Aprenda sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) (PTSD)

Fontes:

  1. https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/transtorno-do-estresse-pos-traumatico/
  2. https://zenklub.com.br/blog/transtornos/transtorno-de-estresse-pos-traumatico/
  3. https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/distúrbios-de-saúde-mental/ansiedade-e-transtornos-relacionados-ao-estresse/transtorno-de-estresse-pós-traumático
  4. https://psiquiatriapaulista.com.br/estresse-pos-traumatico-entenda-exatamente-o-que-e-isso/

O texto a seguir é o somatório dos textos indicados na fonte.

Às vezes a vida nos surpreende com experiências horríveis e que podem afetar as pessoas permanentemente. Todo mundo carrega em sua história lembranças boas e ruins daquilo que viveu ou que vivenciou com outras pessoas. Algumas dessas lembranças formam traumas que atormentam a indivíduo. Acontece que em algumas pessoas os efeitos são tão graves que se tornam debilitantes e constituem um transtorno, chamado transtorno do estresse pós-traumático.

Esse transtorno acomete entre 15% a 20% das pessoas que vivenciaram alguma experiência de atos violentos e/ou situações traumáticas. Ou seja, se trata de uma condição que pode ser bastante prevalente e que merece a nossa atenção.

O que é o Estresse Pós-traumático?

O Transtorno do Estresse Pós-Traumático, ou TEPT, é um distúrbio de ansiedade que se manifesta em decorrência de o portador ter sido vítima ou testemunha de atos violentos ou de situações traumáticas que, em geral, representaram ameaça à sua vida ou à vida de terceiros. É caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais que pode surgir até 6 meses após uma experiência ou evento traumático na vida do acometido. Em geral, constitui-se de lembranças recorrentes e incontroláveis do evento por pelo menos 1 mês.

O transtorno de estresse pós-traumático dura mais de um mês. Ele pode ser uma continuação do transtorno de estresse agudo ou surgir separadamente até seis meses após o evento. O transtorno pode não desaparecer completamente, mas geralmente fica menos intenso com o passar do tempo. Algumas pessoas, entretanto, ficam gravemente incapacitadas. Os sintomas causam angústia significativa ou prejudicam o desempenho de atividades de modo significativo

Quando se recorda do fato, o indivíduo revive o episódio como se estivesse ocorrendo naquele momento e com a mesma sensação de dor, sofrimento e angústia que o agente estressor provocou. Essa recordação, conhecida como revivescência, desencadeia alterações neurofisiológicas e mentais. Trata-se de um transtorno mental que envolve, acima de tudo, recordações que nos devolvem para o episódio ocorrido, como se estivessem acontecendo novamente, trazendo sofrimento e dor.

Muitas pessoas são afetadas de maneira duradoura quando algo terrível acontece. Em algumas, os efeitos são tão persistentes e graves que são debilitantes e representam um transtorno. Os eventos mais propensos a causar o transtorno são aqueles que invocam sentimentos de medo, desamparo ou horror. No entanto ele pode ser causado por qualquer experiência avassaladora e/ou possivelmente fatal.

Esses eventos podem ser vivenciados diretamente (por exemplo, sofrer uma lesão grave ou ser ameaçado de morte) ou indiretamente (testemunhar outras pessoas sofrendo lesões graves, morrendo ou sendo ameaçadas de morte, ou tomar conhecimento de eventos traumáticos que ocorreram com familiares ou amigos próximos). É possível que a pessoa tenha vivenciado um único evento traumático ou, como ocorre com freqüência, vários eventos traumáticos.

Não se sabe por que um mesmo evento traumático pode causar TEPT vitalício em algumas pessoas, mas não causar nenhum sintoma em outras. Além disso, não se sabe por que algumas pessoas testemunham ou vivenciam o mesmo trauma muitas vezes ao longo de anos sem ter TEPT, mas o desenvolvem em algum momento após um episódio aparentemente semelhante.

Aproximadamente entre 15% e 20% das pessoas que, de alguma forma, estiveram envolvidas em casos de violência urbana, agressão física, abuso sexual, terrorismo, tortura, assalto, seqüestro, acidentes, guerra, catástrofes naturais ou provocadas desenvolvem esse tipo de transtorno. Não é preciso ir muito longe e imaginar grandes acontecimentos históricos para classificar um estresse pós-traumático. Ele pode estar em acontecimentos do nosso dia-a-dia, como sofrer um ato violento, bullying na escola ou um acidente de carro. No entanto, é um transtorno pouco identificado e a maioria dos acometidos só procura ajuda dois anos depois das primeiras crises. O transtorno atinge hoje, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 2 milhões de pessoas no Brasil. Em dados mais gerais, afeta aproximadamente 9% das pessoas em algum momento da vida e 4% dos adultos.

Recente pesquisa desenvolvida pela UNIFESP (Universidade Federal do Estado de São Paulo) e por outras universidades brasileiras, em parceria com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, levantou a hipótese de a causa do transtorno estar no desequilíbrio dos níveis de cortisol ou na redução de 8% a 10% do córtex pré-frontal e do hipocampo, áreas localizadas no cérebro.

Preste atenção: o número de diagnósticos de transtorno do estresse pós-traumático tem aumentado nas últimas décadas. Procure assistência médica, se apresentar sintomas que possam ser atribuídos a esse distúrbio da ansiedade. Lembre-se de que a ocorrência de um agente estressor não significa que a pessoa vai desenvolver TEPT: algumas são mais vulneráveis e predispostas. Não subestime os sintomas do transtorno em crianças e idosos depois de terem vivenciado situações traumáticas.

Fatores de risco

Podemos considerar como fatores de risco ao desenvolvimento do transtorno, principalmente:

  • Eventos traumáticos ocorridos na infância e na adolescência;
  • Bullying;
  • Autismo;
  • Dificuldades no aprendizado por problemas de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH);
  • Problemas de habilidades sociais e outras situações de sociabilização que passam muitas vezes despercebidas.

Durante essa fase de desenvolvimento pessoal é muito comum que a violência estrutural e social sejam fatores de risco iminentes para a construção de uma vida adulta marcada por traumas.

Sinais e sintomas do transtorno de estresse pós-traumático

Além da exposição direta ou indireta a um evento traumático, o paciente deve apresentar mais que um dos sintomas de cada categoria abaixo por pelo menos um mês.

Sintomas de “intrusão” (pelo menos 1 sintoma):

  • Sofrimento psicológico ou fisiológico intenso ao lembrar-se do evento;
  • Flashbacks ou agir como se o evento estivesse ocorrendo em tempo real;
  • Lembranças recorrentes, involuntárias, intrusivas e/ou perturbadoras;
  • Sonhos perturbadores recorrentes do evento traumático.

Sintomas de “esquiva” (pelo menos 1 sintoma):

  • Evitar pensamentos, sentimentos ou memórias associadas ao evento;
  • Evitar locais, conversas, pessoas ou atividades que possam remeter ao evento.

Sintomas negativos sobre a cognição e humor (pelo menos 2 sintomas):

  • Perda de memória de momentos significativos do evento;
  • Incapacidade persistente de viver emoções positivas;
  • Convicções ou expectativas negativas persistentes e exageradas sobre si mesmo e os outros;
  • Sentimento de culpa em relação a si ou outros sobre causa ou conseqüências do trauma;
  • Diminuição importante do interesse em atividades cotidianas;
  • Sensação de distanciamento e estranhamento em relação às pessoas;

Reatividade e excitação alteradas (pelo menos 2 sintomas):

  • Irritabilidade e/ou impaciência exacerbadas;
  • Dificuldade de concentração;
  • Hipervigilância;
  • Dificuldade de dormir.

Detalhamento dos sintomas:

Sintomas intrusivos (o evento invade os pensamentos de maneira repetida e incontrolável)

O evento traumático pode reaparecer repetidamente na forma de memórias indesejadas involuntárias ou pesadelos recorrentes. Algumas pessoas têm flashbacks, durante os quais elas revivem os eventos como se eles estivessem realmente acontecendo em vez de simplesmente se lembrarem deles. É possível que a pessoa também tenha reações intensas a coisas que a relembrem do evento. Por exemplo, os sintomas de um veterano de guerra podem ser desencadeados por fogos de artifício, enquanto os de uma vítima de roubo à mão armada podem ser desencadeados quando ela vê uma arma de fogo em um filme.

Reexperiência traumática: memórias espontâneas, recorrentes e involuntárias, também chamados de flashbacks, do acontecimento traumático.

Evitar qualquer coisa que as relembre do evento

A pessoa evita de maneira persistente tudo – atividades, situações ou pessoas – que possa recordá-la do trauma. Por exemplo, é possível que ela evite entrar em um parque ou edifício comercial onde foi vítima de agressão ou evite falar com pessoas da mesma raça que a pessoa que a agrediu. Elas podem, inclusive, tentar evitar pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o evento traumático.

Esquiva e isolamento social: afastamento de qualquer estímulo (de situações, contatos e atividades) que possam reavivar as recordações do trauma;

Efeitos negativos sobre o pensamento e o humor

É possível que a pessoa não consiga se lembrar de partes significativas do evento traumático (um quadro clínico denominado amnésia dissociativa). A pessoa pode se sentir emocionalmente entorpecida ou desligada das outras pessoas. A depressão é comum e a pessoa afetada mostra menos interesse por atividades que costumava apreciar. A impressão que a pessoa tem sobre o evento pode ficar distorcida, o que a leva a se culpar ou culpar os outros pelo que aconteceu. Sentimentos de culpa são também freqüentes. Por exemplo, é possível que a pessoa se sinta culpada por ter sobrevivido a situações em que outras morreram. Ela pode sentir apenas emoções negativas, como medo, horror, raiva ou constrangimento, e pode não conseguir sentir felicidade, satisfação ou amor.

Negatividade: sentimentos de incapacidade em se proteger de perigos, sensação de vazio e perda da esperança no futuro;

Alterações no estado de alerta e nas reações

A pessoa pode ter dificuldade em adormecer ou se concentrar. Ela pode se tornar excessivamente vigilante quanto à presença de sinais de alerta de risco. É possível que ela se assuste facilmente. É possível que a pessoa se torne menos capaz de controlar suas reações, resultando em comportamento imprudente ou ataques de raiva.

Hiperexcitabilidade psíquica e psicomotora: episódios de pânico com sintomas físicos, taquicardia, sudorese, tonturas, calor, dores de cabeça, medo de morrer, distúrbios do sono, problemas de concentração, irritabilidade, reações de fuga e estado de alerta (hipervigilância);

Outros sintomas

Algumas pessoas desenvolvem atos rituais com a intenção de aliviar sua ansiedade (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Por exemplo, é possível que vítimas de violência sexual tomem banhos repetidamente para tentar remover a sensação de sujeira. Muitas pessoas com TEPT usam álcool ou entorpecentes para tentar aliviar os sintomas e acabam apresentando um transtorno por uso de substâncias.

Esses cinco grupos de sintomas podem ser observados em diferentes graus e ocorrências variadas, por isso, não podemos considerar que todos irão ocorrer simultaneamente. Em alguns casos, nem todos os sintomas necessários para o diagnóstico são contemplados, mas há sinais claros de ansiedade e de tristeza. Nesses casos, pode-se se tratar de um transtorno misto ansioso e depressivo.

Diagnóstico

O DSM-IV (Manual de Diagnóstico dos Distúrbios Mentais) e o CID-10 (Classificação Internacional das Doenças) estabeleceram os critérios para o diagnóstico do transtorno do estresse pós-traumático. O primeiro requisito é identificar o evento traumático (agente estressor), que tenha representado ameaça à vida do portador do distúrbio ou de uma pessoa querida e perante o qual se sentiu impotente para esboçar qualquer reação. Os outros levam em conta os sintomas característicos do TEPT. A gravidade do transtorno costuma diminuir com o passar do tempo, porém nunca desaparece e algumas pessoas permanecem gravemente prejudicadas.

O diagnóstico é clínico e deve ser feito por um profissional capacitado, pautado nos critérios estabelecidos pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).  Além disso, o sofrimento gerado pela experiência vivida deve ser significativo o suficiente para prejudicar o funcionamento social e/ou ocupacional. O sofrimento não pode ser atribuído aos efeitos fisiológicos do uso de uma substância ou de outro transtorno médico.

O transtorno freqüentemente não é diagnosticado, pois causa sintomas variados e complexos. Além disso, a presença de um transtorno por uso de substâncias pode distrair a pessoa quanto à presença do TEPT. Quando ocorre um atraso no diagnóstico e no tratamento, o TEPT pode se tornar cronicamente debilitante.

O transtorno de estresse pós-traumático tem cura?

O TEPT é um problema crônico que pode durar a vida toda e, por isso, não tem cura. Com o tratamento é possível reduzir os sintomas, a freqüência das situações traumáticas e ajudar a manter uma vida mais equilibrada sem tantos abalos emocionais. Por isso, é muito importante que, a qualquer manifestação dos sintomas ou pós-trauma, você procure ajuda de um especialista para que o tratamento seja ainda mais eficaz.

Tratamento

Consiste em tratamento psicoterápico associado ao medicamentoso, ambos fundamentais para a qualidade de vida de quem possui o transtorno. São opções de tratamento a terapia cognitivo-comportamental e a indicação de medicamentos ansiolíticos ou antidepressivos.

O tratamento do TEPT tem como objetivos:

  • Reduzir os sintomas;
  • Melhorar as habilidades sociais na família, entre amigos e no trabalho;
  • Tratar possíveis evoluções do distúrbio em distimia, depressão, vícios e outras complicações emocionais;
  • Criar um ambiente emocional favorável para a manutenção das atividades do dia a dia.

Psicoterapia

A psicoterapia é o principal tratamento para o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Aprender sobre o transtorno pode ser um passo inicial importante no tratamento. Os sintomas podem causar confusão extrema e, freqüentemente, é muito útil que as pessoas com o transtorno e seus entes queridos entendam que ele pode incluir sintomas aparentemente não relacionados.

As técnicas de controle do estresse, como respiração e relaxamento, são importantes. Os exercícios que reduzem e controlam a ansiedade (por exemplo, ioga, meditação) podem aliviar os sintomas, além de preparar a pessoa para o tratamento que envolve a exposição estressante a memórias do trauma.

A principal corrente de pensamento favorece o uso de psicoterapia estruturada e focalizada, geralmente um tipo de terapia cognitivo-comportamental (TCC) denominado terapia de exposição que ajuda a apagar o medo deixado pelo evento traumático.

Na terapia de exposição, o terapeuta pede à pessoa afetada que imagine estar nas situações associadas ao trauma anterior. Por exemplo, o terapeuta pode pedir à pessoa que imagine que está visitando o parque em que foi agredida. É possível que o terapeuta ajude a pessoa a reimaginar o próprio evento traumático. Devido à ocorrência de ansiedade, muitas vezes intensa, associada às memórias traumáticas e para que a exposição avance no ritmo certo, é importante que a pessoa sinta que tem apoio. A pessoa que ficou traumatizada pode ser especialmente sensível a ser traumatizada novamente e, portanto, o tratamento pode ficar estacionário se ele for administrado muito rapidamente. Muitas vezes, o tratamento pode mudar, passando de terapia de exposição para um tratamento mais aberto e que presta mais apoio e, com isso, ajudar a pessoa a se sentir mais confortável com a terapia de exposição.

Uma psicoterapia mais abrangente e mais exploratória também pode facilitar o retorno a uma vida mais feliz quando, por exemplo, a pessoa dá enfoque aos relacionamentos que podem ter sido prejudicados pelo TEPT. Outros tipos de psicoterapia de apoio e psicodinâmica também podem ser úteis.

A terapia de dessensibilização e reprocessamento através dos movimentos oculares (do inglês eye movement desensitization and reprocessing, EMDR) é um tipo de tratamento no qual é pedido à pessoa que acompanhe com os olhos o movimento do dedo do terapeuta enquanto imagina estar exposta ao trauma. Alguns especialistas acreditam que os movimentos dos olhos em si ajudam na dessensibilização, mas a terapia EMDR provavelmente é eficaz devido à exposição e não devido aos movimentos dos olhos.

Farmacoterapia

Os antidepressivos são considerados o tratamento de primeira linha para o TEPT, mesmo para pessoas que não têm transtorno depressivo maior também. Os inibidores seletivos de recaptação da serotonina e outros antidepressivos, como, por exemplo, a mirtazapina e a venlafaxina, costumam ser recomendados com mais freqüência.

Para tratar a insônia e os pesadelos, às vezes o médico receita medicamentos, como a olanzapina e a quetiapina (também usadas como medicamentos antipsicóticos) ou a prazosina (também usada para tratar a hipertensão arterial). No entanto, esses medicamentos não tratam o TEPT propriamente dito, sendo apenas coadjuvantes.

Vivendo melhor com o transtorno

Além do tratamento há medidas que você poderá adotar na sua vida que podem causar conforto e melhorar a sua vivência:

  • Pratique atividades físicas regularmente: melhora não só a nossa a nossa estrutura corporal, como também traz diversos benefícios ao nosso organismo, como melhorias na circulação e liberação de endorfina e serotonina;
  • Aposte em atividades em grupo: seja no esporte ou por hobby, essa prática irá ajudar na sua capacidade de socialização;
  • Meditação e outras técnicas de relaxamento podem ser extremamente eficazes em momentos críticos, além de trazer mais equilíbrio emocional para sua vida;
  • Evite hábitos ruins: álcool, fumo e droga alteram sua condição mental e de saúde;
  • Ambiente harmônico: seja no trabalho ou em casa, conviver em ambientes de afeto e produtividade irá promover motivação em seguir em frente;
  • Faça terapia: a terapia irá tratar desde os seus sintomas referentes ao TEPT, como também lhe dará outras ferramentas importantes para você se desenvolver como pessoa, como o autoconhecimento e inteligência emocional.

Suicídio na adolescência – A morte evitável

SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA
A morte evitável
Mario Louzã
Fonte: Le Monde diplomatique Brasil, Edição 131, 04/06/2018

Detectar precocemente que uma pessoa está em risco de suicídio — ou seja, quando ela apresenta ainda “somente” idéias suicidas, mas nenhum plano concreto de executá-lo — é a principal “janela de oportunidade” para preveni-lo

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada quarenta segundos morre uma pessoa por suicídio, uma das principais causas de mortalidade no mundo, especialmente entre os jovens. Outro dado preocupante é o aumento significativo, cerca de 35% a 40%, das taxas de mortalidade por suicídio, especialmente na adolescência e idade adulta jovem nos últimos dez anos.

Enquadram-se no conceito de suicídio três situações de risco progressivo: o pensamento suicida, a intenção suicida (quando já há planos mais ou menos detalhados de como cometer o suicídio) e o ato suicida em si (resultando ou não em morte). Incluem-se também nesse conceito os atos de autoferimento [self-harm], com ou sem intenção suicida.

Embora muitos fatores biológicos, emocionais e sociais possam influenciar o risco de suicídio, o principal deles é a depressão. Depressão aqui deve ser entendida como algo muito diferente da tristeza normal. Trata-se de um transtorno mental caracterizado por tristeza profunda e contínua, dificuldade de sentir prazer nas atividades cotidianas, pensamento negativo, ansiedade e falta de esperança, além de sintomas físicos como insônia e diminuição do apetite e da libido. Nos casos graves, o pensamento negativo e de culpa e a falta de esperança desembocam no pensamento suicida; este pode evoluir para o planejamento e o ato em si.

Além da depressão, fatores de risco para suicídio incluem: tentativas prévias de suicídio, ser do sexo masculino, condições desfavoráveis do ponto de vista pessoal, familiar, social e econômico (separação dos pais, experiências adversas na infância, como abuso físico ou sexual, transtorno mental ou história de suicídio na família, bullying, dificuldades interpessoais, baixa auto-estima, impulsividade, abuso de álcool e drogas, entre outros). Estresse, competitividade e pressão por resultados e alto desempenho escolar parecem ter um impacto importante no risco de suicídio entre adolescentes.

A adolescência é um período de transformações significativas do ponto de vista biológico, psicológico e social. O adolescente é particularmente vulnerável às avaliações e aos julgamentos de seus pares, algo que se multiplicou com a internet e as mídias sociais. O cyberbullying tornou-se um fator a mais de risco para o jovem; em poucos minutos, mensagens, fotos ou vídeos “viralizam” e expõem o adolescente mais fragilizado de forma devastadora. Muitos se vêem sem saída, humilhados e expostos, e reagem com um ato suicida.

O suicídio é a morte evitável. Detectar precocemente que uma pessoa está em risco de suicídio — ou seja, quando ela apresenta ainda “somente” idéias suicidas, mas nenhum plano concreto de executá-lo — é a principal “janela de oportunidade” para preveni-lo. Esse é o momento ideal. Na situação já de planejamento suicida, é importante estar atento aos indícios de que a pessoa começa a procurar saber como cometer o suicídio, qual método usar. Ela pode ir em busca de armas de fogo ou começa a estudar quais são os venenos ou os medicamentos mais perigosos. Há nessa situação um aumento da impulsividade da pessoa, em parte pelo fato de que ela vê no suicídio a única saída para si, o que a leva a ter “forças” para o ato.

Alguns sinais de que a pessoa tem pensamentos suicidas são: falta de esperança, angústia, sentimentos de vergonha, humilhação e culpa, falta de perspectiva futura e sofrimento intenso (muitas vezes por algum fato marcante da vida, recentemente acontecido). Eventualmente a pessoa verbaliza “gostaria de dormir e não acordar mais”, “não vejo mais sentido em viver”, “a vida está muito difícil, insuportável”, “sou um peso para as pessoas, não quero mais isso”, “quero me livrar deste sofrimento todo”, “nada mais importa”, “a vida não vale a pena”. Nem sempre os sinais são claros; freqüentemente o adolescente busca o isolamento, reduz o contato com os familiares, busca a privacidade de seu quarto e substitui o contato com amigos e colegas “reais” por contatos “virtuais”. Esse isolamento muitas vezes pode ser confundido com a “crise da adolescência”, sendo relevado pelos familiares.

Em geral, familiares e amigos são os primeiros a perceber que a pessoa não está bem e tem pensamentos suicidas. Nessa situação, devem conversar com ela e levá-la a um médico psiquiatra para uma avaliação mais detalhada. O risco de suicídio é uma indicação formal para internação psiquiátrica. No hospital psiquiátrico, a pessoa é acompanhada 24 horas por dia, seus atos são monitorados e introduz-se o tratamento necessário para alívio do sofrimento psíquico. Em casa é muito difícil conseguir vigiar a pessoa o tempo todo; em contrapartida, é muito fácil o acesso a potenciais métodos de suicídio, que pode ser cometido de forma abrupta, sem que haja tempo de evitá-lo.

Vivemos numa época de grande influência das redes sociais na vida das pessoas. Muitos questionam sobre os prós e contras de falar ou não sobre suicídio. Alguns acham que isso encoraja o ato, outros dizem que é um meio de prevenção. A questão principal é a forma como o assunto é tratado. Muitas vezes a mídia aborda o tema com certo “glamour”, dando a impressão de algo parecido com um ato de heroísmo ou de conquista, que fará os outros admirarem a pessoa que se suicidou. Essa abordagem evidentemente é negativa e muitas vezes “incentiva” o suicídio (o chamado “contágio social”, ou “efeito Werther”, em referência ao personagem do romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe). O tema deve ser tratado com um enfoque de prevenção, visando auxiliar o reconhecimento do risco de alguém cometer suicídio. Muitas pessoas com pensamentos suicidas se sentem constrangidas em falar sobre isso, pois receiam ser estigmatizadas por familiares ou amigos. Nesse contexto estão inseridas as campanhas do Setembro Amarelo e mesmo a divulgação do Centro de Valorização da Vida (CVV), que tem um papel importante no auxílio a pessoas com risco suicida. Do mesmo modo que há sites que abordam o suicídio de modo negativo, “ensinando” métodos e criando “jogos” que podem levar seus participantes à morte, estudos mostram que sites ou fóruns que promovem a prevenção do suicídio têm um papel importante no auxílio a pessoas em risco. Especialmente os jovens procuram apoio e aconselhamento com maior frequência entre seus pares do que com profissionais especializados.

O suicídio é um problema médico-social complexo e uma grande preocupação na atualidade. É importante estar atento e antever essa possibilidade diante de uma pessoa que apresente depressão e esboce pensamentos negativos, desesperança e outros. Agir nesse momento pode ser a diferença entre a vida e a morte.

*Mario Louzã é médico psiquiatra e psicanalista, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, Alemanha. CRMSP 34.330. Site: <www.saudemental.net>.

Referências

Gustavo Turecki e David A. Brent, “Suicide and suicidal behavior” [Suicídio e comportamento suicida], Lancet, n.387, p.1227-1239, 2016.

Keith Hawton, Kate E. A. Saunders e Rory C. O’Connor, “Self-harm and suicide in adolescents” [Autoferimento e suicídio em adolescentes], Lancet, n.379, p.2373-2382, 2012.

Jo Robinson et al., “Social media and suicide prevention: a systematic review” [Mídia social e prevenção de suicídio: uma análise sistemática], Early Intervention in Psychiatry, n.10, p.103-121, 2016.

Magid Calixto Filho e Talita Zerbini, “Epidemiologia do suicídio no Brasil entre os anos de 2000 e 2010”, Saúde, Ética & Justiça, v.21, n.2, p.45-51, 2016.

World Health Organization, “Suicide prevention” [Prevenção de suicídio]. Disponível em: <www.who.int/mental_health/suicide-prevention/en/>.

 

Entrevista com paciente afetado por esquizofrenia catatônica (1960)

O excerto da entrevista seguinte, em inglês, com áudio transcrito logo abaixo, exibe o diálogo entre um médico e um paciente afetado por esquizofrenia catatônica. Logo em seguida, sem citar nomes, um sobrinho comenta o que aconteceu com o paciente.

Psychiatric Interview No. 18: Evaluation for Diagnosis | Jujube Tutube
by University of California (System). Extension Media Center
Publication date 1961
Publisher Berkeley, Calif. : University of California, Extension Media Center

Outra fonte do vídeo: Interview: Catatonic Schizophrenic | ktrypy1111 https://www.youtube.com/watch?v=IehtMYlOuIk

Tom – 15/09/2022:
This is an old comment about this man that seems to have been lost: This man was my uncle. I’m not going to give any names, but for those of you who are concerned with how things turned out for him, not well. There’s so much to address here. First let me say that he was being treated in this video with meds. Without the medication his mood ranged from complete delusion to catatonic. As for being gay, I don’t think he had much of a sex drive at all. With or without meds. As for the idea that he was put here because he was gay by some unloving family, that’s ridiculous. I don’t have time to say all the things my family tried just to make his existence somewhat peaceful just for his own sake. My family had a couple of openly homosexual and lesbians in it even back in the sixties and with the exception of my mother’s father no one gave a shit. My uncle suffered with meds and even more without. After forty some odd years, most of which he spent in institutions, he took his own life by way of drug overdose. By the way, the comment about the plot twist, he never had a piano was funny because he didn’t. His seeming obsession with piano came and went as did obsessions with religion, especially the Catholic Church and government. As far as I know he couldn’t play a lick. He was very ill at his best and a living shell at his worst. I hope that answers some questions because that’s all I have to say on the matter. He’s been gone since the late eighties and I really hope that other members of my family don’t see this video, mostly because of the comments from people that somehow think they understand him better than the people who suffered with him. One last thing, I think people thought that he was talking about sitting or standing effeminately or something. No, he was talking about sitting or standing motionless for hours. Usually not even his facial expression would change but when it did it was usually related to something in his mind only. I really can’t begin to tell you all how heartbreaking the whole thing was. He did seem intelligent and with meds he did remind me of a high functioning guy with autism I once met.

Transcrição:

– How are you feeling?
… Well.
– How long have you been here?
… Three months. May 17th.
– And what brought you here?
… That’s difficult to answer.
– Could you give me some idea?
… Off hand, I can’t.
– Whose idea was it that you come here?
… My psychiatrist.
– And what happened that ended up with your being here in the hospital?
… The psychiatrist decided. That this was the situation for me.
– Did he tell you why?
… No, the psychiatrist did not.
– Has anybody told you why?
No.
– Have you any idea why?
Yes.
– And what is that?
I am not completely like… other people.
– What do you mean by that?
People dislike me because. I am not completely like them.
– And in what way are you different?
I am trying to do with my life something which… few people try to do.
And… this influences my thinking. And consequently my actions.
– What is it you’re trying to do with your life?
… Play the piano for people.
– I am not clear at…
– How is it that playing the piano for people has eventually resulted in your being here in the hospital?
… I sit differently. When I play the piano.
And when I am away from the piano I occasionally look differently. From other people.
And this has caused. Dislike. From people.
– They dislike you because you sit differently at the piano?
… Yes.
– In what way do you sit at the piano that people would dislike you?
… I cannot describe. An illustration. Of how I sit.
– And I can’t imagine it, that it would make people angry at you, or at least dislike you.
– How do you know they dislike you?
… My father does. And.
Doctors do. Because.
Of the way. I appear.
In relationship to the way I sit at the piano. And occasionally stand when I am away from the piano because of the way I sit at the piano.
– How do you stand when you’re away from the piano that they dislike you?
… I can’t describe. An illustration.
– Does it “feel” to you any different from the way other people stand?
… Yes it feels different.
– In what way?
It… this is becoming too involved to describe.
– Would I be right in assuming then that…
– you don’t feel that you belong in the hospital,
– but that other people did feel that?
… As soon as I express the belief that I do not belong in this hospital,
which is a mental hospital,
then…
those who dislike me want to find a worse place for me.
– I’m not sure I understand. Could you make that clearer for me?
… No.
– Is this a way of…
… A hosp—Yes, I can.
As soon as I express the belief that I do not belong in this mental hospital,
then those who dislike me want to find a hospital where the living conditions are not as good as this.
– But why are you in the hospital in the first place? I’m not clear.
… Because I am working to do something in my life which most people do not do…
This influences my thinking.
And occasionally my actions.
And… A psychiatrist has noticed this.
And dislikes…
– What has he noticed?
… the actions, and…
the thinking, and has decided that I should be here. To change them.
– What actions?
… How I talk. And how I look. Right at this moment.
– And how would you describe the way you’re talking and looking right at this moment?
… As other people talk, and that this moment however I’ve been told that it is not the way other people talk and look.
– Have you any idea in what way it’s not like others?
… No because I believe it IS as other people talk.
– So then from YOUR point of view, not from other people’s point of view, from YOUR point of view,
– You look, you talk, you think, you behave… as other people do.
– You’re very interested in learning to play the piano.
– You sit at the piano a little differently from the way someone else might and you stand somewhat differently.
… Occasionally I stand differently.
– Now that, uh… in itself, doesn’t seem on the surface to be sufficient reason for being in a hospital.
– So what other reasons have been given to you, or what other reasons do you understand are the causes of your being here?
… I’m supposed to not. Be mentally well.
– And what’s supposed to be wrong with you?
… No doctor has told me.
– That’s hard to believe.
… I tell the truth.
– What are your plans? If things should go well, and you were to leave the hospital, then what?
… I need financial help from my father to prepare.
Me.
For obtaining a job. As a piano instructor.
At a university.
Where I will be able to teach.
People how to play the piano.
And also play the piano. For people.
– Have you had the training yet to permit you to be an instructor?
No I have not.
– Have you tried?
I don’t understand what you mean by the…
– Have you tried to get the instruction?
… Yes I have tried.
– And what’s happened?
… I have not had. The correct environment. For the instruction.
Nor the correct financial help for the instruction.
Nor… the correct instruction.
– Have you been accepted for such instruction?
… By some teachers. Yes.
– And… by others no?
Yes. Again.
– Mhm.
It has been about half and half.
– Have you started any such instruction with those who did approve of it?
… Yes.
– And how has it gone?
… With some it has gone well. With some it has not gone well.
– Our time is up. Thank you for coming in to talk with me.
… It’s over.