Sentimentos mais duradouros

Leighton, Edmund Blair; The Wedding Register; Bristol Museums, Galleries & Archives; http://www.artuk.org/artworks/the-wedding-register-188739

Lamento ver que, com o tempo avançando e grandes nomes partindo, as carreiras dos últimos remanescentes da verdadeira dramaturgia estão encerrando. Com a partida desses artistas, finda-se uma era. “Não se produz mais como antigamente” não é mero saudosismo: é a constatação da decadência intelectual, cultural e social em que os millennials subvivem.

Afirmo que a arte, infelizmente, se tornou apenas algo mais a ser vendido. Não se produzem mais clássicos. Não se produzem mais obras que marquem a História. Foi-se o tempo de Shakespeare. Hoje se produz para o consumo.

O mesmo consumo que clama por novos produtos pede novas obras. Creio que um exemplo demonstre melhor meu pleito: o caso Prosdócimo. Os mais jovens que lerem este texto não se recordarão (ou conhecerão) essa marca de excelência de eletrodomésticos. Excelência tão excelente que suas geladeiras ainda funcionam.

E o resultado de toda essa qualidade? A empresa fechou, claro! Se todo mundo compra uma geladeira que nunca dará defeito, para quê comprar outra? Os equipamentos eram assim: geladeiras, fogões, ventiladores, rádios, televisores, tudo era feito para durar uma eternidade. E as empresas perceberam que produtos muito bons dão lucro momentâneo; e que produtos de menor qualidade (praticamente descartáveis) dão lucro permanente.

Lição conhecida de há muito pela indústria farmacêutica. Por que colocar no mercado um remédio que cure, se é muito mais lucrativo manter as pessoas permanentemente doentes? E o melhor: remédios cujos efeitos colaterais precisem de mais remédios! Uma indústria de abutres… E nós somos a carniça.

A continuidade do consumo, de saber que aquela TV ou geladeira precisará ser trocada de tanto em tanto tempo, é o que mantém o mercado industrial funcionando. Primeiro a venda, depois o produto! Mais updates e upgrades, patches e afins. Não interessa, pois, fazer produtos excelentes. Apenas produtos a ser consumidos por um tempo. E apenas o tempo necessário para agradar o consumidor, que cautelosamente deve ser instigado a comprar mais e mais. O importante é trocar.

Vivemos uma era em que a velocidade da troca é mais importante do que o que é trocado. O novo é invariavelmente substituto do antigo, mesmo que o mais velho seja melhor. O apelo da novidade, do brilho, da tecnologia, da conectividade é mais forte que a segurança da tradição e da estabilidade. O resultado: a formação de uma geração de conectados inseguros em sua insegurança insegura.

Afinal, se tudo muda o tempo todo, se sempre há novidade a substituir o atual sem nem ao menos dar-lhe tempo de envelhecer, como criar o vínculo, o laço de familiaridade que se forma ao longo do tempo, aquela certeza de poder contar com isso ou aquilo amanhã? E depois de amanhã… E para o resto da vida… (?)

Antigamente, quando algo quebrava, a gente aprendia a consertar em lugar de jogar fora.

Enquanto isso acontecia, a Prosdócimo já havia sido comprada pela Electrolux, patentes de curas foram registradas (para ninguém usar) e o mundo das artes também começou a aprender a lição.

Onde estão os grandes autores? Onde estão os grandes clássicos? Paulo Coelho (sempre me criticaram por eu gostar dele) demonstrou que é possível fazer arte para consumo também. E ironicamente demonstrar que a arte efêmera basta para se tornar imortal.

Paz e Guerra, Os miseráveis, MacBeth não têm mais espaço em um público acorrentado às telinhas de seus smartphones. Leitura muito difícil… Requer muito mais que os dois neurônios anestesiados necessários para acessar rede social, brincar em joguinhos, ou ver um post de fofoca ou piadinha.

Não que aqueles que se servem da tecnologia para isso sejam tolos ou estúpidos. A palavra-chave no parágrafo acima é ”anestesiados”. Os grandes clássicos tocam a alma. Tocam o coração. Mexem com a pessoa. Mudam a pessoa. Arte é aquilo que te muda. É o que te torna diferente (para melhor). É o que te faz pensar, te faz refletir, te faz viver. Sem sentimentos, não há arte (sua forma pura de expressão e manifestação). A verdadeira arte não se consome: se aprecia. Não é possível consumir algo que é eterno.

Porém a superficialidade hodierna não permite mais isso. Não há mais o cultivo a sentimentos profundos, aqueles que formam raízes fortes. Boa fundação necessária à árvore crescer e, quem sabe, dar bons frutos. Pouco se semeia em terreno ora infértil. Ninguém tem mais paciência para esperar a semente crescer, se tornar árvore e florir.

Uma pena. As flores são o sorriso da terra… Ainda que volta e meia encontremos uma pérola perdida no oceano, ou um oásis no deserto…

Mas então, o que oferecemos a essas mentes e corações anestesiados e perplexos com a velocidade acelerada do amanhã que já chegou? Telebasura! Lixo por todos os lados. Produzimos um lixo cultural tão inverso em seus valores que é ele quem nos aterra.

”Harry Potter” para esquecer a realidade… E livros de auto-ajuda para lidar com ela. Biografias póstumas enormes saindo antes de o defunto esfriar! E já tive o desprazer de escutar alguém afirmando que a saga ”Crepúsculo” estava no mesmo nível de importância sociocultural que As Brumas de Avalon. Ao menos não a comparou com ”50 tons de cinza”, a prova cabal de que mulheres também adoram pornografia (basta vender com outra cara).

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

Os grandes quadros foram trocados por duvidosa ”arte contemporânea”. As grandes bandas cujos nomes continuam sendo lembrados com carinho (e ainda lotam os espetáculos) foram trocadas (pela grande mídia) por ”música contemporânea”. O grande teatro foi trocado por ”teatro contemporâneo”. E os grandes nomes da dramaturgia são substituídos por carinhas bonitas saídas de uma fábrica de ”novos talentos” ou de reality shows.

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

Telenovelas que mais parecem lavagem cerebral. Importação de séries e filmes sem expressividade. Refilmagens de clássicos, apelando ao saudosismo que citei no primeiro parágrafo. Mais computação gráfica que atores. Mais qualidade de imagem, menos de enredo.

Produtos a serem consumidos e esquecidos rapidamente, dando lugar à nova produção que logo chegará.

E continuamos trocando… E continuamos inseguros… E o tempo continua avançando cada vez mais depressa… E cada vez mais olhamos para o passado com a idéia de que os tempos eram melhores… A culpa não é da cultura atual. Ela é mero reflexo da superficialidade que vivemos, pois arte (seja qual for) é apenas um reflexo do coração humano. Que hoje está anestesiado, perplexo, apático…

Qual a conseqüência dessa apatia? Ora, se não me fiz claro até aqui, explicito: a inviabilidade da construção de laços perenes entre as pessoas, o isolamento coletivo em que vivemos, e o perpétuo sentimento de falta, de não pertencimento, de inadequação formam uma legião de pessoas doentes. Não do corpo, mas de suas almas.

A vida era mais difícil. Muita coisa melhorou. Mas em algum ponto erramos alguma curva no caminho e agora estamos um tanto perdidos. Espero em breve encontrarmos a trilha certa… Enquanto isso, podemos aprender um pouco mais sobre o coração com atores (de verdade), trabalhadores dos sentimentos humanos, pérolas e oásis. Ao menos até o cerrar das cortinas.

Glória Menezes e Tarcísio Meira | Persona em Foco | 09/08/2019

Glória Menezes e Tarcísio Meira – Part.2 | Persona em Foco

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