferentes das manifestações contra-revolução de 1964, ou seja, famílias defendendo os valores tradicionais. Porém as eleições demonstraram o bolsonarismo ser muito mais do que isso.

O analfabetismo funcional, associado à baixa capacidade intelectual e a desinformação formaram o ambiente propício para que a figura do ”salvador da pátria” fosse piamente idolatrada. Bolsonaro apoderou-se de elementos da religiosidade, da imagem ainda bem considerada das forças armadas e do discurso de uma economia liberal para formar sua figura pública. Apoiadores em mídias alternativas ajudaram-no a capilarizar organicamente apenas a imagem que lhe favorecia, ocultando todas as traições que ele fez ao povo brasileiro. Sim, Bolsonaro traiu todos aqueles em que nele votaram e somente agora após ter saído do poder estamos vendo quem realmente ele é. Ao centralizar sobre si, e somente sobre si, um nome viável para a disputa das eleições, permitindo que diversos outros conservadores fossem censurados, Bolsonaro ajudou a matar a incipiente formação de uma direita de verdade no país.

E também estamos vendo o que o bolsonarismo realmente é. Vemos o fanatismo de um povo inepto e ignorante que tornou política em matéria de fé. As pessoas não acreditam em verdades, as pessoas acreditam naquilo em que querem acreditar. Estão tão insortas na histeria política coletiva que já não mais vêem o que está diante dos seus olhos. Que seu líder era falso. Que enquanto ele bradava ser a favor da família e dos bons costumes, destruía os mecanismos de combate à corrupção e sancionava medidas deletérias ao futuro. Que foram usadas como massa política, exatamente como os militantes do MTST. Que o bolsonarismo é exatamente igual ao lulopetismo, apenas mudando as cores. Que o capitão abandonou o barco.

A conseqüência política do analfabetismo funcional se mostra temerária. Tornamo-nos um povo facilmente manipulável. Vivemos às cegas num país onde não sabemos de onde podemos obter informações fidedignas. A grande imprensa não é mais crível. Ao obter informações da mídia paralela, eu mesmo fui logrado. Um exemplo meu foi no texto Generais-melancia? onde acuso Silas Malafaia de ter instigado a permanência de pessoas nos quartéis. Obtive essa informação de um dos apoiadores de Bolsonaro, e acreditei que era verdade. Isso me alertou que ambos os lados são mentirosos (e que também cometo erros levado por emoções políticas…).

Acreditei sim que ele estava defendendo a direita, pois desconhecia suas traições convenientemente acobertadas por seus seguidores (a quem eu escutava). Minhas críticas se referiram somente ao seu estilo de governo, acreditando que ele não estava sendo forte o suficiente, quando na realidade ele estava fortalecendo o que jurou combater. As boas notícias da economia, da infra-estrutura, dos programas sociais estavam à frente das notícias administrativas. E também fui enganado.
|:^/

Donde pergunto: onde obter informação, quando todos somente informam o que lhes convém? Se eu que tenho algum raciocínio fui logrado, o que dizer do homem menos afortunado? O que ver, o que ler, o que ouvir? Mesmo se tivéssemos informações imparciais, a maioria esmagadora da população não saberia o que fazer com ela. Ainda mais agora que não podemos fazer mais nada (Brasil, um país de efeminados).

Um exército de Doutores desempregados

Vez ou outra faço menção ao texto abaixo. Decidi colocar uma cópia do mesmo em meu site.
Fonte: https://tribunadoceara.com.br/blogs/tribuna-cientifica/ciencia-e-politica/um-exercito-de-doutores-desempregados/


Um exército de Doutores desempregados

Por hugofernandesbio em Ciência e Política
17 de fevereiro de 2016

Vou contar uma história para vocês, para que entendam em que ponto a Ciência brasileira se insere nessa crise. Ao personagem, dou o nome de Carinha. Obviamente, é uma história generalista, que jamais pode ser aplicada a todos, mas pelo menos a uma enorme parcela dos acadêmicos. Você verá muitos amigos seus na pele do Carinha. Talvez, você mesmo.

1 – No começo dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, novas universidades começam a surgir e o número de vagas, inclusive nas já existentes, aumentam vertiginosamente. A estrutura também melhora e as taxas de evasão de cursos de Ciência básica (Física, Química, Biologia e Matemática, por exemplo) caem. O Carinha, então, ingressa em um desses cursos.

2 – O Carinha que entrou em 2005 e se formou em 2009 passou o período da faculdade desconhecendo o mercado de trabalho do seu curso fora do meio acadêmico. Ao seu lado, muitos colegas que passaram quatro anos sem saber nem o que estavam fazendo. Para o Carinha, não havia outra solução a não ser lecionar em escolas ou tentar o Mestrado, que oferecia bolsa de pesquisa de R$ 1.100,00. Mas, para isso, teria que passar por uma difícil e concorrida seleção. Até que, com o aumento do número de programas e bolsas de pós-graduação, ele viu então que aquilo não era tão difícil assim. Em 2010, torna-se mestrando.

3 – Enquanto seu amigo engenheiro civil****, recém-formado, já está dando entrada para comprar um carro, o Carinha usa sua bolsa para pagar seus pequenos gastos pessoais, além de sua pesquisa sem financiamento externo

(****PS. Permitam-me uma edição aqui. Fui infeliz quando exemplifiquei o colega como um engenheiro civil, pois o mercado para esse profissional atualmente também encontra-se em crise. Tente imaginar qualquer profissão facilmente absorvida pelo mercado de trabalho privado e o texto continuará com o mesmo objetivo).

Em dois anos, o Carinha tenta produzir alguns artigos para enriquecer o currículo. Tem planos para publicar cinco, mas publica um, em revista de qualis baixo. Em paralelo, entra num forte estresse para entregar sua dissertação e passar pelo forte crivo da banca, que pode reprová-lo. Será? Na semana de sua defesa, seu colega também é aprovado, mas com um projeto medíocre e mal conduzido, que, apesar de criticado, foi encaminhado pela banca porque reprovações não são interessantes para a avaliação de conceito do Programa. Normas do MEC.

4 – Já mestre, publica mais um artigo e entra no Doutorado, em 2012. Foi mais difícil que o Mestrado, porém mais fácil do que teria sido anos atrás, por conta do bom número de bolsas disponível. Boa parte daqueles colegas medianos desiste da vida acadêmica, mas aquele dito cujo sem perfil de cientista de alto nível também é aprovado. Afinal, ter bolsas desocupadas não é interessante, porque senão o Programa é obrigado a devolvê-las. Normas do MEC.

5 – Sua bolsa de R$ 2.500,00 já ajuda um pouco sua condição financeira, enquanto aquele colega engenheiro conta sobre sua primeira casa própria. Além disso, o amigo já contribui com o INSS, tem seguro desemprego, 13º salário, plano de saúde, cartão alimentação, entre outros benefícios. O Carinha não, tem só a bolsa e um abraço. Normas do MEC. Mas, tudo bem, é um investimento em longo prazo. Logo menos, ele tentará um concurso para ser professor universitário, com iniciais de cerca de R$9.000,00. Ele se esforça, publica artigos, dá aulas, redige a Tese, defende e é aprovado. O colega mediano faz um terço disso, mas também alcança o título.

6 – Eis que, em 2016, Doutor Carinha se depara com uma grave crise financeira. Cortes profundos no orçamento, principalmente no Ministério da Educação, tornam escassas as vagas como docente. Concursos em cidades remotas do interior, antes com dois, cinco concorrentes no máximo, contam hoje com 30, 50, 80.A solução então é caminhar urgentemente para um Pós-Doutorado, com bolsa de R$ 4.100,00, metade do que ganha seu amigo engenheiro, mas ok, dá um caldo bom, ainda que continue sem direitos trabalhistas. Pouco tempo atrás, as bolsas sobravam e os convites eram feitos pelo próprio professor. Hoje, ele enfrenta uma seleção com 30. Ele passa, o outro colega já fica pelo caminho, assim como centenas espalhados pelo país. O que eles estão fazendo agora?

O resumo da história é… Temos um exército de graduados analfabetos funcionais e de mestres que não merecem o título. Em um pelotão menor, mas ainda numeroso, doutores cujo diploma só serve para enfeitar a parede. Bilhões de reais gastos para investir e manter um grupo cujo retorno científico é pífio para o país. Entretanto, esse não é o pior cenário.

Alarmante é ver um outro exército de Carinhas, esse qualificado, com boas produções, só que desempregado e enfrentando a maior dificuldade financeira de suas vidas. Alguns há anos em bolsas de Pós-Doutorado, sem saberem se essas podem ser cortadas no ano seguinte. Se forem, nenhum mísero centavo de seguro desemprego. Na rua, ponto. Outros abandonando por vez a carreira para tentar os já escassos concursos públicos em outras áreas ou mesmo para fazer doces caseiros, entre outras alternativas.

Ao passo que o Governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas de pós-graduação nesses últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades do mundo, além de uma série de outros absurdos.

Teremos cerca de dez anos pela frente para que essa curva entre oportunidades e demanda volte a estabilizar. Não tenho dúvidas de que alcançaremos isso. Mas, até lá, cabe a pergunta. O que faremos com os novos Carinhas que ainda surgem a cada vestibular?

A morte de Bento XVI e o início da Nova Religião Universal de Francisco

A morte de Bento XVI e o início da Nova Religião Universal de Francisco – Frei Tiago de São José | Monte Carmelo

 

Não só finais de ano, mas em todas as datas festivas.

Não faça sua alegria a partir da dor de outrem.

Charles Darwin e os brasileiros.

Contribuição de Eduardo Macedo:

Anotações de Darwin do dia 3 de julho de 1832.
Fonte: Dominio Público

O episódio começa quando Darwin tenta se comunicar com um homem escravizado que o acompanhava em um barco. Enquanto o cientista gesticulava de forma efusiva para tentar se fazer entender, acaba aproximando a mão do rosto do homem, que, assustado, baixa os braços: ele pensava que o naturalista queria bater em seu rosto, e abriu a guarda para que este pudesse fazê-lo.

Nunca vou esquecer meu sentimento de surpresa, repugnância e vergonha por ver um homem grande e forte com medo de se defender do que ele pensava ser um tapa em seu rosto. Aquele homem fora treinado para se habituar a um nível de degradação maior do que o da escravização de qualquer animal indefeso.

Já com relação aos senhores, ele prossegue:

“Os brasileiros, até onde consigo avaliar, possuem uma fatia pequena das qualidades que dão dignidade à humanidade. Ignorantes, covardes, indolentes ao extremo; hospitaleiros e amáveis à medida que isso não lhes dê trabalho; temperamentais e vingativos, mas não brigões. Satisfeitos consigo mesmos e com seus costumes, respondem a todas as observações com a pergunta: ‘Por que não podemos fazer como nossos avós antes de nós fizeram?’ A própria aparência reflete a baixa elevação de caráter. Tipos baixos que logo ficam corpulentos; a face possui pouca expressão, aparenta estar afundada entre os ombros. Os monges diferem para pior nesse último aspecto; é preciso pouca fisionomia para ver claramente estampados perseverança ardilosa, volúpia e orgulho.”

Charles Robert Darwin
Naturalista, geólogo e biólogo britânico
* 12/02/1809, Shrewsbury, Reino Unido + 19/04/1882, Downe, Reino Unido

Charles Darwin, c. 1840.

Brasil, um país de efeminados.

Antes que o Ministério Público queira me processar por crime análogo ao racismo exigindo danos morais coletivos, informo que estou utilizando tanto o termo virtude quanto o termo efeminamento em seu sentido maquiaveliano, conforme expus em meu livro “Introdução ao Estudo de O Príncipe de Maquiavel”, publicado em 2012, cujo inteiro teor pode ser obtido na Biblioteca Nacional. Este texto parte do pressuposto de que você, caro leitor, leu meu primeiro livro.

Efeminado: aquele que não possui virtude, isto é, a virilidade combativa frente à rapina alheia, a capacidade/habilidade/impulso de defender seus próprios interesses.

*

Mártir: acima do herói, é aquele que se sacrifica por algo maior que sua própria vida.

Herói: aquele que inspira outros a seguirem por seu caminho de virtude.

Tolo: aquele que luta por nada.

Este é meu último texto sobre política brasileira e nossos estimados governantes, servidores públicos assim como eu, porém em posição de maior relevância, seja por eleição, seja por indicação. Doravante somente escreverei sobre teoria política (se escrever), independentemente dos destinos desta terra, como dizia meu avô, ”da liberdade”. Liberdade para uns poucos, servidão voluntária para os demais.

Escrevo e publico críticas ao governo brasileiro desde 2014. Muitas delas bastante ácidas, algumas ao ponto da vulgaridade. Porém ao aproximarmo-nos do final do ano de 2022, já é possível antever como será a doravante política pública brasileira, e não me sinto à vontade para expor livremente o que penso. Se antes não podia escrever livremente na Academia, agora não poderei escrever livremente fora dela também.

Em meu último texto/vídeo (Generais-melancia?) um segmento não ficou muito claro. Reconheço que me expressei muito mal e isso tem perturbado minha mente nas últimas semanas. Optei por aguardar até o último instante para ver como se dariam os desdobramentos brasilienses para daí publicar minha reação final. Obtive com sucesso a resposta à pergunta que fiz no texto/vídeo: agora eu sei quais são as regras do jogo. E agora que sei, basta eu jogar segundo as novas regras. Acato, pois o que mais eu poderia fazer? Disso, segue este texto.

A parte do texto que fica me encafifando é a em que digo: “[…] Porque este é um país de homens emasculados, covardes e efeminados. Ninguém aqui tem colhões para desobediência civil.” No que repito e reafirmo: de fato, não há. Mamãe reclamou da generalização, pois eu estaria me inserindo no contexto da covardia brasileira. “Meu filho, você reclamou que o brasileiro é covarde e sem colhões, mas também disse que acata a decisão. Isso não é incoerente? Você está se colocando como covarde também.” Eu expliquei na postagem referente, mas ainda acho que não me deixei claro o suficiente.

Não há sociedade de um homem só. Uma sociedade é composta por várias pessoas, que, de acordo com interesses comuns, organizam-se espontaneamente das mais variadas formas. O comportamento individual é pautado diretamente pelos parâmetros sociais nos quais aquele indivíduo vive. Há aquilo que pode ser feito (permitido), o que é estimulado e o que é proibido.

O Brasil é um país de frouxos e covardes. O que isso significa? Que a cultura arraigada, enraizada, estimulada, esperada é a do pacifismo, que critiquei em meu penúltimo texto. Cito-me: “Ele não é pacífico, isto é, aquele que não procura conflito; ele é pacifista, isto é, aquele que mesmo quando o conflito vem a ele, ele não age, não revida, permitindo que o mal se torne cada vez maior.” É a ideologia continuamente pregada pelos pais de estudantes que sofrem bullying na escola, pelos repórteres de programas policialescos, pelos agentes de segurança pública: não revidar, não reagir. Somos continuamente doutrinados pela sociedade a aceitar o que está errado. A não revidar, não reagir.

Quando você reage às provocações, qual é a primeira coisa que te falam? “Você perdeu a razão.” Tomam automaticamente como errado o revide ao ultraje. Nesta terra, o correto é aceitar calado, tal como minha bisavó falava: “sim, sim; amém, amém”. Pois “é preferível viver em paz a estar com a razão”. Aquilo que é certo, que é verdadeiro, que é justo, que é razoável não importa, desde que se evite o conflito (mesmo que você seja o único prejudicado).

É exatamente essa nociva mentalidade que impede que haja qualquer ensaio de desobediência civil no Brasil. Ela é impossível numa sociedade de pacifistas. Aquele que tentar transgredir os parâmetros sociais a todos impostos será considerado o errado, mesmo que em sua perspectiva esteja fazendo o que acredita ser benéfico para todos. Esses parâmetros proíbem o indivíduo de transgredir a norma cultural da não reação. Em suma, será dado como louco.

Não há ”valentia” em um homem só. As ações sociais humanas só têm valor a partir da perspectiva de seus pares. Numa sociedade emasculada, desvirtuada, rompe-se o limiar entre a coragem a e a temeridade. Numa sociedade pacifista, quem reclamar, quem lutar, quem tentar fazer alguma coisa será tratado como o errado.

Por isso não faz sentido lutar contra o que aí vem pela frente. Um homem que não está em posição de poder, sem o apoio de seus pares, não pode fazer nada para mudar a ordem da sociedade em que está. E aquele que está em situação de poder deve negociar segundo os interesses de seus pares. É o princípio básico da manutenção do status quo em Maquiavel.

Façamos um exercício mental. Imagine que alguém realmente queira hoje (2022) questionar a política brasiliense por meio de insurreição popular. Primeiro, tem que encontrar nesta sociedade de covardes um grupo que esteja disposto a se sacrificar em conjunto ”pelo bem do país”, ”pelas futuras gerações”, ou por outra frase de efeito. Missão quase impossível, pois haverá desculpas mil. Desde o sujeito que tem família para cuidar e não está disposto a se ferrar (meu caso), até quem precisa ir comprar pão.

Suponhamos então que esse intrépido, corajoso e eloqüente visionário consiga ludibriar 100 cabeças (e estou sendo bastante pródigo nessa digressão). Pois bem, já se tem o grupo, agora é necessário tomar em armas. Que armas? Não há cultura armamentista no Brasil, o povo é desarmado. A menos que resolvam enfrentar o governo com estilingues…

Curiosidade: sabia que os tribunais federais, pagos com seu imposto, cogitam considerar os bodoques como armas de caça?

Mas sejamos ainda mais pródigos com nosso protagonista imaginário. Ele consegue, de alguma forma, entrar em contato com grupos fora-da-lei e importar (ilegalmente, claro) o equipamento necessário. Ou seja, para supostamente lutar por um país melhor, comete um sem número de crimes e alia-se às mesmas pessoas contra quem veementemente vitupera. Típico miliciano fluminense (sem referência a futuros ex-presidentes).

Pois bem, já tem voluntários estúpidos o suficiente e já tem o material necessário para fazer barulho: finalmente é chegada a hora do Putsch! Assim, felizes e ditosos, com o verde e amarelo no coração, com a pátria na mente, seguem os valentes para frente do primeiro batalhão de polícia militar. Despreparados, destreinados, não doutrinados e inexperientes, em quinze minutos estão todos mortos. Mais quinze minutos, a imprensa nacional fervilha a notícia da tentativa de golpe e anarquia, avalizando ao governo legalmente instituído todas as decisões imagináveis (e inimagináveis) para a ”manutenção da ordem social e da democracia”.

E sabe qual a melhor parte nisso tudo? A população em massa irá reagir contra esses que tentaram, ainda que ingenuamente, lutar por alguma coisa. O povo brasileiro é contra a luta (e o esforço de um modo geral). Prefere placidamente esperar deitado eternamente em berço esplêndido, embalado por mãe gentil, que outros resolvam seus problemas por si. (Edições Independentes) Não é possível nascer heróis dum povo sem virtude. Não é possível ser valente numa nação acovardada.

Para sobreviver socialmente é necessário adequar-se às regras do jogo, à moral e aos costumes do lugar. Se você não se adequar, será punido por sua transgressão. Deixe-me ampliar o exemplo do texto que me encafifou, o caso de Roberto Jefferson.

Qual é a principal função de um homem livre ter armas em sua casa? Defender a si, a sua família, a sua propriedade e, se necessário, a sua liberdade frente a um governo tirânico, eliminando o monopólio da força coercitiva do Estado. Frente a mais um cumprimento de ordem judicial pela Polícia Federal, ordens as quais se questiona sua situação jurídica, Jefferson tomou em armas para defender sua liberdade e a de sua família. Quando os agentes do Estado que deveriam proteger os cidadãos usam de força coercitiva para persegui-los, o que a estes resta fazer? Ele fez exatamente o que se espera de um homem encurralado: revidou, reagiu. E nossa sociedade o punirá por isso.

Nenhum jornalista, nem mesmo os mugidores gados bolsonaristas, o apoiaram. O imbrochável líder, que tanto fala em armas ”para defender a liberdade”, foi o primeiro a condená-lo publicamente. Se isso ocorreu para um homem público em situação de desespero, o que dizer dos desconhecidos populares que estão chegando a seus limites? Eles não são mais punidos por ações, hoje já são punidos pela mera suspeita de intenções…

Aprender com o erro dos outros é muito melhor do que com os próprios erros. Ao observar os erros dos demais, e as conseqüências de suas aventuras, pondero que não vale a pena nem ao menos questionar os eventos de 2022. Se meras palavras podem incriminar um homem por aqui, de que vale reclamar? Não me importo que a mim recaia a pecha de acovardado também, sou brasileiro, pois. E não sou tolo. Sim, sim; amém, amém. Aceitemos que dói menos. Afinal, senhores generais, nós o povo vamos fazer o quê?

Agora com licença, que estou indo comprar pão (enquanto ainda temos para comer).

Brasil, um país de gente estúpida.

Não é de hoje que reclamo da estupidez galopante do povo brasileiro. Um povo mais afeito às fofocas do que às notícias, tem maior interesse em futilidades do que na substância da vida. Já reclamei que tudo no Brasil parece ser empurrado com a barriga (em todos os sentidos da expressão vulgar). Tanto no trabalho particular quanto na vida política, os problemas vão sendo postergados como bombas-relógio até que explodam (preferencialmente nas mãos de outrem). Também não é de hoje que, por aqui, confesso minha sensação de alienação, de não pertencimento. Os amigos próximos sempre falam que eu tenho uma capacidade intelectual acima da média. De fato, sempre senti facilidade para tratar de assuntos que, para muitos, são complexos ou ”difíceis”. Nunca pensei muito sobre isso, sempre aceitei a idéia de que sou realmente mais inteligente do que os outros. Atribuí a isso minha solidão filosófica.

Já adulto e com internet, passei a procurar por mim mesmo assuntos que me interessavam. Porém (como tantas vezes já reclamei) não encontrei material instrucional significativo em português. Conteúdo esparso, sem profundidade, sem fidedignidade, e até incorreto. Entretanto com facilidade encontro tudo o que quero em inglês. O mais surpreendente é o conteúdo vir de pessoas comuns. Não são doutores, não são grandes pesquisadores, são pessoas absolutamente comuns que por passatempo se interessam, como eu, por esses assuntos. E isso sempre me causou consternação. Por que é tão fácil obter conteúdo bom lá fora e aqui dentro é tudo tão difícil?

Então, em minhas andanças, descobri a resposta: o Brasil é um país de gente imbecil. Literalmente. Estupefato fiquei ao descobrir que não sou eu quem é inteligente: as pessoas é que são idiotas. E essa não é uma forma incorreta de usar o termo ”idiotia”, pois a população brasileira (em média) está abaixo do que é considerado retardamento mental no primeiro mundo. Inverso à ”Chave do tamanho” de Monteiro Lobato, percebi-me engrandescendo quando na verdade era o mundo diminuindo ao meu redor. Não à toa, as roupas próprias à gente pequena não cabem em mim… Descobri que sou uma pessoa normal jogada num país de gente estúpida.

A seguir, segue texto de Gustavo Bertoche. Eu discordo de alguns pontos, como minimizar a catástrofe de Paulo Freire na educação brasileira, mas ele alinha-se a temas que eu defendo já há algum tempo, como a necessidade de modificar o sistema do vestibular, reavaliar o prestígio do diploma (que hoje em dia não é mais do que um papel) portado por um “exército de doutores desempregados” e promover a alfabetização acadêmica. A falta de cultura e a falta de senso crítico estão corroendo a mente das pessoas. Em terra de tolos, quem tem um neurônio é filósofo. |:^c


Fonte: https://portalcafebrasil.com.br/iscas-intelectuais/qi-educacao-e-literatura/

E a cada dia as pessoas desta terra ficam ainda mais estúpidas.

QI, educação e literatura

Gustavo Bertoche – É preciso lançar pontes. 15/05/2020

O QI médio em praticamente todos os países do mundo cresceu muito nos últimos 100 anos.

Na Alemanha e nos EUA, o crescimento do QI médio foi de mais de 30 pontos. No Quênia e na Argentina, foi de cerca de 25 pontos. Na Estônia e no Sudão, foi cerca de 12 pontos.

Fonte: https://ourworldindata.org/grapher/change-in-average-fullscale-iq-by-country-1909-2013?country=ARG+AUS+AUT+BEL+BRA+BGR+CHN+DNK+DMA+EST+FIN+FRA+DEU+IRL+ISR+JPN+KEN+NLD+NZL+NOR+SAU+ZAF+KOR+ESP+SDN+SWE+CHE+TUR+GBR+USA+CAN

No Brasil aconteceu justamente o contrário. A queda do QI foi de quase 10 pontos nos últimos 100 anos. Talvez esse emburrecimento generalizado seja único na história da humanidade. O nosso QI médio é de 87, o que nos coloca, na média, no limite da deficiência intelectual.


Esse fenômeno bizarro tem tudo a ver com o nosso modelo de (des)educação escolar. Nada a ver com Paulo Freire, amigos. A coisa vem de muito antes. Em 1915, Lima Barreto revelava a cultura das aparências no Brasil: ao saber que Policarpo Quaresma possuía uma biblioteca particular, o doutor Segadas pergunta para que tantos livros, se não era nem formado. Não lhe ocorre que Policarpo tenha livros porque os leia: para o doutor, uma biblioteca não passa de um adorno ao diploma. É assim há mais de cem anos: no Brasil, quase sempre os livros servem não para ampliar o nosso mundo interior, mas como sinal exterior de status.

Em 1951, o prêmio Nobel de física Richard Feynman aceitou o convite para lecionar, no Rio de Janeiro, para uma turma de pós-graduação. Em 05 de maio de 1952, no fim da sua experiência docente no Rio, Feynman fez uma conferência que, quase setenta anos depois, ainda repercute fundo na ciência brasileira. Nessa conferência, expôs o nosso sistema educacional: ele descreveu um sistema em que os alunos não aprendem nada senão a decorar textos e fórmulas, e não imaginam o que fazer depois com isso. Feynman diz na sua autobiografia que aparentemente havia no Rio de Janeiro uma Universidade, com uma lista de cursos, com descrições desses cursos; mas que essa aparência não passava de uma ilusão, e que surpreendentemente no Brasil não existia, de fato, nem Universidade, nem ciência.

Paulo Freire – que a direita, sem o ler, adotou como o novo vilão da educação nacional – publicou a sua “Pedagogia do Oprimido” em 1968: cinqüenta e três anos após “Triste fim de Policarpo Quaresma” e dezesseis anos depois do diagnóstico demolidor de Feyman. Se Paulo Freire é o responsável pela situação deplorável da educação e da inteligência brasileira, então estamos diante de um extraordinário caso de efeito anterior à própria causa.

O fato é que a educação brasileira é muito ruim há pelo menos cem anos, amigos.


E a educação brasileira tem sido muito ruim porque nunca houve, em nosso país, um projeto de educação. Jamais – jamais! – os nossos governantes e gestores do primeiro escalão se perguntaram por que educar. Nunca se puseram a questão: “quem nós queremos que as nossas crianças sejam aos dezoito anos? como queremos que elas compreendam o mundo? o que queremos que elas saibam, o que queremos que elas saibam fazer?”.

O resultado é que o nosso currículo escolar é uma colcha de retalhos sem nenhum propósito, um currículo que macaqueia desastradamente os currículos de outros países.

Daí vem uma surreal conseqüência: a única meta de todo o ensino básico se torna o vestibular, um vestibular com um programa duas vezes absurdo – absurdo por sua extensão alucinada e absurdo por sua desconexão com a vida do espírito e da sociedade.


O nosso modelo de ingresso no ensino superior – que consiste em provas que abrangem uma quantidade sobre-humana de conhecimentos – não mede nada além da capacidade de concentração, memorização e repetição. Não por acaso, os professores mais reputados nos cursinhos preparatórios são justamente os especialistas em mnemotécnica: são aqueles que criam os poemas mais picantes para se decorar a Tabela Periódica, que inventam as melhores melodias para se guardar várias fórmulas de física e que adestram os alunos com esquemas pré-fabricados de redação para qualquer tema.

Neste nosso modelo, o bom candidato ao ensino superior se torna profundo conhecedor… de métodos de realizar provas. E, por não ter compreendido realmente nada, no dia seguinte ao vestibular se esquece de tudo o que passou dez anos estudando.

Surge daí a tradição – identificada, com assombro, por Feynman – do “estudar para a prova”, das musiquinhas de decoreba, dos cursinhos preparatórios: saber os macetes para tirar boas notas nas avaliações importa mais do que verdadeiramente saber aquilo que se estuda. A nossa escola nada ensina – a não ser a tirar boas notas. O nosso currículo oculto é o da valorização dos diplomas – e o da desvalorização do conhecimento.

Ora, amigos, Platão já sustentava, há vinte e cinco séculos, a impossibilidade da existência de uma sociedade sã sem um sistema educacional saudável. O nosso sistema educacional, com um currículo inacreditavelmente extenso, mas absolutamente sem propósito, é justamente o oposto disso. Como querer que o Brasil seja um país com bons cidadãos, se o nosso currículo oculto parece ter sido elaborado com a finalidade de formar indivíduos frívolos, vaidosos e ignorantes?


Isso explica uma característica das cidades brasileiras contemporâneas: a enorme quantidade de academias de ginástica, fenômeno sem par no mundo, e a ínfima quantidade de livrarias.

Um povo que coloca a preocupação com a “barriga tanquinho” em primeiro lugar na sua vida revela, com isso, qual é o seu horizonte existencial e que marca pretende deixar na História.

Amigos, o Brasil é o país com maior número de cirurgias estéticas per capita no mundo inteiro. Os EUA fizeram cerca de 300 mil cirurgias plásticas a mais do que as 1.224.300 realizadas no Brasil em 2017, mas têm uma população 60% maior do que a brasileira.

Por outro lado, povo brasileiro está entre aqueles com menor quantidade de livrarias per capita em todo o planeta. São Paulo, sozinha, tem o dobro da quantidade de automóveis da Argentina inteira. Mas Buenos Aires, sozinha, tem o dobro da quantidade de livrarias de São Paulo.

O brasileiro acha muito caro pagar cinqüenta reais por um livro, mas faz dívidas astronômicas para comprar um automóvel. Isso ilustra o nosso problema civilizacional: somos o país da pose inculta. Somos o exemplo acabado da síndrome socrática de Dunning-Kruger: tão abissalmente ignorantes que não sabemos nem que somos o povo mais ignorante do mundo.


A conseqüência disso é evidente. Nestes anos, tenho ouvido e lido profissionais liberais, magistrados, jornalistas e – pasmem – professores universitários com uma nítida dificuldade de descrever as suas intuições e percepções, ou com uma evidente incapacidade de efetuar as operações lógicas mais simples num debate.

É fácil atestar essa decadência: basta visitar uma livraria – se você encontrar alguma, é claro – e buscar um romance de qualquer escritor brasileiro contemporâneo. Raríssimos serão os livros que não apresentarão uma vulgaridade estrutural, sintática, vocabular desoladora.

Ou seja: ter recebido a educação escolar e universitária no Brasil nas últimas décadas é praticamente uma condenação à impotência discursiva.


E o que a literatura de um povo tem a ver com o QI? Tudo, amigos, tudo.

É por meio da linguagem que nós pensamos o mundo. Por meio da estrutura sintática da língua intuímos a estrutura lógica do Cosmos. Sartre está certo quando nos diz que “nosso pensamento não vale mais do que a nossa linguagem e deve-se julgá-lo pela forma com que a utiliza”. Se não lemos boa literatura, falamos e escrevemos mal; se falamos e escrevemos mal, pensamos mal; se pensamos mal, saímo-nos mal nos testes de QI. Para tornarmo-nos mais inteligentes, é preciso desenvolver uma faculdade comunicativa que vá além dos grunhidos mais ou menos elaborados com os quais expressamos os desejos, as sensações e as opiniões imediatas.

Geralmente, é na escola que tomamos contato, pela primeira vez, com a estruturação formal da nossa língua – não somente por meio das aulas de Gramática, mas, principalmente, por meio dos contos, romances e poemas que somos obrigados a ler.

E o que somos obrigados a ler, amigos?

Na escola, em meio a alguns tesouros da língua portuguesa, como Pe. Vieira, Machado, Euclydes, Lima Barreto e Guimarães Rosa, somos forçados a encarar também obras de qualidade menor, como as de um Joaquim Manuel de Macedo (“A moreninha”), de um José de Alencar (“O guarani”), de um Raul Pompéia (“O ateneu”), de um Aluísio Azevedo (“O cortiço”).

Entre uns e outros, uma ausência salta aos olhos: a ausência da grande literatura mundial.

Amigos, eu acho inconcebível que os alunos brasileiros não leiam Cervantes na escola. Que não leiam Shakespeare. Que não recebam livros de Dostoiévski, de Hemingway, de Borges. Que, ao lado dos necessários poemas de Pessoa, de Bandeira, de Cecília Meireles, de Drummmond, não leiam também Blake, Whitman, García Lorca, Neruda.

Como podemos ombrear com os outros povos do mundo se não conhecemos o fundo cultural no qual os debates civilizacionais são travados? Amigos, as trocas civilizacionais profundas não se dão no plano da conversa do taxista de aeroporto, não se dão em termos de cantores da moda e jogadores de futebol.

A não ser que deliberadamente queiramos nos posicionar como a nação do QI médio 87, a nação dos bobos-felizes.


O nosso sistema educacional é, na verdade, um sistema inteiramente deseducacional. Ele não aumenta a nossa inteligência: ele a reduz.

Se o nosso sistema educacional continuar centrado na prova, não haverá saída para a nossa civilização: acabaremos por desaparecer não por conseqüência de uma invasão estrangeira ou de uma guerra civil, mas por pura inaptidão para a existência.

Para salvarmos a civilização brasileira, precisamos salvar a escola. E a escola somente será salva se ela passar a fazer o que nunca fez: se ela passar a educar. Se ela, em primeiro lugar, começar a ensinar a pensar, o que somente é possível se ela começar a ensinar a ler, a escrever e a falar.

Finalmente, amigos, para ler, para escrever, para falar bem – isto é: para pensar bem -, só há um caminho: o caminho da boa literatura e da prática da escrita e do debate. Justamente o que mais falta nas nossas escolas, tão ocupadas com todo o resto.

Wolf Guy – Ookami no Monshou, Elfen Lied e outros títulos.

Caro parco leitor, as linhas a seguir podem ser sumamente desconsideradas. Nos próximos parágrafos vossa senhoria encontrará palavras de baixo calão e conteúdo escatológico que em nada lhe acrescentarão algo. Esta página serve para mim, dentre outras coisas, como uma terapia. Sem ter uma vivência social considerada saudável, (seja por vontade própria, seja por maioria de votos) encontro aqui um lugar para vomitar todas as coisas ruins que vez ou outra ficam entaladas na garganta e, em ato de catarse, tiro o que não presta de dentro do peito e o jogo fora.

A mim agradam temas relacionados ao oculto, dentre eles a criptozoologia (um nome rebuscado para folclore). Fascinam-me essas histórias populares. Como culturas tão diferentes e não inter-relacionadas conseguem convergir para os mesmos arquétipos? Em especial dragões, gigantes e monstros marinhos. Também há o caso do homem-fera (wendigo, sasquatch, yeti, licantropo, kitsune, kurtadam…) que inicia o escopo deste texto. Como, tanto na América pré-colombiana, quanto na antigüidade européia e também na Ásia, são recorrentes os relatos de feras humanóides? E por que essas histórias normalmente as tratam como perigosas? Trazendo isso para a atualidade, esses mitos atemporais continuam inspirando a arte contemporânea.

Já fui consumidor ávido de histórias de terror em todo tipo de mídia (escrita, desenhada, animada ou cinematográfica). Porém em certo ponto de minha vida simplesmente enfastiei-me. A cultura perdeu a elegância, o carisma e a criatividade dos ”bons tempos” (Ver também: mother!). Optei por rejeitar trazer para mim a vulgaridade alheia travestida de arte. Infelizmente as histórias de terror hodiernas não trazem mais o símbolo do heroísmo, do bem vencendo o mal. Ora temos meramente cópias de cópias da visão lovecraftiana de desesperança e desalento humanos frente a um mal inefável, impassível e invencível. Decidi repudiar todas essas coisas. Só quero em minha vida aquilo que traga algo de bom, algo que promova o belo, algo que incite à justiça. Ou ao menos que instigue a uma boa reflexão sobre a vida.

Houve uma época em que eu fazia questão de ver uma obra inteira antes de criticá-la. Considero que, para criticar algo, é necessário conhecer bem o que será criticado, conhecer seu inteiro teor para poder bem exercer o juízo de valor. No caso de uma obra artística seriada, como quadrinhos, ler a história toda. Mas isso mudou com o título Shingeki no Kyojin. A história começou de um jeito e, quando o personagem principal mudou sua bússola moral de herói para vilão, desagradou-me e parei de ler. Não senti falta de continuar lendo ”para saber o fim da história” pela primeira vez. Cansei e larguei. Foi uma vitória contra o TOC de complecionismo.

Leitor de quadrinhos dos mais diversos gêneros, recentemente em minhas andanças ouvi falar de um título que chamou minha atenção: Wolf Guy – Ookami no Monshou. O título se apresenta com a premissa de ser o reboot (reinício) das “aventuras de um lobisomem” (título original Wolf Guy). O título original fez grande sucesso na década de 1970, ao ponto de terem sido produzidos dois filmes e seis animações nas décadas posteriores, demonstrando seu importante impacto cultural. Acreditei então que essa adaptação à ”nova geração” (2007) seria um bom ponto de partida para conhecer a coisa.

E cometi o erro de iniciar a leitura. Minha paciência esgotou-se na metade da ”história”.

Que merda é essa? Esse é único termo técnico existente adequado para qualificar Wolf Guy – Ookami no Monshou: é uma M-E-R-D-A. Não há absolutamente nada nesse título que possa redimi-lo do status de ser uma bosta. Este é o motivo de toda minha raiva: pela primeira vez em minha vida decidi não terminar de ler uma obra por tão ruim que ela é. (E, olha, eu já vi coisas horríveis…)

Tenho raiva do fato de que alguém teve a petulância de escrever o roteiro;
tenho raiva de que alguém teve a audácia de desenhar esse troço;
tenho raiva de que alguém teve o atrevimento de publicar essa coisa;
e tenho ainda mais raiva de que haja quem tem a desfaçatez de dizer que gosta de DOZE volumes dessa joça.
Já disse que estou com raiva?

E por que tanto ódio em meu coraçãozinho? Deixe-me colocar no microscópio e fazer o exame de fezes.

Da arte

Pequenos erros de proporção e perspectiva existem em todos os quadrinhos. Sempre há algo que escapa, não tem jeito. Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem erros grosseiros de tridimensionalidade. Quem desenha sabe que a parte mais difícil de desenhar são as mãos e os pés dos personagens, e mesmo nisso há pouquíssimos equívocos. Há também algumas falhas de continuidade, mas nada grave.

O principal problema estético em Wolf Guy – Ookami no Monshou é a altíssima flutuação da qualidade da arte. Ora de excelente qualidade, em poucos quadros (frames) decai para um amontoado de rabiscos incompreensíveis, para logo depois retornar a alto nível de qualidade. A arte é suja: há muitas tentativas de efeitos visuais, uso excessivo de onomatopéias sobrepostas às composições (subjects), exagero no uso de hachuras e inarmonia no uso de texturas (background)… Há a sensação de sujeira visual (noisy visuals), desproporcionalidade e desnecessariedade no uso de aproximações (close-up) e, especialmente, repetições, repetições, repetições… Voltarei a falar dessas repetições na parte do enredo, mas na questão da arte ela demonstra pobreza na composição visual, pois não é usada com qualquer efeito estratégico, mas sim apenas para preencher espaço.

Esses problemas são ainda mais graves nas cenas de ação. Essas, que deveriam ser claras para o leitor acompanhar o movimento dos personagens, são tão ofuscadas pelo ”ruído visual” que, confesso, houve momentos em que eu não consegui distinguir o que estava acontecendo. Isto mesmo: eu olhei, olhei e não conseguir entender o que eu estava vendo. Isso numa cena de luta é equivalente ao camera shaking (edição com câmera trêmula mais 50 cortes por minuto) que a franquia Bourne lamentavelmente trouxe para o cinema.

Há páginas que se parecem com testes de Rorsharch, como se coubesse ao leitor imaginar, descobrir ou supor o que estava acontecendo. Isso até poderia ser um recurso visual usado para ocultar a verdadeira imagem do monstro e fazer suspense. Esse argumento é inválido, pois o problema continuou mesmo após o monstro (que é bonitinho ಠ_ಠ) ter sido revelado em alta definição no primeiro volume. Essa péssima qualidade contrasta tanto com a alta qualidade e detalhamento das cenas de tranqüilidade que não seria difícil crer que, apresentando a quem não leu, a pessoa diria se tratar de obras ou até de autores diferentes.

Do desenvolvimento do enredo

O nome deveria ser Wolf Guy – Encheção de lingüiça. 90% do enredo consiste em rechear lingüiça com preenchimento sem valor (fillers) e erotização apelativa (fan service) que em nada contribuem para o avanço da história (que não há). Há apenas motes para situações de violência sem sentido. Esses motes (repetidos) se dão em capítulos enfadonhos com demasiada repetição de quadros (acima mencionado), ao ponto de páginas inteiras serem repetidas em plano de fundo para preencher espaço onde não há o que colocar. Os personagens são sempre exibidos nas mesmas posições de efeito, de retrato ou de perfil, contribuindo para a sensação de repetição e ausência de progressão na história.

Os capítulos são desconexos entre si, não há linearidade no compasso. Há momentos em que mil coisas acontecem ao mesmo tempo, enquanto que em outros há apenas morosa exposição (recurso usado quando você precisa explicar algo ao leitor). Os personagens são apenas exibidos ao leitor, mas não são desenvolvidos, não evoluem. São tão somente cascas vazias com sentimentos superficiais. Não possuem motivos reais para suas ações incoerentes, nem os eventos que os envolvem contribuem para contar uma história coesa no geral.

Há sim uma suposta linha condutora central, que seria o desolamento lovecraftiano frente à tragédia inevitável (maldição). (A obra do autor Lovecraft trata da impotência e da pequenez humanas frente a poderosas e inescapáveis forças incompreensíveis.) Porém todas as tragédias do enredo envolvendo tal ”maldição” são facilmente evitáveis e são culpa exclusiva das ações voluntárias dos próprios personagens. A ”maldição do lobisomem” é só uma expressão temática empregada para indultar/relevar/transigir/contemporizar/condescender/justificar as péssimas escolhas das pessoas e as funestas conseqüências negativas dessas escolhas. Conseqüências perfeitamente evitáveis se não tivessem feito besteira em primeiro lugar.

Ou seja, a história não ensina nada, não agrega nada, não soma nada. É uma história de pessoas imbecis que se lascam por sua própria estupidez, eximem-se de responsabilidade e culpam o metafísico por seu infortúnio. E quem são essas pessoas? Quais são suas histórias?

Dos personagens

Ainda que sejam personagens, caracteres fictícios, como em toda obra de arte, eles são facetas da psique humana. Uma forma de vermos, no outro, outro aspecto de nós mesmos. É a idéia do teatro, do cinema, da literatura: mostrar, no outro, outra face de nós, ou melhor, daquilo que poderíamos ser. Em uma boa história, nós nos identificamos com os personagens, nos colocamos em seu lugar, vivemos com eles suas aventuras e emoções. Quem não chorou quando morreu Artax, o cavalo de Atreyu (História sem fim)? Quem não ficou feliz quando Babe, o porquinho, venceu o concurso de cães de pastoreio? Nós acompanhamos a jornada dos personagens a seu lado, nos colocamos em seu lugar, pensamos no que faríamos diferentemente. Os personagens são um recurso que os autores usam para tomar o leitor pela mão e conduzi-lo adentro da trama. Identificar-se com os personagens é ponto essencial para a constituição de uma boa história.

Mas é impossível se identificar com qualquer um numa história com enredo tão ruim quanto a de Wolf Guy – Ookami no Monshou. A história se passa com jovens de 14~15 anos que se comportam e vivem como adultos em uma escola pública japonesa para onde decide ir o personagem principal. Antes de falar do personagem principal, quero falar da coadjuvante. Creio que se eu explicitar a história dela primeiro você entenderá porque eu tenho tanta raiva desse título.

Akiko Aoshika é apresentada como uma jovem professora divorciada. O motivo do divórcio? Não se sabe e em nenhum momento tem qualquer relevância para a história. Não faz diferença. Por que adulta? Somente para se encontrar com o personagem principal na primeira cena de violência, que se passa de madrugada, pois jovens normais de 15 anos não caminham de madrugada sozinhos na rua. Apenas por causa dessa cena ela precisa ser caracterizada como adulta. Fora isso, não faz diferença alguma, ela poderia perfeitamente bem ser apenas mais outra adolescente. E por que professora? Foi a forma (conveniente para o enredo) de pô-la na mesma escola para onde vai o personagem principal. Ela não existe por si mesma, existe em função da história.

Ela é vítima de estupro quando adolescente, sua família (que não aparece) não a apóia, ela se casa e se divorcia (motivo não revelado) e vai trabalhar como professora. Daí num período de dois meses (dois meses) ela:
……a) na mesma noite presencia um linchamento seguido de dezenas de mortes brutais, e é molestada sexualmente;
……b) em outra noite é molestada sexualmente (de novo), e atacada por um leão;
……c) a escola em que trabalha é vítima de um adolescente atirador: 82 mortos e dezenas de feridos;
……d) na semana seguinte a mesma escola é vítima de um segundo atentado: 30 e tantos mortos e sei lá quantos feridos;
……e) a imprensa torna a vida dela um inferno e repórteres a assediam sexualmente (de novo);
……f) na semana seguinte é seqüestrada e molestada sexualmente (de novo).

E parei de ler. Porra, que merda é essa? Ela existe só para ser estuprada? A desculpa é a de que ela estaria sob ”a maldição do lobisomem”, por culpa do personagem principal. Não, isso se chama: ”a maldição do roteirista taradão”. E ela não apresenta nenhum sinal de trauma psicológico! Pelo contrário, ela nutre tensão sexual para com seu aluno (o personagem principal), menor de idade. É como se ser uma pedófila estuprada fosse totalmente normal. Cara, se em dois meses (antes mesmo do seqüestro) esses eventos acontecerem com um ser humano de verdade, uma pessoa normal tem que parar numa sala de terapia, no mínimo. A pior parte nisso tudo é ela ser apresentada no início como o alívio cômico* do enredo! (*toda história pesada precisa de um alívio cômico, normalmente usado no entre-atos)

O desgraçado do personagem principal, Akira Inugami, 15 anos. Teoricamente ele é amaldiçoado por ser um lobisomem. Sim, isso deveria ser uma história de lobisomem. Só que:
……a) seus pais são mortos quando ele tem 5 anos e ele não faz nenhum esforço para investigar o assassinato, mesmo sabendo que tem ligação com o fato de serem lobisomens e ele ser obcecado com o tema;
……b) ele dedica sua vida a estudar lobisomens, mas não conseguiu encontrar um que mora na mesma cidade em que ele;
……c) ele afirma que as tragédias que acontecem ao seu redor se referem à ”maldição do lobisomem”, se sente culpado e deprimido por isso, mas não faz absolutamente nada para evitá-las (pelo contrário, instiga as coisas a ficarem ainda piores);
……d) ele tem parentes milionários que nunca aparecem, o que resolve todo o problema com dinheiro (conveniente para o enredo);
……e) ele mora sozinho aos 15 anos e ninguém liga para isso.

Até aí, é só um personagem incoerente. Porém ele tem uma grave falha de caráter, que é o pacifismo. Ele não é pacífico, isto é, aquele que não procura conflito; ele é pacifista, isto é, aquele que mesmo quando o conflito vem a ele, ele não age, não revida, permitindo que o mal se torne cada vez maior. Pelo contrário, sua apatia travestida de orgulho e pretensão de superioridade alimenta os ímpetos de conflito. É exatamente sua inação frente ao mal que causa todos os problemas que acontecem. Cada vez que ele se recusa a revidar, as forças do mal se tornam mais e mais fortes, ao ponto de afetar os inocentes ao seu redor.

Além disso, ele, com pena de si mesmo, reiteradamente afirma que quer ficar sozinho e se afastar da humanidade. Então por que diabos fica mudando de uma escola para outra, instigando agitações por cada lugar que passa? Ele afirma que não quer lutar. Então por que diabos enfrenta delinqüentes com arrogância e desdém? O discurso do personagem é completamente díspar de suas ações e posturas. Em última análise, é culpado de tudo de ruim que acontece ao seu redor não por uma ”maldição”, mas por suas próprias atitudes. Não passa de um autocomiserante irresponsável.

E o enredo trata de eventos desconexos ligados a esse sujeito apenas para justificar cenas violência e sexo explícito.

Da história

A professora bêbada (Akiko) sai à noite e encontra Inugami caminhando. Ela se apaixona pelo adolescente e o segue. Então uma gangue aparece do nada e o lincha enquanto molesta a professora. Daí ele vira lobisomem, mata todo mundo e deixa a Akiko desmaiada lá mesmo. Ele tem super-força mesmo na forma humana, então poderia ter evitado tudo isso. No dia seguinte vai para a escola como se nada tivesse acontecido. Akiko chega com os policiais à escola para trabalhar, vindo direto da delegacia (quem é que vai trabalhar depois de uma noite dessas?) e reconhece o garoto, mas fica por isso mesmo.

Daí aparece uma garota pervertida que passa o tempo todo usando roupa erótica. Essa guria é chama-se Ryuuko, 15 anos. Ela também foi estuprada, mas foi quando era criança. Depois ela foi vendida de mão em mão para mercadores de escravos sexuais até ser comprada pela Yakuza. E por alguma razão vai para a escola estudar (não sei o quê). Diferentemente da professora, ela ficou viciada em sexo e fica sexualmente excitada com violência. Ela aparece várias vezes no roteiro apenas para ter relações sexuais, mostrar nudez aleatória ou masturbar-se vendo outros sendo agredidos. Não serve em absolutamente nada para a história e está lá somente para ”cenas de sexo explícito com uma adolescente pervertida”.

No primeiro dia de escola, Inugami já arruma confusão com a gangue local. Levam-no para tomar uma surra perto de outro aluno que estava sendo estuprado. Nos dias seguintes, a escalada da violência toma proporções exponenciais. Você percebe claramente que o roteirista perdeu o controle da própria história quando (ainda no primeiro volume) traz de volta um personagem que estava para morrer. Aparece ”seu irmão gêmeo” que agora quer vingança. Esse gêmeo aparece como um atirador escolar descontrolado, não após um capítulo inteiro dedicado à sua masturbação.

Também há o recorrente mote de pessoas se urinando nas calças. Por algum motivo, o autor resolveu que todo mundo deveria se urinar nas calças de vez em quando. Akiko se mija quando vê o lobisomem pela primeira vez, o diretor se mija quando vai ser morto, uma aluna se mija quando é molestada pelo atirador da escola que também é mijão, tal como seu irmão gêmeo, ambos com fimose (sim, isso está descrito e é parte do enredo).

No meio dessa bagunça, é construído o real vilão da história, que é o filho do chefe da Yakuza, Harugo. Ele tem 15 anos, mas mostra o porte atlético de adulto olímpico, aleijou um campeão adulto de MMA, é especialista em armas, explosivos, táticas de combate urbano, praticamente um Rambo. E a cada dois ou três capítulos tem uma cena de sexo com a pervertida. (na primeira cena em que ele aparece eles estão transando) Daí Haguro descobre que Inugami é lobisomem e passa a caçá-lo. Não o encontrando, ele mutila, estupra e defeca sobre um amigo de Inugami. Esse amigo morre no hospital e vira lobisomem-zumbi. O tal zumbi mata um monte de bandidos da Yakuza, mas (conveniente para o enredo) perde seus poderes logo antes de matar Haguro.

Nada disso teria acontecido se Inugami tivesse revidado Harugo e sua gangue. Sua incoerência é evidente, pois durante isso tudo ele mata aleatoriamente outros vagabundos. Não precisava nem matar, eu já disse que ele tem super-força, uma surra já ‘tava bom. Não há qualquer motivo para não revidar a gangue de Haguro, exceto ser conveniente para o enredo.

No meio disso tudo tem um jornalista, que também é lobisomem, mas não faz diferença alguma para a história, então eu não o mencionei, mesmo tendo uns dez capítulos só para ele. Depois de toda essa confusão, Inugami resolve fugir para viver sozinho em sua autodepreciação. Ele se muda para outra cidade e resolve cortar contato com todas as pessoas. E o que ele faz? Vai fazer compras perto de um ponto turístico cheio de gente. Raios, afinal quer viver sozinho ou não? O que está fazendo no meio da cidade? Vai para a montanha, para o meio do mato, vai capinar um roçado. Ele é o típico Emo (aqueles insuportáveis adolescentes melodramáticos).

Nesse ponto turístico cheio de gente para onde ele foi se isolar (ಠ_ಠ), ele reencontra uma garota que estava gostando dele e a maltrata sem motivo. Daí a professora é seqüestrada e parei de ler.

O único termo técnico existente adequado para qualificar o personagem principal é babaca. O sujeito é um babaca, só faz merda e ainda se tem a presunção de maltratar os outros que lhe querem bem. Tem mais é que se foder mesmo.

Para sanar sua curiosidade, eu posso resumir o resto da história, pois li a sinopse completa. Procurei saber se algo que presta aconteceria e se valeria a pena continuar lendo essa bosta, antes de atirá-la pela janela.

Só depois de a professora ser estuprada (de novo), Inugami resolve salvá-la. Ele cata a mulher em todo lado, mas não a acha em lugar algum. Enquanto isso ela vai sendo estuprada e vídeos disso sendo postos na internet. Um tempo depois ele entra em contato telepático com a mulher e (conveniente para o enredo) descobre sua localização. (De onde ele tirou telepatia? Do cú? Desde quando lobisomem tem telepatia? Por que não podia ter feito isso antes?)

Daí ele vai atrás dela e é atacado por tudo possível e imaginável, mas consegue sobreviver (conveniente para o enredo) graças ao ”real poder do lobisomem”, uma aura dourada que salva ele e a mulher. Ou seja, ele vira super-sayajin Dragon Ball. E morre no final. Daí a professora se muda para o Alaska para viver isolada com lobos. (Com que dinheiro? No primeiro capítulo ela era uma pé-rapada e agora pode custear férias infinitas?) E o Inugami ressuscita, porque é lobisomem, mas ficou com amnésia de tudo o que aconteceu e vira cobaia dos militares. Fim da história.

Pela puta que pelo cú pariu o diabo: que merda é essa? Em quê que essa história pode ser considerada boa? Nem ao menos final feliz tem. Em quê essa história eleva o leitor? Em quê essa história traz esperança? Em quê essa história mostra o mal sendo vencido? O quê de bom você pode aprender com isso? Que raios o autor quis passar? Alguém pode me explicar o que leva pessoas a gostarem disso? E tem fãs! O que mais me dá raiva é que há mercado consumidor para esse lixo. Não é só o troço ser ruim, é também haver quem goste… Ah, se me fosse possível estapear telepaticamente os outros…

O problema com a telebasura (Ver também: Gosto se discute, sim.), é que ela só existe porque há quem a consuma. Se não houvesse mercado consumidor, o editor não a teria publicado. Cada vez mais e mais somos saturados com todo tipo de lixo, chafurdando cada vez mais profundamente numa torrente de esgoto intelectual. Essa não é a primeira vez que me decepciono com uma grande bosta, mas é a primeira vez que ela é tão ruim que sou obrigado a parar no meio.

Crítica comparativa

Sobre outros títulos que também foram uma bosta, um dos que eu tenho em péssima conta é Elfen Lied. E, refletindo agora, ambos apresentam um traço em comum, que é a ”tortura dos personagens”. De forma sádica, o autor impõe a seus personagens situações de grande sofrimento físico ou psicológico. Ele deleita-se com o cruel martírio contínuo a que são lançados os personagens. E, creio, a única explicação para que tais títulos sejam apreciados, seja a de que os leitores também compartilhem do mesmo sadismo e crueldade.

Em Elfen Lied, porém, o autor faz uso de ganchos de enredo (cliffhangers), isto é, a cada capítulo ou fase ele cria uma situação que atiça a curiosidade do leitor para continuar querendo saber mais. Entre as seqüências de ondas de tragédias, o autor não destrói o fio de esperança de que algo bom aconteça. O grande problema em Elfen Lied é que isso nunca acontece. Até o final, até o último capítulo, nada de bom acontece. Todos sofrem (especialmente dor psicológica). Sempre que uma situação aparenta se encaminhar para a resolução, um inesperado revés surge do nada e tal situação fica ainda pior. E, sim, Elfen Lied também é carregado de violência sem sentido, erotização apelativa e gente se urinando nas calças.

Eu li Elfen Lied integralmente e foi uma grande decepção. O autor conseguiu me reter com os ganchos de enredo, tal como iludiu os personagens com a falsa esperança, com a expectativa a ser frustrada, de tempos melhores. A frustração em ver que, naquela horrível história, os personagens não encontram paz nem mesmo após suas mortes é revoltante.

Essa é a mesma sensação que tenho com Wolf Guy – Ookami no Monshou. Parece-me que esses autores expressaram seus sadismos, e seus consumidores aprouveram-se com esses sadismos, numa mórbida cumplicidade. Não tenho outra explicação para esses títulos fazerem algum sucesso, a não ser a de que essa gente, mais do que anestesiada frente ao mal, está mentalmente corrompida, degenerada, pervertida. E não tendo como, em agir, expressar essa psicopatia /sociopatia no mundo real, seja por covardia, seja por incompetência, contentam-se em encontrar na ficção o prazer com o sofrimento alheio.

Esse tipo de título não traz nada de bom para o leitor. Apenas contribui para a doentia apatia frente às mazelas do mundo. É diferente de outros títulos dos quais eu não gostei por questões técnicas ou de desenvolvimento do enredo. Por exemplo, Doragon Kuesuto: Dai no Daibōken. Dragon Quest – A grande aventura de Fly é uma história amável do bem vencendo o mal. Trata do amor, da amizade, do perdão, da superação, da perseverança. Eu não gostei tão somente do desenvolvimento, pelo excessivo uso dos recursos deus ex machina (artifício de enredo) e cliffhangers. Ou seja, minhas divergências são apenas técnicas e não com o teor da obra (muito boa por sinal). Já Death Note é exatamente o contrário: o uso dos recursos de enredo é a chave para fazer a história funcionar, pois o enredo é horrível, partindo de uma premissa impossível e inviável. Os personagens em Death Note são densos, coerentes, podemos nos identificar dentro da história por conta da genialidade como o autor a conta, mesmo partindo de uma idéia estúpida.

Mas Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem nada. Não tem arte, não tem enredo, não tem personagens, não tem premissas, não tem desenvolvimento, não tem final feliz. Só tem público… Mas mesmo uma ruma de bosta na estrada também atrai moscas, então… cada qual com seu igual.