Blame!, Satania e Beautiful Darkness

E mais um texto em que resolvo ser “crítico” de artes. Na verdade, só quero dar palpite.

Como já escrevi várias vezes, tenho os mais diversos interesses. Pensando sobre eles agora, posso talvez agrupá-los em categorias, como Belas Artes (as 9) e Artesanato, Esportes individuais, Jogos e quebra-cabeças, Campismo, Belicismo, Ciências Naturais, Sociais e Paraciências, Máquinas em geral. Ser um especialista em generalidades causou-me (em parte) rejeição no mundo acadêmico. Meus professores insistiam que eu deveria (no sentido literal de dever ser; obrigatoriedade; praticamente um imperativo moral) focar-me em uma (1) coisa apenas. Isso se contrapõe à minha natureza. Eu nunca foco em algo em particular por muito tempo. Todos esses meus interesses vêm e vão recorrentemente.

Imagine aquela criança que escuta a música do desenho animado do momento. Ela é capaz de repetir milhões de vezes a mesma ladainha, ver e rever o mesmo desenho (ou trecho dele) como que uma vitrola quebrada. Então, do nada, ela se cansa. Esquece completamente aquilo e vai fazer outra coisa.

Eu nunca cresci. Continuo sendo a mesma criança: pego um assunto, fico nele obsessivamente por dias, então me canso, o descarto, e vou fazer outra coisa. Apenas que essa outra coisa é um desses outros interesses peculiares que tenho. Gosto de comparar com uma pessoa que viaja sempre para os mesmos lugares, mas nunca fica tempo demais em cada destino. Por um lado, ela tem o benefício da familiaridade, do conhecimento prévio, de sentir-se em casa. Por outro lado, ela mantém a satisfação da contínua descoberta, a curiosidade de ver o que mudou desde a última vez em que esteve lá, a sensação de aquele lugar sempre ser uma novidade.

Disso posto, estava mais uma vez garimpando one shot graphic novels (novelas gráficas curtas – histórias em quadrinhos artísticas) e encontrei uma que me colocou contra uma questão pessoal que tenho ao lidar com ficção científica: a proporção do suspension of disbelief, isto é, a “suspensão da descrença”. Sempre que lidamos com histórias de ficção, sejam de fantasia, sejam de ciências, há o artifício artístico (um pleonasmo, desculpe) em que se recorre à suspensão da descrença. O autor pede, subentendidamente, que o leitor aceite certos pontos do enredo como verdadeiros, ainda que não lhes haja explicação.

Um exemplo simples vindo da cultura dos quadrinhos é a resposta de Stan Lee, ao falar sobre seus personagens. Certa vez lhe perguntaram, “Mas como esses poderes funcionam?”. No que ele respondeu: “Não faço idéia, só sei que eles funcionam.”. Super-heróis são personagens fictícios, não existem de verdade, não estão presos às regras da vida real. Como qualquer outro personagem, são meras ferramentas que o autor ou o roteirista usam para contar uma história. Não interessa como o Superman voa. Ele voa e pronto. Não interessa como o Batman engana a Receita Federal do país dele. Ele sonega, e ninguém percebe.

Eu tenho em mente tudo isto: de que ficção é ficção, de que não há nem precisa haver explicação para as coisas inventadas. De que o que interessa é a história a ser contada. Contudo, no âmago, minha mente continua tentando encontrar um senso naquilo. Talvez seja minha forma de interagir com as histórias. Eu espero que elas tenham algo a ensinar, algo que eu possa aprender. Por isso critico tudo o que leio o tempo todo, todas as fontes, todas as falas. Incluindo as fictícias.

Toda essa digressão para finalmente chegarmos ao ponto que me deixa encafifado. Qual é o limite para a suspensão da descrença? Até onde um autor pode pedir que seu leitor aceite, ou ao menos não questione, o funcionamento de seu mundo fictício? Antes de chegarmos à Satania, quero falar sobre Blame!.

Blame! (pronuncia-se Blam!) é um mangá cyberpunk. Num futuro distópico, a humanidade se vê fragmentada, habitando uma incomensuravelmente gigantesca mega-estrutura. O personagem principal viaja por essa mega-estrutura procurando sei lá alguma coisa.

Eu não consegui passar dos primeiros capítulos de Blame!. E meu problema foi exatamente a mega-estrutura em que se passa a história. Nessa obra, o autor procurou contar a história de forma mais visual. Há pouquíssimas falas ou interações entre os personagens, sendo que a maior ênfase se dá na própria mega-estrutura em que eles se encontram. Ou seja, o ambiente em que se passa a história é, em si mesmo, um personagem (ainda que inanimado). É parte constitutiva da narrativa. Não é apenas o tabuleiro do jogo, é também um dos jogadores.

Um dos motivos (o motivo menor) que me fizeram parar de ler Blame! logo nos primeiros capítulos foi que considerei a arte aquém da esperada para esse tipo de narrativa. Se o ambiente terá tanta ênfase, considero que a arte deveria ser bem melhor. Pareceu-me excessivamente “suja”, como que, em uma ânsia de buscar o hiperdetalhismo, o autor tentou colocar em preto-e-branco aquilo que precisaria estar em cores. É perfeitamente possível alcançar hiperdetalhismo em preto-e-branco, como no caso dos autores Hiroya Oku (Inuyashiki), Katsuhiro Otomo (Akira), Kaoru Mori (Otoyomegatari) e Takehiko Inoue (Vagabond). Mas a metodologia que Nihei Tsutomu usa em Blame!, ao menos para mim, não funciona. É uma crítica similar a que fiz ao ler Wolf Guy – Ookami no Monshou, embora notadamente aqui a qualidade técnica seja muitíssimo superior. Há sim quadros muito bons, mas o conjunto da obra a torna visualmente cansativa.

Mas o principal motivo que me fez parar de ler foi que não consegui ativar minha suspensão da descrença em relação ao mundo de Blame!. A idéia da mega-estrutura é estupefante, causa perplexidade, causa admiração. Tudo bem, concordo, é muito bacana, muito legal. Porém é fisicamente impossível. Não foram apresentados no mangá, ao menos nos primeiros capítulos que li, outros elementos que expliquem (e sustentem) a diferença entre a física desse mundo com a realidade em que nós, leitores, vivemos. Pelo contrário, a história, parece-me, passar em um futuro alternativo de nossa própria realidade. Ou seja, com as mesmas leis físicas que temos na vida real. Foi nesse momento em que não mais consegui ler. Foi como se houvesse uma farpa em minha mente gritando: “mas como?! … isso não faz sentido!”.

O cenário impossível de Blame! não funciona para mim por dois motivos. O primeiro é que, quando se estuda um pouco de arquitetura, a gente sabe que a resistência dos materiais de construção é determinante para definir o tamanho máximo de uma estrutura. Inexiste material no planeta Terra capaz de sustentar uma estrutura com mais de 25 Km de altura. O que nos leva ao segundo e mais decisivo motivo de eu não conseguir desligar minha descrença para apreciar essa ficção científica.

A mega-estrutura não é apenas horizontal, ela também é vertical. São incontáveis níveis acima e abaixo, cada qual com quilômetros de altura. E onde fica a atmosfera nisso? Por que nos níveis superiores a atmosfera não é rarefeita e, mais importante, como que nos níveis inferiores as pessoas sobrevivem à pressão? Quanto mais profundo é o nível de uma escavação, maiores são as pressões atmosférica e litostática, e, conseguintemente, maior é o calor ambiente.  Este aumenta por volta de 100°C a cada 3,5Km de profundidade. Cadê o calor? Cadê o ar rarefeito? Como conseguem água? Como conseguem energia? De onde tiram comida? De onde vem o oxigênio para respirarem?

Ou seja, o lugar não faz sentido a menos que seja introduzido outro elemento de ficção científica, o que não foi feito. O lugar não é crível, embora seja apenas mais um “personagem” imaginário. Eu aceito o Superman voar, o Goku soltar raios pelas mãos, os anões cavarem Moria até chegar ao Balrog, Falkor voar mais rapidamente do que o Nada, mas, sei lá porque, a mega-estrutura de Blame! não teve a mesma benesse que disponho aos demais…

Satania, de Fabien Vehlmann, em certo momento, causou-me exatamente a mesma sensação. E é o motivo de eu estar escrevendo tudo isso.


A história de Satania consiste em uma aventura ao estilo de “Viagem ao Centro da Terra”. Diferentemente de Blame!, Satania procura explicar e embasar “cientificamente” todas as coisas que vão acontecendo. Muito se fala sobre a teoria da evolução de Darwin, dão-se explicações biológicas sobre a origem e o comportamento das criaturas fantásticas que são encontradas, da geologia do local etc. Muitas questões sobre mundo subterrâneo em que o conto acontece não são respondidas, mas não fazem falta. Embora a ambientação seja fundamental para compor a história, o que importa não é o lugar, mas sim a aventura vivida pelos personagens.

Sim, Satania é um lugar impossível. Se nenhuma bactéria é capaz de sobreviver a temperaturas acima de 120°C, a formação de um ecossistema complexo inteiro na base de um vulcão é pura fantasia. Mas, repito, isso não é importante. A história se foca na aventura, nas decisões dos personagens, na tentativa de colocar a realidade das decisões humanas naquele mundo incrível. O enredo se dá nas pessoas, não no lugar em que a história acontece. As ”explicações” constroem apenas a ambientação, servem como lembrete contínuo de que se trata de uma história de cientistas perdidos em um mundo inusitado.

Essa credibilidade ”científica” também se contrapõe ao traço, normalmente utilizado para histórias infantis. Esse jogo entre o fantástico e o real, o científico e o impossível, a estética lúdica e os eventos dramáticos é muito bem trabalhado. Infelizmente Satania peca em seu final. Nas penúltimas páginas, como que para correr e encerrar a história, o autor opta por transformar a aventura em um horror cósmico, à la Junji Ito. Poderia ter simplesmente trocado a parte de horror cósmico para horror psicológico e o impacto seria o mesmo (foi uma decisão realmente estranha para mim e destoa de todo o resto do enredo). Ao menos a viagem de retorno para casa da protagonista Charlie é um toque bem bacana.

Percebe a diferença entre as histórias?
Na primeira, a suspensão da descrença não me é possível por se tratar de um mundo impossível.
Na segunda, também é um mundo impossível, mas não faz diferença para mim.
(trocadilhos, trocadilhos)

Clarificando-me: a suspensão da descrença é necessária para o consumo de qualquer obra de ficção. Seja fantástica, seja científica, da magia até o futurismo. Porém há limites que devem ser respeitados, e esses limites derivam do foco que se dá ao artifício de enredo. Se é dada demasiada importância a esse artifício, ele precisa ser muito bem pensado e bem construído, pois senão a história não fará sentido. Se a narrativa se concentra nas ações e relações entre os personagens, o plot device (dispositivo de enredo) é um mero recurso de ambientação.

Outra graphic novel que posso mencionar aqui é Jolies Ténèbres (Beautiful Darkness, ou Aurora nas Sombras), obra também de Fabien Vehlmann como co-autor e Marie Pommepuy. O estilo gráfico é similar ao de Satania. A história consiste em personagens de fantasia que vêm para o mundo real. Saídos (literalmente) da mente de uma criança, tal como ela, vêem o mundo ao seu redor. Porém no mundo real há fome, há perigos, há morte. A história segue, em especial, a personagem principal Aurora, que me parece ser a auto-imagem da criança que a imaginou.

Nessa história, Aurora comete um ato que, em meu julgamento, a torna irredimível. Imperdoável. Comparando-a com os muitos outros personagens, também moralmente repreensíveis, nada a diferencia deles. Terá sido essa uma estratégia narrativa dos autores? Quiseram eles mostrar que nem sempre podemos nos identificar com os personagens de uma história? Quiseram eles dizer que todos têm uma mancha de escuridão em seu caráter, em seu passado? Quiseram eles só contar uma história que calhou de eu não gostar? (Tomei raiva da personagem.)

Tanto faz, não é isso que quero salientar. Citei Beautiful Darkness porque ela representa bem o argumento deste texto. Os elementos fantásticos de uma história não precisam ser explicados, por mais absurdos que sejam. Percebeu que em nenhum momento eu questionei sobre a origem dos personagens? Eu questionei sobre a trama, comentei sobre os personagens e suas ações, mas nada reclamei sobre o elemento de fantasia. Não há explicação de como aqueles personagens vieram para o mundo real, e isso não importa diante da história que está sendo contada. Essa questão nem ao menos é levantada. Eles estão lá e pronto, tais como os heróis voadores ou os reinos subterrâneos com seus dinossauros no Centro da Terra.

A suspensão da descrença é um artifício poderoso, todavia delicado. No caso de Satania é fácil suspendê-la, pois a adrenalina da aventura ofusca completamente questões secundárias. Já em Blame!, a estrutura (trocadilho intencional) do enredo carece de muito mais explicações. E falando em estruturas e credibilidades, não queria crer que esta semana começa obra para tirar infiltração aqui em casa… Aff… Cadê os anões de Moria quando a gente precisa deles?

Mensagem nº 365

“O significado da vida é dar significado à vida.”

Viktor Emil Frankl
+ Viena, 26/03/1905 + Viena, 02/09/1997
Neurologista, psicólogo e filósofo austríaco.

 

Triggernometry Meets Guilty Feminist | Triggernometry

Triggernometry Meets Guilty Feminist | Triggernometry

Deborah Frances-White é uma comediante, autora e roteirista britânico-australiana. Ela é mais conhecida por apresentar o podcast The Guilty Feminist, onde explora questões feministas com humor e honestidade.

 

PQP.

Durante a primeira hora eu escutei com bastante atenção os argumentos apresentados por essa senhora e consegui compreendê-los, bem como a estrutura subjacente de seu ponto de vista.

Porém nada disso se sustenta frente a um escrutínio mais minucioso. Após duas horas e meia, foi como se ela tivesse falado, falado e não dito nada…

O primeiro trecho trata da questão do homossexualismo e identidade de gênero. São tratados dois focos de argumentação. O primeiro é o de que as pessoas levam tempo para se acostumar a mudanças sociais. Na época vitoriana, os homens usavam cabelos longos. Durante as Grandes Guerras, para evitar piolhos nas trincheiras, o corte de cabelo curto foi padronizado. Passou-se a identificar o cabelo curto como sinal de masculinidade. Na década de 1960, quando homens voltaram a usar cabelos longos, foram logo alvo de zombarias, por se tratar de um traço cultural agora relegado a mulheres. Algo similar ocorreu quando mulheres começaram a usar calças, um traço culturalmente associado ao homem. Ela também traz para o debate a questão da orfandade e de como o preconceito contra órfãos foi se transformando ao longo do tempo.

Esse argumento não se sustenta por não se tratar de características culturais e sim biológicas fixas. Um homem nasce homem. O fato de dizer que é uma mulher não o torna uma mulher e vice versa.

O segundo argumento do primeiro trecho trata da idéia de gênero fluido, que a identidade de gênero é um espectro e que diversas sociedades indígenas tratam seus membros dessa forma. Numa mostra do batido discurso do ”nobre selvagem”, ela tenta equivaler a cultura branca européia com as diversas culturas silvícolas ao redor do mundo, em especial a aborígene (australiana).

O problema desse argumento é que todas as grandes civilizações tiveram e têm distinções entre a posição do homem e da mulher, sendo essas distinções ainda muito mais acentuadas em civilizações orientais. A diferença social entre homem e mulher é muito mais atenuada na atual sociedade ocidental do que em outros lugares do mundo, como o mundo eslavo, islâmico, chinês ou do sudeste asiático.

O segundo trecho trata da cultura do ”cancelamento”, o conhecido boicote de pessoas, muitas vezes comuns, por não se alinharem a determinado discurso ou narrativa. Ela defende que há pontos positivos nos movimentos #metoo e congêneres, pois permitiram que denúncias fossem feitas em meios que antes eram impenetráveis. Mais no sentido de uma discussão sobre o assunto, ela concorda que houve excessos e que toda ferramenta pode ser usada para o mal, porém minimiza as experiências pessoais de pessoas que foram vítimas desses excessos.

O contra-argumento é que o uso indiscriminado dessa metodologia levou à retaliação cultural e ao que hoje está sendo chamado de ”fadiga cultural”. O homem branco heterossexual cristão vem sendo há muito tempo, mais de uma década, constantemente e progressivamente perseguido em todos os meios de comunicação e narrativas políticas de orientação neomarxista pós-moderna. Mais do que natural voltar-se visceralmente contra esse discurso, donde conseqüentemente testemunhamos o aumento da direita radical.

Passada essa primeira hora, ela embarca na repulsa feminista ao trabalho de Jordan Peterson (ver também) e o compara a Andrew Tate. Não apresenta argumentos além de que o discurso de Peterson lhe desagrada. Disso ela apaixonadamente representa Trump e Musk como demônios, que são capitalistas obcecados pelo poder etc. Sua definição de extrema-direita é a de que ela está muito além da questão econômica, pois advogaria pela imposição de uma cultura branca heteronormativa patriarcal, e que isso equivale ao fascismo.

O problema dessa linha de argumentação é o de que a esquerda usa tanto esses chavões e rótulos que essas palavras perderam totalmente seu peso. Quando vemos a ascensão de movimentos realmente neonazistas, esse fato é minimizado, pois qualquer um que não concorde com as narrativas de esquerda assim é alcunhado.

O penúltimo trecho do vídeo fala sobre a obsessão com políticas identitárias e de como isso prejudica a formação de pontes de diálogo entre pessoas que estão em pólos opostos do espectro político. Ela demonstra não conseguir construir essa ponte, mesmo sendo seu livro exatamente sobre criá-la…

E na parte final ela tenta fazer terapia com os entrevistadores…

Sugiro ver no Youtube e ler os comentários. É muita coisa para dissecar neste curtíssimo resumo.

Elogio aos funcionários da Rede Estadual de Saúde do Estado do Rio de Janeiro.

Este texto foi registrado em duas Ouvidorias (Federal e Estadual).

Protocolo: 202520000602259
Chave de acesso: IXM8D8
PROT GERJ: 202505025695750

Compreendo que dentre os incontáveis protocolos enviados para essa Ouvidoria, os elogios sejam tratados em segundo plano. Porém, rogo que esta manifestação chegue aos funcionários dos estabelecimentos, como reconhecimento e gratidão pelos esforços diários das equipes.

Minha mãe, Maria de Fatima Figueira sofreu um infarto e foi internada dia 16/04 na rede Estadual de saúde.

O atendimento realizado pela equipe da UPA 24hs Engenho Novo foi impecável. TODOS os funcionários nos trataram muito bem, os médicos, os enfermeiros, os seguranças e o pessoal da limpeza. Todos nos trataram muito bem.

O cuidado e a dedicação de toda a equipe salvou a vida da minha mãe. Tudo muito limpo, higienizado, 24h de observação, alimentação e cuidados.

A equipe de ambulância que fez as transferências para o Hospital Pedro Ernesto e em seguida para o Hospital Anchieta nos tratou com respeito, profissionalismo e sensibilidade.

No HUPE encontramos um ambiente hospitalar higienizado e próprio para o cateterismo.

Finalmente no Hospital Estadual Anchieta, minha mãe recebeu um tratamento humanizado e completo. Dentistas, psicólogos, assistentes sociais. Os funcionários do atendimento me trataram muito bem e as enfermeiras cuidaram da minha mãe de forma humanizada.

TODOS os funcionários da rede de saúde, médicos, enfermeiros, socorristas e equipes de apoio nos trataram muito bem. E, repito, salvaram a vida da minha mãe.

Aqui deixo meu registro de agradecimento e elogio.

Rogo novamente que esta manifestação chegue a esses funcionários. Sei que é difícil, mas eles merecem esse reconhecimento público de seus esforços, profissionalismo e compaixão.

Mensagem nº 364

Para ver um mundo em um grão de areia e um paraíso em uma flor selvagem, segure o infinito na palma de sua mão e a eternidade em uma hora.

[Estrofe inicial de “Auguries of Innocence” – póstumo – 1863)
William Blake
* 28/11/1757 + 12/08/1827
Poeta, pintor e tipógrafo inglês

Mensagem nº 363

“Recorda que toda dor, como toda nuvem, forma-se, ensombra e passa.”

Francisco Cândido Xavier
* 02/04/1910, Pedro Leopoldo, Minas Gerais + 30/06/2002 Uberaba, Minas Gerais
Escritor brasileiro

A Revolução da Inteligência Artificial

Texto adaptado. Fonte ao final.

Existe uma profunda idéia por trás da atual Revolução da Inteligência Artificial: que a predição de padrões pode levar à inteligência. Tudo o que a máquina vê ou ouve, toda ação que ela toma, mesmo conceitos e idéias construídos, são todos entendidos da mesma forma, isto é, como reconhecimento de padrões. Quando a máquina aprende a predizer padrões, ela também pode criá-los, imitando e, freqüentemente, superando a habilidade humana. O que nós estamos chamando de Inteligência Artificial é uma máquina gigante de predição de padrões criada copiando a solução que a natureza encontrou para aprender. Podemos dizer que a natureza desenvolveu o ato de aprender em três etapas diferentes.

A primeira etapa é o aprendizado evolucionário, que é construído com a simples estratégia de tentar coisas aleatórias (mutações) e ver o que funciona. Esse é um processo muito lento que acontece ao longo de gerações e é incapaz de se adaptar a rápidas mudanças ambientais.

Então a natureza construiu uma segunda etapa muito mais rápida de aprendizado: usar o cérebro para se adaptar. Permitir que o comportamento (ações e decisões) do ser vivo se adapte ao longo de sua própria vida. O cérebro permite que o organismo mesmo tente coisas diferentes e repita o que funciona baseado na experiência (memória) e no mecanismo de reforço baseado em recompensa ou dor.

Essa é a base para o paradigma de aprendizado de máquina da inteligência artificial. Em lugar de programar instruções passo a passo, nós deixamos a máquina aprender por si mesma. Esse conceito vem desde a década de 1960, demonstrado a partir de mecânicas de jogos. Ao tentar todas as combinações possíveis associadas a um sistema de reforço de aprendizado (premiando jogadas corretas e punindo jogadas erradas), demonstrou-se que a própria máquina seria capaz de identificar padrões de jogos perfeitos.

Essas estratégias de vitória emergiram diretamente da experiência, não de programação. Mas elas possuem uma grande limitação. Nesse modelo de aprendizagem artificial, é necessário que haja espaço para armazenar todas as combinações possíveis.

Para verdadeiramente imitar o cérebro humano, máquinas ainda precisariam desenvolver sua própria forma de reconhecimento de padrões, o que nós chamamos de abstração. Nós somos capazes de formar abstrações automaticamente, ignorando diferenças triviais enquanto nos focamos nas similaridades.

Este foi o motivo pelo qual este ensaio me chamou a atenção. O desenvolvimento da linguagem como ferramenta de abstração de conceitos é o instrumento fundamental da Filosofia. A capacidade de reconhecimento de padrões e suas implicações no comportamento humano também são tema de discussões sobre a psique humana, como bem argumentam Richard Dawkins e Christopher Hitchens.

Veja também: Como a linguagem modela a maneira como nós pensamos?

Abstrair permite ignorar as diferenças sem importância e atentar aos padrões intrínsecos das coisas. Para construir uma máquina capaz de aprender a abstrair conceitos, pesquisadores olharam para a natureza. O modo como o cérebro funciona em camadas de rede de neurônios, como essas redes formam circuitos que criam padrões em cascata durante o processamento de informações, e como quanto mais profundas forem essas camadas, mais específica será a informação. Pensamentos são identificados com padrões de atividade neuronal, de modo que hoje é possível dizer em que imagem você está pensando ao observar sua atividade cerebral.

O primeiro ”cérebro” artificial foi construído por Frank Rosen em 1958, usando transístores agrupados em três camadas. A primeira camada foi conectada a uma “retina” artificial capaz de ler os píxeis de uma imagem de forma direta. As demais camadas foram ajustadas de forma aleatória. A saída registrava apenas duas possibilidades, se a imagem seria um quadrado ou um círculo. Esse circuito aprendeu por tentativa e erro. Cada conexão entre os ”neurônios” era controlada por um potenciômetro que ajustava o fluxo de eletricidade. Consistia numa versão mecânica daquilo que o cérebro humano faz. Os ajustes eram feitos manualmente para ensinar à máquina a reconhecer as imagens. Após várias iterações, ela se tornou capaz de reconhecer padrões por si mesma. Esse é o princípio do algoritmo para o aprendizado de máquina usado hoje, lidar com pesos de ”certo” e ”errado”.

Veja também: O transistor: um documentário de 1953 antecipando o futuro impacto na tecnologia

Nesse exemplo, parte da rede neural aprendeu a se tornar sensível somente a curvas, já outra parte se tornou sensível a linhas retas. Em 1980 o mesmo conceito foi usado para desenvolver um leitor de números, capaz de reconhecer os algarismos de 0 a 9 escritos à mão. Após aprender com milhares de exemplos, as primeiras camadas da rede reconheciam padrões de curvas e as camadas mais profundas eram capazes de reconhecer padrões complexos. Desse modo, o infinito universo de combinações de curvas foi reduzido a apenas 10 resultados possíveis. É possível visualizar na rede os grupos específicos de neurônios que reconhecem cada imagem. Esse salto tecnológico é o que se chama de reconhecimento de ”conceitos”.

O próximo salto ocorreu em 2012. Durante o desafio anual de desenvolver um computador capaz de reconhecer imagens, a mesma abordagem foi utilizada numa escala muito maior. Uma grande rede neural foi treinada com milhões de imagens. Descobriram então que, enquanto as camadas mais superficiais da rede ainda detectavam apenas formas simples, as camadas mais profundas eram capazes de descobrir por si mesmas padrões cada vez mais complexos de texturas e mesmo padrões de face. Além de aprender por si mesma, a rede neural era capaz de superar a capacidade humana de reconhecimento de padrões sem nenhuma programação prévia, algo antes considerado impossível.

Quanto maior e mais profunda for a rede neural, mais complexas são as tarefas que ela pode realizar e maior é sua capacidade de reconhecimento de padrões. Voltando a 1992, Gerald Tessaro criou uma rede neural que aprendesse o jogo de Gamão. Ela não foi programada com as regras do jogo, apenas observou as posições no tabuleiro até ser capaz de reconhecer quais padrões indicavam vitória e quais indicavam derrota. O próximo passo foi a rede passar a predizer quais seriam os próximos movimentos, quais as probabilidades de vitória e quais as melhores jogadas a serem realizadas.

Há poucos anos a OpenAI começou a aplicar os mesmos princípios de reconhecimento de padrões para a física do mundo real. Eles treinaram uma mão robótica para manipular um cubo. Não foi programado nenhum movimento específico. Uma grande rede neural receberia uma imagem como entrada e a saída seria a probabilidade de vários movimentos motores. O sistema aprendeu por meio da simulação de milhões de tentativas, descobrindo padrões de manipulação bem sucedidos por si mesmo. O resultado que emergiu da experiência foi surpreendentemente parecido com o movimento humano.

Em problemas complexos como o futebol de robôs, a rede neural aprende a andar, chutar, antecipar jogadas e bloqueá-las antes que elas aconteçam. Todos esses comportamentos complexos surgiram do mesmo processo de aprendizagem. Chamamos isso de abstração comportamental.

Embora todos os experimentos até então tivessem sido bem sucedidos, eles somente eram capazes de treinar a inteligência artificial para o que se pode chamar de abstração restrita, isto é, treinar para fazer uma única tarefa específica. Os sistemas são capazes de realizar a tarefa muito bem, mas somente aquela tarefa. Desse modo, uma inteligência artificial capaz de fazer qualquer coisa em geral ainda parecia ser inviável.

Até 2016 o aprendizado sem supervisão humana era um problema ainda não resolvido para o aprendizado de máquina, e ninguém tinha idéia de como resolvê-lo. Foi então que a inteligência artificial atingiu a terceira camada de aprendizado da natureza: a linguagem. A linguagem permite que um indivíduo aprenda não por meio de experiência própria, mas a partir da experiência de outras pessoas, usando sua própria imaginação. Com a linguagem, vem a imaginação de propósito geral. Qualquer coisa que possa ser posta em palavras pode ser imaginada.

Para atingir essa meta, seria então necessário compreender a matemática por trás da linguagem. Claude Shannon, o pai da teoria da informação, já nos anos 1940, nos ajudou a ver a linguagem como uma seqüência de predições, onde cada palavra que se diz é escolhida a partir de um conjunto de palavras possíveis. Desde 1980 pesquisadores treinavam pequenas redes neurais para predizer quais os próximos movimentos em jogos. Da mesma forma, as redes neurais poderiam predizer quais palavras se seguem as já escritas. A rede forma sozinha grupos de palavras similares, agrupa verbos com verbos, substantivos com substantivos, sinônimos etc. automaticamente, a partir da predição de palavras. As redes são capazes de reconhecer estilos diferentes de escrita, de Shakespeare à matemática, e de predizer a continuação do texto.

A empresa OpenAI treinou uma vasta rede neural com os comentários escritos por milhões consumidores na página de compras Amazon. Ao processar o texto, a rede encontrou padrões, tal como os padrões das redes de reconhecimento visual. A partir da gramática, a rede conseguiu distinguir idéias complexas, incluindo os sentimentos dos consumidores, se estes estavam satisfeitos ou não com os produtos. Esse reconhecimento do estado emocional positivo ou negativo dos consumidores foi superior ao de sistemas especializados. Foi essa descoberta que levou ao desenvolvimento do GPT. Esse sistema é capaz de aprender linguagem por si próprio.

Veja também: Críticas ao ChatGPT

Quando o GPT-1 foi treinado, foi feita a maior rede neural até o momento e foi treinado com milhares de livros. O objetivo geral era que a rede fosse capaz de predizer a próxima palavra de uma sentença, mas os pesquisadores se surpreenderam com o resultado. A rede não apenas podia continuar qualquer segmento de texto, como era capaz de responder a questões que não estavam previamente escritas. Essa foi mais uma evidência de que a simples predição estava levando ao entendimento real .

Assim, o GPT está sendo treinado com cada vez mais dados, de livros à internet e futuramente todo o conhecimento humano. Algo que o GPT revelou é sua capacidade de aprender e entender conceitos novos apenas os descrevendo, o que foi chamado de aprendizagem contextual. Ele foi ainda mais longe, demonstrando que sua habilidade de aprender a partir de novos exemplos era tão rápida quanto a habilidade humana em compreender novos conceitos. Uma rede neural desse tipo pode aprender novos comportamentos apenas por suas descrições.

Outra grande revelação foi descoberta com o GPT3. Ao ser treinado com suas próprias respostas, primeiramente ele foi treinado a seguir instruções, o que o fez ser bom em seguir ordens; depois ele foi treinado se suas respostas eram coerentes ou não, resultando em respostas cada vez mais coerentes; e finalmente ele surpreendeu demonstrando que esses sistemas funcionam de forma melhor se forem permitidos a gerar respostas passo a passo, do mesmo modo como humanos entendem melhor as coisas quando falamos em voz alta ou explicamos a nós mesmos o que estamos fazendo.

Esses experimentos mostraram que em lugar de construir redes cada vez maiores, podemos apenas deixá-las ”pensar”, ”raciocinar” por mais tempo. Redes neurais, assim como a mente humana, podem usar tanto a intuição rápida quanto raciocínio lento e deliberado aprendido tanto pela experiência quanto pela imaginação. Isso marcou a entrada em uma nova era da computação, onde máquinas podem operar ao nível de conceitos e idéias. Essa abordagem rapidamente se expandiu para além de texto quando os pesquisadores perceberam que se poderia tratar tudo como um tipo de linguagem, esmiuçando toda a informação em seqüências: músicas são seqüências de notas, vídeos são seqüências de imagens que geram a noção de movimento etc. É possível gerar músicas novas predizendo qual deverá ser a próxima nota, procurando reconhecer quais são os padrões daquela música.

Todos os padrões possíveis são levados em consideração numa rede neural, pois sua arquitetura lhe permite observar tudo em todo lugar ao mesmo tempo. Ela não é capaz de predizer apenas o próximo passo. A cada etapa da resposta ela se retroalimenta e reexamina toda a seqüência, o contexto da resposta, e dá o próximo passo. Esse modelo de transformação de conceitos é tão eficiente que ele pode ultrapassar domínios específicos. Agora um modelo pode entender palavras, a partir delas gerar imagens, então gerar vídeos que guiem os movimentos de um robô para que ele execute alguma tarefa no mundo físico. Um robô pode executar ordens expressas apenas por palavras usando sua “imaginação”.

Essa capacidade espelha o funcionamento do cérebro humano, que em sua raiz se baseia em reconhecimento e predição de padrões. Esses são os três estágios ou etapas do aprendizado: tentativa e erro, manter o que funciona e descartar o que não funciona (evolução); aprender por experiência direta (memória e imaginação); abstração por meio de linguagem. Tudo isso aconteceu muito mais rápido do que qualquer um poderia esperar.

Os pesquisadores dizem que já podemos ver o caminho para a Inteligência Artificial Geral, a inteligência verdadeira, capaz de algo equivalente à consciência humana. A questão principal não é se ela será atingida, mas como ela será utilizada. Estamos ingressando numa era de incertezas, onde estaremos lidando com coisas tão inteligentes ou até mais inteligentes do que nós. Será possível descobrir uma maneira de fazer com que elas nunca queiram assumir o controle? Porque se elas quiserem assumir o controle poderão facilmente se forem mais inteligentes do que nós. No final, o futuro da inteligência, seja artificial ou humana, pode depender não se as máquinas realmente entendem, mas dos padrões que escolhemos adotar e, mais importante, da agência que lhes concedemos.

How AI Took Over The World | Art of the Problem
One insight changed everything… intelligence can emerge from pattern prediction. This is a capstone video featuring key insights from the entire AI series.

From the first neural networks built with matchboxes and beads to today’s AI systems that can reason, create, and understand language, this video reveals how machines learned to think by copying nature’s three-layered approach to learning. We’ll journey through the key breakthroughs – from simple visual pattern recognition to game-playing AIs that developed “alien” strategies, and finally to language models that can imagine anything we can describe. Along the way, we’ll discover how researchers unlocked each layer of intelligence: evolutionary learning that keeps what works, reinforcement learning that adapts within a lifetime, and finally, language learning that allows knowledge to be shared across minds. This is the story of how pattern prediction became pattern generation, and how machines learned to think… one layer at a time.

 

Como cuidar de um filhote de passarinho órfão?

Como cuidar de um filhote de passarinho órfão – tudo o que você precisa saber! | Patas em Pauta

“Esse vídeo tem tudo o que você precisa saber para cuidar de filhotes de passarinhos órfãos, incluindo nutrição, aquecimento, combate a parasitas, adaptação para soltura, e muito mais! Nós vamos ver 8 PONTOS essenciais para você ajudar esse passarinho cuja vidinha está agora nas suas mãos! Assim como eu ajudei o Píps, o passarinho da capa do vídeo que eu encontrei abandonado! Eu consegui filmar cada passo dos cuidados com ele, para ficar bem fácil das pessoas entenderem e assim poderem ajudar outros bebês! Lembrando que só devemos tentar cuidar em casa de filhotes de passarinhos se na nossa cidade não existe local especializado para recebê-lo, como IBAMA, CETAS, universidades, clínicas veterinárias especializadas em animais silvestres, etc. E mesmo assim, sempre visando a devolução do filhote à natureza, pois além de ser crime, a manutenção de animais de vida livre em cativeiro é bastante cruel. Os pássaros devem viver em liberdade, sem restrições em seus movimentos e em sua jornada de vida.”

O Brasil precisa mais de médicos ou de filósofos?

Médicos.

 

 

Ainda está aqui? Pois bem, continuemos. Apareceu uma questão nas redes sociais que gerou interesse público. Um professor de filosofia numa faculdade de medicina estava recebendo uma remuneração menor que a de seus colegas professores médicos. Ele moveu uma ação jurídica trabalhista contra seu empregador (e ganhou a ação). Isso gerou interesse na esfera da docência em filosofia referente à desvalorização do professor dessa área.

Ocorre que a academia brasileira, assim como qualquer outra, não forma filósofos. Forma, sim, professores de filosofia. E há uma diferença muito grande entre ser filósofo e ser professor de filosofia. Num verdadeiro esquema de pirâmide, professores de filosofia formam outros professores de filosofia. Nada mais que isso. Mergulhados num ranço ético e estético, fazer faculdade de filosofia serve apenas para produzir artigos que ninguém além de seus pares lerá, sobre temas que a ninguém além de seu orientador interessam, e que em absolutamente nada contribuem para o desenvolvimento da sociedade. Assim, o neófito membro da academia cresce em obras e títulos, mestrados e doutorados. Independentemente se continua sendo um analfabeto funcional.

Filosofia não é isso. Existe uma diferença enorme entre Filosofia e o que se diz ser filosofia. Para minha visão sobre o que é Filosofia, deixo o texto que pode ser visto aqui: Edições Independentes. Recordo-me quando a matéria de Filosofia seria então inserida como parte do currículo do Ensino Médio devido a mais uma das incontáveis mudanças no currículo escolar, mudanças que vêm e vão a cada novo governo. Eu ingressei na faculdade exatamente durante esse período de transição (um ano antes da medida). E vi a diferença claríssima e gritante entre os colegas que entraram antes, que estavam interessados em estudar o grande pensamento humano, e os colegas que entraram depois, que vislumbraram a oportunidade de conseguir um emprego no novo mercado de trabalho que se abria.

Assim, graças ao interesse do partido em voga, “ser filósofo” tornou-se uma profissão. Em pouco tempo, o que antes era um nicho especializado vulgarizou-se nas famintas  presas do mercado de consumo. Tem quem apareça na TV para falar baboseiras. Tem quem ganhe dinheiro dando palestras. Tem quem vire “influencer” (seja lá o que isso for). Falar rebuscadamente, citar autores famosos e exsudar empáfia é o que basta para ser aclamado como intelectual (e vender livros ou cursos on-line).

Não, o Brasil não precisa de filósofos. Filosofia é, por sua natureza, uma ciência erudita. Não tem aplicação prática nem pode ter. Se tivesse, não seria Filosofia. Dela derivam as ciências práticas utilizadas pela humanidade. A cátedra de Filosofia foi conspurcada por agentes de interesse para disseminar ideologias neomarxistas pós-modernas, das quais parte considerável dos formados demonstra aderir. Deixou de ser a porta de entrada para o mundo das idéias superiores para se tornar uma máquina burocrática da reprodução do pensamento de uma academia corrompida, corrupta e corruptora.

A Filosofia não é para todos. É para aqueles que amam o que é de mais elevado no espírito humano. O que se pratica hoje não é Filosofia, mas sim é a ruminação de doutrinas falaciosas comprovadamente fracassadas e o complacente ato de massagear egos, brios e orgulhos de pseudo-intelectuais que não aceitam que sua ”brilhante formação” não se reflete nos olhos no grande público ocupado com a vida cotidiana.

Como poderia despertar interesse? A grande massa nem ao menos compreende os mais elementares fundamentos do pensamento humano. Tentarei exemplificar. Matemática não serve para nada. Não está entre aspas por não ser uma citação, é uma afirmação. Se você afirmar isso ao grande público, a primeira réplica que receberá é a de que matemática é muito importante porque é usada em tudo, de bancos e agricultura à engenharia e informática. E essas mesmas pessoas que nem ao menos prestaram a devida atenção às aulas na escola quererão lhe ensinar a importância da matemática. Percebe? As pessoas não conhecem a diferença entre Matemática (a forma mais pura de Filosofia) e fazer conta. Fazer conta não é matemática. Cálculo não é Matemática. Mas ao aplicar os conceitos oriundos da matemática na vida mundana, o homem médio instrumentaliza a ciência e, sem dar-lhe outro nome, chama-a pela mesma alcunha.

A instrumentalização das coisas é parte inerente ao mundo em que vivemos. Quantas e quantas vezes já me perguntaram: “mas Filosofia estuda o quê?”, “para que isso serve?”. Sem o menor pudor eu respondo: Filosofia não serve para absolutamente nada. Se servisse, não seria Filosofia. Não é um instrumento. Não é uma coisa para ser usada. E o próprio ato de elevar o espírito humano. Quem precisa de arte para viver? Para que serve um quadro numa parede ou uma escultura num museu? O mundo não precisa de artistas, assim como não precisa de filósofos. Mas só porque arte não serve para nada, não significa que não tenha seu valor. Não significa que seja inútil. “Pois em sendo belo tem a sua utilidade.

Veja também: Gosto se discute, sim.

Mas neste mundo prático, na vida cotidiana, ninguém precisa mais de um filósofo do que precisa de um médico. O filósofo só pode existir porque todo o conjunto da sociedade assim o permite existir. Quando o homem não precisa roçar sua própria comida, tecer suas próprias roupas, erigir seu próprio abrigo, sanar suas próprias moléstias, proteger sua própria vida, aí sim ele pode dedicar seu tempo à erudição. É o último grau, o último ofício, a mais desnecessária e inútil de todas as ações humanas. Nossos doutos apedeutas acadêmicos gabam-se em sua soberba citando Sócrates: “só sei que nada sei“. Falta-lhes humildade para reconhecer que isso é verdade.

A situação dos médicos no Brasil.

https://www.bitchute.com/video/NiqQxG0IBjza

 

Mensagem nº 362

“Uma nação pode sobreviver aos seus tolos, e até mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição interna. Um inimigo aos portões é menos formidável, pois ele é conhecido e carrega sua bandeira abertamente. Mas o traidor se move livremente entre aqueles dentro do portão, seus sussurros astutos farfalham por todos os becos, são ouvidos nos próprios corredores do governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala com sotaques familiares às suas vítimas, e ele usa seus rostos e seus argumentos, ele apela à baixeza que jaz no fundo dos corações de todos os homens. Ele apodrece a alma de uma nação, ele trabalha secretamente e desconhecido na noite para minar os pilares da cidade, ele infecta o corpo político para que ele não possa mais resistir. Um assassino é menos a temer.”

“A nation can survive its fools, and even the ambitious. But it cannot survive treason from within. An enemy at the gates is less formidable, for he is known and carries his banner openly. But the traitor moves amongst those within the gate freely, his sly whispers rustling through all the alleys, heard in the very halls of government itself. For the traitor appears not a traitor; he speaks in accents familiar to his victims, and he wears their face and their arguments, he appeals to the baseness that lies deep in the hearts of all men. He rots the soul of a nation, he works secretly and unknown in the night to undermine the pillars of the city, he infects the body politic so that it can no longer resist. A murderer is less to fear.”

MILLARD F. CALDWELL, Justice of the Supreme Court of Tallahassee, Florida
Paráfrase do segundo discurso de Cícero contra Catilino.
O artigo é “Cicero’s Prognosis”, apresentado no 22º Annual Meeting of the Association of American Physicians and Surgeons, Inc.,
7 a 9 de outubro de 1965, Columbus, Ohio

Fonte: http://www.aapsonline.org/brochures/cicero.htm