Discussão e debate no país dos analfabetos

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Editado: 14/02/2020
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Editado: 03/06/2020
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Editado 08/06/2020: pequenas correções gramaticais (correção completa na versão para impressão).

Ao final de meu último texto, 200 milhões de babacas, fiz uma pergunta: por que ainda há pessoas que defendem a ”esquerda” no Brasil? E o que era para ser uma simples reflexão se tornou um texto de várias páginas. Na primeira parte desenvolvo uma perspectiva geral sobre a situação de ignorância coletiva em que a imensa maioria da população chafurda. Demonstro a distância entre os valores estatísticos e seu significado para em seguida analisar os dados acerca da produção acadêmica contemporânea.

Preparo então uma ponte entre a primeira e a segunda partes, entre a ignorância e uma cultura que inadvertidamente a sustenta e a perpetua.

Na segunda parte comento sobre a realidade cultural brasileira criticando-a, mostrando a semente da formação de mentes polarizadas e inaptas ao confronto de idéias. Discrimino em seguida as diferenças conceituais entre opinião e argumento, discussão e debate.

Na terceira parte retomo o exposto nas duas primeiras, correlacionando a inépcia de autoformação e autoconstrução de pensamento com a ignorância coletiva. Em seguida analiso caso a caso minhas hipóteses sobre os motivos que levariam alguém a defender os ideários da assim chamada ”esquerda”, finalmente respondendo à pergunta inicial.

Para baixar o texto completo: Edições Independentes


Discussão e debate no país dos analfabetos.

Preâmbulo

Este texto é uma reflexão acerca do adendo do texto anterior 200 milhões de babacas.

Não passearei pela seara da farsa do PROUNI, do PRONATEC e do FIES, programas conspurcados pelos governos petistas*, que culminaram no endividamento dos estudantes mais pobres, exatamente aqueles mais necessitados e que não conseguiram vagas nas instituições públicas de ensino superior. Isso é mais que revoltante e quero manter a salubridade deste escrito. Concentrar-me-ei apenas na educação pública.

*PROUNI – “Programa universidade para todos” criado em 2004 é um sistema de concessão de bolsas integrais ou parciais pagas pelo governo federal a instituições privadas de ensino. Em contrapartida ao fornecimento de vagas, as instituições recebem benefícios fiscais e tributários. No caso de bolsas parciais, cabe ao aluno o pagamento da parcela restante.

*PRONATEC – “Programa nacional de acesso ao ensino técnico e emprego”, criado em 2011, funciona nos mesmos moldes do PROUNI, sendo voltado aos cursos de ensino médio técnico.

FIES – O “Fundo de financiamento estudantil” é uma modalidade de financiamento de estudos no ensino superior implementada pelo regime militar (chamava-se CREDUC) para custear a educação a juros razoáveis. Atualmente o valor dos juros equivale ao da poupança.


Primeira parte: A ignorância coletiva brasileira

Seção 1

Durante o regime militar (ou ditadura, como queiram) representantes, grupos, organizações e atores de movimentos ”de esquerda” infiltraram-se e instalaram-se nos mundos acadêmico e cultural. A tomada gradual de posições de destaque e de controle tanto na exposição midiática quanto nos bastidores intelectuais os pôs em uma posição privilegiada para a divulgação e defesa de suas pautas, bem como facilita a captação de novos adeptos. Personalidades admiradas pelo grande público utilizam há décadas sua exposição para influenciar (em especial) jovens a aderir ao movimento de viés marxista.

Filósofa Nana Caymmi citando chupadores.

Essa tomada do poder por meio da influência intelectual e cultural é o que se chama gramscismo. Proposta desenvolvida pelo filósofo marxista italiano Antonio Gramsci, o gramscismo, grosso modo, propõe a constituição de uma hegemonia cultural, isto é, a formação de uma contracultura que esteja tão impregnada na comunicação, nas artes, nas relações sociais que se torne ”senso comum”. Isso se observa atualmente no uso da linguagem cotidiana, que traz em si as marcas do pensamento marxista. A idéia de ”classes” em lugar de profissões, ”gênero” em lugar de sexo, e os demais jargões como ”empoderamento”, ”opressão”, assim como a praticamente desconhecida defesa de ”bem-estar social” fora da ideologia ”de esquerda”.

O controle da linguagem (do que se fala, de como se fala, do vocabulário) é uma das mais poderosas (e perigosas) ferramentas para o controle do pensamento coletivo, como bem aponta Jordan Peterson:

I’m against the use of legislation to determine what words up that myself and other people are required to utter […] I don’t believe that other people have the right to determine what language I use especially when it’s backed by punitive legislation and when the words that are being required are the constructions there are artificial constructions of people I regard as radical ideologue who’s viewpoint I do not share […]

Eu sou contra o uso da legislação para determinar quais palavras eu e outros somos requeridos a proferir […] Eu não acredito que outras pessoas têm o direito de determinar qual linguagem eu uso, especialmente quando compelidas por legislação punitiva e quando as palavras que estão sendo requeridas são construções artificiais de pessoas que considero radicais ideológicos cujo ponto de vista não compartilho […]

I don’t think it boils down to respecting their human rights I think that it’s an imposition on freedom of speech […]

Eu não acredito que isso se fundamente em respeitar seus direitos humanos. Eu penso que é uma imposição sobre a liberdade de expressão [..]

[…] to produce a transformation in the manner in which people spoke has a very dangerous precedent [nazifascism/socialist movement] so it’s one thing to tell people what they can’t say so for example we have legislation making it illegal to do such things as deny the Holocaust; it’s a completely different thing to demand that people use certain words when they’re formulating their own ideas […]

[…] produzir uma transformação na maneira com a qual as pessoas falam tem um precedente muito perigoso [movimento nazi-fascista/socialista]. Uma coisa é dizer às pessoas o que elas não podem falar, como por exemplo temos uma legislação que torna ilegal fazer certas coisas como negar o holocausto; isso é uma coisa completamente diferente de demandar que pessoas usem certas palavras quando estão formulando suas próprias idéias […]

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=SiijS_9hPkM
Heated debate on gender pronouns and free speech in Toronto (29/10/2016) – CBC News

O cerceamento à liberdade de expressão de quem tem o que exprimir é uma ”frente de ataque”. Evitar que novos argumentos e novas idéias sejam aduzidos ao debate, e dificultar ou até mesmo impedir que perspectivas contrárias tenham alcance fazem parte da estratégia gramsciana de hegemonia cultural para a manutenção do monopólio do pensamento e do discurso.

Outra frente é evitar que tenham o que dizer. Esse é um processo que leva tempo, ou melhor, levou. Observemos a história recente de nossa educação pública.

Para quem não desenvolveu a habilidade de análise crítica, dados estatísticos são vistos como retratos fiéis da realidade. Porém isso está incorreto, pois os dados numéricos sempre precisam ser interpretados. Devemos ter em mente que uma coisa é o fato, outra é o nexo causal. Os números são, portanto, apenas indicadores que precisam ser analisados e contextualizados segundo o que está sendo observado. Deixe-me exemplificar com um “recurso ao extremo”.

Em certa sociedade o crime de estupro chegou a 85% das mulheres. Esse dado alarmante levou o governo a tomar uma atitude e no mês seguinte o índice caiu para 0%. O crime deixou de ocorrer imediatamente. Ora, qualquer pessoa acharia esse dado surpreendente e por curiosidade iria procurar saber como resolveram o problema tão rapidamente. Resposta: descriminalizaram o estupro.

Percebe? Índices são apenas índices. Os números por si mesmos não refletem se algo é bom ou mau, se determinada decisão ou ação foi correta ou errada. Faz-se necessário compreender e interpretar a situação para daí ponderar (exercer juízo de valor) sobre o nexo causal entre o fato e o dado. ”Maquilar” os índices e usar números estatísticos falaciosamente é muito fácil (e uma atitude antiética).

Essa atitude antiética vem sendo utilizada para mascarar o fiasco da educação pública brasileira há anos, bem como para acobertar e facilitar o subjacente processo de hegemonia cultural que vem ocorrendo.

Caso 1: “As crianças não estão indo bem na escola, veja: o índice de repetência é alto!”

Resposta: passagem de ano automática. Independentemente se a criança aprendeu ou não a ler e a escrever, se aprendeu ou não aritmética básica, ela deve passar para o ano seguinte, seguindo não seu grau de instrução, mas sim sua idade, alocando-a na série estipulada para sua faixa etária.

Conseqüência: crianças e mesmo adolescentes analfabetos completos, isto é, incapazes de ler, escrever e calcular, mas que possuem certificação de ensino básico e até mesmo ensino médio.

Porém… ”Governo atinge meta de escolaridade para faixa etária!”.

E um problema mal resolvido gera outro:

Caso 2: “As crianças não estão permanecendo na escola! O índice de desistência é alto!”

Resposta: para receber bolsa-esmola, seu filho deve freqüentar a escola. Rima sem graça, muitas crianças somente vão à escola para receber a merenda escolar, algumas vezes a única refeição do dia. E os pais vêem nisso dois paliativos: o almoço dos filhos e a esmola oficial do governo. Colocar uma criança na escola por conta não da instrução e sim por conta de comida e dinheiro é um indício do nosso fracasso enquanto sociedade. Quando a fome obriga a ação, os belos discursos dos teóricos não têm valor algum.

Conseqüência: crianças e adolescentes escravizados pelo estômago, dependentes do Estado que lhes dá o que comer e uma esmola para subsistir. Nada aprendem e, sem instrução, não conseguirão melhorar suas condições de vida. Terão filhos a repetir o mesmo caminho de dependência de si mesmos e de seus pais.

Porém… “Governo reduz índices de evasão escolar!”

Essas falaciosas ações governamentais visam autopromoção. Embora tenham sua utilidade estratégica, não são suficientes para formar uma boa manada dependente. Faz-se necessário também moldar seu pensamento. Para isso, o Brasil elegeu (ou ao menos os interessados elegeram) Paulo Freire como patrono do fracasso da Educação Brasileira. Uma educação marxista na qual os alunos são ensinados a contestar a autoridade e a ordem, a introjetar a crença de serem ”oprimidos pela sociedade”, a defender a divisão da sociedade e a luta de classes.


Para saber mais:

Padre Paulo Ricardo sobre gramscismo


Todavia formar uma nação de analfabetos absolutos não é interessante. É ruim para a economia, ou seja, para gerar riqueza ao grupo dominante. Logo se ensina o mínimo necessário para que possam seguir instruções, obedecer a ordens, trabalhar irrefletidamente, viver mediocremente. Formam-se, portanto, analfabetos funcionais.

O mais grave no analfabetismo funcional não é o indivíduo acreditar que ele é alfabetizado por saber identificar os sinais de linguagem escrita. Tampouco o é o fato de ele não se perceber carente de instrução mais apurada. O mais grave é o fato de esse indivíduo depender de outrem que interprete por ele uma informação, ou seja, que lhe diga o que ela significa. É o fato de não ser capaz por si mesmo de concatenar idéias próprias; de elaborar suas próprias interpretações; de construir seus próprios conceitos; de julgar, avaliar e questionar uma informação. Esse indivíduo é facilmente manipulável porque vive sua vida segundo o ”assim dizer”: não pesquisa, não se informa, não aprende por não ser capaz de fazê-lo sozinho, dependendo de outros para tal.

Currículo e cidadania devem compor o âmago da formação infanto-juvenil para que as novas gerações sejam independentes e livres. Porém o aprendizado curricular e o desenvolvimento intelectual daquela criança que passou pela aprovação automática e pela necessidade foi relegado a segundo plano. Por conseguinte sua preparação enquanto cidadão também foi em muito comprometida.

Nessa realidade de ensino deficitário (que afirmo ter sido intencional), professores são acusados de substituir os conteúdos programáticos por uma ”doutrina de esquerda”. Gostaria de levantar um comentário/contraponto/hipótese a esse respeito: a educação pública básica é tão ruim que a acusação de doutrinação deve ser falsa em parte considerável dos casos. Pelas informações que tenho de amigos que trabalham na rede pública de ensino, os estudantes estão tão dispersos disciplinarmente e desassistidos socialmente que nem ao menos têm condições de serem doutrinados. A doutrinação só ocorre (podemos afirmar por sabermos que ocorre) nos melhores colégios. O que acontece na maior parte dos casos é a repetição e a aplicação dos conceitos freireanos que mencionei, massificando indelevelmente no senso dos jovens os conceitos marxistas.

E chegamos ao Ensino Superior (área de especialização deste que vos escreve).

Conforme já escrevi tantas vezes, cursei Filosofia numa faculdade pública onde ora sou servidor (UERJ). Chamam-me de ”sobrevivente” por ter passado (e permanecer) incólume, sem descambar para o alinhamento ideológico marxista que há na Academia (e com que hodiernamente convivo no ambiente de trabalho). Mas repito um desagravo que faço questão deixar claro: não tive um único professor que doutrinasse em sala de aula. Não sei se foi coincidência ou se a imagem da vida política lá dentro é exagerada… Nem ora sou ”perseguido” politicamente, sempre tendo sido devidamente respeitado, assim como não tenho conhecimento de discriminações político-partidárias entre trabalhadores. Para mim, essas histórias são balela. O que ocorre é a composição interpessoal informal de grupos polarizados (vulgo ”panelinha”: quem é de fora, não entra

:-p).

A imagem externa da instituição é ruim. Certa vez enquanto eu aguardava no ponto de ônibus, estava ao lado de algumas pessoas conversando, e uma disse à outra estar indo para a UERJ. Garotos vindos da escola próxima brincaram entre si: “Ih… UERJ?! ‘Tá indo para a boca [de fumo]!“. Essa imagem pervertida se estende para as demais instituições públicas de educação do país, em especial os centros de ciências humanas.

A estratégia de hegemonia cultural para formação de reprodutores de ideologias marxistas em lugar de profissionais de nível superior hoje cobra seu preço: a imagem e a respeitabilidade das instituições. Estas hoje são vistas como verdadeiros cartéis acadêmicos em que só se entra (seja no ingresso, seja na pós’) se houver alinhamento doutrinário com quem lá já está. Além da seqüela inevitável na aparência, outras surgiram na essência.

Historiei há pouco que a formação básica e média é muito ruim. Quando esse jovem adulto chega ao tempo do ensino superior, surge um novo problema (pois ”um problema mal resolvido gera outro”):

Caso 3: “Alunos de escolas públicas não conseguem passar no vestibular! Como resolver o problema?”

Resposta: cotas. Para aumentar o número de estudantes oriundos do ensino público nas instituições de ensino superior, não é necessário melhorar o sistema de ensino básico. Basta deixá-los entrar por um vestibular separado! Em lugar de corrigir as falhas dos ciclos iniciais, é muito mais fácil permitir que as deficiências (dos estudantes e do sistema) perdurem até o final da formação superior.

O programa de cotas não atende apenas estudantes de escolas públicas, abrangendo também negros, índios etc. Observo nisso não apenas a manutenção do discurso da luta de classes (pobres contra ricos), mas também a construção artificial de uma luta social (inexistente) entre etnias.

Conseqüência: ingresso cada vez maior em curso superior de pessoas sem preparo prévio e, por conseguinte, diminuição da qualidade do ensino ministrado em classes cujos componentes têm graus de instrução em níveis distintos. Esse problema ocorre especialmente nos cursos técnicos e tecnológicos bem como nos cursos de formação de profissionais liberais.

Os professores não têm como manter um alto nível curricular em uma turma heterogênea onde parte significativa dos graduandos não tem condições de acompanhar o conteúdo. São casos em que se faz necessária a escolha entre baixar o nível de complexidade das aulas (nivelar por baixo) e manter a busca pela excelência (nivelar por cima). No primeiro caso, o grau de instrução final estará aquém do esperado, porém mais alunos se formarão. No segundo caso, o grau de instrução final estará de acordo com o esperado, porém o número de desistências e abandonos de curso será mais alto. Continuando a linha de raciocínio da falácia estatística:

”Governo aumenta número de formandos oriundos de escolas públicas!”
”Governo aumenta número de negros, índios, asiáticos, homossexuais, esquimós, sacis-pererês, mutantes e alienígenas cursando universidades!”

Ainda assim, mesmo com cotas, continuou sendo difícil fazer passar alunos das escolas públicas (ou outros grupos de interesse), pois…

Caso 4: ”Cada instituição tem um vestibular próprio! É difícil estudar para tantas bancas!”

Resposta: ENEM. Não escolheram orientar as bancas examinadoras a fazer provas que visem aferir o aprendizado real em lugar dos tradicionais testes de ”capacidade de memorização de conteúdo” ou testes de ”o que vai cair naquela banca”. Também não escolheram desenvolver programas de ensino eficientes nos ciclos da educação básica.

Optaram por unificar tudo numa prova só. Ficou muito (muito) mais fácil examinar se os aprovados traziam o mesmo arcabouço de idéias (afinal, numa nação comunista a doutrina deve ser igual em todos os lugares…). Invariavelmente aquelas idéias acabariam por dever ser estudadas caso se quisesse passar na prova.

Conseqüência: homogeneização cultural (ou ao menos ideológica) dos ingressantes nas instituições de ensino superior em todo o país. E toda homogeneização, por definição, é nocente à pluralidade de idéias, conceitos, teses, hipóteses, perspectivas, enfim à liberdade de pensamento humano.

Porém… ‘‘Governo traz igualdade para todos os jovens num vestibular nacional!”


Seção 2

E voltamos aos números! As estatísticas são claras: mais crianças freqüentando as escolas; mais jovens cursando as séries corretas; índice de repetência zerado; escolas públicas com maior aprovação no vestibular; mais negros (ampla maioria da população) indo para a universidade; etc. etc. etc. Tudo indo muito bem.

As pesquisas sobre o analfabetismo funcional demonstram a gravidade do problema*. 78% dos pós-doutores (repetir-me-ei: setenta e oito por cento das pessoas que têm dois ou mais títulos de doutorado) são analfabetos funcionais.

-* Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em associação com a Ação Educativa e apoio IBOPE.

Tabela 2b – Níveis de alfabetismo por escolaridade (% por escolaridade) Total

  Total   Analfabeto Rudimentar Elementar Intermediário Proficiente
Base   88 457 843 453 161
Até Fund. – séries iniciais 417 100% 19% 49% 27% 4% 1%
Ens. Fund. – séries finais 459 100% 2% 32% 53% 10% 3%
Ens. Médio 795 100% 0% 11% 48% 31% 9%
Ens. Superior ou +. 331 100% 0% 4% 32% 42% 22%
Total 2.002 100% 4% 23% 42% 23% 8%

Nota: O nível de escolaridade indicado na tabela informa sobre o ingresso do sujeito na etapa descrita e não a conclusão da mesma.

A maioria de quem chegou ou concluiu o superior permanece nos níveis Elementar (32%) e Intermediário (42%). Somente 22% situam-se no nível pleno de alfabetismo.

Eis a realidade que encontro em meu trabalho. Muitas vezes atendo formandos de mestrado e doutorado que (parafraseando Enéas Carneiro) você olha e pergunta “Meu deus, pra que diploma?“. A criatura é incapaz de compreender e interpretar idéias simples… Como se formou?

Esse sujeito se formou por força de vontade. Em minha primeira graduação, aprendi que não se deve permitir que a faculdade atrapalhe seu curso. Ela fará de tudo para te impedir de se formar: burocracia quase infinita, (alguns) professores de péssima qualidade encostados na estabilidade do serviço público, filiais de partidos políticos auto-intituladas ”centros acadêmicos”. E o corpo discente conivente complementa a etilicamente regada baderna dentro e no entorno dos campi, com inescapável música ambiente durante as aulas e o maconheirismo passivo… (Metade de meus neurônios ficou na fumaça dos corredores.)

Minha foto de formatura

Acuso: intencionalmente formou-se um exército de doutores desempregados enquanto mostrava-se à sociedade e ao estrangeiro análises estatísticas falaciosas com resultados supostamente satisfatórios.

Egressos das instituições de ensino superior encontram um mar de concorrentes tal como a si mesmos (muitas vezes) com uma formação deficitária. Não aprenderam em seus cursos os expedientes práticos de seus ofícios, apenas um cipoal doutrinário, lições esparsas e teorias impraticáveis, deixando ao dia-a-dia da atividade profissional o aprendizado do que realmente funciona e do que deve fazer.

As válvulas desse sistema quebrado jorram continuamente um excesso de formandos no já saturado mercado de trabalho. A principal seqüela disso neles é sua superqualificação, isto é, desemprego por qualificação maior que a necessária. Parece contraditório, mas é a praxe do mercado: se alguém possui um currículo acima do exigido para o cargo, o empregador pleiteado pode rejeitá-lo por receio de que ele vá exigir um salário mais alto; por receio de que tenha problemas prévios de relacionamento trabalhista; por falta de experiência em funções abaixo de seu nível de escolaridade. (Fonte: experiência própria do que vos escreve.)

Isso culmina na irônica baixa empregabilidade de pessoas que estudaram ”demais” acrescida da falta de postos de trabalho de 3º grau, o que pode ser observado na relação atual entre emprego e escolaridade. Os dados da PNAD de 2018 apresentam que ao menos metade dos formados empregados trabalham em funções que exigem menor escolaridade (táxi, motorista de aplicativo, vendedores autônomos etc.). Embora os que estejam empregados conforme suas formações recebam salário superior à média nacional, eles não são mais o padrão. Temos sim um oceano de formados cujos diplomas servem para enfeitar as paredes de seus quartos.

E nada garante a qualidade dessas formações. Presenciamos uma legião de doutos analfabetos. Segundo o que expus, a qualidade do ensino superior é muito baixa, tanto na entrada de estudantes com baixa instrução, quanto na saída de formados com baixíssma produtividade. Baseio esta segunda afirmação em números que devem ser corretamente interpretados fazendo a contraposição entre a produção que é feita na academia e o valor que lhe é dado. Embora o país esteja entre os que mais produzem material acadêmico, o conteúdo produzido é desprezível e muito pouco contribui para o avanço científico.

O valor da produção acadêmica pode ser mensurado por seu impacto no próprio mundo acadêmico. Isso pode ser aferido pelo chamado CPP (citações por papel), isto é, índice que mostra quantas vezes as obras foram citadas em outras pesquisas, demonstrando a importância de tal descoberta ou a influência de tal proposta nova. Os números brasileiros são pífios.

Fonte: https://infograficos.gazetadopovo.com.br/educacao/qualidade-producao-cientifica-no-brasil/

Em especial nas cadeiras de Ciências Humanas, ultimamente motivo de chacota mesmo no meio universitário, encontramos pesquisas para as quais, mesmo com esforço mental e boa vontade, não é possível cogitar em que contribuem. São produções inúteis e irrelevantes. Além disso, saber que essas pesquisas foram custeadas com dinheiro público gera justa revolta do contribuinte que não teve acesso ao ensino superior público (a maior parte da população). “Se eu estivesse na faculdade, estudaria outra coisa.” ”Se eu mandasse na faculdade, o dinheiro não seria gasto nisso.”

O que leva à última conseqüência que gostaria de mencionar: além de formarmos em ampla maioria jovens sem instrução básica e adultos sem instrução adequada, parte considerável daqueles poucos formados adequadamente não devolvem à sociedade uma produção digna do esforço despendido para formá-lo. E a parcela ínfima dos bem formados que bem produzem academicamente tem melhores chances de sucesso indo para o exterior, pois são pouco valorizados na própria pátria.

Esse é o resultado do Estado mal administrado. Mas isso ainda não responde minha questão inicial. E mais: como isso tudo interage entre si?  E o outro lado da história? É o que veremos na segunda parte.


Adendo à parte primeira

Em resumo: gastamos muito e descobrimos pouco. Quando afirmo que “gastamos muito”, também me refiro ao tempo. Nossa pesquisa é feita muito lentamente – mesmo nos melhores laboratórios – devido a inúmeros entraves burocráticos (em especial para a importação de materiais de pesquisa) e absurdas ineficiências estruturais de nossas universidades. Por outro lado, muitos professores universitários fazem pesquisa de baixa qualidade e trabalham na ciência apenas por obrigação de ofício. Enchem seus currículos de publicações inócuas e inflacionam a produção nacional com lixo acadêmico. Para piorar, a universidade pública é “socialista”, pois um pesquisador que produz ciência ruim, que não é citada, recebe o mesmo salário que um cientista citado 500 vezes por ano – qual o estímulo para a excelência científica?

Marcelo-Hermes Lima (UnB)

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/tamanho-nao-e-documento-nossas-universidades-produzem-milhares-de-pesquisas-mas-impacto-global-e-pequeno/

Cito abaixo alguns casos amplamente noticiados:
(nota 1 – Não cito o nome dos autores, pois meu foco é na relação trabalhos – instituições.)
(nota 2 – A produção desses trabalhos envolveu diretamente ou indiretamente dinheiro público.)

  • “Vamos fazer uma sacanagem gostosa?”: uma etnografia do desejo e das práticas da prostituição masculina carioca Curso: Mestrado em Antropologia da Universidade Federal Fluminense;
  • Festas De Orgia Para Homens: territórios de intensidade e socialidade masculina Curso: Doutorado em Antropologia Universidade Federal Fluminense;
  • Fazer banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas na Estação da Lapa e adjacências. Curso: Mestrado em Antropologia na Universidade Federal da Bahia;
  • A estética Funk Carioca: criação e conectividade em Mr. Catra. Curso: Doutorado em Sociologia e Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • Mulheres perigosas: uma análise da categoria piriguete. Curso: Mestrado em Sociologia e Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • A Zuadinha é tá, tá, tá, tá: representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro. Curso: Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia;
  • Erótica dos signos nos aplicativos de pegação: processos multissemióticos em performances íntimo-espetaculares de si. Curso: Mestrado em Lingüística Aplicada na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • Personagens emolduradas: os discursos de gênero e sexualidade no Big Brother Brasil 10. Curso: Mestrado em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás;
  • Agora eu fiquei doce”: o discurso da auto-estima no sertanejo universitário Curso: Mestrado em Lingüística e Língua Portuguesa na Universidade Estadual Paulista (Unesp);
  • O herói na forma e no conteúdo: análise textual do mangá “Dragon Ball” e “Dragon Ball Z” Curso: Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia;
  • Experimenta-te a ti mesmo: Felipe Neto em performance no YouTube Curso: Mestrado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais;

Segunda parte: o mau caráter coletivo brasileiro e sua ignorância específica

Seção 1

Na primeira (longa) parte, apresentei uma imagem geral e generalizante da realidade escolar e acadêmica contemporânea. Situei-nos num país composto por analfabetos funcionais da mais tenra infância até o mais alto grau de escolaridade. Massas de pessoas incapazes de interpretar dados pré-fornecidos e, por conseguinte, trabalhar com essas informações autonomamente, independentemente. A grande maioria das pessoas, incluindo membros da academia, acaba dependendo de outrem que lhes diga o que é o certo, o que devem dizer, o que devem fazer, o que devem pensar. Não são capazes de formar autonomamente, independentemente, opinião própria, aderindo à opinião alheia.

Vejamos agora nesta segunda parte outra faceta da nossa sociedade: a competitividade.

Neste país de vítimas autovitimizadas, muito fácil é reclamar do governo, pois ”a culpa sempre é do outro” como apresentarei logo a seguir. O povo sempre reclama de tudo, em especial do governo. E gosta de reclamar por reclamar. Na parte anterior desenvolvi bastante sobre o reclamado. Hora de ver a hipocrisia dos reclamantes, que não são tão ”santos” assim…

Vivemos num país onde a lei maior não é a Carta Magna, e sim a Lei de Gérson. É preciso levar vantagem em tudo; é preciso ser malandro. Mas cuidado porque ”malandro demais se atrapalha!” Até hoje me dói o espírito por ter perdido a fonte deste causo: encontrei um texto (e não recordo se era em livro ou artigo) em que um alemão tentava explicar (em alemão, pois) o que é malandragem. Foram vários e vários parágrafos para explicar o que brasileiro já tem que nascer sabendo!

A capacidade de burlar normas e regras estabelecidas para obter vantagem pessoal ser bem quista quando praticada na medida correta, o famoso ”jeitinho brasileiro”, causou um verdadeiro nó conceitual (e gramatical) no gringo. O impensável lá fora é o padrão aqui dentro. E motivo de orgulho…

Essa necessidade de vantagem está ligada a outra característica de nosso povo: a necessidade de vencer. Faz parte da cultura popular que é preciso sempre vencer. Mesmo que desde cedo nos digam para não ”cantar vitória antes do tempo’‘, a mera idéia da derrota ou do fracasso é repudiada veementemente. “Não pode levar desaforo para casa!”, nos dizem também. Só há valor na vitória, sendo o segundo lugar motivo de desprezo e zombarias. A vitória alheia é vista ou com inveja ou com frustração. Torcer contra um rival para que não ganhe de um terceiro é comum, apesar de ser das mais tolas formas de estupidez. Não se cultiva o sentimento de alegria pelo sucesso do outro. É uma nação de maus participantes (maus vencedores e maus perdedores).

Cartoon vector stickman three males standing on the winners’ podium rostrum, winner is enjoying and celebrating, losers are watching him in anger

Um adendo: eu não vejo a vida como vitórias ou derrotas. Vejo apenas como experiências que podem ser agradáveis ou não. Não compartilho dessa visão de mundo. Talvez isso também seja mais um motivo para eu me sentir tão inadequado…

Para o brasileiro, a vida é um grande jogo de futebol. Ninguém gosta de perder, e aceitar a derrota é difícil. Basta se lembrar do comportamento do brasileiro na Copa do Mundo. Depois que o time do Brasil perde, a audiência desaba, a festa acaba e a torcida reclama. O mesmo vale para as Olimpíadas ou qualquer evento desportivo. Reclamam da derrota, mas ninguém vai lá fazer melhor. E, principalmente, ardentemente desejam se identificar estarem em posição de vitória ou de vantagem.

Esse comportamento doentio não se restringe somente aos esportes: no trânsito, não se deixa passar; na fila, não se cede a vez; no trabalho, não se dá sua oportunidade ao colega. Vale para tudo, sempre é a mesma história: ”farinha pouca, meu pirão primeiro”. Fora do ambiente familiar (algumas vezes até mesmo ali) é como se todo o resto da humanidade fosse um grande adversário. Animosidade é a regra; agressividade, o padrão. É preciso competir. É preciso vencer…

Esse pensamento se reflete na linguagem. E não me refiro a fofocas entreouvidas, maldizeres ou coisas do tipo. Refiro-me ao fato de que até mesmo na linguagem, é necessário estar sempre certo.

— Bom dia!
— Não é bom dia, é boa tarde.

Esse minúsculo diálogo me acompanha há algum tempo. O fato de ser corrigido ao cumprimentar alguém sempre me incomodou desde pequenino. Eu quero crer que não há outro lugar no mundo em que tal estapafúrdia aconteça: desejar que a outra pessoa tenha um bom dia, e receber dela como resposta (literalmente ou semanticamente): “Não. Você está errado e eu estou certo. Já passa de meio-dia e agora se diz boa tarde.”.

A obsessão em ”estar com a razão” e demonstrar que a tem, em estar certo enquanto o outro está errado, em ”vencer” impregnou-se tal sorte que nem mesmo uma gentileza escapa dessa loucura: a gentileza se perdeu no meio segundo em que foi pronunciada. Em terras tupiniquins, onde as leis ”pegam” ou não, a lei gersoniana é zelosamente respeitada até mesmo nos corriqueiros cumprimentos e saudações.

Compulsão que também se dá no curso de um diálogo em que duas ou mais correntes de pensamento divergentes se encontram. A análise conceitual minuciosa e objetiva feita com contraposição de idéias (ou a mera atitude de se calar e ouvir o que outro tem a dizer) é natimorta, cabendo ao palavrório não buscar a verdade, e sim ser ferramenta para ”ganhar”, deixar o outro sem fala, sem resposta. Para isso, mais do que a fundamentação crítica e racional do discurso, os expedientes utilizados são as frases de efeito e os sortidos subterfúgios que tornam belas as palavras, ainda que carentes de sustentação. Falar bonito é melhor e mais importante que falar a verdade. Fato exacerbado se houver público ouvinte. Choque de egos, o pseudo-deslinde não difere de uma disputa futebolística com dois lados a torcer pela ”vitória” do seu e pela ”derrota” do outro.


Seção 2

Uma vez já apresentado o que considero ser uma falha no caráter do homem médio brasileiro (competitividade descomedida), gostaria agora de explanar alguns conceitos desconhecidos ao mesmo em sua ignorância específica acerca do debate formal. A grande maioria das pessoas não conhece a diferença entre o debate e a discussão, pois não conhece a diferença entre opinião e argumento. Discriminá-las-ei, pois.

Antes, porém, gostaria de discorrer sobre mais uma característica que considero ser uma falha de caráter, mas desta vez não generalizadamente. O ”eu sei, você não sabe”. É o ato de zombar de outrem por este não ter conhecimento sobre um assunto, um evento, um fato. Este é um evento corriqueiro em minha vida: ser alvo de zombarias por desconhecer alguma coisa. Como meus interesses são peculiares, é comum que eu não saiba sobre coisas muito conhecidas. E ao perguntar sobre elas, sou escarnecido por minha ignorância.

Além de não ser uma atitude bem-educada do interlocutor, esse comportamento aponta dois problemas subseqüentes. O primeiro retorna à competitividade pré-mencionada (saber mais, estar à frente, tripudiar). O segundo será apresentado com mais detalhes posteriormente e consiste na autodelusão de intelectualidade, isto é, acreditar que possui o conhecimento correto e não aceitar (e até mesmo tolerar) contra-argumentação (presunção e preconceito).

Durante os longos parágrafos até agora, tenho escrito duras críticas ao caráter das pessoas, o que pode dar a entender que estou me jactando em ser um homem santo… Muito longe disso, acho que sou quem mais tem para aprender por aqui. Mas por mais pedante e pernóstico que eu seja, exemplo da chamada ”cultura de verniz”, eu reconheço minhas limitações (que não são poucas). E também sinto muito constrangimento ao ver outra pessoa sendo alvo de chacota por não saber isso ou aquilo. O fato de não ser perfeito não me impede de identificar defeitos na conduta dos outros.

Leonardo da Vinci
Leonardo da Vinci sendo perfeito…

Acusações e confissões feitas, sigamos então com a explanação dos conceitos.

Premissas:

Juízo de fato: a compreensão racional da realidade de algum fato ou objeto.

Exemplos: ”Está chovendo.”; ”Isto é uma bola.”

Juízo de valor: a classificação ética e moral de uma ação ou acontecimento.

Exemplos: ”A prática da caridade é uma boa ação.”; “Aquele imposto é injusto.”

a) Opinião

Opinião é um sentimento. Consiste na sensação de aprovação ou desaprovação, algo que parte do foro íntimo do indivíduo: “eu sinto que está bom”, “eu sinto que está mau”; ”isso me agrada”, ”aquilo me desagrada”; ”eu acho”. Opiniões não são passíveis, portanto, de análise argumentativa, pois não cabe juízo de valor sobre sentimentos ou sensações.

Disso deriva que a única opinião que me importa (ou seja, que vem para dentro de mim) é a minha própria. Independentemente do que ”achem” sobre algo, ou seja, como o considerem (bom ou ruim; agradável, desagradável ou indiferente; desejável ou repudiável), eu, e somente eu, sei o que sinto. As opiniões das outras pessoas sobre como devo agir, o que devo dizer, como devo me portar, quais decisões devo tomar são as opiniões delas, ou seja, são considerações que fazem a partir de seus próprios sentimentos e não devem ser tomadas como parâmetros por mim frente à minha própria vida.

Sou eu, e somente eu, que vivenciarei meus sentimentos, logo, a minha, e somente a minha, opinião deve ter importância. Para esclarecer esse argumento, utilizo o expediente da exemplificação:

”É errado você se sentir triste com isso, pois há pessoas que estão em situação muito pior que a sua.”
“É errado você se sentir feliz com isso, pois há pessoas que estão em situação muito melhor que a sua.”

Essas duas frases tornam facilmente perceptível o cerne de meu argumento. As duas assertivas possuem exatamente a mesma construção lógica, a qual afirma que os sentimentos de um indivíduo e o seu posicionamento frente à vida devem ser pautados pelas outras pessoas. Essa afirmação é absurda, pois nega a independência e a liberdade individuais mais íntimas.

Com isso quero afirmar que opiniões são estritamente individuais e não podem ser consideradas para um debate formal. Pertencem ao âmbito exclusivamente privado. Devem ser respeitadas, porém se encerram em si mesmas: sua opinião é só sua e só importa a você mesmo.

Resumindo: você gostar ou não de alguma coisa não define a natureza dela, apenas mostra a sua própria.

b) Argumento.

Do Latim arguere, que significa ”tornar brilhante”, ”iluminar”.

Ao contrário de opiniões, argumentos podem ser refutados, invalidados ou comprovados, julgados e criticados. Por terem conteúdo próprio, é possível exercer juízo (de fato e de valor) sobre eles a qualquer tempo. Argumentos são proposições racionais que visam afirmar a verdade sobre alguma coisa (dizer o que algo é ou não é), e por isso podem ser verificados ao compararmos a afirmação com a realidade, ou seja, podemos provar se são verdadeiros ou falsos, saber se estão corretos ou não. A correição de um argumento se dá pela investigação de seus fundamentos e de sua estrutura lógica.

Afirmo que a verdade independe da fala, independe dos observadores, não é ”criada” ou ”construída” pelos homens. Cabe a eles tão somente descobri-la, pois ela lá já está. Uma expressão matemática é verdadeira independentemente de quem a profira, seja um analfabeto, seja um doutor em matemática pura. A soma dos ângulos internos de um triângulo forma uma linha reta; ponto, reta e plano têm definição axiomática; os lados e a diagonal de um quadrado são grandezas incomensuráveis. E isso é assim mesmo se nunca houvesse quem o conhecesse.

Afirmo que essa realidade não se restringe à matemática: é assim em todas as ciências, em todo o corpo do conhecimento, incluindo os campos da ética e da moral. Os conceitos de Bem e Mal existem independentemente dos homens e de suas ações. Divirjo, portanto, da idéia hegeliana bem como de toda e qualquer idéia antropocêntrica de produção da verdade por ação ou construção humana. A história existe independentemente dos homens tal como uma árvore faz sim barulho ao cair sem testemunhas.

Um argumento é uma proposição lógica. Deve ser fundamentado em alguma coisa inegável, partir de premissas corretas, ter sentido lógico e ser racional. A partir do processo de dedução (conclusão necessária) ou indução (conclusão possível) afere-se a validade ou a força (respectivamente) da propositura. Assim exercemos juízos sobre as afirmações.

Falácias são falsos argumentos (não são argumentos). Contêm erro(s) de estrutura lógica. O estudo formal das falácias permite identificar falhas no discurso do interlocutor, bem como falhas no próprio raciocínio. As principais falácias são:

-) Erro de silogismo: falta de nexo entre as afirmações;
Todo carro possui rodas. Este veículo possui rodas. Logo, este veículo é um carro.

-) Erro de princípio: partir de pressupostos falsos ou não-comprovados;
Eu sou um homem rico pois (porque) tenho um carro, e todo homem rico tem um carro.

-) Argumento circular: afirmações que afirmam a si mesmas;
A é verdade por causa de B. B é verdade por causa de A. Logo A e B são verdadeiros.

-) Questão complexa: questões que implicam a veracidade de um terceiro elemento;
– Seu irmão mais velho trabalha na marinha mercante?
– Eu não tenho irmãos!

-) Conclusão irrelevante: a conclusão não atende à proposta.
Eu devo comprar um carro novo porque gosto de jogar carteado.

Esses exemplos (grosseiros) facilitam a compreensão do que é uma falácia. Há muitos outros casos, mas não é o foco deste texto um estudo detalhado. Quero apenas apontar a ignorância específica da grande maioria das pessoas que não aprendeu a discernir quando uma fala é válida ou não.

c) Discussão

A discussão é o esporte nacional até de quem não pratica esporte. É o muito bem conhecido bate-boca. Todo mundo fala ao mesmo tempo, ninguém escuta o que o outro está falando, e ninguém chega a lugar algum. Corta aqui, interrompe ali, xinga lá. É a alegoria do pombo-enxadrista: já imaginou um pombo jogando xadrez? Ele não conhece as regras e irá derrubar todas as peças, fazer cocô no tabuleiro e sair voando de peito estufado cantando vitória.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/markcarey/2310361322/

Todo mundo tem a sua ”razão”, pois todo mundo quer ”estar certo”. É o outro que está errado! Todo mundo acha tudo, de tudo, e tudo de tudo. Esse é o resultado da cultura gersoniana que mencionei anteriormente. Não há interesse na verdade, mas em demonstrar que está certo (mesmo quando não está).

Não tenho muito a escrever sobre ”discussão”. Já esgotei minha cota disso. Levei mais tempo do que gostaria para entender que não vale a pena tentar debater com quem quer discutir. Como respondia a vovó: sim-sim, amém-amém. E deixa o outro falando sozinho.

d) Debate

E por fim, o que é um debate? Debate é a contraposição formal de argumentos divergentes acerca de um mesmo tema. É o estudo e o apontamento de falhas na fundamentação e na construção lógica do discurso. Consiste em o indivíduo expor sua estrutura de pensamento ao crivo de outrem para que ”do lado de fora” este possa observar com outra perspectiva (muitas vezes não vista pelo próprio indivíduo) e submeter esse pensamento ao exame externo com resultados confirmatórios ou negatórios.

É a busca de ajuda para averiguação dos resultados de sua própria ciência. Um debate não consiste em vencer ou perder, mas fortalecer ou reformular os próprios conceitos. Ao expor um conceito que verifico por meio do debate ser errado, me beneficio por me livrar de um equívoco; ao expor um conceito que verifico ser correto, me beneficio e fortaleço a estrutura argumentativa daquele conceito para mim e para os demais. Assim, num trabalho humano conjunto, nos aproximamos cada vez mais de conhecer a verdade sobre algo.

A oportunidade do confronto entre dois pontos de vista divergentes permite a interação entre pessoas cujos pensamentos não se corresponderiam de outra forma. Permite a troca de idéias e experiências e contribui para o desenvolvimento de ambos os lados. Para isso o exercício de um debate exige regras muito bem estipuladas e muito bem acatadas pelos debatedores, como aguardar a vez para falar, observar a linguagem e etiqueta, etc.

Infelizmente a idéia de debate no Brasil se restringe ao ”debate” eleitoral que se dá na TV a cada dois anos. Aquilo é tudo (circo, espetáculo, pastelão) menos debate. Ainda assim são mais aceitáveis que os programas de auditório da TV aberta…

Um debate verdadeiro é aquele em que ambos os lados estão dispostos a verificar seus próprios argumentos, pô-los à prova, com fins não de ”derrotar” o lado ”adversário”, mas em melhorarem-se a si mesmos. Lamentavelmente a cultura do debate não existe no Brasil. Ao assistir a vídeos de debates realizados nos EUA, Canadá e Europa, fica evidente o abismo cultural que separa nossos povos.

Em adendo, novamente coloco a Pirâmide de Graham, para conhecimento.

Hiearquia de Graham

Seção 3

E qual é a importância em conhecer esses conceitos?

Aprender a reconhecer e diferenciar esses conceitos propicia melhor uso de uma das principais liberdades humanas, que é a liberdade de expressão. Percebo que as pessoas não têm muito clara a importância da liberdade de se exprimir e quais deveriam ser os limites de tal liberdade.

Liberdade de expressão não é apenas a liberdade de manifestar-se livremente sem censura estatal ou social. Se assim fosse, se resumiria a um bem-estar íntimo de cada indivíduo. Liberdade de expressão consiste na liberdade de poder apresentar idéias, conceitos, argumentos e opiniões. Essa liberdade traz ao seio do debate público a miríada de construções do pensamento humano, favorecendo a heterogeneidade cultural.

Também tem como benefício indireto a possibilidade de facilmente reconhecer quem defende o quê. A identificação de pessoas ou grupos cujos pensamentos e crenças são prejudiciais ao ordenamento do corpo social é facilitada em uma sociedade em que haja ampla liberdade para o indivíduo ou o grupo falar o que quiser.

Os antigos gregos possuíam a idéia de ”parresia” (franqueza na fala). Durante certo período festivo, era permitido a todos falar absolutamente tudo o que quisessem, incluindo criticar (acidamente) os políticos, as instituições, a religião etc. Esse momento de liberdade permitia ao grupo social uma válvula de escape pela qual se aliviavam as pressões socioculturais vigentes. Também permitia a apresentação de novas idéias e conceitos, muitas vezes divergentes da opinião da maioria ou inaceitáveis durante os demais períodos do ano. Era o momento de falar o que quiser, sem receios de punições posteriores.

Essa liberdade absoluta para falar qualquer coisa (exceto criminosamente) é ao meu ver muito bem-vinda em especial na Academia. Ou ao menos deveria ser… O cerceamento praticado pelo status quo por meio de censura explícita ou velada prejudica o livre desenvolvimento intelectual na Academia (e em todo lugar). Temas que não podem ser discutidos, argumentos que não podem ser apresentados, lados que não podem ser defendidos. A imposição sobre determinados temas de uma narrativa a ser seguida para que a produção ”científica” seja aceita reflete em parte o já apresentado anteriormente, qual seja: a idéia de estar sempre certo.

Sustento que a livre apresentação de idéias, conceitos e argumentos permite a averiguação ilimitada da correição das propostas. Se estou certo sobre algo, meus argumentos sairão fortalecidos do debate. Se me for provado o erro, aproximo-me mais da verdade e elimino de meu pensamento conceitos equivocados. Mas para tanto, preciso ter a permissão do corpo coletivo onde o debate ocorrerá para poder expor qualquer idéia ou argumento, por mais estranhos que sejam à corrente de pensamento principal.

Também se faz necessário que o corpo coletivo conheça (e essencialmente respeite) as regras do debate. Não é isso o que vemos. Encontramos discussões em que não se permite a contraposição de idéias se contrárias ao ordenamento estabelecido ou aceito pela maioria; ou monólogos em que grupos se reúnem para escutar mais do mesmo, bebendo da mesma fonte, sem renovação de conceitos ou apresentação de novidades ao discurso.

É exatamente o dueto ”poder falar” e ”ser escutado”, sem o pano de fundo da competitividade, sem a presunção de saber mais do que os outros, que permite uma conversa realmente produtiva, edificante e salutar a todos. Porém quando o assunto são as crenças… Fica muito mais complicado. É o que apresentarei na terceira e última parte deste texto.


Terceira parte: A religião marxista e o papado Lulopetista no país de Paulo Freire

Seção 1

A fé é irracional. Ela parte daquilo em que se acredita, ou seja, daquilo ao que se dá crédito. Cada indivíduo pode dar ou tirar crédito daquilo que quiser, do que sentir ser mais adequado ou alinhado ao seu próprio espírito. Esse sentimento, tal como a opinião, não é submetível ao crivo racional. Não importa o que se diga, o que se argumente, o que se prove: o indivíduo acreditará naquilo em que quiser acreditar.

Difere da mera opinião, pois nesta o indivíduo tem uma participação passiva enquanto naquela a participação é ativa. Uma opinião é um sentimento acerca de algo, não é controlável. Já a fé é uma escolha intuitiva feita pelo indivíduo, que controla o que escolhe a partir de seu livre-arbítrio.

Nesta terceira e última parte, procurarei responder à pergunta que deu origem a esta reflexão: por que ainda há pessoas que defendem a ”esquerda” (dentro do recorte sociocultural brasileiro)?

Segundo expus na primeira parte, vivemos em uma sociedade composta em sua maioria por analfabetos funcionais, isto é, pessoas que não desenvolveram a capacidade de autonomamente obter informações a partir de fontes primárias e, por isso, em última instância dependem de outras para formar seus próprios conceitos e valores. Esses intermediários que interpretarão por elas (não para elas) as informações podem agir de forma benevolente ou maldosa, neste caso explorando a ignorância alheia para mais facilmente manipulá-las segundo seus próprios interesses.

O sistema de educação público hoje não forma adequadamente os estudantes. O nível de instrução obtido por eles é muito baixo. Isso é derivado de uma série de fatores, como descrevi em meu artigo A falácia sobre a educação. Ao final do ciclo de estudos, os alunos continuam alunos (do latim alumnus, ”sem luz”) e não são capazes de exercer sua cidadania dentro da sociedade. Sem poder interpretar sozinhos o mundo, dependendo de outrem para lhes explicar, não podem plenamente exercer a mais íntima liberdade: a liberdade de pensar por si mesmo (filosofar).

Antes de continuar discorrendo sobre o tema, gostaria de salientar que creio que o distanciamento entre letrados e ignorantes por vezes afete a noção da realidade daqueles. Para quem tem acesso à informação, é quase inacreditável certos eventos acontecerem, como uma adolescente engravidar por não saber o que é um preservativo. Ou quando certa vez uma jovem engravidou por ter utilizado erroneamente a pílula: antes da relação sexual, ela tomou uma e deu outra para o namorado tomar.

O nível de ignorância de parte da população chega a esse ponto. São pessoas que não têm noção de conceitos básicos de saúde, de seus direitos e até mesmo de civilidade. Ignorantes quase que em absoluto, sabem apenas o necessário para subsistir.

Para além disso, dessa lamentável situação em que se encontra um extremo da população, no outro extremo a situação também não é das melhores. A Academia não debate com fins de busca da verdade. Conforme bem descrito pelo professor Barros no vídeo em minha postagem A máfia da Academia, dentro do sistema do ensino superior formou-se uma máquina de reprodução de narrativas e ideologias. Aqueles que estão no controle do sistema impedem que correntes de pensamento divergentes do status quo ingressem e/ou participem do diálogo.

Uma vez que a ampla maioria dos nichos acadêmicos na área de ciências humanas é impregnada com a perspectiva de pensamento hegeliano/marxista, em muito auxiliada pelo deturpador sistema de educação de Paulo Freire, radicou-se uma máquina reprográfica de discursos. O aluno chega com uma educação de viés marxista, vai para uma faculdade (d)onde se propaga o viés marxista, produz academicamente em bancas de viés marxista.

Não há conflito de idéias e argumentos. É a perfeição gramsciana: a completa homogeneização do discurso e do pensamento. Um só pensamento, uma só voz. Claro que essa afirmação é um exagero meu, não é uma verdade absoluta. E felizmente estamos longe disso. O que quero é chamar a atenção ao fato de que é possível uma pessoa, por toda a sua formação, nunca ter contato com argumentos contrários às idéias a que foi ensinada desde pequena a defender.

E sem o hábito do debate, o resultado do fortuito encontro com uma posição divergente ou antagônica é terrível. Conforme expliquei na segunda parte, o debate tem como objetivo procurar ativamente falhas nos argumentos, utilizar a criatividade para encontrar contra-argumentos, tudo com o fim claro de saber se estamos certos ou enganados.

Já nossa cultura acredita que um debate é como nos programa de TV, todos apenas exemplos da Telebasura que invade os lares da população, retroalimentando um ciclo vicioso de estupidez e ignorância.

A falta do hábito do debate (e de saber a diferença entre um debate e uma discussão) invariavelmente resulta em discussões acaloradas com opiniões tomadas como argumentos. Sem o hábito de se questionar sobre as próprias crenças e os próprios conceitos, as pessoas defendem apaixonadamente os valores que lhes foram ensinados, muitas vezes sem nem ao menos refletir se estão certos ou não. O indivíduo toma seu pensamento como natural, algo ao qual não se colocam dúvidas e não se toleram críticas.

Associando isso à polarização da Lei de Gérson (vencer em qualquer situação, estar certo sempre enquanto o outro está errado, não aceitar quando está errado) temos uma disputa em lugar de um diálogo. A ânsia em estar do lado ”vencedor” leva o indivíduo a transitar menos entre o argumento e mais entre a paixão.

Quero apontar que não é uma causa específica, mas é a soma de todos esses fatores (doutrinação na educação, ignorância coletiva, homogeneização ideológica, cultura gersoniana) que faz com que pessoas ainda continuem defendendo propostas ”de esquerda”.

Resumindo: as pessoas não sabem nem entendem o que defendem e não querem dar o braço a torcer quando estão erradas. (Puxa vida, tanto texto resumido numa frase só…)


Seção 2

Há ainda os casos mais extremos, aquelas pessoas que se identificam com o grupo, isto é, tomam como própria uma identidade externa. O movimento psicológico passa a ser pautado não pela visão individual, mas pela visão do grupo (que sempre é controlado/influenciado por um ou mais indivíduos).

Ressalvadas todas as ressalvas (não são poucas) que tenho acerca de Olavo de Carvalho, cito-o:

“Uma das experiências mais perturbadoras que tive na vida foi a de perceber, de novo e de novo ao longo dos anos, o quanto é impossível falar ao coração, à consciência profunda de indivíduos que trocaram sua personalidade genuína por um estereótipo grupal ou ideológico. Diga o que você quiser, mostre-lhes mesmo as realidades mais óbvias e gritantes, nada os toca. Só enxergam o que querem. Perderam a flexibilidade da inteligência. Trocaram-na por um sistema fixo de emoções repetitivas, acionadas por um reflexo insano de autodefesa grupal. O histérico não sente o que percebe, mas o que imagina.”

O Lulopetismo é exatamente isso. É mais do que uma questão ideológica, é uma questão de fé. É um caso de fanatismo. Dentro da histeria coletiva, o grupo coloca sua crença naquilo que lhe é dito para acreditar. Invariavelmente compartilhando a visão dos ”detentores da verdade”, cada indivíduo não é capaz de escutar argumentos contrários nem ver as provas de seu engano. Acredita tão cegamente que não é capaz nem ao menos de tolerar o divergente. A realidade não importa: interessa-lhe apenas que está certo e sabe disso.

Agora gostaria de analisar o último caso. E aqueles que não foram ”doutrinados”? Quais são os casos em que as pessoas cientemente defendem o Lulopetismo, ou o marxismo, ou o ideário da assim chamada ”esquerda”? Levanto algumas hipóteses:

a) Possivelmente por falta de informação confiável.

Eu bem sei o que é garimpar na internet para obter alguma informação digna de nota. Há pouquíssimo conteúdo de valor em português, por isso faço a maior parte de meus estudos em inglês. Ainda assim, mesmo reclamando, sou grato. Graças à internet posso ter acesso a esse conteúdo. (E escrever em meu site! ^_^) Tendo asma e todo tipo de alergia respiratória, uma biblioteca física é para mim a ante-sala do hospital. Sebos são inadentráveis, exceto se for meu desejo passar ao menos três semanas acamado.

Vivemos numa era maravilhosa em que o conhecimento está a cliques de distância. Mas como mencionei a informação é de má qualidade. Se o indivíduo depender da grande mídia, estará em maus lençóis. Se assistir ao telejornal, estará mal informado. Se não assistir, estará desinformado.

Bem informar-se passa a ser uma responsabilidade individual. É necessário desenvolver sensibilidade própria para saber em quais fontes deve acreditar, a quais conteúdos deve dar atenção. É necessário desenvolver a habilidade de distinguir as opiniões permeadas em um jornalismo não isento, checar as fontes daquilo que lê. Ver se é aquilo mesmo, constatar se os dados condizem com o razoável.

Levanto a hipótese de que algumas pessoas defendem cientemente o marxismo por não terem obtido informações fidedignas para daí estabelecer um correto juízo de valor sobre tal ideologia. Defendem, portanto, a subjetividade da doutrina, a bela roupagem sob a qual se encobertam os verdadeiros objetivos dos líderes. Em suma: possuem informações incompletas e superficiais sobre a matéria.

b) Possivelmente pela falta do debate.

Seguindo a citação de Jordan Peterson na primeira parte deste ensaio, a prática do debate associada à liberdade de expressão permite o confronto salutar de idéias, argumentos e conceitos com vistas à formação de uma sociedade intelectualmente saudável e sinceramente interessada na verdade e no desenvolvimento científico.

Afirmei que é possível uma pessoa passar por toda sua formação sem ter contato com correntes de pensamento divergentes daquelas com as quais está acostumada a lidar. Nesse caso, a falta de um agente externo que mobilize a reavaliação de conceitos pode culminar na aceitação inquestionada dos mesmos. Levanto a hipótese de que neste caso o indivíduo defende os argumentos em que sinceramente crê, não tendo por si mesmo cogitado contra-argumentações. O erro origina-se, portanto, em sua (inadvertidamente) incompleta metodologia de estudo.

c) Possivelmente pela inserção social.

A necessidade social é uma constante na vida humana. Vivemos em sociedade, seja na família, seja no trabalho. E, para fazer parte de um corpo social, faz-se necessário abdicar de algumas liberdades individuais. Algumas vezes essa liberdade é a de exprimir-se livremente.

Adequando-se ao ambiente da família ou do trabalho, o indivíduo pode sentir ter a necessidade de afirmar aquilo em que não acredita de fato. Levanto a hipótese, portanto, de que algumas pessoas defensoras das correntes assim chamadas ”de esquerda” o fazem de forma mentirosa, por receio de represálias ou por interesse estratégico.

Por exemplo, se no ambiente de trabalho houver uma grande quantidade de partidários de ”esquerda”, alguém que defende o liberalismo pode sentir receio de ser prejudicado ou perseguido, talvez até demitido caso livremente manifeste-se a favor da ”direita”. A pressão social, então, o leva a concordar (externamente) com seus colegas enquanto na realidade não crê naquilo.

Também é possível que o indivíduo tenha interesse em ingressar em determinado grupo social. Nesse caso ele compactuará com as narrativas do grupo em que almeja entrar, porém sem estar sinceramente aderindo ao discurso. Embora evidentemente uma ação moralmente repreensível, esta é uma possibilidade a ser considerada.

d) Por má vontade.

E o último caso é aquele em que o indivíduo conhece de fato a doutrina marxista e a defende.

Conhece o fundamento da revolução e da luta de classes, o ideal do “homem novo”, o conceito de família como origem do mal, os conceitos econômicos da mais-valia e da soma zero, os preceitos contrários às famílias, às religiões e à propriedade privada, e, especialmente, conhece a história das experiências marxistas. Alguém que realmente tem esse conhecimento e ainda defende a ideologia o faz por má fé. Não é um homem de bem.


Conclusão

Com isso encerro este breve estudo finalmente respondendo a questão: o que leva alguém a defender o marxismo? Respondo simplesmente: ignorância ou má fé.

Referências

http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/09/INAFEstudosEspeciais_2016_Letramento_e_Mundo_do_Trabalho.pdf
http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Inaf2018_Relatório-Resultados-Preliminares_v08Ago2018.pdf
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais.html (PNAD e PNADc)
https://ipm.org.br/inaf
https://infograficos.gazetadopovo.com.br/educacao/qualidade-producao-cientifica-no-brasil/
https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/tamanho-nao-e-documento-nossas-universidades-produzem-milhares-de-pesquisas-mas-impacto-global-e-pequeno/
http://olavodecarvalho.org/os-histericos-no-poder/


Falha de expressão ou ato falho?

https://www.youtube.com/watch?v=3IV6EGoLvOo