Preconceito, medo e aversão. A crise da comunicação no século XXI.

Primeira parte

Nessa última semana pátria ocorreu um fato com o amigo Veber que me deixou pensativo. Em sua rede social, ele manifestou seu descontentamento com o atual governo, uma ação absolutamente normal. Logo em seguida vieram os comentários e a viciosidade da rede social demonstrou-se de forma clara. Aqueles que concordam com ele, manifestaram-se a favor; aqueles que discordam, contra. E aí veio o fato que me encafifou.

Obviamente não irei expor aqui a vida privada doutrem, mas gostaria de comentar o ocorrido, uma vez que a rede social é um ambiente público.

É evidente, pelo teor de suas respostas, que ele se indispôs (ao menos argumentativamente) com seus opositores. Primeiramente pelo baixo nível dos comentários que recebeu. Segundamente por expor longamente seus argumentos e não os ter nem ao menos considerados.

Na atitude de Veber vi um erro. A rede social é um local para expor suas próprias opiniões, não é um ambiente propício para o debate. Ele não pediu a opinião de ninguém, não tentou convencer ninguém, não fez propaganda de nada. Apenas e tão somente expressou seu sentimento diante de um fato de política nacional (direito de todo cidadão). E do nada vem alguém(ns), sem ser(em) convidado(s), para criticar sua postagem. Para quê replicar? Para quê gastar tempo com um comentário não solicitado? Não seria mais simples apenas deixar os outros pensando o que quisessem?

E me vi com uma nova questão a partir daí.

Com o advento das tecnologias de comunicação e informação, vivemos num mundo em que podemos escolher especificamente as informações que desejamos obter e as pessoas ou grupos com os quais queremos manter contato. Essa seletividade por um lado é muito boa, pois podemos filtrar apenas as informações que desejamos, segundo nossos interesses e inclinações. Por outro lado essa seletividade é muito ruim, pois tendemos a procurar somente aquilo que é do nosso agrado, que corrobora com nossas opiniões, que está conforme nossas idéias. Voluntariamente evitamos nos expor àquilo que nos desagrada, conseqüentemente, evitamos o contraditório.

Desse modo formam-se as ”bolhas”. Grupos que muito pouco se comunicam entre si ou, no caso de ideologias opostas, não se comunicam. Não há troca de idéias entre grupos antagônicos dentro das redes sociais, principal forma de comunicação do século XXI. E grupos politicamente dicotômicos tendem ainda a procurar diferentes redes sociais. Facebook, Twitter, Youtube de um lado. Rumble, Parler, Telegram do outro.

Essa separação entre os grupos que ocorre naturalmente nas redes sociais, essa formação de bolhas, se retroalimenta de forma exponencial. Você literalmente pode encontrar qualquer informação na internet que esteja de acordo com o seu ponto de vista, não importa qual for. O excesso de informação não fidedigna permite que qualquer pessoa encontre argumentos para defender o que quiser. Veja o exemplo do vídeo abaixo.

Não é só sobre política. É sobre tudo! Ciência, História, Medicina… Qualquer argumento, por mais estapafúrdio que seja, possuirá defensores, e sem um filtro adequado, sem a aferição de fontes, sem ponderação, podemos nos encontrar acreditando em mentiras sem percebermos.

Vamos tomar o exemplo do amigo Veber novamente: política nacional. Hoje identificamos duas grandes bolhas, designadas por alcunhas pejorativas dadas, claro, pelo lado oposto. Nisso já encontramos um primeiro ponto a ser considerado. Ninguém vitupera outrem gratuitamente. No mínimo, conserva em si repulsa pelo sujeito. E essa aversão se manifesta nas palavras, nos atos, nos pensamentos.

”Esquerda”:

— Como é possível que esse gado bolsominion esteja defendendo um psicopata como Bolsonaro? Será que não estão vendo que ele é um risco ao país? Será que não estão vendo que ele e a família são milicianos do Rio de Janeiro? Que ele está preparando tudo para não ter eleições ano que vem? Será que não vêem que o bozo é racista, machista, homofóbico, que não sabe governar o país e passa mais tempo viajando do que trabalhando?

”Direita”:

— Como é possível que essa esquerdalha esquerdopata ainda esteja defendendo a corja do PT e do PSOL? Será que não estão vendo que eles são um risco ao país? Será que não estão vendo que Bolsonaro e a família são gente de bem? Que ele está garantindo eleições limpas para o ano que vem? Será que não vêem que as acusações de racismo, machismo, homofobia são mentiras? Não estão vendo tudo que ele já fez pelo país e o quanto ele trabalha?

Exatamente isso. Dois discursos opostos, completamente antagônicos, em que um lado fala mal do outro e não entende como esse outro não enxerga o que ele vê. Como chegamos a essa situação tão tragicômica? A resposta é simples: é a bolha. Ao não nos permitirmos entender o outro, ao cessar a comunicação com o outro, ao nos isolarmos em nossos mundos individuais, ao somente consumirmos a informação que nos agrada, não escutamos o que o outro tem a dizer. E sem escutá-lo, como poderíamos entendê-lo?

Meu caso, por exemplo. Minhas principais fontes de informação política são o repórter Alexandre Garcia, que já citei várias vezes; os programas da Jovem Pan, como Os Pingos nos Is, Três por um; e telejornais alternativos, como a RITtv, ou CNT Gazeta. Também vejo a Fox News, além de redes sociais com o Vista Pátria e Visão Libertária. A partir dessas fontes de informação política que escolhi, em muito pesando o fato de terem alinhamento ideológico similar ao meu, encontro mais e mais argumentos que sustentam minha perspectiva política. Em contrapartida eu realmente não consigo entender como alguns de meus amigos defendem o outro lado.

Eu conheço razoavelmente os argumentos da esquerda e eles simplesmente não se sustentam sob um escrutínio mais minucioso. Eu não consigo entender, para mim é óbvio. Mas para o outro lado não. E nisto está o ”pulo do gato”: para o outro lado é exatamente a mesma coisa! Nenhum dos argumentos que eu apresento se sustenta, nada do que eu fale encontra eco na linha de raciocínio oposta. Nossos grupos se distanciaram tanto que hoje vejo o debate ser impossível. É como se não houvesse um ponto em comum para começar, um ponto de partida conjunto para construir e desconstruir os argumentos políticos que defendemos.

Isso por si é um absurdo. Eu já disse tantas vezes que me formei numa faculdade de Filosofia pública e me mantive de ”direita” por todo o curso. E de tantos e tantos embates que tive por conta disso. E eu sempre conseguia apaziguar os ânimos com minha seguinte construção:

Nós temos olhos, ouvidos, nariz e boca.
Nós temos pernas e braços.
Nosso sangue é vermelho, nossos ossos são brancos.
Nós vemos o mesmo céu, respiramos o mesmo ar, pisamos a mesma terra, bebemos a mesma água, olhamos as mesmas estrelas.
Nós gostamos de algumas pessoas e não gostamos de outras.
Rimos quando estamos alegres e choramos quando estamos tristes.
Nós amamos e queremos ser amados.
Nós temos tanta coisa em comum, para quê brigar pelo que temos de diferente?

Após esse primeiro desarme, eu seguia.

Nós queremos exatamente a mesma coisa: uma sociedade justa, segura e próspera, em que todas as pessoas sejam respeitadas, e que todas essas mazelas sociais que vivemos sejam sanadas. Nós só divergimos em como atingir esse objetivo comum.

E assim eu conseguia alguma conversa minimamente compreensível. O sujeito não me via mais como um monstro capitalista opressor e até conseguia entender meu ponto de vista. Só que hoje não dá mais… Não funciona mais. As pessoas não escutam mais umas as outras.

Segunda parte

A melhor forma de apresentar os próximos tópicos, é deixar que eles falem por si mesmos. As três histórias a seguir merecem ser compartilhadas e vistas por todos nós.

A primeira história se refere à documentarista Cassie Jaye criadora do documentário The Red Pill. Sua história ficou famosa no mundo. Originalmente feminista, ela decidiu fazer um documentário sobre os ativistas homens que estavam defendendo os direitos masculinos na sociedade. Seria para ela uma forma de expor seus inimigos e demonstrar que estava certa. Porém durante a confecção do documentário ela teve de escutar os argumentos e as idéias de seus ”inimigos”. E ao final daqueles meses de gravação, ela já não era mais feminista. Ao então apresentar seu documentário, ela foi duramente repreendida pela comunidade feminista, como sendo uma traidora do movimento.

MEETING THE ENEMY A feminist comes to terms with the Men’s Rights movement | Cassie Jaye | TEDxMarin | TEDx Talks

A segunda história se refere a como um músico americano negro conseguiu obter a indumentária mais valiosa dentro da Ku Klux Klan.

Why I, as a black man, attend KKK rallies. | Daryl Davis | TEDxNaperville | TEDx Talks

A terceira história é o conhecido experimento de Norah Vincent. Nele, Norah viveu como um homem por um ano e meio, e pode compreender que as idéias que as mulheres têm sobre os homens estão em grande parte erradas.

ESSA FEMINISTA PASSOU UM ANO FINGINDO SER UM HOMEM E SE SURPREENDEU! | Canal Tragicômico

 

Conclusão

Vivemos num apartheid de idéias. Numa sociedade em que as pessoas não escutam mais umas às outras. Imersos na internet, perdemos o contato humano, o contato com o mundo real, o mundo político (no sentido mais estrito do termo) onde as decisões sociais são tomadas. A sociedade em que vivemos perdeu suas referências morais, suas referências familiares, suas referências transcendentais. A excessiva quantidade de desinformação, de equívocos ou mentiras, aliada à auto-segregação tornou-nos todos avessos ao simples ato de parar e escutar. Já temos todas as respostas! Eba! Pode fechar tudo, a aula acabou!

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Este narcisista mundo em que todos somos doutos apedeutas é um grande terreno fértil para o desastre. Porque a falsa sabedoria oculta a ignorância. A ignorância alimenta o medo. O medo alimenta o preconceito. O preconceito alimenta a raiva. E a raiva alimenta a discórdia.

É inviável encontrar um acordo num mundo em que ninguém escuta os demais. Ou ao menos, não escuta aqueles que são diferentes de si mesmo. A revolução tecnológica corrente representa o maior desafio pelo qual a humanidade já passou. Como lidar com o outro se a proximidade física já não é mais necessária? Como lidar com tanta informação? Será que os nativos digitais realmente não estão desenvolvendo capacidades de relacionamento interpessoal? E nós, millenials, imigrantes digitais, como lidar com essa nova geração? Como nos comunicar com eles? Como eles se comunicam conosco?

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Não temos essas respostas. A revolução digital está acontecendo de modo muito rápido e ninguém sabe ao certo como estimar as conseqüências disso nos médio e longo prazos. Apenas uma coisa é certa: estamos paradoxalmente vivenciando uma crise na comunicação interpessoal, cujo impacto se verifica especialmente no mundo político (sentido amplo) e está afetando negativamente de forma direta o sistema democrático ocidental. Em lugar de facilitar a troca de idéias, a rede está favorecendo a segregação de grupos incomunicáveis entre si, cujo eventual contato se resume a acusações, preconceitos e insultos.

E perdemos exatamente aquilo que trouxe a humanidade até aqui. A ferramenta que criou a Filosofia, que criou a Política, que desenvolveu a civilização. O mais simples ato entre duas pessoas: conversar, isto é, ouvir o que o outro tem a dizer e aprender com isso.

Veber estava certo ao responder o intrometido e mal-educado comentário. Ainda que não tenha sido escutado…