Tao Te Ching – Tradução completa PT-BR

Atualizado em 05/11/2019.

O Tao é a essência, o princípio de todas as coisas, o caminho natural do universo, a força. O Te é a forma como ele se manifesta, a virtude do mundo. A não-ação, o não-agir, no Taoísmo não é ficar esperando as coisas caírem do céu. Não obrar significa fazer apenas o natural, sem interferir na natureza fundamental do mundo. Fazer a parte que lhe cabe sem interferir na parte dos outros. Deixar o mundo seguir seu fluxo natural.

O Taoísmo é um antigo sistema de pensamento chinês. Existe há milhares de anos, muito antes do nascimento de Jesus de Nazaré ou do surgimento da Filosofia Ocidental. Diferentemente do pensamento do ocidente, o pensamento no oriente não é patriarcalista. Não é dado pela fundação por um patriarca, ou pela revelação de uma entidade divina aos homens. É fruto do tradicionalismo, contribuição de muitos pensadores anônimos e pela própria História do povo.

O mesmo se dá com as religiões. O Taoísmo não é originalmente uma religião. Ele assim se formou pelas interpretações posteriores dadas pelas pessoas, que fundaram uma religião em torno desse sistema de pensamento. Um importante embasamento para a formação da religião taoísta é o texto Tao Te Ching (O livro do caminho e da virtude), uma pequena poesia escrita por Li Erl (conhecido também como Lao-Tsé) há mais de 2.600 anos.

Ele colocou em texto seu conhecimento, que já era pensamento corrente à sua época.

A seguir, uma das muitas traduções possíveis. Antes de ler, é aconselhável conhecer a história do livro. Foi escrito por Lao-tsé numa época em que estava muito desgostoso com a forma como o governo tratava o povo. Ele, sendo parte da elite governante, optou por abandonar seu posto e viver reclusamente, em um estilo de vida mais natural. A essência de seu ensinamento, vai para muito além das palavras e é preciso esforço interpretativo para entender o que ele quis dizer.

Texto completo: Tao Te Ching – Tradução completa PT-BR.pdf

MUITO IMPORTANTE: o texto transcrito abaixo e no arquivo acima não é de minha autoria. Foi integralmente digitado por mim a partir da tradução de Norberto de Paiva Lima.


TAO TE CHING
O LIVRO DO CAMINHO E DA VIRTUDE

Capítulo 1

O Tao que pode ser nomeado não é o Tao Absoluto, Verdadeiro, Eterno
O nome que é dito não é o verdadeiro nome
Aquilo que não pode ser nomeado é o princípio do Céu e da Terra
Aquilo que tem nome é a Mãe de todas as coisas
Assim
Quem permanece sem desejos contempla o Misterioso Princípio
Quem conserva seus desejos contempla os limites das aparências
Ambos são idênticos em sua Origem
e distintos tornam-se seus nomes ao serem manifestados
Este mistério é dito ser a Infinita Profundidade
Profundidade ainda não desvelada pelo homem
e que é a porta para todas as maravilhas do Universo

Capítulo 2

Quando o homem reconhece que a bondade é boa
então sabe que a maldade existe
Quando o homem sabe que a beleza é bela
então sabe que a feiúra existe
Ser e Não-ser engendram um ao outro
Difícil e Fácil complementam um ao outro
Comprido e curto são relativos um ao outro
Alto e Baixo acompanham um ao outro
Som e Tom harmonizam um ao outro
Antes e depois sucedem um ao outro
Portanto o sábio ensina sem palavras, obra sem agir
Sem dúvida nada fica por realizar
Quando a existência se manifesta, não se opõe a ela
Age, mas não se apega à sua obra
A obra cumprida não exige reconhecimento
E por não pretender o mérito nada é abandonado

Capítulo 3

Não louvando o ilustre, o homem mantém-se alheio à rivalidade
Não estimando o valioso, o homem mantém-se alheio à cobiça
Não mostrando o que é desejável, o homem mantém seu coração alheio à confusão
Portanto o sábio governa esvaziando o coração do homem e enchendo seu ventre,
debilitando sua ambição e fortalecendo seus ossos,
apartando o homem do conhecimento e dos desejos que o levam ao mal caminho
Ensina o douto a não agir
E quando a prática da não-ação se realiza,
todos encontram a paz em suas vidas
e nada fica sem governo

Capítulo 4

O Tao é como o vazio dentro de um vaso
Quanto maior, mais difícil é esgotar-se
Parece o manancial de todas as coisas
que em suas profundezas permanece eternamente inalterado
Suavizando as asperezas
Ordenando os meandros
Moderando o resplendor
Abafando o estrondo
Obscuro como as águas profundas,
parece ignorar de onde provém
Imensurável, parece ser o Ancestral de tudo

Capítulo 5

O Céu e a Terra não são parciais
tratam as coisas como iguais
O sábio não é parcial
trata os homens como iguais
O espaço entre o Céu e a Terra é como um grande fole
Seu vazio é inesgotável e quanto mais se move mais vazio surge
A água favorece todas as coisas e não exclui nenhuma
O melhor é conservar sua própria essência

Capítulo 6

O Espírito do Vale (Tao) nunca morre
Forma a Mãe Misteriosa (Te)
Seu ventre é a origem do Céu e da Terra
continua e permanece
realiza sem consumir-se jamais
Pede e te servirá com facilidade

Capítulo 7

O Céu é Eterno e a Terra é Permanente
O Céu é Eterno porque não busca sua existência em si mesmo
A Terra é Permanente porque não busca sua existência em si mesma
E por isso perduram
Portanto o sábio permanece recatado e esquece de si
Sendo assim sobrevive
E por seu desinteresse, se realiza

Capítulo 8

A bondade superior é como a água
A água favorece todas as coisas e não exclui nenhuma
Permanece nos lugares desprezados pelos outros
A isso deve se assemelhar o sábio
Vivendo acha a felicidade da vida
Pensando assemelha-se ao Abismo Profundo
Sendo bom harmoniza-se com todos
É sincero em suas palavras
É equilibrado em seu governo
É honesto em seu trabalho
Encontra o melhor momento para caminhar
Não cria rivalidade e a maldade fica esquecida

Capítulo 9

Devemos deixar todas as coisas seguirem seu curso natural
Não devemos buscar os extremos
Uma espada continuamente afiada não dura muito
Uma sala cheia de ouro e jade é difícil de guardar
Opulência e poder conduzem à soberba
E disto nasce a ruína
Acabada a obra, mérito cumprido
Oportuno é se retirar
Isto é o que ensina o Tao

Capítulo 10

Você pode fazer seu corpo e espírito se harmonizarem ao ponto de serem inseparáveis?
Você pode tornar sua respiração leve e suave como a de uma criança?
Você pode anular seu pensamento até purificá-lo totalmente?
Você pode governar um império e beneficiar toda a humanidade pela não-ação?
Você pode ficar totalmente passivo ao ver diante de si abrir e fechar as portas do Céu?
Compreendendo tudo isso, você pode permanecer como se não compreendesse nada?

Capítulo 11

Os trinta raios de uma roda convergem para seu centro
é pelo vazio entre eles que se dá a utilidade da roda
A argila é moldada na forma de um vaso
é pelo vazio dentro dele que se dá a utilidade do vaso
Abrem-se janelas e portas nas paredes de uma casa
é pelo vazio entre as paredes que se dá a utilidade da casa
Assim
A posse de algo provém daquilo que lá está
A utilidade de algo provém daquilo que lá não está

Capítulo 12

As cinco cores cegam os olhos
As cinco notas ensurdecem os ouvidos
Os cinco sabores entorpecem o paladar
A competição e a caça embrutecem o homem
O que embota os sentimentos faz realizas esforços nocivos
Mas o sábio favorece o interior e rechaça as aparências

Capítulo 13

O favor e a desgraça são parentes do medo
Que se quer dizer com isso?
O favor é um privilégio e a desgraça um mal
Perder o primeiro ou ganhar o segundo causa medo
A grandeza e a dor são como nosso corpo
Que se quer dizer com isso?
O que sente a dor está em nosso corpo
Se não o tivéssemos, como sentiríamos dor?
Logo, aquele que honra o mundo tanto quanto seu próprio corpo pode governar o império
E quanto àquele que ama o império como se fosse seu próprio corpo,
pode-se confiar o mundo aos seus cuidados

Capítulo 14

Aquilo que se olha e não se vê é invisível
Aquilo que se toca e não se sente é impalpável
Aquilo que se escuta e não se ouve é inaudível
O invisível, o impalpável e o inaudível juntos formam um só
Revelado não quer dizer claro
Oculto não quer dizer obscuro
O Inesgotável (Tao) não pode ser definido
Remonta além de tudo
Figura que não tem figura
Forma que não tem forma
Inacessível mistério
Se o encara, não vê seu rosto
Se o segue, não vê suas costas
Se te acompanha o Tao do passado,
governarás a existência presente
e conhecerás a Infinita Origem
Isto encerra o mistério do Eterno Princípio (Tao)

Capítulo 15

Antigamente os sábios eram sutis, penetrantes, profundos. E era difícil compreendê-los
Não podendo compreendê-los, tratei de descrevê-los
Eram cautelosos como quem atravessa um rio no inverno
Eram prudentes como quem teme seus vizinhos
Eram reservados como um hóspede
Eram simples como a madeira sem trabalhar
Eram vazios como vales
Obscuros como as águas turvas
Quem como eles para iluminar as trevas suavemente?
Quem como eles para aquietar a turba calmamente?
O que segue estes princípios não mantém desejos
Quem mantém desejos permanece pequeno
E sendo pequeno, não cria o novo

Capítulo 16

Conserva o Vazio Absoluto (Tao) e a Paz Perfeita permanecerá
Todas as coisas têm uma mesma origem e a ela as contemplamos retornar
Todas as coisas emanam florescentes
e cada uma delas retorna à sua origem
Regressar a seu princípio é repousar
Repousar é encontrar novo destino
O regresso ao Destino se chama Eternidade
O que conhece o Eterno se chama Iluminado
O que desconhece o Eterno encontra a miséria
Quem conhece a Eternidade tudo possui
Quem é justo com os demais é soberano
Quem é soberano é semelhante ao Supremo (Te)
O Supremo (Te) é o caminho do Tao
Alcançando o Tao terá a vida eterna
E ainda que seu corpo morra, nunca perecerá

Capítulo 17

Na antigüidade os grandes passavam despercebidos
Os sucessores menores eram adulados e respeitados
Os sucessores destes menores eram temidos
Os sucessores destes menores ainda eram desprezados
Não existindo a confiança, surge a desconfiança
Tranqüilas eram suas palavras e sem obrar os homens viviam em perfeita harmonia
Pareciam não governar; assim o povo prosperava
Porque tudo se realizava por si mesmo

Capítulo 18

Quando o Tao se perde, aparecem a benevolência e a piedade
Quando aparecem a instrução e a moralidade, aparecem os grandes hipócritas
Quando as relações familiares não são harmoniosas, fala-se de amor filial e amor paterno
Quando há desordem e confusão nas cidades, fala-se de amor à pátria
Quando se perde o Tao, aparece a falsidade.

Capítulo 19

Anula o conhecimento e longamente o povo se beneficiará
Suprime a piedade e a benevolência e os homens encontrarão a tranqüilidade e a doçura
Suprime a mentira e a falsidade e não mais haverá bandidos ou ladrões
De fato, esses ensinamentos não são suficientes
Por isso faz com que o homem mostre franqueza e se atenha ao natural
Que esqueça seus interesses e anule os desejos

Capítulo 20

Suprime a instrução e terminarão os males
Entre “certamente” e “sem dúvida” qual é a diferença?
O que os homens temem é difícil deixar de temer
Mas quão distante está a alba do despertar!
Os homens vivem festejando como nos dias das grandes cerimônias
Ou como se subissem aos jardins de uma torre na primavera
Só eu permaneço sem desejos
Como uma criança não aprendi a sorrir
Caminhando abandonado como quem não tem para onde ir
Todos vivem na opulência
Só eu pareço necessitado como um pobre
Meu espírito está confuso como o de um louco
O vulgo sabe discernir parece iluminado
Só eu pareço inútil como quem não tem ocupação
Todos parecem ter algo que cumprir
Minha aparência é a de um mendigo
Mas me diferencio dos demais porque acho honorável buscar o alimento junto à Mãe

Capítulo 21

A manifestação da virtude caminha perto do Tao
A origem do Tao é esquiva e difusa
Mas em sua profundeza há manifestações
E em sua profundeza é incompreensível, misterioso
No incompreensível e misterioso guarda sua essência
Nesta essência se acha o fluxo vital
Desde os dias da antigüidade manteve sua pureza
E esta foi a origem de tudo
Sendo assim, podemos ver ao Pai (Te)
Como se pode conhecer o Pai de tudo (Te)?
Exatamente por causa disto

Capítulo 22

O incompleto será cumulado
O tortuoso será endireitado
O vazio será enchido
O consumido será renovado
Possuir pouco é grande aquisição
Possuir muito é grande erro
Por isso o sábio, atendendo-se ao Princípio, esquece a si e a todas as coisas
Sua presença é modelo para todos
Não se exibe, por isso resplandece
Não se vangloria, por isso sobressai
Não se jacta, por isso é glorificado
Não se exalta, por isso é elogiado
Porque não propõe luta
ninguém dentre os homens luta contra ele
Os homens antigos disseram: seja humilde e se manterá íntegro
Podem essas palavras serem sem sentido?

Capítulo 23

Falar pouco é o natural
Uma ventania não pode durar uma manhã
Uma tempestade não dura um dia
E de onde provém todas essas coisas?
Do Céu e da Terra
Se nem o Céu nem a Terra podem produzir coisas duráveis,
como poderiam os seres humanos?
Quem segue o caminho do Tao se identifica com o Tao
O que se identifica com a virtude será acolhido pela virtude
O que se identifica com o vício será acolhido pelo vício
O que carece de fé não pode exigir fé dos demais

Capítulo 24

Quem permanece na ponta dos pés não mantém o equilíbrio
Quem alarga muito os passos não chega longe
Quem se exibe não chega a ser luminoso
Quem aprova a si mesmo não encontra o mérito
Quem se jacta não encontra o reconhecimento
Quem se vangloria não alcança o triunfo
Estes, comparados ao Tao, são como lixo
Coisas abominadas por todos, tidas por desprezíveis
Por isso, quem segue o Tao se afasta dessas coisas

Capítulo 25

Há algo natural e perfeito existente antes do Céu e da Terra
Imóvel e insondável permanece só e sem mudar
Está em toda parte e nunca tem fim
Considerado a Mãe de tudo
Sem saber seu nome, chamo-o de Tao
Obrigado a dar nome, chamo de transcendente
Transcendente significa avançar
Avançar significa chegar ao destino
Chegar ao destino significa retornar
Por isso o Tao é supremo
Acatando as leis do Tao, o Céu é supremo
A Terra é suprema
O homem é supremo
No universo há quatro coisas supremas
Uma delas reina
O homem acata as leis da Terra. A Terra acata as leis do Céu. O Céu acata as leis do Tao
O Tao segue a si próprio

Capítulo 26

O pesado é a raiz do leve
A quietude domina o movimento
Por isso o sábio ainda que viaje todo o dia
nunca esquece o princípio do caminho
Ainda que viva rodeado de glória e esplendor
nunca perde a paz
Como é possível que um governante, senhor de dez mil carros de guerra, tome com ligeireza sobre si um
império?
Se for leve, perderá o Centro
Se for impetuoso, perderá o domínio de si

Capítulo 27

O bom andarilho não deixa pegadas
O bom orador nada tem a refutar
O bom calculista não recorre a cálculos
O bom guardião não precisa de chave ou ferrolho
Certamente será impossível abrir o que ele fechou
O bom atador não precisa de corda ou nó
Certamente será impossível desatar o que ele atou
Por isso o sábio sempre acha oportunidade para ajudar as pessoas
e não acha motivo para rechaçar ninguém
Isto é brilhar esplendorosamente
Logo, o homem bom é mestre do homem mau
E o mau é lição do bom
E quem não honra seu mestre nem ama a lição
Ainda que erudito, parecerá tolo
Nisto enraíza-se o segredo do Essencial (Tao)

Capítulo 28

Quem tem consciência do Yang conservando em si o Yin
Se iguala ao Tao e atrai para si todo o universo
Sendo o Tao, a constante virtude (Te) não o abandona
e retorna à sua origem primeira
Quem conhece a luz, mas conserva a obscuridade
torna-se sendeiro do universo
Sendo sendeiro do universo, possui a constante virtude (Te)
Não vacila e retorna ao estado de perfeição
Quem conhece a glória, mas conserva a humildade
Chegará a ser como o Tao
Sendo o Tao, possuirá a vida eterna
e regressará de novo ao princípio original
Este princípio, ao dispersar-se, dará início a numerosas manifestações
que nas mãos do sábio terão cada uma sua função
Portanto governará pelo conjunto e não pela minúcia

Capítulo 29

Quem tenta dar forma ao mundo, modelá-lo a seu capricho, dificilmente o conseguirá
O mundo é um vaso espiritual que não se pode manipular
Quem o retém o perde
Porque algumas coisas vão para frente e outras para trás
Algumas sopram para fora, outras sopram para dentro
Algumas são fortes, outras são fracas
Algumas podem romper-se, outras podem cair
Por isso o sábio rechaça o excesso, rechaça a opulência, rechaça a complacência

Capítulo 30

O que pretende governar por meio do Tao não utiliza o poder das armas
Porque aos atos armados responderá a violência
Onde os exércitos se aquartelam só nasce espinhos e erva seca
Às grandes batalhas seguem anos de fome
O bom guerreiro só é guiado pelo desejo de servir e se detém
Não se atreve a confiar no poder das armas
Uma vez cumprido seu propósito, não se jacta
Uma vez cumprido seu propósito, não se glorifica
Uma vez cumprido seu propósito, não se orgulha
Vence porque não pode menos, mas não para engrandecer-se
Isso é ser contrário ao Tao
Quando as coisas chegam ao seu apogeu, começam a decair
O que é contrário ao Tao caminha rapidamente para seu fim

Capítulo 31

As armas são instrumentos de mau agouro, por isso todos os homens as detestam
O sábio pacífico utiliza como lugar de honra a esquerda
Quando está em guerra utiliza para as armas a direita, já que elas são instrumentos de infortúnio
O que segue o Tao não sente atração por elas
Faz uso das armas só quando inevitável
Antepondo a calma antes de tudo
Na vitória não acha prazer
Do contrário, significaria recrear-se com a matança dos homens
O que se recreia com a matança dos homens, em sua ambição, não poderá governar o mundo
Para assuntos propícios, o lugar é a esquerda
Para assuntos nefastos, o lugar é a direita
O segundo em comando fica à esquerda
O primeiro em comando fica à direita
Tal como nos ritos fúnebres
As grandes matanças devem ser choradas com grande pesar e luto
Na vitória o vencedor ocupa o lugar que lhe corresponde nos ritos funerários

Capítulo 32

O Tao é eterno, não tem nome
Sua simplicidade é pequena, não pode ser usada
Se príncipes e governantes pudessem se ater a ele,
todas as coisas, por si mesmas, se submeteriam
Céu e Terra estariam unidos para dar-lhes de tudo
O povo, livre de governo, viveria em absoluta harmonia
No princípio, houve a necessidade de lhe dar um nome, que foi então enunciado
Mas aquele que dá nome às coisas não esquece que existe o inominável
Conhecendo isso, sabe o que jamais perece
Assim como a ravina e o vale são o caminho dos rios e arroios
Os rios e arroios reinam sobre os vales e suas águas descem para o mar
Assim, o Tao Eterno pode ser comparado aos rios, que buscam o repouso do mar

Capítulo 33

Quem conhece o outro é ilustrado
Quem conhece a si mesmo é Iluminado
Quem domina o outro possui força
Quem domina a si mesmo é a Força (comunga com ela)
Quem sabe contentar-se é rico
Quem obra firme em seu propósito tem caráter
Quem não perde sua interioridade resiste
Aquele que morre, mas não perece, possui a vida eterna

Capítulo 34

O Tao flui para todas as direções
Para a direita, para a esquerda
Todas as coisas da vida ele encontra em sua Origem e não as rechaça
Realizada sua obra, nada reclama para si
Sustenta e nutre inumeráveis, mas não os domina
Carece de desejos, por isso é pequeno
Todas as coisas voltam para ele
Mas em troca, nada exige
Por isso é grande
Tal como o sábio, não considera sua grandeza
Por isso, a grandeza está sempre nele

Capítulo 35

O que conserva em si a Grande Virtude (Te)
encontrará a plenitude
Achará a tranqüilidade, a paz e a harmonia
Música e alimentos agradáveis detêm o viajante
Mas em contrapartida o Tao é tão puro que carece de sabor
Contemplado, parece não ser digno de ser olhado
Ouvido, não parece digno de ser escutado
Sem dúvida, se bebemos dele
jamais encontraremos fim

Capítulo 36

Se quiser que algo se contraia, primeiro deixa estender
Se quiser que algo enfraqueça, primeiro deixa ficar forte
Se quiser que algo caia, primeiro deixa subir
Para poder receber, primeiro deve dar algo antes
Isso é sabedoria
O brando e o frágil vencem o duro e o forte
Os peixes devem ser deixados no fundo das águas
As armas cortantes devem ser guardadas onde não possam ser vistas

Capítulo 37

O Tao sempre está inativo e por isso nada deixa sem realizar
Se príncipes puderem segui-lo, o mundo se transformará por si só
E se ao se transformar despertar desejos
eles definharão pela Simplicidade Essencial (Te)
Na Simplicidade Essencial (Tao) não existem desejos
Se todas as coisas fossem liberadas de desejos
Tudo permaneceria na quietude
E o mundo espontaneamente encontraria a paz

Capítulo 38

O homem de virtude superior não considera sua virtude
Por isso é virtuoso
O homem de virtude inferior cuida de sua virtude
Por isso não a tem
O homem de virtude superior jamais age
Por isso nada deixa de ser realizado
O homem de virtude inferior sempre age
Por isso nada realiza
A bondade superior não precisa de intenções
A justiça superior é a mais simples, genérica
A ação ritual necessita de observação e força para submeter os homens
Quando o Tao se perde, aparece a virtude na humanidade
Quando a virtude da humanidade se perde, aparece a justiça
Quando a justiça se perde, aparece o ritual
O ritual obscurece a humanidade
Começa a confusão
Os profetas são a flor do Tao, o começo da loucura
O homem de virtude superior se atém ao sólido e não ao rarefeito
Habita no fruto e não na flor
Rechaça as aparências e permanece no essencial

Capítulo 39

Tudo o que outrora atingiu a Unidade (Tao) foi
O Céu, pela Unidade, atingiu a claridade
A Terra, pela Unidade, atingiu a estabilidade
O Espírito, pela Unidade, atingiu a atividade
O Vale (Te), pela Unidade, atingiu a plenitude
Pela Unidade todos os seres atingem a existência
Pela Unidade príncipes e governantes reinaram
Assim foi que cada um chegou a ser tal como é hoje
Se o Céu não tivesse aquilo pelo que se move, escureceria
Se a Terra não tivesse aquilo pelo que é estável, se desfazeria
Se o Espírito não tivesse aquilo pelo que é ativo, se deteria
Se o Vale (Te) não tivesse aquilo pelo que se enche, desapareceria
Se tudo não tivesse aquilo pelo que permanece, acabaria
Se os príncipes e soberanos não tivessem aquilo pelo que são soberanos, seriam depostos
Posto isso, o nobre deve buscar sua origem no humilde
A alta posição tem seu alicerce no inferior
Príncipes e governantes chamam a si mesmos de ignorantes, órfãos indignos
Isto significa que tomam o humilde e inferior como sua origem
E não é assim mesmo?
Por isso os que procuram encontrar a fama não a atingem
Os governantes crescem rebaixando-se
Melhor que tilintar como o jade é retumbar como as rochas

Capítulo 40

O retorno é a ação do Tao
A suavidade é a função do Tao
Todas as coisas do universo provém do Ser
E o Ser tem origem no Não-Ser

Capítulo 41

Quando o homem superior ouve falar do Tao, trata de seguir o seu caminho
Quando o homem medíocre ouve falar no Tao, confunde o caminhante com o caminho
Quando o homem inferior ouve falar no Tao, ri às gargalhadas
E se não risse, não se trataria do Tao
Diz o provérbio:
O Tao sendo luz é obscuro
O Tao sendo suave é áspero
O Te se esvazia como o vale
A claridade carece de esplendor
A virtude perfeita é insuficiente
O mais sólido parece frágil
O mais reto parece confuso
O Tao é como um grande quadrado sem ângulos
Um grande vaso que não se enche
Um grande som que não se ouve
Uma forma tão grande que não tem contorno
Está oculto, permanece sem nome
E sendo assim, tudo converge para ele e nele se realiza

Capítulo 42

O Tao gera a Unidade
Ela se manifesta na dualidade
onde aparecem os contrários
Eles existem ao produzir o terceiro caminho
O caminho de todas as coisas leva a obscuridade nas costas e a luz na frente
Ambas harmonizam-se com o espírito infinito
Por isso tudo aumenta e diminui, diminui e aumenta
O que os outros me ensinaram também eu ensino: “nem os fortes nem os violentos morrem em seus
leitos”
Usa esse pensamento para seguir o caminho

Capítulo 43

O mais brando vence o mais duro
O que não tem forma penetra o impenetrável
Por isso reconheço o valor da não-ação
Poucos no mundo chegara a esta sabedoria

Capítulo 44

O que você mais ama: a fama ou a si próprio?
O que você mais ama: a si próprio ou sua riqueza?
O que mais te deixa triste: ganhar ou perder?
Aquele que deseja muito, muito consome
Aquele que guarda mais, mais perde
Aquele que se contenta, não padece pela falta
O homem que sabe conter-se evita o perigo
Assim atinge a vida eterna

Capítulo 45

A suprema perfeição parece imperfeita
Mas seu uso jamais resulta dano
A suprema abundância parece austera
Mas seu uso é inesgotável
A suprema retidão parece tortuosa
A suprema habilidade parece estabanada
A suprema eloqüência parece tagarelar
O movimento vence o frio
A quietude vence o calor
A pureza e a calma são as regras do Universo

Capítulo 46

Quando o Tao reina no Império os corcéis são usados para arar os campos
Quando o Tao não reina no Império os corcéis pastam além das fronteiras (guerra)
Não há maior mal que perseguir os desejos
Não há maior mal que não saber se contentar
Não há maior mal que se entregar à cobiça
Aquele que não conhece a continência jamais bastará a si mesmo

Capítulo 47

Sem ir além de nossa porte podemos conhecer o mundo
Sem ir à nossa janela podemos conhecer os caminhos do Céu
Quando mais longe vamos menos avançamos
Por isso o sábio, sem caminhar, alcança sua meta
Sem ver, tudo observa
Sem agir, tudo realiza

Capítulo 48

Persevera nos estudos e dia a dia seus conhecimentos aumentarão
Persevera no Tao e dia a dia os perderá
Pela constante perda, chega-se ao não-agir
Não-agindo, tudo se cumpre
Quando alguém se vê obrigado a cumprir algo, o mundo já está fora de seu alcance

Capítulo 49

O Sábio não tem um coração seu
Faz do coração dos outros o seu coração
Com o bom, age bem
Porque é boa sua virtude
Com o sincero, fala sinceramente
Com o falso, fala sinceramente
Porque sincera é a virtude
O sábio permanece em paz e alberga a simplicidade
Seu coração é grande e o povo está dentro dele
Considera o povo a mãe de seus próprios filhos

Capítulo 50

O homem que vive com pressa morre cedo
São treze as causas da vida
São treze as causas da morte
O homem que ama a vida com ansiedade aproxima a hora de sua morte
Como assim?
Porque quer viver a vida intensamente
Mas aquele que sabe conservar a vida
Quando caminha pelo deserto, não acha rinocerontes nem tigres
E atravessa um exército sem carregar espada ou couraça
O rinoceronte não acha onde enfiar o chifre, nem o tigre onde cravar suas garras
Nem as armas onde afundar seu fio
Como assim?
Porque não busca os perigos mortais

Capítulo 51

O Tao dá nascimento a tudo e a virtude (Te) nutre a todas essas coisas
O mundo as recebe com formas distintas e a energia as complementa
Por isso o manifestado honra ao Tao e estima a virtude por uma natural inclinação
O Tao produz, o Te as nutre, as desenvolve, as mantém e as protege
Produz e não possui
Produz e não se apropria
As dirige sem dominar
Quando são atingidas, não as reclama
Não as reclamando, não as perde

Capítulo 52

Aquilo pelo qual o Universo teve princípio é chamado de Tao
Conhecendo o Tao, o homem conhece o Te, a forma como ele se manifesta
Conhecendo o Te, chega ao Tao
Se os lábios forem unidos e as portas fechadas não nos enfraquecemos
Mas se o coração for aberto ao desejo, não poderá se salvar
O que pode ver o pequeno tem olhos penetrantes
Aferrar-se ao débil é permanecer forte
Aprender a usar a própria luz esmaecendo seu brilho
Assim o corpo não sofrerá dano algum
Nisto reside o segredo do Tao

Capítulo 53

Se houvesse sabedoria em mim percorreria a estrada real, evitando seus atalhos
A estrada real é fácil de seguir, mas os homens preferem os atalhos
Enquanto nos palácios reina a opulência
Os campos estão cobertos de ervas daninhas
Os armazéns públicos estão vazios
Vestidos com trajes suntuosos, levam à cintura armas cortantes
Abundante é seu vinho e seus manjares
Possuem ouro e bens em quantidade
Tudo isso induz o homem a um mau destino
Não é isto afastar-se do Tao?

Capítulo 54

Quem planta profundamente não verá nascer o semeado
Quem abraça com muita força não solta com facilidade
E os filhos dos filhos farão oferendas por muitas gerações
Se cultiva o Tao para si, sua virtude será verdadeira
Se cultiva o Tao em família, sua virtude será abundante
Se cultiva o Tao na aldeia, sua virtude será multiplicada
Se cultiva o Tao no país, sua virtude será completa
Se cultiva o Tao no mundo, sua virtude será universal
Pela virtude do homem conhecemos o homem
Pela virtude da família conhecemos a família
Pela virtude da aldeia conhecemos a aldeia
Pela virtude do país conhecemos o país
Pela virtude do mundo conhecemos o mundo
Sei que isto é certo por si mesmo

Capítulo 55

Quem possui a Virtude (Te) em si é como uma criança
O inseto venenoso não crava nele seu aguilhão
A fera selvagem não procura atacá-lo
As aves de rapina não o agarram
Brandos são seus ossos, flexíveis seus tendões
Seu abraço pode ser forte
Ignora o sexo possuindo a plenitude do estímulo
Sua semente possui plena fertilidade
Pode chorar todo o dia e não ficará rouco
Porque nele está a Perfeita Harmonia (Tao)
Possuir essa Harmonia é conhecer o Eterno (Tao)
Conhecer o Eterno é ser Iluminado
Quem busca viver intensamente encontra a desgraça
Quem escuta o palpitar do coração ouve a morte se aproximar
Quando as coisas chegam ao seu auge começam a declinar
Isso é o contrário do Tao
E o que é contrário ao Tao rapidamente encontra seu fim

Capítulo 56

Quem sabe cala
Quem não sabe fala
Mantendo unidos os lábios e cerradas as portas
suprime suas próprias asperezas
suprime seus próprios meandros
suprime seu próprio esplendor
confundindo-se com a pequenez do povo
Esse é considerado o Perfeito Mistério
Fica-se intocável pelo amor e pelo ódio
Ganhar e perder não o afetam
Honra e desonra não o perturbam
Este é o mais valoroso para o mundo

Capítulo 57

Com retidão se governa um império
Com habilidade se manejam as armas
Mas com a não-ação se conquista o mundo
Como sei que isso é certo?
Porque quanto mais leis e proibições houver no mundo, mais pobre e miserável será o povo
Quando mais armas tiver o império, mais desordem e confusão haverá entre o povo
Quanto mais artes e ofícios tiver o povo, mais coisas supérfluas e inúteis ele terá
Quanto mais ordens e leis ditarem os governantes, mais ladrões e criminosos aparecerão
O sábio sem agir, ensina as pessoas a se aperfeiçoarem por si mesmas
sem violência, ensina as pessoas a ficarem tranqüilas por si mesmas
sem comerciar, ensina as pessoas a terem bens por si mesmas
sem desejos, ensina as pessoas a se tornarem simples por si mesmas

Capítulo 58

Onde o governo menos interferir o povo será mais próspero
Onde o governo intervém e é eficiente o povo está descontente
Pois no sofrimento floresce a felicidade e na felicidade oculta-se a desgraça
Como se sabe?
Quando todas as coisas estão sem ordem
Quando a justiça se converte em obsessão
Quando a bondade se torna complacência
Isso é o que os homens por muito tempo não entenderam
O sábio sendo anguloso não fere
sendo reto não é inoportuno
sendo resplandecente não deslumbra

Capítulo 59

Para guiar os homens e servir o caminho do Céu o correto é a moderação
Seja esta moderação o cuidado mais valioso, que é acumular os atributos do Tao
Com os atributos do Tao tudo pode ser realizado
Nada pode conhecer seus limites
Se nada pode conhecer seus limites, pode-se tomar posse do império
Se seus atos se identificam com a Mãe (Te)
longo tempo governará sobre o povo
Profunda é sua raiz, sólido é seu tronco
Porque conhece o caminho da vida e a visão duradoura

Capítulo 60

Se quiser governar um império, faça como assaria um peixinho
Se quiser governar o mundo com o Tao,
os espíritos dos mortos não assombrarão os vivos
Não porque os espíritos deixarão de ser poderosos, mas porque seu poder não mais poderá prejudicar as
pessoas
Não prejudicando o espírito das pessoas, tampouco o sábio viria a prejudicá-las
Se eles não ofendem um ao outro, então possuem a Virtude

Capítulo 61

Um grande país sabe manter-se abaixado
É por certo que se torna o centro do mundo
Faz como o princípio feminino no mundo
Com a calma, a mulher vence o homem
Com a calma, sabe se manter por baixo
Um grande país se humilha diante de um pequeno com o fim de possuí-lo
Um pequeno país se humilha diante de um maior com o fim de se expandir
Uns se humilham para ser mais poderoso
Outros se humilham para se expandir
O desejo de um grande país é governar sobre o maior número possível
O desejo de um pequeno país é se unir e ficar maior
Considerando que um e outro podem alcançar seus desejos, o mais alto deve se humilhar, porque conhece
os que lhe são inferiores

Capítulo 62

O Tao é a fonte de todas as coisas
O tesouro do homem virtuoso
O refúgio do mau
Com formosas palavras pode-se comprar os homens
Com formosas ações pode-se engrandecer os homens
Na coroação do imperador, na nomeação dos três ministros
melhor que enviar tributos de jade e avançar sobre um carro de quatro cavalos
é enviar um tributo do Tao
Os ancestrais o honravam porque vinha por si mesmo quando era necessário
Quem sendo culpado busca a paz encontra o Tao
Por isso o Tao é o tesouro do mundo

Capítulo 63

Pratica a não-ação
Deixa as coisas sem fazer e que atue a inércia
Considera agradável o sabor do insípido
Estima como grandes as coisas pequenas
Encontra o muito em meio ao pouco
Corresponde o ódio com Virtude
Trata como difícil o fácil
Trata como grande o pequeno
Trata todas as coisas do mundo como se fossem maiores que você, enquanto, todavia, permanecem
pequenas
O sábio não empreende grandes coisas
Assim alcança a grandeza
Quem com facilidade promete dificilmente manterá a promessa
Quem considera tudo fácil certamente encontrará dificuldades
Por isso o sábio acha que todas as coisas são difíceis e assim não encontra dificuldades

Capítulo 64

É fácil reter o calmo
É fácil evitar o que ainda não se manifestou
É fácil quebrar o frágil
É fácil dissipar o pequeno
Trata as coisas como se não fossem importantes
Ordena antes que comece a desordem
Uma árvore difícil de dobrar nasceu de uma semente
Um prédio de nove andares começou com um punhado de terra
Uma viagem muito longa começa sob seus pés
O sábio atenta para o começo e não para o fim de tudo, e assim não fracassa
Mas o homem vulgar em qualquer negócio sempre fracassa nas vésperas de terminar
Por isso é melhor desprezar as coisas difíceis de conseguir e empreender todas as coisas a partir do que
elas têm de fácil
Assim nada se porá a perder
Quem sabe, não aprendendo, aprende
Retorna para o que os outros deixaram passar inadvertidos
Deixa crescer as coisas desde seu princípio
E não se aventura a agir

Capítulo 65

Quem dentre os ancestrais praticava o Tao não o utilizava para despertar a sabedoria humana, mas o
empregava para que permanecessem na simplicidade
Quando é difícil governar um povo é sinal de que sabem demasiado
Por isso, ao governar um povo, diminuir seu conhecimento é cumulá-lo de prosperidade
Quem segue esse princípio compreendeu o Caminho (Te)
Ter consciência do Caminho é possuir a Misteriosa Virtude (Tao)
A Misteriosa Virtude é infinitamente profunda e infinitamente extensa
O inverso de tudo
Nela é onde está a suprema perfeição

Capítulo 66

Os mares e os rios são os senhores do vale
Sendo os senhores do vale, sabem se manter debaixo e assim reinam sobre tudo
Por isso o sábio para estar acima dos homens deve manter-se com palavras abaixo deles
Se quiser ser o primeiro, deve colocar-se como último
Se ficar em lugar elevado, os homens não sentirão o seu peso
Está diante deles, mas o povo não se estorva
Todo sobre o qual reinar será feliz e o obedecerá

Capítulo 67

Todos conhecem a grandeza do Tao
Sendo grande, não tem contornos
Por não ter contornos é grande
Conservo três maravilhas como preciosidades
A primeira, com palavras, chama-se doçura
A segunda, com palavras, chama-se calma
A terceira, com palavras, chama-se humildade
A doçura faz com que se tenha constância
A calma faz com que se seja reservado
A humildade faz com que se esteja acima dos demais
É certo que
sem doçura, busca-se constância
sem calma, busca-se reserva
sem humildade, busca-se estar acima dos outros
Mas isso só traz destruição
Quem luta com doçura vencerá
Os que se defendem com doçura estarão seguros, pois o Céu os protegerá

Capítulo 68

O grande guerreiro não deseja a guerra
O grande guerreiro não é violento
O grande conquistado não combate
Aquele que é grande mantém-se abaixo de seus homens
Esta é a virtude da não-ação
Esta é a forma de conduzir os homens
Esta é a suprema união com o Céu

Capítulo 69

Para quem estão destinadas as armas, há um provérbio:
“Melhor ser hóspede que anfitrião. Melhor retroceder um passo que avançar um dedo.”
Isso quer dizer que
sem necessidade de mover-se, sabe avançar
sem necessidade de ficar em guarda, sabe revidar
sem necessidade de usar armas, sabe conquistar
Não há mal pior que subestimar a força do inimigo
Atacando rapidamente começa a perder
O exército que na batalha menosprezar o outro perderá

Capítulo 70

Minhas palavras são fáceis de entender e o caminho é fácil de seguir
Mas ninguém as compreende, ninguém segue o caminho
As palavras têm origem antiga e vêm através do caminho
Não podendo entendê-las, os homens não me compreendem
São poucos os que as seguem
Hoje estou além de todo o louvor
O sábio se cobre de tecido grosseiro e oculta as virtudes para si, porque conhece seu valor e não as
ostenta

Capítulo 71

Desconhecer a sabedoria é sublime
Conhecer é padecer
Somente quando se sofre por este mal está-se livre dele
O sábio não sofre deste mal pois sabe que dele padece
Jamais o contrai

Capítulo 72

Se os homens não temem o que é para temer, maiores desgraças recairão sobre eles
Procurar que ninguém ache mesquinha sua morada, mesquinha sua existência
Os homens que não desejam se desgostar, jamais terão desgosto
Aquele que se conhece jamais se exibe
Estima a si mesmo, sem se apreciar

Capítulo 73

Quem for ousado, ao se atrever estará morto
Quem for ousado, ao não se atrever manterá a vida
Poder distinguir isso é saber o que é danoso e o que é benéfico
Como podemos conhecer os mandados do Céu se até o sábio considera difícil de saber?
O Caminho do Céu (Tao) não combate, mas obtém a vitória
não tem palavras, mas tem as respostas
não indica, mas tudo vem dele
Permanece inerte, concebendo seus projetos
Extensa é sua rede, ampla sua malha
Nada pode dele escapar

Capítulo 74

Se os homens não temerem a morte, como ameaçá-los com a morte?
Se alguém obrar mal, faça com que tenha temor da morte, para que o Céu possa castigá-lo e dar-lhe a
morte
Quem se atreverá ao mal, sabendo que está nas mãos da morte?
Quem toma a seu encargo o lugar do Céu para aplicar a morte faz como quem quer serrar no lugar do
carpinteiro: ao tentar serrar, dificilmente salvará a própria mão

Capítulo 75

O povo sofre fome porque os governantes o assoberbam de impostos
Por isso o povo passa fome
O povo é difícil de governar porque os governantes fazem mais que o necessário
Por isso o povo é difícil de governar
O povo não teme a morte porque deseja excessivamente viver
Por isso o povo não teme a morte
Quem não dá importância à vida tem mais sabedoria do que quem anseia viver

Capítulo 76

Quando o homem é menino é terno e brando
Quando chega a morte é rígido e duro
Ervas e árvores quando brotam são tenras e fracas
Quando chega a morte são rígidas e secas
O rígido e o duro são os arautos da morte
O brando e o fraco são os arautos da vida
Quando um exército é forte, perderá a batalha
Quando uma árvore está rígida, será transformada em lenha
O lugar do duro e forte está embaixo
O lugar do fraco e terno está no alto

Capítulo 77

O Tao do Céu é similar ao retesar do arco
O extremo superior abaixa, o extremo inferior sobe
Diminui seu comprimento, aumenta sua largura
Assim é o Tao do Céu
Diminui o que tem demasiado, aumenta o que possui pouco
Mas o caminho do homem não é assim
A quem falta sofre-se para aumentar a fortuna do que tem de sobra
Quem oferece já tendo o suficiente?
Só quem conhece o Tao
Por isso o sábio quando oferece não fica presumido e não faz questão de seu mérito
Nem quer que se exponha sua sabedoria

Capítulo 78

O fraco sempre vencerá o forte
Nada há no mundo mais fraco e flexível que a água
Quando ataca o duro e o forte mostra seu poder
O fraco vence o forte, o flexível vence o duro
Não há entre os homens quem não saiba disso
Mas todos parecem ignorar e ninguém pratica
O sábio ensina que quem suporta sobre si todos os infortúnios do império pode se tornar o soberano
Estas palavras são verdadeiras, ainda que não pareçam

Capítulo 79

Ainda que tenha conciliado uma diferença sempre se esconderá um traço de rancor
Como fazer para isso não acontecer?
O sábio toma a parte esquerda do estabelecido e não se ocupa com a parte direita
Quem em si tem virtude vigiará os próprios compromissos
Quem esconde rancor vigiará os compromissos alheios
O Tao do Céu não tem favoritos
Sempre acompanha quem age de acordo com a Virtude (Te)

Capítulo 80

Num reino muito pequeno onde os habitantes sejam poucos,
mesmo que entre os poucos, houvesse homens muito capazes,
não deveriam encontrar ocupação alguma
Deveriam antes temer a morte e não ir ao seu encontro
Ainda que existisse carruagens e embarcações, os homens não viajariam
Ainda que tivessem couraças e espadas, jamais precisariam usar
Voltariam a usar nós e cordas para escrever
Sempre achariam boa sua comida
Formosas suas vestes
Tranqüilos os seus lares
Acolhedores seus costumes
Se os reinos vizinhos estivessem próximos ao ponto de se poder escutar o ladrar dos cães e o canto dos
galos,
os homens desse pequeno reinado não desejariam abandoná-lo jamais

Capítulo 81

As palavras verazes não são belas
As palavras belas não são verazes
O que muito fala não diz coisas boas
O que é bom não fala muito
O que sabe não é sábio
O que é sábio não sabe
O que possui virtude não a acumula
O que possui para si dá para os demais
Quanto mais dá, mais possui
O Tao do Céu beneficia sem jamais prejudicar
O Tao do sábio age sem jamais ser violento