Eu odeio os textos produzidos com inteligência artificial. E odeio ainda mais o fato de que os textos produzidos por seres humanos estão sendo contaminados pelos vícios de discurso da inteligência artificial.
Nossa forma de pensar reflete a forma como falamos (e vice-versa), isto é, ela é diretamente influenciada pela estrutura gramatical da língua utilizada para raciocinar. Do início:
a estrutura que organiza o pensamento é a razão, o logos;
a estrutura do pensamento (a razão) se dá pela estrutura da linguagem (o raciocínio);
a estrutura da linguagem (o raciocínio) determina como e quais idéias são transmitidas;
logo ao controlar a linguagem, controla-se o pensamento (como se pensa e o que se pensa).
A linguagem é a ferramenta do pensamento usada para compartilhar idéias entre as pessoas. Se todo mundo fala de um jeito, a gente tem que usar esses termos para se fazer compreender. Daí o interesse de atores escusos. Controlar a língua é controlar o discurso; controlar o discurso é controlar o pensamento; controlar o pensamento é escravizar a alma. E a liberdade começa já no campo das idéias. Se esse for tolhido, todo o resto é inconseqüente.
No parágrafo anterior, tentei resumir grosseiramente o argumento principal da defesa da liberdade de expressão, bem como do ataque ao compelled speech (discurso obrigatório). Quando outrem exige que você não fale determinados termos ou quer obrigá-lo a falar de algum modo, seja por que motivo alegar, na verdade está em tentativa direta de controlar seu pensamento para que se conforme aos interesses dele.
Isso se observa claramente na prática gramsciana de cooptação e corrupção da cultura. Infiltrando-se em posições de controle do discurso como a academia e a imprensa ao longo das décadas, a ideologia marxista tornou ponto comum termos como ”classe” (ao se referir a grupos trabalhistas), ”alienação”, ”burguesia” (termo hoje em declínio), e outros termos em ascensão recente como hegemonia cultural (Gramsci), dinâmica de poder (Foucault), desconstrução (Derrida), interseccionalidade, identitarismo etc.
Mas não é necessariamente algo que acontece de forma pré-planejada. O modo como uma pessoa se expressa é resultado da soma da cultura (literária, inclusa) acumulada ao longo de toda a sua vida. A forma de escrever e de falar muda com o tempo, aprimorando-se ou degradando-se, conforme o indivíduo é exposto a textos de autores diferentes e de qualidades diferentes. Alguém acostumado a ler grandes obras de literatura acaba introjetando o modus dos escritores consagrados, assim como alguém que lê exclusivamente textos acadêmicos e científicos tem uma forma de raciocínio e de expressão influenciada diretamente pelo linguajar acadêmico corrente.
Vivemos numa sociedade que despreza a própria língua. Raros são os repórteres da imprensa que se prestam a usar o corretor ortográfico antes de publicarem seus lixos redigidos a toque de caixa. Jovens não lêem a literatura clássica. Praticamente ninguém mais fala bem. Entre gírias, neologismos torpes e estrangeirismos, a decadência cultural e o analfabetismo funcional marcham lado a lado em afronta à Língua Portuguesa.
Numa sociedade de analfabetos funcionais retardados, ao que carinhosamente chamamos de Brasil (ou Bostil para os íntimos), não é de se admirar que pessoas sejam incapazes de falar coerentemente, de se expressar compreensivelmente. Vejo situações em que a criatura mais parece estar gemendo grunhidos bestiais do que tentando simular a comunicação humana. Temos de lidar diuturnamente com sujeitos incapazes de fazer operações mentais simples a partir de informações pré-fornecidas, ou seja, gente estúpida (Bostileiros).
E para piorar ainda mais, soma-se a isso tudo o advento da inteligência artificial. Incapaz de produzir algo genuinamente autêntico, a inteligência artificial apenas tenta disfarçar sua produção com o verniz da alma humana, porém sem sua substancialidade. É sensível quando um texto é produzido por I.A., pois o mesmo é… ”artificial”.
Eu consumo muitos vídeos sobre os mais variados temas, e a quantidade de vídeos produzidos por inteligência artificial, além de me enojar, causa-me espécie. Evito sempre esse tipo de conteúdo, raso, repetitivo, enfadonho, feito com o propósito de que o espectador assista-o durante o máximo de tempo possível. A torrente de vídeos produzidos por inteligência artificial está inundando todas as redes sociais, aos poucos suplantando o conteúdo produzido por pessoas, como eu e você. O que antes era uma ferramenta para que pessoas pudessem trocar informações e idéias está se tornando uma vitrine para vídeos ”enlatados” de péssima qualidade, imprecisos (por vezes até incorretos), feitos com o único e exclusivo propósito de disputar engajamento e vendê-lo aos anunciantes.
Se antes a atenção do espectador era o objetivo a alcançar, agora ela é o produto a ser comercializado. Como boa parte do conteúdo já é produzido por I.A. ela se retroalimenta, deteriorando-se exponencialmente em produções com qualidade cada vez pior. Não sendo ela o produto, e sim você, não é necessário aperfeiçoá-la, desde que você continue fornecendo sua atenção.
Mamãe lamentavelmente consome esse tipo de conteúdo e eu não agüento mais escutar as palavras ”profundo”, “silencioso”, “poderoso”, “invisível”, “revelar” usadas à exaustão numa tentativa capciosa de atribuir importância ou solenidade à cada meia frase monotonamente repetida. Se isso tudo já não bastasse, minha repulsa agora encontra outro inimigo.
Criadores de conteúdo que sigo também consomem conteúdo produzido por inteligência artificial. É direito deles consumir o que quiserem. E como a linguagem que se consome influencia a forma como se pensa e como se fala, eles também passaram a revelar poderosas verdades profundamente silenciosas e invisíveis.
Putaqueopariu.
Sendo eu alguém que trabalha primariamente com texto, tive o privilégio de não ter sido atingido pelo AI Slop (lixo produzido por I.A.) por um período de tempo maior do que o das pessoas que lidam com imagens e sons. Mas a produção audiovisual é uma forma de linguagem que invariavelmente também influencia a produção escrita.
Quando alguém assiste, escuta ou lê o conteúdo massificado da I.A. sem uma recepção crítica daquilo, acaba trazendo para seu próprio vocabulário, e conseqüentemente para seu pensamento, os jargões e modismos incessantemente cuspidos pela máquina para cumprir as métricas do algoritmo.
É desagradável, mas é a realidade. A I.A. faz parte da humanidade e continuará crescendo. Cada vez mais interagiremos com máquinas em nossas vidas. Em breve robôs caminharão pelas ruas e, quem sabe, em nossas casas. E essas máquinas têm sua própria forma de ”falar”. Mesmo se eu nunca utilizar a I.A. e nunca ”conversar”’ com robôs, as outras pessoas assim o farão e serão afetadas por isso, seja em seus hábitos, seja em seu modo de falar, seja em seu modo de pensar.
E ao me comunicar com elas…
Agora basta descobrir: quanto tempo vai levar até que também eu, sem perceber, comece a replicar a estrutura do discurso desalmado de um computador?
Google AI Overview
comunicar
A palavra comunicar vem do verbo em latim communicare, que significa “tornar comum”, “partilhar” ou “dividir algo com alguém”. Essa base latina vem de communis, que quer dizer “comum”, a mesma origem da palavra comunhão.
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