Gosto se discute, sim.

Caverna de Chauvet
Cavalos da caverna de Chauvet – Local da descoberta: Grotte Chauvet, Ardèche, França
Data: 31.000 AEC (Aurignaciano)
Fonte:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Chauvethorses.jpg

“O principal trabalho de um artista é encontrar as coisas na natureza que a pessoa comum não consegue ver e colocá-las na tela, mas fazendo um trabalho melhor do que a natureza, pois a natureza é tudo exceto uma artista. Somente o ser humano pode apreciar arte e somente um ser humano pode criar arte. O problema de muitos artistas é meramente copiar o trabalho da natureza em lugar de criar arte baseados nas regras da natureza.”

Benjamin Albert Stahl (1910 ~ 1987)

As artes são (dentre outras coisas) algo que distingue o homem dos demais animais. Essa talvez seja a mais notória diferença entre nós e as demais espécies deste planeta. Até onde sabemos, somente nós somos capazes de fazer e apreciar arte, perceber e sentir a beleza em suas mais variadas formas. Somos capazes de compreender a beleza da natureza, o modo como ela trabalha e como se dá, e não somos apenas passivos: podemos criar coisas belas.

E quais são as filhas de Mnemosine? A Memória, mãe de todas as musas, mantém imperecível na eternidade finita da História só aqueles que em si vencem o sagrado e infinito poder destrutivo do tempo.

Dentre todas as artes, a mais importante das musas é a Música. É a Matemática que se faz tangível, tocável; que permite ao inculto e ao iletrado ingressar fisicamente no universo das esferas celestes. São as equações cognoscíveis pela razão pura mostrando-se materialmente na grosseira mundanidade cotidiana aos astrofísicos e aos metafísicos. Ondas e vibrações invisíveis, um vislumbre da perfeita geometria dos céus permitido caridosamente aos homens para igualar os doutos aos ignorantes, ambos, talvez, inconscientemente.

A mais simples dentre todas é a Pintura. E também, a mais poderosa. A brincadeira com as cores permite criar o jogo de ilusões. Um quadro é uma janela (ou talvez o buraco de uma fechadura) para o mundo visto pelo pintor com seu coração, por onde podemos espiar. Uma imagem fixa no tempo daquele instante vista por seus olhos d’alma. Minutos, semanas ou anos de trabalho que podem ser admirados por apenas alguns segundos. No espaço finito de uma tela, o pintor por meio de seu equipamento tem o poder infinito de ver e mostrar absolutamente tudo o que quiser, real ou não, possível ou não, inteligível ou não. O poder divino da criação de mundos visível por uma janela que não temos como atravessar.

Mais delicada e complexa é a Escultura. Em lugar de abrir uma janela ao seu mundo, o escultor traz (literalmente) parte de seu mundo para o nosso. Torna palpável sua imaginação, real suas idéias, tocável seus sentimentos. Molda a maleável argila ou o rijo metal até se conformarem à sua vontade. Ou delicadamente desbasta a pedra, cuidadosamente removendo os excessos, revelando a beleza que já estava lá. A confusão entre imaginação e realidade que levou Pigmalião a amar sua Galatéia e Michelângelo a gritar com Davi demonstra que a delicadeza e a complexidade não estão somente na confecção da obra, mas na relação do artista com a mesma.

A mais difícil talvez seja o Desenho. Conferir à bidimensionalidade de uma tela a ilusão de espaço é uma tarefa simples se comparada com o intento reverso. Alçar linhas e cores à grandeza da vida requer técnica e talento. Qualquer falta menor se mostra um erro gritante. Contar uma história por meio de imagens exige precisão e sensibilidade do autor. Em cada quadrinho ou página inteira, a fatia de uma vida que nunca existiu. Se é árduo capturar a imagem de uma idéia no papel, colocá-la em movimento o é muito mais. A Animação é das mais laboriosas e extenuantes artes coletivas, de cujo resultado final depende muito esforço, organização e disciplina de seus colaboradores.

A Dramaturgia é a mais polêmica. Platão já a descartava como sem valor. Segundo ele, vivemos num mundo falso, uma cópia do verdadeiro mundo que há nas idéias. O Teatro, portanto, é uma cópia falsa da cópia falsa que vivemos. Mas se na Dramaturgia vemos aquilo que não somos, também podemos ver o que poderíamos ser e as vidas que poderíamos ter. A representação da emoção humana é um retrato de nós mesmos. Como agiríamos se fôssemos nós? Se bem feito, pode instruir, pode edificar, pode servir como instrumento para nos melhorarmos, alertando sobre aspectos de nossa própria natureza que por vezes não enxergamos, ou mostrando caminhos que não havíamos percebido antes também poder trilhar.

E por fim a Literatura, a mais íntima e solitária das artes. A linguagem, ferramenta de trabalho do filósofo, cela e portal da razão humana, tentando expressar o que move o coração, deixa para trás a frieza científica e a superficialidade da comunicação vulgar para se tornar transporte de almas, levando-as a um mundo que não é visto com olhos do corpo, mas efetivamente criados pela imaginação de cada leitor. Dramaturgia de um para um, completa-se quando o que o leitor torna-se ator e contra-regra da mesma peça, cujo figurino e cenário, brechas não escritas no conto, são preenchidas por sua criatividade. Efetivamente, cada leitor-espectador cria sua própria versão da história; e a cada vez mais surge uma nova história para contar.

Ludwig van Beethoven
Sinfonia nº 9 – Excerto
Filarmônica de Berlim
Regência de Claudio Abbado


”A vida passa cada vez mais depressa” já diziam os antigos. E mesmo reclamando, continuamos acelerando sem perspectivas de apreciar a paisagem que se torna um borrão fugaz na janela dum veículo ou uma monótona cena da mesmice do engarrafamento.

E a dual natureza humana, capaz dos mais belos sonhos e dos piores pesadelos, também se manifesta através da arte. Natureza contestadora por natureza contesta o contestável e o incontestável. Irreprimível e bélica, a alma humana encontra no embate e no combate seu lócus no cosmos. O homem critica o mundo em que vive e (que) não se dobra à sua vontade, tal como o adolescente contesta os costumes da família em que nasce e como a criança manhosa contesta a realidade em que nasceu. Crescemos, mas não mudamos muito. Apenas o nível, o objeto e a forma da crítica se complexificam. É da natureza humana questionar, indagar, perguntar e não se conformar, mas querer sim que todo o resto (o mundo, a sociedade e o universo) a aceite e se conforme sem questioná-la.

É como o militante que não se conforma com o corpo com o qual nasceu, com a família que o criou, com a sociedade que o educou, e exige que todos o aceitem tal como é.

Em mais pacífico tom, o homem pode também ser movido pelo singelo desejo de mudança ou pela curiosidade. A busca pelo diferente e pelo exótico, o olhar de criança que se encanta facilmente com a novidade de um brinquedo ou de algo inédito são combustíveis para os motores da originalidade (por vezes, não tão originais). Mas sempre tendo em comum aquela busca por algo melhor do que aquilo que o cerca. O fantástico, o incrível, o maravilhoso sempre são mais atraentes que o dia-a-dia!

O homem pode ser alcunhado de dois codinomes: ou é saudosista ou é futurista. Seu contentamento e sua esperança estão num passado imaginado como melhor ou num futuro e sua promessa de felicidade. Assim a História da Arte se fez, ciclo após ciclo retornando ciclicamente a celebrar o passado e a inventar um futuro melhor. Ora para contestar o mundo, ora para deleitá-lo, a Arte sempre foi a expressão dessa natureza humana.

Bem-vindo ao século XX!

Daí veio o século XX e tudo virou bagunça. Pela primeira vez o homem teve noção do quão pequeno é nosso planeta. E seu mundo se apequenou. Os vastos horizontes da época dos ”descobrimentos” haviam se tornado páginas nos livros de História ou cartões postais em um aeroporto qualquer. A corrida espacial trouxe até mesmo as longínquas estrelas para tão perto. Os computadores que antes serviam para calcular trajetórias balísticas se tornaram instrumento de comunicação, modificando o alvo e aumentando o alcance. Toda a informação do mundo na palma da mão a qualquer instante. Fronteiras e limites desapareceram nos Estados e nas instituições. E também na vida

Pela primeira vez o homem teve noção do quão perto esteve de seu fim. E sua estrada se encurtou. A Guerra Fria com sua constante sombra de iminente desastre trouxe a antiga máxima de Carpe Diem a um novo patamar. A ausência de fronteiras e limites criou uma geração de mimados emocionalmente instáveis e socialmente incapacitados. A liberdade tornou-se libertinagem. E a falta de algo por que lutar ou contra o que combater criou um exército de soldados sem causa a encontrar um inimigo imaginário para suprir sua carência de limites, de embates, de fantasias. E de afeto.

Máquinas e computadores que deveriam ter vindo para livrar o homem do trabalho, acorrentaram-no num mundo apático. Não se conversa mais com pessoas: conversa-se com máquinas. Não há mais o olhar, o toque, o sorriso. Apenas a fria tela de um computador ou telefone e a impessoalidade da distância. Livramo-nos do trabalho? Não, mas em seu lugar, da empatia humana, parte inerente da natureza humana.

A Verdade deixou de ser um ideal máximo a ser alcançado. Tornou-se algo criado conforme a necessidade. Ou, o interesse… Confundindo opiniões com argumentos, pensadores contemporâneos se esforçaram em afirmar que a verdade deveria ser construída por meio do diálogo. E, numa peculiar e muito bem quista defesa da liberdade, que todas as opiniões deveriam ser livremente expressas para poder haver um bom diálogo. O problema ocorreu quando a defesa de que ”tudo pode ser expresso” passou a ser interpretada como ”tudo deve ser admitido”, “tudo deve ser aplaudido“. Passaram a confundir respeito e tolerância com aceitação, aprovação, concordância.

Não concordar foi igualado a desrespeitar. E este é o perigo do ”politicamente correto”. Perdemos o direito de discordar, de recusar, de dizer não sob pretexto de que estaríamos ”desrespeitando” o outro. Não condescender tornou-se sinônimo de intolerar. Não consentir, de oprimir. E o homem torna-se agressor ao não se alinhar e consoar a quem discorda do status quo. “Discordar é preciso!” Mas de quê?

E assim, o discurso de ”defesa da liberdade” foi maliciosamente apropriado por quem de interesse (gramsciano) para sua defesa da libertinagem.

Usar a arte como instrumento de crítica social não é novidade (já os gregos faziam isso muito bem). Ocorre que falaciosamente criaram um instrumento de deturpação social sob o nome “Arte”. Não considero tais ”produções” Arte; essas coisas não são arte; nunca foram e nunca serão arte. Mas neste texto usarei o termo corrente ”arte contemporânea” para designar o movimento cultural presente pela falta de outro nome e para facilitar o entendimento do leitor.

A arte contemporânea está repleta dos mais horrendos exemplos de mau gosto, isto é, produções que não têm como objetivo a busca pelo ideal de beleza, de ser aprazível aos sentidos ou de em algo contribuir ao avanço e progresso humano. Temos em seu lugar produções feitas com o propósito mesmo de chocar a audiência ou a sociedade, ou tão somente servir como material de consumo aos consumidores de nossa sociedade consumista.

Muitos agora poderão afirmar que gosto não se discute, pois que cada indivíduo vê beleza em coisas diferentes. Discordo e defendo minha posição a seguir.

O gosto… Em primeiro lugar, o fato de que cada indivíduo pode encontrar beleza em coisas diferentes em nada sustenta a tese de que gosto não se discute. Indica apenas que eles possuem parâmetros de beleza diferentes. Tal fato não é causa necessária nem suficiente à tese. Portanto, argumento errado. Em segundo lugar, afirmo que o bom gosto é algo que pode ser aprendido. Tal como qualquer habilidade, a capacidade de perceber e reconhecer o Belo pode ser treinada, exercitada, cultivada, adequando o gosto ao belo ideal. Assim como ”o homem [são] só age mal porque não conhece o bem”, afirmo que o homem [são] só aprecia a feiúra por não conhecer a beleza.

.* O acréscimo [são] é meu.

Lembra aquela ”verdade” que lhe disseram que deve ser ”construída”? Ela é falsa. Uma mentira contada para sustentar a falsidade do mundo em que você se encontra. Logos é razão. Dia, dois. O Diálogo ocorre no encontro entre duas razões, que juntas formam um resultado melhor. Ao elidir os limites; ao considerar que a verdade é construída; ao afirmar que todos os argumentos são opiniões que têm o mesmo peso, o mesmo valor, a mesma importância; todos têm razão e estão igualmente certos. E se todos estão certos, ninguém está.

Esse argumento é um maléfico artifício, uma armadilha epistemológica que blinda os atuais sofistas no debate. O resultado é a ruína dos alicerces fundadores sobre os quais se erguem valores perenes. Isso que vivemos hodiernamente é o Relativismo Cultural. Prega-se que cada sociedade tem sua cultura; cada grupo tem seus costumes; cada indivíduo tem sua própria forma de ver o mundo; e que nada disso pode ser julgado, pois os valores advêm de cada construção social, sendo mutáveis ao longo do tempo. Sem a definição de Bem ou Mal, é o fim da própria Ética e, por conseqüência, da Estética.

Se a arte é uma manifestação cultural e cada cultura é igualmente válida, não havendo superioridade ou inferioridade entre elas, não é possível questionar ou criticar noções estéticas alheias. Tudo é válido e igualmente aceitável. Tudo tem o mesmo valor. E se tudo é belo, então nada é belo…

E encontramos todo tipo de lixo cultural baseados nessa falácia, acintes mesmo contra as Belas Artes e contra o legado de vidas inteiras dedicadas (e por vezes sacrificadas) à Arte. Em todos os campos e estilos encontramos lixo. Na música, lixo cultural. Nas exposições, lixo visual. Na dramaturgia, lixo intelectual. Desde o urinol no museu e a lata de fezes, até gente pelada introduzindo objetos em seus orifícios ou profanando iconografia sacra, a arte contemporânea perdeu o senso de estética, daquilo que é belo. E com isso perdeu também seu sentido Ético.

A conseqüência dessa abominação ideológica pode ser facilmente discernida ao notar que o termo ”Arte” é igualmente usado para designar:

    1. As grandiosas obras da música erudita; e Funk, Axé, Samba, Pagode, Sertanejo universitário (seja lá o que isso for);
    2. Os quadros e afrescos dos grandes mestres da Renascença; e borrões de tinta sem sentido exibidos nos museus de arte contemporânea;
    3. A perfeição dos corpos de deuses e heróis em bronze e mármore; e objetos que poderiam facilmente ser confundidos com matéria-prima de centro de reciclagem;
    4. Os complexos e rebuscados traços dos grandes estúdios de animação, com suas histórias que marcaram gerações; e desenhos reciclados em computador, sem nada a acrescer às crianças;
    5. As grandes tragédias que sobreviveram aos séculos, tal como o grande teatro que ela inspirou; e a teledramaturgia televisiva presente;
    6. As grandes obras de literatura do passado; e as pífias páginas mal escritas de hoje.

E são igualmente artistas os grandes mestres e os presunçosos.


Francesco Queirolo – Il Disinganno (1753-54)
Francesco Queirolo – Il Disinganno (1753-54) detalhe

Eu discordo. Defendo que há o certo e o errado; que há limites. E que nem todos têm razão. O correto e o verdadeiro assim o devem ser em qualquer caso, em qualquer situação, em qualquer circunstância. Não há meio termo. Um argumento só se sustenta verdadeiro se não for possível oposição lógica. Uma conduta só é moral se for possível considerá-la ética sob qualquer hipótese. Algo só é imanentemente belo se se aproxima do ideal de beleza transcendente e universal.

Mas é mesmo possível definir o certo e o errado? Ao nos depararmos com perguntas morais, dificilmente a resposta será ”sim” ou ”não”. Respondemos: ”depende… ”. Nesse momento percebemos claramente a diferença platônica entre o mundo ideal e o mundo real. Todavia reconhecer a abstração do ideal não é negar sua existência tampouco rejeitar sua busca.

A Filosofia é a busca pela Verdade, por aquilo que é racional (de razão ou Logos) e que faça sentido. E a Verdade possui três características fundamentais: ela é Bela, Boa e Justa. Justiça é o caminho do meio, a justa medida, a rejeição dos extremos e a eleição da virtude, é o ”razoável”. Ser bom possui duas interpretações, tanto prática quanto moral. Diz-se que algo é bom tanto se serve bem ao seu propósito, como um bom instrumento, quanto se é eticamente e moralmente desejável, como uma boa conduta.

Por isso é impossível abordar Estética sem abordar Ética. É belo o que apraz aos olhos, mas é ainda mais belo o que apraz às almas. É inegável que encontramos beleza em belos corpos, em belas paisagens, em belas obras. Mas também é inegável dizermos ser mais bela a ação de ajudar o próximo. Imagine um homem levando alimentos a um lugar imundo com muitas pessoas maltrapilhas e distribuindo aos necessitados. Ninguém negará que é uma bela ação, ainda que a cena seja desagradável aos sentidos.

Uma mãe amamentando seu filho. Um neto cuidando de seus avós. Um abnegado médico. Alguém se sacrificando pelos demais. O Amor, o Bem e a Justiça são codinomes da Beleza. Boas ações são belas ações. E quando somos pequenos, nossos pais docemente dizem ao nos repreender: “Não faça isso que é feio!“.

Há, portanto, um ideal de beleza que transcende a idéia de cultura, de sociedade, de indivíduo, tal como há o ideal de justiça e o ideal de ética. As Belas Artes consistem na ação eminentemente humana de reconhecer, contemplar e buscar esse ideal, tal como reconhece, contempla e busca a justiça, a ética e a verdade. A Arte verdadeira é aquela que consagra o Belo, e também aquela que transmite uma mensagem benéfica para a humanidade.

É uma ocupação bela. E em sendo bela, tem a sua utilidade. […] No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.
Afirmo ser falacioso afirmar que todas as produções artísticas são igualmente valoráveis. Afirmo que podemos sim julgar o gosto estético alheio pelo simples fato de sermos capazes de reconhecer a beleza. Podemos graduá-la, compará-la, classificá-la e estudá-la nas obras humanas e nas da natureza.

Gosto se discute, sim. Se a beleza está nos olhos de quem vê, basta então ensinar esses olhos a reconhecer a beleza onde ela verdadeiramente está. E então o homem, mesmo navegando em um mar de rostos, reconhecerá a face da Musa dentre a multidão de mortais.

Jean-Eugène Buland: A alegria dos pais (1903)