Dia 12/06/2023 fui expulso do Vimeo. Minha conta foi cancelada e todos os vídeos removidos. Isso significa que muitas (muitas) postagens aqui ficaram quebradas (sem vídeo). Nesta página eu tenho postagens que embarcam três plataformas de vídeos, o Tumblr para vídeos curtos, o Facebook para alguns vídeos mais antigos e o Vimeo para vídeos longos. Estes não aparecem mais. Já fiz uma conta no BitChute e, aos poucos, estarei colocando os vídeos do Vimeo de volta.
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Recentemente, em outubro de 2025, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil elaborou um relatório atualizado com as mais recentes descobertas e parametrizações de tratamento referentes ao autismo em crianças. Aqui tenho que ser pedante e dizer que o relatório está cheio de erros de português… Independentemente disso, é de muito valor divulgar essas informações para auxiliar pais que tiveram seus filhos recentemente diagnosticados com o transtorno, ou que suspeitam que suas crianças sejam autistas.
A primeira e mais importante informação a você, pai/mãe que caiu por estas páginas, é a de que internet não é médico. Doutor Google não serve para tratar ninguém. É necessário procurar ajuda profissional, um psicopedagogo, um psiquiatra ou neurologista infantil, alguém que possa efetivamente diagnosticar o autismo e orientar como iniciar o tratamento. Quanto mais cedo for iniciado o tratamento (intervenções), melhores são os resultados na qualidade de vida e desenvolvimento da criança.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta nos primeiros anos de vida por comportamentos que incluem: dificuldades na interação social/comunicação e presença de comportamentos repetitivos e interesses restritos. A última atualização do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais — 5.ª Edição (DSM- 5) aboliu vários subgrupos existentes e simplificou o diagnóstico com o termo Transtorno do Espectro Autista [não se trabalha mais com síndrome de Asperger, por exemplo — agora tudo é um grande espectro, desde o retardo mental gravíssimo e incapacitante até os comprometimentos mais sutis, que levam à depressão ou suicídio]. Adicionalmente, estabeleceu níveis de gravidade de acordo com a necessidade de suporte do indivíduo, variando de pouco suporte (nível 1) até muito suporte (nível 3).
Para o diagnóstico, as características clínicas devem estar presentes desde o início do desenvolvimento, em diversos contextos sociais, com uma clara evidência de prejuízo na adaptação ou na qualidade de vida da criança. Além disso, os sintomas não podem ser mais bem explicados pela deficiência intelectual (Transtorno do Desenvolvimento Intelectual) ou pelo atraso global no desenvolvimento neuropsicomotor (ADNPM).
Talvez esse seja o principal fator para corretamente diagnosticar o autismo: o evidente prejuízo cognitivo e social. Com sua banalização e romantização oriunda de filmes e séries, parece que o autismo perdeu no grande público o significado de ser um transtorno, passando a ser vinculado a pessoas ”inteligentes e anti-sociais”. Não é o caso. O autismo é um problema psiconeurológico de largo espectro e ainda não totalmente compreendido. Não se sabe ao certo o que o causa e por que há tanta diferença entre os acometidos. A escala varia desde aqueles que podem passar despercebidos aos que precisarão de suporte integral a vida toda.
O autismo é caracterizado por acometer duas características humanas: a habilidade de comunicação social e a forma de interação com o ambiente. Pessoas normais também podem apresentar comportamentos parecidos, “sintomas” à primeira vista, o que dificulta o diagnóstico e causa falsos positivos. Não basta ler a tabela abaixo e achar que tal indivíduo tem autismo. São necessários vários testes e acompanhamento profissional por meses antes de se estabelecer o diagnóstico. Existem por volta de 50 marcadores que caracterizam o autismo e a maioria da população apresentará ao menos 25 deles. Porém só quando esses sintomas tornam-se incapacitantes para a vida ou clinicamente prejudiciais para o bem-estar geral do paciente, pode-se definir que está estabelecido o quadro autista.
Independentemente do diagnóstico, aproveitar a janela de plasticidade neuronal da primeira infância para proceder às intervenções é essencial para minimizar os prejuízos. Tão breve você ou o pediatra que acompanha seu filho note que a criança tem algum atraso no desenvolvimento, é preciso iniciar a abordagem terapêutica correta.
Dificuldades Sociais e de Comunicação
Dificuldade para iniciar e manter conversação
Dificuldade para iniciar ou responder uma interação social
Dificuldade em demonstrar e reconhecer corretamente as emoções
Isolamento social
Pouco contato visual ou contato visual pouco sustentado
Expressão e compreensão empobrecida da linguagem corporal e expressão facial.
Ausência ou dificuldade em estabelecer amigos ou pouco interesse pelos pares
Inabilidade em ajustar o comportamento aos contextos sociais
Dificuldade para entender ironia, metáforas ou piadas
Dificuldade em se colocar no lugar do outro (teoria da mente)
Dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas
Interesses Restritos e Repetitivos
Estereotipias motoras e/ou vocais
Alinhar, girar ou demais movimentos repetidos com objetos
Sofrimento ou desconforto frente às mudanças
Dificuldade com transições de ambientes ou atividades
Padrões rígidos de pensamento e comportamento
Rituais de saudação e outros contextos
Necessidade de fazer o mesmo caminho ou outros padrões de rigidez
Interesse extremo ou restrito a um assunto
Apego incomum a determinado objeto
Hiporreatividade ou hiper-reatividade aos estímulos sensoriais (por exemplo, texturas ou barulhos)
Cheirar ou manipular objetos
Seletividade alimentar em padrões atípicos.
Como diagnosticar?
O diagnóstico somente pode ser dado por um profissional especializado com experiência clínica prática no atendimento a crianças autistas. Há uma miríada de problemas no desenvolvimento de crianças e o autismo é apenas mais um deles. Por exemplo, pouco se fala na demência infantil, que você pode conferir aqui: Demência infanto-juvenil
A avaliação é feita por uma série de testes que irão mensurar a escala e rastrear os sintomas. É necessário identificar e distinguir os sintomas de autismo de outras morbidades, tais como TDAH, TOC, TOD etc. Esses testes estão em constante aprimoramento e não há um teste “unificado”, “definitivo” ou “infalível”. Uma vez comprovada a suspeita, passa-se então a estabelecer qual é o nível de suporte necessário ao autista. Esse nível de suporte pode variar com o tempo, dependendo de como o paciente reaja ao tratamento psicoterapêutico.
Embora haja uma certa relação entre gravidade de sintomas observados nas duas esferas de sintomatologia do TEA, a diferenciação entre os níveis reflete mais a ideia de prognóstico, por consistir em avaliar a necessidade que o paciente requer para as atividades da vida cotidiana e a sua independência funcional. Para tanto, vale ressaltar que os níveis de suporte requerem, pelo menos, uma certa idade e tempo de evolução para serem estabelecidos, devido às próprias características inerentes ao desenvolvimento infantil. Portanto, não é recomendável classificar crianças recém- diagnosticadas ou muito pequenas, pois a gravidade dos sintomas pode variar com a abordagem terapêutica e a maturidade do cérebro.
Não se espante se o seu médico solicitar uma bateria de exames complementares, pois é necessário afastar a suspeita de várias outras possibilidades. Embora não haja marcadores genéticos conhecidos para o autismo, várias síndromes apresentam sintomas parecidos. Também serão solicitados exames neurológicos, oftalmológicos, auditivos etc.
Como tratar?
Não há cura. Então, se alguém lhe prometer “curar o autismo”, ou “reverter o quadro”, ou “remédio para autismo”, ou “dieta para autismo”, ou qualquer coisa parecida, está tentando tirar seu dinheiro. Lidar com charlatões fará parte de sua rotina como pai/mãe de autista.
O tratamento consiste em abordagens e intervenções psicoterapêuticas individualizadas sob medida para cada paciente. A freqüência, a carga e a intensidade das sessões variam de paciente para paciente. E como você que está lendo este texto muito provavelmente é brasileiro, saiba que são poucos os profissionais especializados nestas terras atrasadas. Você vai sim precisar participar ativamente do tratamento da criança. Vai precisar aprender algumas técnicas, participar de treinamentos etc. E vai sim precisar de acompanhamento médico. Não tente aprender sozinho alguma técnica que viu na internet e fazer em casa: você precisa de treino especializado. Sua função é ajudar os parcos médicos especialistas, não é prejudicar ainda mais a criança.
Atualmente as abordagens com maior evidência de eficácia e benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), associada a terapias eficazes, como fonoterapia, terapia ocupacional com integração sensorial e outras […]
E os remédios?
Os médicos muito provavelmente receitarão vários remédios que podem auxiliar a minimizar os inconvenientes sintomas. Eles não tratam o autismo em si, mas os sintomas que aquele paciente específico pode apresentar, como irritabilidade, distúrbios do sono (muito comum em autistas), hiperatividade etc. Antipsicóticos são úteis nesses casos mais graves e, como em qualquer caso psiquiátrico, precisam ser usados sob supervisão médica. Por vezes, apenas suplementação de melatonina pode ajudar.
Canabidiol?
O canabidiol ainda é objeto de muita especulação e tem sido investigado em vários estudos, com resultados ora positivos, ora negativos ou inconclusivos, ainda sem a qualidade metodológica necessária para aprovação das agências regulatórias e indicação de prescrição. Possivelmente, novos estudos que estão por vir poderão indicar ou não a eficácia do canabidiol e outros derivados da cannabis para uso em pacientes com TEA. Indicar uso de canabidiol em indivíduos com TEA deve ser considerado, até o momento, experimental e sem garantia de eficácia, baseado na relação do médico-paciente-família, preferencialmente após assinatura de termo de autorização e consentimento.
Para saber mais a fundo sobre o assunto, eu deixo aqui o relatório da SBNI (tanto o hyperlink quanto o arquivo) e um vídeo. Procure fontes confiáveis e lembre sempre que “médico não é casamento”. Se você estiver insatisfeito com a abordagem de um especialista, procure uma segunda ou terceira opinião. Sempre busque as fontes, sempre questione se aquele conteúdo é verídico ou não. E fuja de curas milagrosas, que não existem.
Eu particularmente não gostei de algumas partes do vídeo a seguir, porém seu autor procura deixar claro que o autismo é um transtorno que causa prejuízos importantes ao seu portador. É uma condição limitante, que não deve ser romantizada.
Você Conhece os 12 Padrões de Comportamento e Interesses no Autismo? | Luna ABA
Quais são os comportamentos e interesses restritos mais comuns em crianças autistas? Neste vídeo, Lucelmo Lacerda explica de forma clara e objetiva os 12 padrões mais frequentemente descritos na literatura científica, ajudando pais, professores e profissionais a entenderem o que de fato caracteriza o Transtorno do Espectro Autista. Ao longo do vídeo, ele aborda desde prejuízos na comunicação social, movimentos repetitivos e sofrimento diante de mudanças, até hiperfocos intensos, padrões rígidos de pensamento, seletividade alimentar e alterações na sensibilidade sensorial. Lucelmo também esclarece por que esses comportamentos não devem ser interpretados como “manias”, “birra” ou falha na educação, mas sim como manifestações clínicas do desenvolvimento neurológico. Um guia direto, baseado em ciência, para reconhecer esses padrões com mais precisão, reduzir julgamentos equivocados e promover intervenções mais adequadas e respeitosas.
Em tempo: não tenho vínculos com o apresentador, tampouco aprovo, recomendo ou incentivo a aquisição de seus produtos e serviços.
*Condicionador de ar é o nome do aparelho. Ar condicionado é o que sai de dentro dele. Nesta terra em que eu tenho que explicar isso para os outros, não se admire de me ler escrevendo ”isopor”.
Natal.
Calor.
Emputecimento por conta do calor.
Então, passado pouco mais de um ano, é chegada a hora de novamente religar o condicionador de ar, que passa a maior parte do ano na proteção de isopor em que veio. (Isopor é marca registrada, mas se eu falar, poliestireno quase ninguém sabe o que é…).
Gordo como uma porca prenhe, suando como toicinho na brasa, pego o pesadão condicionador de ar com a pouca coluna que me resta e coloco-o novamente na janela. Janela? Claro! Você realmente acha que eu vou fazer obra para ter ar condicionado em casa? As infinitas gambiarras em minha casa demonstram de forma inequívoca e categórica minha nacionalidade brasileira. E para sobreviver ao calor carioca, nada melhor que uma boa gambiarra refrigerativa.
Primeiro você manda fazer um tablado de metal para apoiar o aparelho em cima, de forma que não esmague os trilhos da janela de correr. Em seguida você apóia o telhadinho que comprou para ele não enferrujar por conta de chuva. Mas o telhadinho bloqueia a entrada de ar de cima dele. Então você coloca um tijolo (de isopor) para dar altura e o aparelho não fritar.
Aparelho “instalado”, você precisa bloquear o resto da janela que ficou toda aberta, para o ar não escapar. Afinal, você não vai pagar para esfriar a vizinhança toda, só sua sala. Após anos de experimentações constantes, com papelão e fita adesiva, lona e outros materiais, o método científico me levou a bloquear com toalha plástica e pregadores de roupa decorativos (que recebi de presente da Dona Rose).
Para a toalha não ficar voando com o vento quente da rua, eu coloco um peso em cima dela. No caso de hoje, o secador de cabelos que, com esse calor, não terá uso por algum tempo… Já as laterais são bloqueadas com algum tecido (algo que não falta na minha casa e que a Sophia está fazendo questão de mudar). Toalhas de banho ou de mesa etc. Desta vez foi um lençol.
Ótimo! Aparelho instalado e vento quente bloqueado. Vamos ligar! Assim, após pouco mais de um ano, religo o aparelho. Em dezembro! E ele não explode!
Quinze minutos e o cheiro de queimado começa a subir. Minha casa com sua fiação de 1950 torna difícil ter aparelhos elétricos. A única tomada por recinto acaba tendo que ser multiplicada por extensões e benjamins. E, com este calor, a extensão derreteu… Pior foi na hora de tirar o adaptador da extensão derretida: o pino de cobre ficou preso. Daí eu tive que usar um alicate de corte para quebrar a extensão e salvar o pino de cobre do adaptador e reimplantá-lo à força com a ajuda de uma parede e de minha pança.
Toda essa saga devidamente supervisionada nos mínimos detalhes pela Sophia e seu focinho gelado. E ficamos sem ar condicionado no primeiro dia.
No segundo dia (hoje) ainda mais calor. Minha mãe, que já não é uma pessoa paciente, hoje está para me matar. (Ela me pôs no mundo, então tem o direito de me tirar dele a chineladas). Ela trouxe todas as extensões que há aqui em casa. Afinal, o filho de suas entranhas pode sofrer com a agonia oriunda do Sol escaldante, mas a Sophia, a cachorrinha nova, não pode ficar neste calor.
Então, para me certificar de que desta vez a sala vai ficar ainda mais fresca do que o esperado, resolvo fazer uma nova gambiarra. Graças ao meu grandiosíssimo intelecto que habita este telencéfalo altamente desenvolvido, pego um dos lençóis velhos que servem para Sophia treinar sua habilidade de rasgar coisas e improviso uma cortina entre a sala e a cozinha, devidamente afixada com fita crepe. Às vezes surpreendo-me com minha própria genialidade. (e mendigaria tenacidade para não fazer obra)
Tudo pronto: nova extensão, cortina na cozinha, até “consertei” a tomada que estava solta dentro parede há 15 anos! Liga-se a máquina! E o vento fresco invade a sala, como uma brisa de alento aos sofredores deste mundo.
Now I know how it FEELS!
“— Olha, Sophia! Vento fresquinho! Você vai adorar!”.
Faltou combinar com a cachorra… O mais novo membro da família é resgatada e ela tem medo de quase tudo. Quando eu mexo em qualquer fiação, ela se esconde. Certamente deve ter apanhado de fio também. Conforme o tempo vai passando, ela vai perdendo os medos. Já perdeu medo de sapato, medo de chinelo, medo de vassoura, medo de rodo… Teve pesadelo com o foguetório de Natal*.
Como ela ficava ao relento, é natural que tenha medo de vento e chuva, embora ela tenha mais medo do barulho da chuva do que da água em si. Ela não gosta de se molhar, mas não deixa de ir lamber minha mãe quando chega embaixo de uma garoa. (Comigo não, ela só olha de longe, como quem diz: “— Você acha que eu vou molhar meus pés, seu serviçal? Entra logo e me dá comida.”).
Com isso é bastante difícil esfriar essa criatura que não pára quieta um minuto.
1) Molhar? Nem pensar. Ela não gosta de água (e o borrifador é usado para repreender quando faz algo errado, como comer lagartixa).
2) Vento? Não dá. Ela foge de ventilador, não fica nem perto. Nestes dias em que estamos ligando o ventilador ela faz o possível para se esconder do vento.
3) Gelo? Até agora a única coisa que aceitou foram cubinhos de gelo, que a gente põe para ela lamber. Ajuda a esfriar um pouco a cachorra e dá a ela alguma coisa para fazer que não seja correr desvairada pela casa.
E tentamos o ar condicionado. Ela fugiu dele, preferindo ficar no quintal. Até a peguei no colo para ficar um pouco na sala, mas foi mais tempo de quintal do que de ar condicionado… Espero que com o tempo ela se acostume, afinal, ar condicionado no Natal desta cidade de ruas sem árvores não é luxo, é questão de sobrevivência! Se não, já sabe:
Filme alemão de 1977. Resultado do que acontece quando os produtores emendam um filme de terror pelas costas de um diretor que queria que fosse uma comédia. Um retrato do carioca médio no fim de ano.
* Em nota: se você gosta de soltar fogos nesses festejos, sem se preocupar com animais, idosos, bebês e autistas, faça o favor de, da próxima vez, explodi-los em seu cú.
Minha recomendação de hoje é um filme do cinema independente da República Dominicana.
Eu considerei interessante por se tratar do que acontece com um homem quando é levado para além de seus limites.
Abaixo segue o filme e após um comentário sobre os eventos retratados.
Baseado em uma história real.
El Ebanista | Codigo de Barrio
SE CANSOU DOS ROUBOS E DECIDIU CAÇAR OS LADRÕES DO SEU BAIRRO | Não Adivinho
Daniel Román Guerrero era um marceneiro respeitado em seu bairro, mas após anos sendo ignorado pela polícia e assediado por uma gangue local, decidiu fazer justiça com as próprias mãos. Em 2022, protagonizou um massacre que terminou com cinco mortos e sete policiais feridos. A história chocou a República Dominicana e virou até filme. Neste vídeo, revelamos todos os detalhes desse caso que dividiu opiniões e levantou questionamentos sobre justiça, abandono e limites humanos.
Eu achei bastante interessante a iniciativa de fazer uma luta de uma hora em uma única tomada, sem cortes. É possível ver os erros de coreografia, a dificuldade de colocar a câmera em um ângulo que não faça sombra ao Sol, e o esforço do ator principal. Colocar uma luta final com técnicas tradicionais (cortes, tomadas de câmera lenta, efeitos etc.) salientou ainda mais a audácia do projeto.
Eu recomendo o filme. É um exemplo de que é possível sim fazer coisas novas num meio tão saturado.
Crazy Musashi marks the latest pairing between Tak Sakaguchi and Yuji Shimomura, and producer Ota Takayuki who now (re-)launches the project via his newly established WiiBER production banner, thanks in large part to the aid of up to 1000 crowdfunding donors last year. Sakaguchi leads the project, billed as a 77-minute single-take actioner, which sought its long-endured development through a series of changing hands and the actor’s own career troubles with management. (filmcombatsyndicate.com)
Released: 2020-08-21
Genre: Action
Casts: Kento Yamazaki, Tak Sakaguchi,
Duration: 93 min
Country: Japan
Uma mãe espartana entregando um escudo a seu filho. Jean Jacques François Lebarbier, 1805
Primeira parte – Anedotas sem graça
Eu sou um homem frustrado com a própria vida. Sou da geração que cresceu escutando que a gente iria mudar o mundo*. Que nós éramos a geração da tecnologia, que cabia a nós transformar o mundo num lugar melhor. Que nós tínhamos todas as oportunidades que nossos antecessores não tiveram. Que o mundo estava ao nosso alcance e que bastava querer para tornar nossos sonhos em realidade.
Acontece que os sonhos são a primeira coisa que morre quando crescemos, isto é, quando nos tornamos adultos. Não me tornei nada daquilo que um dia sonhei. Não segui nenhuma carreira que um dia almejei. Não me tornei um cientista, nem professor de filosofia, nem artista marcial, nem atleta, nem empreendedor. Porém, de todos os sonhos que morreram, apenas um me deixa grato por não o ter alcançado. Quanto a este ”livramento”, sou sim absolutamente grato à vida: eu não segui carreira militar.
Desde quando eu era bem pequeno, pequeno mesmo, eu admirava o militarismo. Sempre me interessei pelo assunto. A história e a evolução das armas, as artes marciais orientais e européias, a formação dos exércitos… As histórias das grandes batalhas, dos feitos heróicos… Da história antiga às contemporâneas armas de fogo, praticamente todos os meus cursos de extensão são voltados ao assunto*.
Meu fascínio (e ingenuidade) quanto ao assunto me levou a um curioso histórico pessoal para tentar ingressar na carreira militar. Na infância, não pude entrar no Colégio Militar, pois era muito jovem. Eu sempre fui um ano adiantado na escola, então teria que perder um ano para ingressar. Para não perder um ano inteiro de estudo, deixamos o ingresso para o Segundo Grau (que depois se chamaria Ensino Médio).
Para o Ensino Médio, tive de fazer uma prova na qual tirei a pior nota de minha vida (3). A prova de matemática era praticamente toda sobre Função. Só que Função é matéria do primeiro ano (a série para a qual eu estava tentando ingresso)! Ó raios, como vão me cobrar na prova uma matéria dada para a série a que estou postulando cursar? Para quê eu vou entrar numa escola já sabendo a matéria que vão ensinar?
Já ali eu comecei a sentir que havia algo de errado…
Após o Ensino Médio, tive a oportunidade de tentar a EsPCEx ou a EPCAr. Sem interesse pela carreira do Exército, mas interessado pela carreira na Aeronáutica, fui ver os editais. Meramente a asma e as alergias eram suficientes para desqualificar. Nem perdi tempo tentando. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de que também desqualificava ter dentes que precisariam de tratamento ortodôntico. Sim, ter dente torto te desqualifica(va) para o ingresso no oficialato.
Tendo sido rejeitado 3 ou 4 vezes, aos 17 fiz vestibular para Direito e minha vida seguiu outro caminho, no qual os estudos sobre o militarismo continuariam sendo apenas teóricos. Assim, em meu aniversário de 18 anos, fui me alistar. Saio de casa de madrugada, pego ônibus, chego e a fila já estava crescendo. Chegada minha vez a (cof-cof, não devo xingar) ”senhora” responsável pelo serviço me mandou voltar para casa, porque a camisa que eu estava usando era de ”gola careca” e não iria me atender. Retorno para casa, pego uma camisa que não era minha (três vezes meu tamanho; a única disponível), e parecendo um saco vazio retorno lá. Enfrento a fila de novo, desta vez enorme, para ela preencher o protocolo, zombar do meu aniversário e reclamar quando usei o balcão para separar a passagem de ônibus de volta…
Os detalhes dessa história têm mais de vinte anos, então muito se perdeu da memória. O que recordo é que deu problema por eu estar cursando a faculdade (lembra, eu entrei com 17). Fui umas 4 ou 5 vezes para quartéis diferentes, tive de lidar com um monte de recrutados sem noção, as instalações eram ruins, uma bagunça danada. As coisas que ficaram na memória foram:
1 – Minha cabeça era a maior do quartel. 59cm de coco. Não tinha capacete do tamanho do meu quengo e eu podia ser dispensado por isso.
2 – Eu era o único alistado que tinha todos os dentes na boca. E sem cáries.
3 – Um monte de adolescentes amontoados num quartinho tendo que ficar pulando seminus e depois mostrar o saco para o médico local ver se tinham as duas bolas.
4 – E no final, quando viram meu currículo e exame de QI, o último médico finalmente perguntou:
“—Você está fazendo faculdade?”
“—Sim, Direito na UFRJ.” “—Você quer servir?”
“—Não, não quero, quero ser advogado.” “—Ah, tudo bem, então vou te dispensar.”
Depois dessa aventura, me perguntaram:
“Mas você queria tanto entrar, por que disse não?”
“Porque eu também tenho meus brios. Fui negado tantas vezes que agora quem não quer sou eu.”
Não tive mais contato com as forças armadas, apenas mantive em mente a imagem de uma bonita carreira de pessoas bem vocacionadas que serviam ao seu país. Imagem essa que ainda, infelizmente, insiste em habitar o ideário popular.
Alguns amigos meus não tiveram tanta sorte. Por algum motivo, o Brasil ainda segue a idéia da ”obrigação de sangue”. O serviço militar é obrigatório para todos os homens. Diferentemente de lugares mais civilizados, como nos EUA ou na República Democrática do Congo, onde você voluntariamente assina um contrato com seu país, aqui é na marra mesmo. Você pode, por lei, ser obrigado a trabalhar contra sua vontade, fazendo um serviço que não quer fazer e ser punido se se recusar a fazê-lo. Também conhecido como Escravidão. Mas como se trata do contexto militar, ganha o nome mais ameno de Conscrição.
Durante uma amistosa conversa entre aulas da faculdade, surgiu o tema do alistamento. Não esqueço a fisionomia jocosamente tristonha de meu amigo (G) quando falou sobre sua desagradável experiência: “Eles me pegaram, Pedrinho!“, referindo-se a não ter escapado do serviço obrigatório. Além de ser algo que ninguém que tenha qualquer aspiração na vida queira fazer, o “trabalho” propriamente dito consiste em acatar ordens inúteis, muitas vezes desconexas, vindas de indivíduos com duvidosa competência. Todas se referindo ou a um treinamento físico impróprio ou à manutenção das instalações militares.
Outro amigo (V) também me contou sobre suas experiências. Ele teve o privilégio de dar tiro de boca durante o Tiro de Guerra. Sim, leitor, nossos soldados são treinados com munição imaginária. Basta falar “Pou! Pou! Pou!“. Se isso não fosse estranho o suficiente, saiba que ao final o instrutor ainda lhe dizia “Aos alvos conferir marcas.“. E ele (com os demais recrutas) tinha que ir andando até o alvo conferir se o disparo imaginário o havia acertado. Todos acertavam na mosca. Não acredita? Pois veja o vídeo abaixo que demonstra tal prática ainda ser aplicada.
Embora todos esses relatos anedóticos sejam muito comuns e amplamente conhecidos pela população em geral, ainda havia, ao menos até 2022, a sensação geral de que o lema “Braço Forte, Mão Amiga” não era apenas um lema, mas também uma verdade incontestável. De que, apesar de todas as dificuldades orçamentárias, de todos os contratempos e obstáculos, nossos soldados estariam sempre prontos e dispostos a proteger e ajudar a população nos momentos mais difíceis.
O orgulho de fazer parte das Forças Armadas, a honra, a tradição e, sobretudo, o prestígio de servir à pátria e ao povo ainda eram um véu que recobria o nome e o renome da última instituição em que o brasileiro médio (de direita) confiava e tratava com reverência. Hoje, ser soldado tornou-se motivo de chacota, como em minha postagem: “A imagem do despreparo das forças armadas no Brasil“.
Mas o mal-estar não mais se limita apenas ao evidente absoluto despreparo das forças para agir em situações de emergência ou comoção social. A consternação com a pífia atuação nesses casos se somou com a frustração de uma população que inocentemente acreditou que as forças estariam ali para lhe proteger de um governo corrupto. Agora as Forças Armadas são vistas não só como incompetentes, mas também como traidoras.
Reza a lenda que alguns ainda esperam só mais 72 horas.
Bem, as Forças Armadas não traíram ninguém. O povo fantasiou que seria resgatado pelo Exército, mas se esqueceu de perguntar ao Exército se ele viria mesmo lhe salvar. Está bem claro no artigo 142 da CF88 que as forças existem para manter a ordem constituída, não para subvertê-la. Exército não é babá de civil. Se a população civil está insatisfeita com o governo, que resolva nas eleições. A maioria votou no Lula, então agüentem. Essa posição corporativista das forças já era denunciada por Olavo de Carvalho há décadas, mas foi necessária a traição de Bolsonaro para finalmente iniciar o processo de despertar da população, ou ao menos de parte dela. Veremos isso na segunda parte do texto. Por hora, assista ao vídeo abaixo.
A Decadência do Exército Brasileiro | Abraham
Cópia de segurança em meu repositório caso o vídeo esteja indisponível:
Está chegando a hora da noivinha do Aristides ir cagar em um buraco na cadeia.
Eu comentei a queda de Bolsonaro no texto O que ocasionou a derrota de Jair Bolsonaro?, e citei as traições dele no texto “As conseqüências políticas do analfabetismo funcional do brasileiro“. Mas agora que sua máscara caiu, que está prestes a ser preso, está se revelando algo muito pior do que um traidor. Quer colocar a culpa nos próprios apoiadores que foram às portas dos quartéis pedir por intervenção militar. Mas quem os instigou a isso? Quem durante todo um governo associou sua própria imagem às Forças Armadas? Quem usurpou para si a imagem de chefe de um exército que estaria ali para proteger a população de bem? E que estava “contra os comunistas”? O sujeito arquitetou uma lavagem cerebral em massa, uma histeria coletiva de pessoas ignorantes e facilmente manipuláveis. Queria sim que houvesse alguma intervenção, mas não teve colhões para fazê-la ele mesmo. Quando o frágil castelo de cartas ruiu, como o covarde que é, pôs a culpa em seus seguidores.
É óbvio que ele merece ser preso não só por tudo o que se omitiu em fazer, mas também pelos atos abjetos que cometeu. Omissões foram várias. Ele sabia da fome e da doença dos índios, mas não fez nada: índio não vota. Ele protegeu os garimpeiros: garimpeiro vota. Ele deixou que proto-ditadores fizessem e desfizessem durante a Peste Chinesa, quando tinha o poder-dever de intervir. Prevaricou. Ele deixou que todos os seus apoiadores fossem perseguidos, assim, a imagem da direita no Brasil teria apenas o sobrenome de seu clã. Todos os que rompem apoio, ou meramente criticam o imbrochável líder, são alcunhados como “traidores”, são ostracizados, têm suas reputações assassinadas.
Mas muitos estão começando a perceber quem ele realmente é. Cada declaração em que tenta se eximir da responsabilidade pelo que aconteceu a tantos cidadãos presos no 8 de janeiro o faz perder mais e mais apoiadores. Cada evasiva faz muitos questionarem o apoio até então dado. Até Romário, figurinha da politicagem fluminense começou a se afastar dele. Outros nomes também começam a se afastar, antevendo sua prisão e calculando o custo-benefício de manterem-se ligados a alguém cujas manifestações em apoio vêm se tornando cada vez mais esvaziadas. Sim, ele ainda possui um enorme número de apoiadores. Mas quanto tempo isso durará?
Haverá quem, mesmo após tudo isso, continuará apoiando o sujeito. O comportamento canastrão e cafajeste de Bolsonaro conquistou a população. O povo é mulher e, por mais que mulher diga que gosta do homem certinho e não queira admitir, ela gosta mesmo é do cafajeste. O ”moreno tatuado com cara de bandido” se personifica politicamente na figura dele mesmo. Falas conhecidas como “Vagabundo tem mais é que se foder, porra! Acabou!” agradaram a população há anos vítima da impune violência criminosa. Ele deu voz a um povo cansado de uma política de velhos velhacos e novos hipócritas. Parecia ser alguém genuinamente contrário ao sistema. Cativou, seduziu, hipnotizou e iludiu um povo carente de homens fortes e de valor. Esse povo então lhe entregou toda a esperança há tanto tempo reprimida. Sem outras referências, aceitaram aquilo como ”o salvador da pátria”. Era o que aquela gente tinha para enfrentar o lulopetismo. Toda a libertinagem de tal cafetão político precisaria ser relevada. Incluindo promiscuir Religião, Política e Defesa Militar.
“Defensor dos valores cristãos” com 5 filhos em 3 casamentos diferentes, o homem que afirmou “pintar um clima” com jovens pobres enquanto sabia dos horrores de Marajó não foi de todo um tolo. Ele sabia que caso aparecesse outra pessoa mais competente (o que não é difícil) nos assim incipientes movimentos de direita, ele não manteria o poder para si ou para outro de seu clã. Permitiu que aliados fossem perseguidos, deu as costas a apoiadores em seus momentos de necessidade. Concentrou em si, e somente em si, o nome viável da direita para eleições. “Não há direita no Brasil sem Bolsonaro“, ele mesmo disse. Fez de propósito. Foi planejado. Porém isso apenas não seria suficiente. Era necessário também conquistar a massa popular de forma ainda mais profunda, no que ela tem de mais precioso, que é sua fé.
Pastores evangélicos transformaram as pregações onde se deveria elevar o coração ao alto em comícios eleitoreiros. Falsos profetas profetizaram “em nome de Jesus” que ele venceria as eleições. Senhorinhas com a bíblia em mão clamavam por ajuda aos céus para que o comunismo não se implantasse no Brasil. Bolsonaro foi salvo de uma facada por um milagre de deus, logo, seria esse “ungido do senhor” o defensor da cristandade. Católicos (cujo dogma excomunga o comunista) e protestantes oravam para que ele permanecesse no poder. Encararam todas as questões mal respondidas que ocorreram durante o processo eleitoral de 2022 como uma prova de fé.
Não satisfeito em promiscuir fé e eleições, botou durante seu governo a já convalescente reputação das Forças Armadas no meio do caldeirão de sentimentos de uma população extasiada. Entre motociatas e tanqueciatas, “Vocês vão à frente, eu vou depois e, atrás, o meu Exército.” Atiçou a população por meses, instigou a exacerbação dos ânimos, para depois esconder-se como um covarde, sem dar ao povo que nele confiou qualquer palavra de alento diante da derrota.
Crédulos de que “as Forças Armadas iriam combater o Comunismo no Brasil”, patriotários foram às frentes dos quartéis rogar, implorar por ajuda. O fervor político e religioso tomou conta de milhares de pessoas. Alguns chegaram ao ridículo de esperar por intervenção alienígena. (Algo que muito agradaria este que vos escreve — eu adoro essas coisas de Operação Prato, Varginha e o OVNI de Macaé). E enquanto o povo aterrorizado com a possibilidade de este país se tornar uma ditadura comunista chorava clamando por socorro aos militares, postando em suas redes sociais que “Eu Autorizo”, num claro descontentamento em relação à dubiedade da lisura das eleições, seu Capitão General fugia para a Disney enquanto fazia seus eleitores de Patetas.
O que merece alguém que incutiu medo e paranóia em milhões de pessoas?
Mas essa experiência não foi de todo ruim (para quem não está preso ou morreu na cadeia). O povo finalmente viu que as Forças Armadas não irão protegê-lo. Nem do governo a que fazem parte, nem de catástrofes naturais, como as enchentes no Sul ou a ganância privada no Norte (refiro-me tanto a Maceió, que está afundando por minas subterrâneas, quanto aos índios morrendo pelas ações dos garimpeiros). E, convenhamos, nem de ameaças externas. Se o Zimbábue resolver atacar, eles chegam a Brasília antes de os recrutas terminarem de treinar tiro de boca.
É muito fácil mandar os filhos dos outros para um árduo trabalho estando no conforto de um escritório. É muito fácil discutir os cortes das rações durante um jantar com talheres de prata. É muito fácil deixar seus eleitores adoecerem na porta de quartéis, ou morrerem em celas de presídios. Eu repito o que disse no outro texto: nossos meninos não merecem isso. Quem vai agora querer genuinamente servir como praça, sabendo como é a realidade das forças no Brasil? Se antes, com a imagem preservada, já se falava tão mal do serviço militar obrigatório, agora que o comportamento e a posição política dos comandantes está sob escrutínio popular, quem quererá se submeter a essa hierarquia? Que jovem aceitará agora se tornar motivo de zombaria? Três dos meninos morreram aqui no Rio de Janeiro durante uma GLO por fogo de narcotraficantes. Este ano, um se suicidou no quartel. Quem quererá isso para si? Ou, para seu próprio filho?
Credibilidade é algo que só se perde uma vez. A ilibada reputação das Forças Armadas acabou para parte considerável da população. Seja dos generais que prestam continência a ditadores, seja dos seus civis comandantes-em-chefe. Uns os chamam de inúteis, outros, de traidores, tal como o ex-presidente (futuro presidiário). O inelegível conseguiu unir direita e esquerda em repúdio ao Exército. O Lula, ex-presidiário (agora presidente) pode ter todos os defeitos que o Bolsonaro disse, mas pelo menos não se apóia na imagem nem no prestígio de outrem para se promover. Nem do exército, nem de Jesus.
Ainda bem que eu não servi. Não faço parte dessa bagunça. Essa é uma frustração que não carrego.
Por duas vezes a Marinha do Brasil tentou vender o único porta-aviões da América do Sul no e-Bay, um conhecido portal de classificados na internet.
Terceira parte – kalos thanatos
Glossário:
* eugenia – espartanos eram inspecionados após o nascimento; se houvesse qualquer problema de saúde com o bebê, ele seria morto. Isso garantia que apenas homens saudáveis integrassem o corpo social.
* culto – espartanos eram fervorosamente religiosos, cultuando principalmente deidades femininas. Atena era a mais cultuada.
* Licurgo – legislador e reformador lendário a quem se atribui a lei espartana.
* agoge – um dos primeiros períodos pedagógicos ao qual os meninos iniciavam a vida militar.
* kalos thanatos – literalmente “a bela morte”, refere-se à morte em combate, ou seja, dar sua vida pelo Estado.
* formação hoplita – falanges de soldados que se defendiam mutualmente por meio dos hoplons, largos escudos que vieram a se tornar o símbolo militar espartano.
* polis – Cidade-Estado grega. Na Grécia, cada cidade era seu próprio minipaís, com suas próprias leis.
Embora a sociedade ateniense tenha deixado muitas obras para a posteridade, e por ela seja conhecido o cotidiano do mundo grego, foi a sociedade espartana que melhor vivenciou o espírito helênico. A eugenia, o culto, o senso de camaradagem e a vida militar.
Graças às reformas pedagógicas de Licurgo, todo homem espartano era um escravo. Seja um escravo no sentido literal, um estrangeiro derrotado na guerra; seja um escravo do dever à polis. Esses homens livres, porém inatamente servos ao corpo social, vivenciavam desde o agoge até o kalos thanatos os valores da sociedade grega antiga. Em nenhuma outra cidade as mulheres foram tratadas com tamanha igualdade. Também treinavam para a guerra nuas nos ginásios junto aos homens. A elas cabiam os serviços auxiliares e o ataque à distância, enquanto aos homens cabia a formação hoplita.
Todo espartano era estritamente um soldado e somente aos soldados eram reconhecidos direitos políticos. Como alguém que não vive para morrer pelo Estado teria o direito de participar das decisões públicas? A esses que viviam em esparta, mas não eram espartanos natos, eram reservados todos os demais serviços. Agricultura, manufatura, mineração, comércio. Para mantê-los sob controle e medo constantes, eram duramente explorados.
Espartanos não deixaram obras filosóficas ou culturais. Estavam totalmente dedicados ao serviço militar e à guerra. Esse exemplo histórico serviria para a construção do mito do soldado perfeito, inspiraria poemas e prosas para as gerações vindouras sobre uma romantizada vida aquartelada.
Posteriormente, os romanos encontraram um meio termo entre a excessiva obsessão espartana e a indolente displicência brasileira. Soldados provinham soldos e terras após o serviço militar. Servir às forças armadas era interessante ao soldado, apesar da obrigatoriedade e do grande perigo envolvido. Havia uma doutrina militar racional e regras bem claras. O exército romano não se reservava apenas à guerra, mas atuava em todas as necessidades públicas. Calamidades, agricultura, construções. Participavam ativamente de todas as questões sociais. Sendo nossa sociedade descendente daquela, esse ideário milenar da função do exército se manteve até recentemente.
Séculos mais tarde, no oriente, mongóis criaram o maior império em extensão territorial contínua da história por também se dedicarem mais às batalhas do que à pacífica vida ”civil” (eles não tinham cidades). Aqueles nômades viviam sobre seus cavalos. Enquanto a vida agrária dos conquistados lhes engordava, tirava suas forças e estragava seus dentes com os cereais, os mongóis, alimentados exclusivamente com carne, queijos e iogurte, eram magros, fortes e cheios de energia. A história demonstrava mais uma vez a preponderância da força militar ativa sobre a pacificidade civil passiva.
Já no ocidente, após gerações de opressão muçulmana, cristãos europeus finalmente se rebelaram contra os invasores e partiram nas Cruzadas. As guerras sempre tiveram ao longo da história uma faceta religiosa. Soldados sempre oraram ao divino por proteção. Mas, com as Cruzadas, a guerra assumiu efetivamente essa face, sem véus, máscaras, escusas ou dissimulação. Matar o inimigo em nome de Deus lhe concederia a indulgência da Igreja, um salvo-conduto para o paraíso. Afinal, era isso ou morrer nas mãos dos muçulmanos, que estavam fazendo a mesma coisa.
Desde então, Jesus Cristo sempre foi invocado durante as guerras. Joana D’Arc morreu afeita à sua fé. Católicos e protestantes se mataram (literalmente) para decidir quem amava mais Jesus. Mesmo Napoleão, que recusou que sua coroa de imperador fosse-lhe imposta pelo Papa, já dizia que Deus estava sempre ao lado dos grandes exércitos. Quanto maior, mais Deus favoreceria. Claro: uma guerra tradicional é uma questão de números. Quanto maior for o batalhão, maior é a chance de vitória. E aos vencedores cabem escrever a história e a graça de Deus.
“Gott mint uns” (Deus está entre nós) era o lema inscrito nas fivelas dos cintos de todos os soldados durante a Alemanha Nacional Socialista. Exterminar os descendentes dos que mataram Jesus, que criaram o Comunismo, que se recusavam a integrar a sociedade cristã, responsáveis pela crise econômica, e com a bênção papal de Pio XII era uma tarefa nobre para o pobre católico soldado alemão.
No Brasil do início do século XX, o temor ao comunismo começava. Pela primeira vez as Forças Armadas Brasileiras intervieram e os impediram, iniciando aí a reputação de serem contrárias à esquerda política. Depois nossos pracinhas foram ao estrangeiro, os enfrentaram e voltaram com a glória inerente a uma Grande Guerra, de terem enfrentado tiranos de esquerda e os vencido. Vargas precisou deixar seu cargo de ditador, mas o povo, que é mulher, pediu por ele de volta. Passado um tempo, durante a Guerra Fria, a ameaça comunista retornava e, mais uma vez, as Forças Armadas intervieram e os impediram, dando início ao Regime Militar.
Se haveria ou não a tentativa de implantação de um regime de esquerda, ninguém sabe ao certo. Mas a desculpa foi essa. E mais uma vez se fortalecia o conceito de que o Exército Brasileiro era de direita e seria anticomunista. Passados 50 anos, um certo crápula aproveitou-se do cenário perfeito (paranóia de uma nova ameaça comunista, formação de incipientes movimentos de direita, advento de redes sociais e o imaginário popular que via o Exército como cristão e anticomunista) para eleger-se e então trair a nação, tentando perpetuar-se no poder.
Hoje as Forças Armadas perderam sua reputação. Não são vistas mais como defensoras de um povo e sua fé. O serviço não é visto romanamente como algo nobre em favor do corpo social. Dele não surgirá o “salvator patriae“, aquele que evitará a ruína do Estado. Também, definitivamente, não existe o kalos thanatos no Brasil. (Quem vai querer morrer por isto aqui?) O jeitinho brasileiro chegou à caserna. A Lei de Gérson vale tanto quanto a Constituição para o oficialato e suas filhas, que vivem amigadas para não perder a pensão de papai (que não morreu em serviço). A frustração de um povo ao finalmente despertar e perceber que ninguém irá lhe proteger é sentida como uma traição. E ironicamente (ou não) testemunhamos gado com dor de corno.
Uma anedota: ao pronunciar seu juramento em juízo, o romano segurava seus testículos com a mão direita (munheca). Daí o nome ”testemunho”. Mas neste país de homens sem colhões, liderados por canalhas, as bolas só servem para passar vergonha durante o exame físico do alistamento. E a fantasia da valorosa vida militar morre para o povo brasileiro, tal como morrem os sonhos de uma criança quando se torna um adulto.
E mais um texto em que resolvo ser “crítico” de artes. Na verdade, só quero dar palpite.
Como já escrevi várias vezes, tenho os mais diversos interesses. Pensando sobre eles agora, posso talvez agrupá-los em categorias, como Belas Artes (as 9) e Artesanato, Esportes individuais, Jogos e quebra-cabeças, Campismo, Belicismo, Ciências Naturais, Sociais e Paraciências, Máquinas em geral. Ser um especialista em generalidades causou-me (em parte) rejeição no mundo acadêmico. Meus professores insistiam que eu deveria (no sentido literal de dever ser; obrigatoriedade; praticamente um imperativo moral) focar-me em uma (1) coisa apenas. Isso se contrapõe à minha natureza. Eu nunca foco em algo em particular por muito tempo. Todos esses meus interesses vêm e vão recorrentemente.
Imagine aquela criança que escuta a música do desenho animado do momento. Ela é capaz de repetir milhões de vezes a mesma ladainha, ver e rever o mesmo desenho (ou trecho dele) como que uma vitrola quebrada. Então, do nada, ela se cansa. Esquece completamente aquilo e vai fazer outra coisa.
Eu nunca cresci. Continuo sendo a mesma criança: pego um assunto, fico nele obsessivamente por dias, então me canso, o descarto, e vou fazer outra coisa. Apenas que essa outra coisa é um desses outros interesses peculiares que tenho. Gosto de comparar com uma pessoa que viaja sempre para os mesmos lugares, mas nunca fica tempo demais em cada destino. Por um lado, ela tem o benefício da familiaridade, do conhecimento prévio, de sentir-se em casa. Por outro lado, ela mantém a satisfação da contínua descoberta, a curiosidade de ver o que mudou desde a última vez em que esteve lá, a sensação de aquele lugar sempre ser uma novidade.
Disso posto, estava mais uma vez garimpando one shot graphic novels (novelas gráficas curtas – histórias em quadrinhos artísticas) e encontrei uma que me colocou contra uma questão pessoal que tenho ao lidar com ficção científica: a proporção do suspension of disbelief, isto é, a “suspensão da descrença”. Sempre que lidamos com histórias de ficção, sejam de fantasia, sejam de ciências, há o artifício artístico (um pleonasmo, desculpe) em que se recorre à suspensão da descrença. O autor pede, subentendidamente, que o leitor aceite certos pontos do enredo como verdadeiros, ainda que não lhes haja explicação.
Um exemplo simples vindo da cultura dos quadrinhos é a resposta de Stan Lee, ao falar sobre seus personagens. Certa vez lhe perguntaram, “Mas como esses poderes funcionam?”. No que ele respondeu: “Não faço idéia, só sei que eles funcionam.”. Super-heróis são personagens fictícios, não existem de verdade, não estão presos às regras da vida real. Como qualquer outro personagem, são meras ferramentas que o autor ou o roteirista usam para contar uma história. Não interessa como o Superman voa. Ele voa e pronto. Não interessa como o Batman engana a Receita Federal do país dele. Ele sonega, e ninguém percebe.
Eu tenho em mente tudo isto: de que ficção é ficção, de que não há nem precisa haver explicação para as coisas inventadas. De que o que interessa é a história a ser contada. Contudo, no âmago, minha mente continua tentando encontrar um senso naquilo. Talvez seja minha forma de interagir com as histórias. Eu espero que elas tenham algo a ensinar, algo que eu possa aprender. Por isso critico tudo o que leio o tempo todo, todas as fontes, todas as falas. Incluindo as fictícias.
Toda essa digressão para finalmente chegarmos ao ponto que me deixa encafifado. Qual é o limite para a suspensão da descrença? Até onde um autor pode pedir que seu leitor aceite, ou ao menos não questione, o funcionamento de seu mundo fictício? Antes de chegarmos à Satania, quero falar sobre Blame!.
Blame! (pronuncia-se Blam!) é um mangá cyberpunk. Num futuro distópico, a humanidade se vê fragmentada, habitando uma incomensuravelmente gigantesca mega-estrutura. O personagem principal viaja por essa mega-estrutura procurando sei lá alguma coisa.
Eu não consegui passar dos primeiros capítulos de Blame!. E meu problema foi exatamente a mega-estrutura em que se passa a história. Nessa obra, o autor procurou contar a história de forma mais visual. Há pouquíssimas falas ou interações entre os personagens, sendo que a maior ênfase se dá na própria mega-estrutura em que eles se encontram. Ou seja, o ambiente em que se passa a história é, em si mesmo, um personagem (ainda que inanimado). É parte constitutiva da narrativa. Não é apenas o tabuleiro do jogo, é também um dos jogadores.
Um dos motivos (o motivo menor) que me fizeram parar de ler Blame! logo nos primeiros capítulos foi que considerei a arte aquém da esperada para esse tipo de narrativa. Se o ambiente terá tanta ênfase, considero que a arte deveria ser bem melhor. Pareceu-me excessivamente “suja”, como que, em uma ânsia de buscar o hiperdetalhismo, o autor tentou colocar em preto-e-branco aquilo que precisaria estar em cores. É perfeitamente possível alcançar hiperdetalhismo em preto-e-branco, como no caso dos autores Hiroya Oku (Inuyashiki), Katsuhiro Otomo (Akira), Kaoru Mori (Otoyomegatari) e Takehiko Inoue (Vagabond). Mas a metodologia que Nihei Tsutomu usa em Blame!, ao menos para mim, não funciona. É uma crítica similar a que fiz ao ler Wolf Guy – Ookami no Monshou,embora notadamente aqui a qualidade técnica seja muitíssimo superior. Há sim quadros muito bons, mas o conjunto da obra a torna visualmente cansativa.
Detalhes dos personagens 1.
Detalhes dos personagens 2.
Um exemplo de quadro da obra Blame! e seu ambiente excessivamente riscado
Mas o principal motivo que me fez parar de ler foi que não consegui ativar minha suspensão da descrença em relação ao mundo de Blame!. A idéia da mega-estrutura é estupefante, causa perplexidade, causa admiração. Tudo bem, concordo, é muito bacana, muito legal. Porém é fisicamente impossível. Não foram apresentados no mangá, ao menos nos primeiros capítulos que li, outros elementos que expliquem (e sustentem) a diferença entre a física desse mundo com a realidade em que nós, leitores, vivemos. Pelo contrário, a história, parece-me, passar em um futuro alternativo de nossa própria realidade. Ou seja, com as mesmas leis físicas que temos na vida real. Foi nesse momento em que não mais consegui ler. Foi como se houvesse uma farpa em minha mente gritando: “mas como?! … isso não faz sentido!”.
O cenário impossível de Blame! não funciona para mim por dois motivos. O primeiro é que, quando se estuda um pouco de arquitetura, a gente sabe que a resistência dos materiais de construção é determinante para definir o tamanho máximo de uma estrutura. Inexiste material no planeta Terra capaz de sustentar uma estrutura com mais de 25 Km de altura. O que nos leva ao segundo e mais decisivo motivo de eu não conseguir desligar minha descrença para apreciar essa ficção científica.
A mega-estrutura não é apenas horizontal, ela também é vertical. São incontáveis níveis acima e abaixo, cada qual com quilômetros de altura. E onde fica a atmosfera nisso? Por que nos níveis superiores a atmosfera não é rarefeita e, mais importante, como que nos níveis inferiores as pessoas sobrevivem à pressão? Quanto mais profundo é o nível de uma escavação, maiores são as pressões atmosférica e litostática, e, conseguintemente, maior é o calor ambiente. Este aumenta por volta de 100°C a cada 3,5Km de profundidade. Cadê o calor? Cadê o ar rarefeito? Como conseguem água? Como conseguem energia? De onde tiram comida? De onde vem o oxigênio para respirarem?
Ou seja, o lugar não faz sentido a menos que seja introduzido outro elemento de ficção científica, o que não foi feito. O lugar não é crível, embora seja apenas mais um “personagem” imaginário. Eu aceito o Superman voar, o Goku soltar raios pelas mãos, os anões cavarem Moria até chegar ao Balrog, Falkor voar mais rapidamente do que o Nada, mas, sei lá porque, a mega-estrutura de Blame! não teve a mesma benesse que disponho aos demais…
Satania, de Fabien Vehlmann, em certo momento, causou-me exatamente a mesma sensação. E é o motivo de eu estar escrevendo tudo isso.
A história de Satania consiste em uma aventura ao estilo de “Viagem ao Centro da Terra”. Diferentemente de Blame!, Satania procura explicar e embasar “cientificamente” todas as coisas que vão acontecendo. Muito se fala sobre a teoria da evolução de Darwin, dão-se explicações biológicas sobre a origem e o comportamento das criaturas fantásticas que são encontradas, da geologia do local etc. Muitas questões sobre mundo subterrâneo em que o conto acontece não são respondidas, mas não fazem falta. Embora a ambientação seja fundamental para compor a história, o que importa não é o lugar, mas sim a aventura vivida pelos personagens.
Sim, Satania é um lugar impossível. Se nenhuma bactéria é capaz de sobreviver a temperaturas acima de 120°C, a formação de um ecossistema complexo inteiro na base de um vulcão é pura fantasia. Mas, repito, isso não é importante. A história se foca na aventura, nas decisões dos personagens, na tentativa de colocar a realidade das decisões humanas naquele mundo incrível. O enredo se dá nas pessoas, não no lugar em que a história acontece. As ”explicações” constroem apenas a ambientação, servem como lembrete contínuo de que se trata de uma história de cientistas perdidos em um mundo inusitado.
Essa credibilidade ”científica” também se contrapõe ao traço, normalmente utilizado para histórias infantis. Esse jogo entre o fantástico e o real, o científico e o impossível, a estética lúdica e os eventos dramáticos é muito bem trabalhado. Infelizmente Satania peca em seu final. Nas penúltimas páginas, como que para correr e encerrar a história, o autor opta por transformar a aventura em um horror cósmico, à la Junji Ito. Poderia ter simplesmente trocado a parte de horror cósmico para horror psicológico e o impacto seria o mesmo (foi uma decisão realmente estranha para mim e destoa de todo o resto do enredo). Ao menos a viagem de retorno para casa da protagonista Charlie é um toque bem bacana.
Percebe a diferença entre as histórias?
Na primeira, a suspensão da descrença não me é possível por se tratar de um mundo impossível.
Na segunda, também é um mundo impossível, mas não faz diferença para mim.
(trocadilhos, trocadilhos)
Clarificando-me: a suspensão da descrença é necessária para o consumo de qualquer obra de ficção. Seja fantástica, seja científica, da magia até o futurismo. Porém há limites que devem ser respeitados, e esses limites derivam do foco que se dá ao artifício de enredo. Se é dada demasiada importância a esse artifício, ele precisa ser muito bem pensado e bem construído, pois senão a história não fará sentido. Se a narrativa se concentra nas ações e relações entre os personagens, o plot device (dispositivo de enredo) é um mero recurso de ambientação.
Outra graphic novel que posso mencionar aqui é Jolies Ténèbres (Beautiful Darkness, ou Aurora nas Sombras), obra também de Fabien Vehlmann como co-autor e Marie Pommepuy. O estilo gráfico é similar ao de Satania. A história consiste em personagens de fantasia que vêm para o mundo real. Saídos (literalmente) da mente de uma criança, tal como ela, vêem o mundo ao seu redor. Porém no mundo real há fome, há perigos, há morte. A história segue, em especial, a personagem principal Aurora, que me parece ser a auto-imagem da criança que a imaginou.
Nessa história, Aurora comete um ato que, em meu julgamento, a torna irredimível. Imperdoável. Comparando-a com os muitos outros personagens, também moralmente repreensíveis, nada a diferencia deles. Terá sido essa uma estratégia narrativa dos autores? Quiseram eles mostrar que nem sempre podemos nos identificar com os personagens de uma história? Quiseram eles dizer que todos têm uma mancha de escuridão em seu caráter, em seu passado? Quiseram eles só contar uma história que calhou de eu não gostar? (Tomei raiva da personagem.)
Tanto faz, não é isso que quero salientar. Citei Beautiful Darkness porque ela representa bem o argumento deste texto. Os elementos fantásticos de uma história não precisam ser explicados, por mais absurdos que sejam. Percebeu que em nenhum momento eu questionei sobre a origem dos personagens? Eu questionei sobre a trama, comentei sobre os personagens e suas ações, mas nada reclamei sobre o elemento de fantasia. Não há explicação de como aqueles personagens vieram para o mundo real, e isso não importa diante da história que está sendo contada. Essa questão nem ao menos é levantada. Eles estão lá e pronto, tais como os heróis voadores ou os reinos subterrâneos com seus dinossauros no Centro da Terra.
A suspensão da descrença é um artifício poderoso, todavia delicado. No caso de Satania é fácil suspendê-la, pois a adrenalina da aventura ofusca completamente questões secundárias. Já em Blame!, a estrutura (trocadilho intencional) do enredo carece de muito mais explicações. E falando em estruturas e credibilidades, não queria crer que esta semana começa obra para tirar infiltração aqui em casa… Aff… Cadê os anões de Moria quando a gente precisa deles?
Deborah Frances-White é uma comediante, autora e roteirista britânico-australiana. Ela é mais conhecida por apresentar o podcast The Guilty Feminist, onde explora questões feministas com humor e honestidade.
PQP.
Durante a primeira hora eu escutei com bastante atenção os argumentos apresentados por essa senhora e consegui compreendê-los, bem como a estrutura subjacente de seu ponto de vista.
Porém nada disso se sustenta frente a um escrutínio mais minucioso. Após duas horas e meia, foi como se ela tivesse falado, falado e não dito nada…
O primeiro trecho trata da questão do homossexualismo e identidade de gênero. São tratados dois focos de argumentação. O primeiro é o de que as pessoas levam tempo para se acostumar a mudanças sociais. Na época vitoriana, os homens usavam cabelos longos. Durante as Grandes Guerras, para evitar piolhos nas trincheiras, o corte de cabelo curto foi padronizado. Passou-se a identificar o cabelo curto como sinal de masculinidade. Na década de 1960, quando homens voltaram a usar cabelos longos, foram logo alvo de zombarias, por se tratar de um traço cultural agora relegado a mulheres. Algo similar ocorreu quando mulheres começaram a usar calças, um traço culturalmente associado ao homem. Ela também traz para o debate a questão da orfandade e de como o preconceito contra órfãos foi se transformando ao longo do tempo.
Esse argumento não se sustenta por não se tratar de características culturais e sim biológicas fixas. Um homem nasce homem. O fato de dizer que é uma mulher não o torna uma mulher e vice versa.
O segundo argumento do primeiro trecho trata da idéia de gênero fluido, que a identidade de gênero é um espectro e que diversas sociedades indígenas tratam seus membros dessa forma. Numa mostra do batido discurso do ”nobre selvagem”, ela tenta equivaler a cultura branca européia com as diversas culturas silvícolas ao redor do mundo, em especial a aborígene (australiana).
O problema desse argumento é que todas as grandes civilizações tiveram e têm distinções entre a posição do homem e da mulher, sendo essas distinções ainda muito mais acentuadas em civilizações orientais. A diferença social entre homem e mulher é muito mais atenuada na atual sociedade ocidental do que em outros lugares do mundo, como o mundo eslavo, islâmico, chinês ou do sudeste asiático.
O segundo trecho trata da cultura do ”cancelamento”, o conhecido boicote de pessoas, muitas vezes comuns, por não se alinharem a determinado discurso ou narrativa. Ela defende que há pontos positivos nos movimentos #metoo e congêneres, pois permitiram que denúncias fossem feitas em meios que antes eram impenetráveis. Mais no sentido de uma discussão sobre o assunto, ela concorda que houve excessos e que toda ferramenta pode ser usada para o mal, porém minimiza as experiências pessoais de pessoas que foram vítimas desses excessos.
O contra-argumento é que o uso indiscriminado dessa metodologia levou à retaliação cultural e ao que hoje está sendo chamado de ”fadiga cultural”. O homem branco heterossexual cristão vem sendo há muito tempo, mais de uma década, constantemente e progressivamente perseguido em todos os meios de comunicação e narrativas políticas de orientação neomarxista pós-moderna. Mais do que natural voltar-se visceralmente contra esse discurso, donde conseqüentemente testemunhamos o aumento da direita radical.
Passada essa primeira hora, ela embarca na repulsa feminista ao trabalho de Jordan Peterson (ver também) e o compara a Andrew Tate. Não apresenta argumentos além de que o discurso de Peterson lhe desagrada. Disso ela apaixonadamente representa Trump e Musk como demônios, que são capitalistas obcecados pelo poder etc. Sua definição de extrema-direita é a de que ela está muito além da questão econômica, pois advogaria pela imposição de uma cultura branca heteronormativa patriarcal, e que isso equivale ao fascismo.
O problema dessa linha de argumentação é o de que a esquerda usa tanto esses chavões e rótulos que essas palavras perderam totalmente seu peso. Quando vemos a ascensão de movimentos realmente neonazistas, esse fato é minimizado, pois qualquer um que não concorde com as narrativas de esquerda assim é alcunhado.
O penúltimo trecho do vídeo fala sobre a obsessão com políticas identitárias e de como isso prejudica a formação de pontes de diálogo entre pessoas que estão em pólos opostos do espectro político. Ela demonstra não conseguir construir essa ponte, mesmo sendo seu livro exatamente sobre criá-la…
E na parte final ela tenta fazer terapia com os entrevistadores…
Sugiro ver no Youtube e ler os comentários. É muita coisa para dissecar neste curtíssimo resumo.
Este texto foi registrado em duas Ouvidorias (Federal e Estadual).
Protocolo: 202520000602259
Chave de acesso: IXM8D8
PROT GERJ: 202505025695750
Compreendo que dentre os incontáveis protocolos enviados para essa Ouvidoria, os elogios sejam tratados em segundo plano. Porém, rogo que esta manifestação chegue aos funcionários dos estabelecimentos, como reconhecimento e gratidão pelos esforços diários das equipes.
Minha mãe, Maria de Fatima Figueira sofreu um infarto e foi internada dia 16/04 na rede Estadual de saúde.
O atendimento realizado pela equipe da UPA 24hs Engenho Novo foi impecável. TODOS os funcionários nos trataram muito bem, os médicos, os enfermeiros, os seguranças e o pessoal da limpeza. Todos nos trataram muito bem.
O cuidado e a dedicação de toda a equipe salvou a vida da minha mãe. Tudo muito limpo, higienizado, 24h de observação, alimentação e cuidados.
A equipe de ambulância que fez as transferências para o Hospital Pedro Ernesto e em seguida para o Hospital Anchieta nos tratou com respeito, profissionalismo e sensibilidade.
No HUPE encontramos um ambiente hospitalar higienizado e próprio para o cateterismo.
Finalmente no Hospital Estadual Anchieta, minha mãe recebeu um tratamento humanizado e completo. Dentistas, psicólogos, assistentes sociais. Os funcionários do atendimento me trataram muito bem e as enfermeiras cuidaram da minha mãe de forma humanizada.
TODOS os funcionários da rede de saúde, médicos, enfermeiros, socorristas e equipes de apoio nos trataram muito bem. E, repito, salvaram a vida da minha mãe.
Aqui deixo meu registro de agradecimento e elogio.
Rogo novamente que esta manifestação chegue a esses funcionários. Sei que é difícil, mas eles merecem esse reconhecimento público de seus esforços, profissionalismo e compaixão.