Blade Runner não é um filme filosófico

Embora Blade Runner (1982) seja reconhecido (hodiernamente) como um dos filmes mais importantes e influentes da história, eu nunca o havia assistido. Sempre me recusei. Ocorre que ao longo das décadas cerca de um milhão de versões diferentes do filme foram editadas, cada qual mudando alguma coisa na história. E eu me recusei a fazer parte dessa bagunça. Eu havia decidido que somente iria assisti-lo quando fosse feita uma versão definitiva da obra. Assim, em 2007, após décadas de entreveros com os estúdios da famigerada indústria cinematográfica, o diretor Ridley Scott finalmente teve permissão para criar sua própria versão com total liberdade artística. Finalmente eu poderia assistir ao filme.

“— A estrela do espetáculo é o diretor! Neste caso, o Seu Madruga” Brux Srta. Clotilde.

Só faltou combinar com minha precariedade conectiva. À época com linha discada e depois (até hoje) com 3G, eu assisto Youtube em 144p ou 240p, caro leitor. Tive, portanto, o privilégio de poder assistir recentemente The Gift (2000), The Dead Zone (1983) e O Crepúsculo das Baratas (Gokiburi-tachi no Tasogare, 1987) com mais pixels que um Tamagotchi. Baixar qualquer coisa é um tormento. Lá se foi o tempo em que eu tinha a paciência de deixar o computador baixando o filme “300 de Esparta” no eMule por duas semanas, para ele vir com piadinhas nas legendas. Havendo tantas diferentes versões, e sendo tão difícil encontrar a versão correta, correr o risco de baixar o filme errado por meio de uma conexão cara e lenta ficou fora de cogitação.

Foi somente graças à compaixão e conectividade da amiga Tamiris que pude finalmente, após 19 anos, pude assistir Blade Runner Final Cut 2007.
Pude finalmente apreciar a visão do diretor!
Pude finalmente inteirar-me de uma das mais aclamadas obras cinematográficas já feitas! E minha reação ao filme foi…

Teria eu caído na “armadilha da expectativa”? Deixe-me explicar o que é isso. Que eu lembre, a primeira vez em que a armadilha da expectativa fisgou o grande público foi com a série Lost (2004). Essa série foi um grande fenômeno de audiência, milhões de pessoas ao redor do mundo ansiosamente esperando pelo próximo episódio, tal como aqui em terras tupiniquins o povão queria saber quem matou Odete Roitman. Incontáveis teorias, previsões e fofocas fervilhavam nas incipientes redes sociais. E, num grande puxão de tapete, a série terminou abruptamente,  sem resolver o mistério da ilha, deixando nos espectadores o gosto da decepção. Foi este o primeiro exemplo da armadilha da expectativa capturando audiência em massa (que recordo). O mesmo aconteceu posteriormente com Game of Thrones (2011). Enquanto as primeiras temporadas foram aclamadas pela crítica e pelo público, o desfecho da série foi duramente criticado, levando novamente fãs pelo mundo afora a se decepcionarem com uma história à qual dedicaram sua atenção e afeto por tanto tempo.

Conforme a produção artística foi mudando ao longo das últimas décadas, mais e mais exemplos dessa armadilha foram aparecendo. Antes os estúdios produziam a obra, lançavam-na ao público e, após isso, vinha a reação deste. Mas agora o público leigo acompanha desde a pré-produção até a meta-análise crítica. Os estúdios anunciam com bastante antecedência o que estão gravando, anunciam quais atores foram escalados (por vezes até liberam as audições de teste), e mostram os bastidores da produção. Os atores também mudaram suas atitudes frente à platéia. Engajados em redes sociais, estreitaram e imediatizaram sua relação com o público/os espectadores/a audiência. Este, agora transformado em “seguidores”, acompanha o making of ao vivo,  interage e reage a cada postagem pessoal das ”celebridades”, e decide se assiste ou não a uma obra dependendo do quão simpático lhe é o ator principal; de quais são suas posições políticas; de como é sua vida particular.

Rachel Zegler, Brie Larson, Amber Heard e Erza Miller destruíram seus próprios filmes e suas carreiras ao se tornarem personae non gratae fora da grande tela. O oposto também é verdade. Atores e produtoras muito bem quistos pelo público, ou a boa e velha propaganda (enganosa), levam ao que a gíria contemporânea chama de hype (lê-se “ráipi”). E quanto maior o hype, maior o risco do flop (gíria contemporânea para dizer que o filme mixou). Por vezes pessoas vão ao cinema apenas para ver os atores queridos, ainda que os filmes em que atuem sejam ruins. Existe a piadinha que, se Keanu Reeves and Brendan Fraser fizerem um filme que seja só os dois jogando conversa fora, seria um grande sucesso.

Essa realidade não é restrita ao mundo dos filmes. Música, jogos, teatro, literatura, ou seja, a indústria de entretenimento em geral sofre com exatamente o mesmo problema: não se produzem mais clássicos, não se produz mais arte; produz-se material de consumo para fins imediatos. E tal como num restaurante, onde o consumidor pode não gostar de pizza de atum com banana, novas obras são descartadas ao lixo antes mesmo de serem lançadas.

E quanto a mim? Terei eu caído na armadilha da expectativa com relação a Blade Runner? Hmm… Não.

Não porque o assisti sem nenhuma expectativa. Eu não sabia nada da história, nem do enredo, nem ao menos sabia quem eram os atores. Fiz questão de manter-me totalmente ignorante quanto ao filme antes de assisti-lo, pois queria uma experiência autêntica. Assisti “para ver se era bom mesmo”. Como não esperava nada, não fiquei frustrado. Pelo contrário, achei o filme razoavelmente bom.

A história de Blade Runner se passa no futuro cyberpunk distópico (pois todo futuro tem que ser distópico) de 2019. Visto do ponto de vista de 1982, até que o pessoal da época tinha boas esperanças quanto à nossa realidade do século XXI… Seja como for, ele reflete as grandes preocupações sociais que estudei na minha época de escola: a superpopulação, a poluição, a precariedade das condições de trabalho. Enquanto que hoje em dia a gente discute cota legal para homossexuais em empresas privadas e modinhas TikTok, o pessoal de 1980 tinha questões mais prementes a pensar…

Veja também: GUNNM – Anjo de batalha: Gally

Nesse futuro distópico a engenharia biológica teve um grande avanço e humanóides com super-habilidades passaram a ser fabricados para trabalhar para os humanos. Esses ”replicantes” são escravos e, para evitar revoltas, a expectativa de vida deles é reduzida a apenas 4 anos. Quando algum replicante se revolta e foge, agentes especiais, os Blade Runners os caçam e os ”aposentam”, isto é, os matam.

O filme levanta duas questões: a primeira é “o que é ser um ser humano?”; a segunda é “o que é ser um escravo?”. A primeira questão é muito mal trabalhada nesta obra.

  • O que significa ser humano?
  • Somos definidos por nossos corpos humanos, por nosso código genético?
  • Ser humano reside na diferença entre ter nascido ou ter sido fabricado?
  • Ser humano é ser dotado de emoções?
  • E se uma inteligência artificial puder emular/imitar emoções?
  • Pode uma inteligência artificial vir a ter emoções verdadeiras?  Pode uma máquina amar?
  • Nossa humanidade, ou melhor, nossa identidade é definida por nossas memórias?
  • São as memórias o que nos distingue enquanto indivíduos?
  • E se nossas memórias puderem ser implantadas, modificadas, apagadas?
  • O que é o fenômeno da consciência?
  • O que é a alma?

Essas questões sobre a natureza da humanidade foram muito melhor exploradas em outras obras como Ghost in the Shell (1995) e Dark City (1998). Portanto podemos dizer que elas apenas compõem o enredo e subjazem-no, mas não são seu foco. A principal questão em Blade Runner está entre a liberdade e a escravidão de seres sencientes. Temos nós, humanos, o direito de escravizar outros seres sencientes? Nós já fazemos isso com bois, cavalos, cachorros, elefantes, camelos. Todo tipo de animal de trabalho é um escravo. E isso levanta uma série de questões morais.

  • É moral usar animais para trabalho forçado?
  • É moral clonar animais?
  • É moral fabricar animais?
  • É moral fabricar humanóides?
  • É moral escravizar humanóides?
  • Até onde pode o homem ”brincar de deus”?
  • Onde precisamente se define a linha que separa o que é moral do que é imoral?
  • Qual é o limite ético da manipulação genética?
  • O que é certo e errado na manipulação da vida?
  • O que é a vida?

Essas profundas questões são o mote para o desenvolvimento do enredo, porém elas não são respondidas, são apenas levantadas. E isso é muito bom. Se fosse feito hoje em dia, seriam duas horas de propaganda ideológica para defender uma tese. Deixar as questões abertas para que a própria audiência reflita sobre esses assuntos é uma demonstração de respeito à autonomia do público e reconhecimento por parte do diretor que ninguém tem todas as respostas. O filme é muito bom enquanto film noir de ação e de detetive. Tem tiroteio, tem o vilão que não é vilão, tem investigação, tem o plot twist (o detetive também é replicante) e o detetive fica com a garota bonita no final. Tudo o que se espera de um bom filme. Contudo, eu esperava mais do ponto de vista filosófico. Esse é um assunto tão complexo e profundo que, creio, merecia ser explorado mais minuciosamente.

Cata-pulga

Terminada a digressão acerca da profundidade filosófica do filme, está na hora de esmiuçar certas coisinhas que me encafifaram. Há certos eventos e conceitos no filme que não fazem muito sentido se a gente pensar bem.

Mas antes preciso falar sobre Harrison Ford. Preciso tirar o elefante da sala. Como posso dizer… Harrison Ford tem o que considero um rosto socável. Eu não sei porque, mas não tenho simpatia pelo sujeito (em tela). Seja em Indiana Jones, seja em Star Wars, cada vez que ele aparece em cena quero socá-lo. Não gosto da atuação inexpressivamente entediante dele. Dizem as más línguas que ele é uma pessoa desagradável na vida real, mas isso pouco me importa. Eu não simpatizo com outros artistas na vida real, mas admiro o trabalho deles. A mim só interessa o trabalho em cena. Foi uma surpresa descobrir que ele interpreta o personagem principal em Blade Runner e isso pode ter contribuído para minha reação ao filme. Afinal, assistir durante 2 horas um sujeito que você quer socar e abstrair a situação para aproveitar o filme foi um esforço cognitivo pelo qual não queria ter passado.

Agora sim, catando pulgas:

.) Como León conseguiu entrar com uma arma no QG da Tyrell Corporation? Ainda mais aquele canhão de mão capaz de fazer um homem atravessar a parede… Isso não faz sentido algum! Eles estavam sob segurança reforçada exatamente pela suspeita de que replicantes rebeldes poderiam se infiltrar ali! E eles tinham a foto dele! E como ele conseguiu escapar?!

.) Por que replicantes recebem nomes? Ora, se são produtos, o máximo que deveriam receber são números de série. E por que têm rostos diferentes? Não deveriam ter um rosto padrão, facilmente reconhecível? Não deveriam ter marcas no corpo, como código de barras ou algo do tipo?

.) Por que replicantes não saem de fábrica com bombas implantadas? Ou ao menos rastreadores? No momento em que saírem de controle, podem ser ”aposentados” à distância.

.) Por que a construção de replicantes é feita em pedaços separados? Chew faz os olhos (ou ao menos fornece o código genético aprimorado para eles), Sebastian faz outra parte… Se Tyrell é tão esperto assim, por que deixa pedaços dessa tecnologia nas mãos de outras pessoas? Compreendo que é um mundo em que até camelôs têm acesso à tecnologia de bioengenharia, mas se presume que a construção de replicantes é um processo restrito. A quem mais Chew ou Sebastian poderiam vender seus serviços?

.) Por que Zhora fugiu? Ela poderia ter primeiro matado Deckard ali mesmo e depois ter fugido. Ela sabia que o Blade Runner continuaria caçando-a. Não faz sentido nenhum essa cena!

.) Ao menos preciso concordar que Sebastian ter doença genética faz sentido. É estabelecido que nesse universo código genético de um indivíduo não pode ser mudado. O que não faz (muito) sentido é Roy não saber isso. Ele pesquisou bastante sobre o assunto e sabe os detalhes da manipulação genética. E ele conversou com o Sebastian, descobrindo que ele não pôde ir para as colônias extraterrenas exatamente por ter deficiência genética. Ora, se alguém que trabalha com replicantes não pode se curar alterando seu próprio código genético, que chance ele, como replicante teria de se curar?

.) Pris poderia ter matado Deckard com facilidade. Nesse ponto, o escudo de enredo (plot shield) foi aplicado duas vezes. Vai ver, esse é o superpoder do Deckard enquanto replicante… ಠ~ಠ

.) O nome “Blade Runner”…

Origem do Termo

Curiosamente, o termo veio de um livro anterior chamado The Bladerunner (1974), de Alan E. Nourse, onde “blade runner” referia-se a contrabandistas de instrumentos cirúrgicos no mercado negro. Ridley Scott comprou os direitos apenas para usar o nome, pois soava “legal” e distópico, mas o enredo não tem relação com o livro de Nourse.

Bônus: Blade Runner 2049

A piedade internética de Tamiris também me concedeu acesso à continuação, feita por outro diretor, mas ambientada no mesmo universo. Embora as legendas estivessem em russo e eu não tenha entendido algumas cenas, não foi nada que atrapalhasse. Blade Runner 2049 acontece, ora pois, 30 anos após os eventos do primeiro filme, 35 anos na vida real (1982~2017). Ryan Gosling interpreta um replicante Blade Runner chamado [K]. Diferentemente dos filmes contemporâneos que alimentam o vício em dopamina com gritaria e cenas que mais parecem um pisca-pisca, Blade Runner 2049 toma seu tempo para contar a história. Uma obra de arte contemporânea, respeitosamente expande as questões levantadas no universo do filme anterior. Porém há muitos desenvolvimentos de enredo que não fazem o menor sentido dentro daquele universo.

.) O avanço tecnológico permitiu a criação de replicantes mais dóceis e obedientes. Entretanto, também lhes concedeu emoções, memórias e autonomia. Será que ninguém vê que isso é um risco para a estrutura social? Em um mundo arrasado pela superpopulação, com programas governamentais de emigração para colônias extraterrenas, fabricar ainda mais indivíduos (geneticamente superiores) não parece absolutamente contraditório? Se replicantes são realmente necessários nesse futuro ainda mais distópico, não seria melhor remover completamente sua autonomia?

.) Agora a inteligência artificial é muito mais avançada comparada a do primeiro filme. Não muito diferente do que estamos vivenciando na realidade, o salto tecnológico da I.A. é sensível. Complacente, obediente e com um botão liga-desliga, é muito mais confiável do que um replicante. Então, qual é a vantagem de se construir replicantes, se já é perfeitamente possível construir robôs que façam o trabalho muito melhor do que humanóides? (E que não precisam ser substituídos a cada quatro anos.)

.) Por que cargas d’água replicantes têm direito a ter um apartamento próprio, a salário e a comprar coisas por si mesmos? Como replicantes saem andando por aí, tomando decisões por conta própria? Não são eles escravos (ou ao menos uma casta inferior)? Não há a idéia de que eles não têm alma? Por que estão inseridos na sociedade? A idéia de que, após tantos problemas com replicantes, seja-lhes dada (alguma/qualquer) autonomia não faz sentido algum.

.) Exceto os antigos modelos Nexus 7 e 8, replicantes continuam tendo expectativa de vida de 4 anos. Que raios de rebelião eles pretendem? Que exército eles pretendem montar? Qual objetivo pretendem atingir? Mesmo se a rebelião der certo, basta esperar uns 5 anos, todos estarão mortos e uma nova safra de replicantes escravos será produzida.

.) A cena de Ana Stelline (interpretada por Carla Juri) é muito, muito, esquisita. Eu não sei se foi proposital, ou se a atuação dela foi aquém (muito ruim), ou sei lá o quê, mas a Dra. Stelline caiu no vale da estranheza (uncanny valley) para mim. Considero a cena muito forçada, muito artificial. Em um filme de ficção científica, isso diz muito.

.) [K] morre no final. Só que eu não percebi que ele morre no final, eu achei que ele só estava descansando na escada. Muita gente também não entendeu o que levou o roteirista a confirmar que ele morre. A morte dele é importante para o desenvolvimento do personagem, deveria ser um evento não ambíguo.

.) O personagem Dr. Wallace, interpretado por Jared Leto, não faz sentido algum. Ou melhor dizendo, seu objetivo não faz sentido. Diferentemente dos replicantes que querem liberdade, Dr. Wallace quer o segredo da reprodução de replicantes para produzir uma força de trabalho ainda maior. Que idéia estúpida! Um bebê leva 9 meses para nascer e mais 20 para se tornar apto ao trabalho. Replicantes são fabricados já em formato adulto, prontos para o serviço. Não há vantagem alguma na gravidez de um replicante!

Basta procurar em fóruns ao redor da internet que você poderá encontrar ainda mais questões sobre o universo de Blade Runner. (um exemplo nos “Extras” abaixo).

E assim foi meu carnaval 2026. Enquanto que esbórnia corre solta na sociedade, eu alimento minha mente com questões filosóficas e artísticas.

 

Extras:

Kicksave: https://gamefaqs.gamespot.com/boards/227-movies-new-and-upcoming-releases/75853065

  1. Why did Dr. Ana Steline implant Replicants with her own memories? What purpose would that serve?
    2. Was Dr. Steline aware of her own past? (If so, implanting others with her memories is about the dumbest and riskiest action possible).
    3. Why in the world would Replicants be allowed again after the Nexus-6 models from the original movies? If the actions of Luv (especially) and the rebel Replicants are any indication, the newer models aren’t any safer than the prior generation.
    4. Why did Freysa want Deckard dead? She knows that he has no ability or desire to seek out Ana.
    5. Joe just kind of said to Deckard “yeah, don’t worry I told them you’re dead” after the final fight scene. Really? With no evidence/body, except for Luv’s, Wallace will just believe that the most valuable person on earth is dead? From an off-baseline Blade Runner gone rogue and known to be helping Deckard? Yeah….ok.
    6. It’s illogical Joe to take Deckard to a Wallace facility, expose his survival, expose his daughter, and then die on the doorstep. Yeah, let’s pretend Wallace doesn’t have cameras around one of his price assets.
    7. Why isn’t Freya more interested (like Wallace) in unlocking the secret of Replicant reproduction? It’s literally the only way their race can survive.
    8. Why does Wallace think that allowing Replicants to naturally reproduce is actually faster than growing them?It appears to take Replicants as much time (decades) and resources as humans to reach maturity, making that a far inferior means of reproduction vs. being made in a test tube. Looks like they can be made quickly…they were all over society by 2019 with 2 newer generations widespread by 2049. No problem there. .
    9. Why is Joe even getting a salary and living a middle class life? It’s not a very good “slave force” if you are paying your slaves, letting them buy toys and apartments. Other Replicants appear to be living independent lives as well with no “master”.

Does Blade Runner make any sense? | Pictures in Motion
Blade Runner is an influential masterpiece of the sci-fi genre. But rarely do people praise its script. Are there plot holes in Blade Runner and does the movie even make any sense?

Wolf Guy – Ookami no Monshou, Elfen Lied e outros títulos.

Caro parco leitor, as linhas a seguir podem ser sumamente desconsideradas. Nos próximos parágrafos vossa senhoria encontrará palavras de baixo calão e conteúdo escatológico que em nada lhe acrescentarão algo. Esta página serve para mim, dentre outras coisas, como uma terapia. Sem ter uma vivência social considerada saudável, (seja por vontade própria, seja por maioria de votos) encontro aqui um lugar para vomitar todas as coisas ruins que vez ou outra ficam entaladas na garganta e, em ato de catarse, tiro o que não presta de dentro do peito e o jogo fora.

A mim agradam temas relacionados ao oculto, dentre eles a criptozoologia (um nome rebuscado para folclore). Fascinam-me essas histórias populares. Como culturas tão diferentes e não inter-relacionadas conseguem convergir para os mesmos arquétipos? Em especial dragões, gigantes e monstros marinhos. Também há o caso do homem-fera (wendigo, sasquatch, yeti, licantropo, kitsune, kurtadam…) que inicia o escopo deste texto. Como, tanto na América pré-colombiana, quanto na antigüidade européia e também na Ásia, são recorrentes os relatos de feras humanóides? E por que essas histórias normalmente as tratam como perigosas? Trazendo isso para a atualidade, esses mitos atemporais continuam inspirando a arte contemporânea.

Já fui consumidor ávido de histórias de terror em todo tipo de mídia (escrita, desenhada, animada ou cinematográfica). Porém em certo ponto de minha vida simplesmente enfastiei-me. A cultura perdeu a elegância, o carisma e a criatividade dos ”bons tempos” (Ver também: mother!). Optei por rejeitar trazer para mim a vulgaridade alheia travestida de arte. Infelizmente as histórias de terror hodiernas não trazem mais o símbolo do heroísmo, do bem vencendo o mal. Ora temos meramente cópias de cópias da visão lovecraftiana de desesperança e desalento humanos frente a um mal inefável, impassível e invencível. Decidi repudiar todas essas coisas. Só quero em minha vida aquilo que traga algo de bom, algo que promova o belo, algo que incite à justiça. Ou ao menos que instigue a uma boa reflexão sobre a vida.

Houve uma época em que eu fazia questão de ver uma obra inteira antes de criticá-la. Considero que, para criticar algo, é necessário conhecer bem o que será criticado, conhecer seu inteiro teor para poder bem exercer o juízo de valor. No caso de uma obra artística seriada, como quadrinhos, ler a história toda. Mas isso mudou com o título Shingeki no Kyojin. A história começou de um jeito e, quando o personagem principal mudou sua bússola moral de herói para vilão, desagradou-me e parei de ler. Não senti falta de continuar lendo ”para saber o fim da história” pela primeira vez. Cansei e larguei. Foi uma vitória contra o TOC de complecionismo.

Leitor de quadrinhos dos mais diversos gêneros, recentemente em minhas andanças ouvi falar de um título que chamou minha atenção: Wolf Guy – Ookami no Monshou. O título se apresenta com a premissa de ser o reboot (reinício) das “aventuras de um lobisomem” (título original Wolf Guy). O título original fez grande sucesso na década de 1970, ao ponto de terem sido produzidos dois filmes e seis animações nas décadas posteriores, demonstrando seu importante impacto cultural. Acreditei então que essa adaptação à ”nova geração” (2007) seria um bom ponto de partida para conhecer a coisa.

E cometi o erro de iniciar a leitura. Minha paciência esgotou-se na metade da ”história”.

Que merda é essa? Esse é único termo técnico existente adequado para qualificar Wolf Guy – Ookami no Monshou: é uma M-E-R-D-A. Não há absolutamente nada nesse título que possa redimi-lo do status de ser uma bosta. Este é o motivo de toda minha raiva: pela primeira vez em minha vida decidi não terminar de ler uma obra por tão ruim que ela é. (E, olha, eu já vi coisas horríveis…)

Tenho raiva do fato de que alguém teve a petulância de escrever o roteiro;
tenho raiva de que alguém teve a audácia de desenhar esse troço;
tenho raiva de que alguém teve o atrevimento de publicar essa coisa;
e tenho ainda mais raiva de que haja quem tem a desfaçatez de dizer que gosta de DOZE volumes dessa joça.
Já disse que estou com raiva?

E por que tanto ódio em meu coraçãozinho? Deixe-me colocar no microscópio e fazer o exame de fezes.

Da arte

Pequenos erros de proporção e perspectiva existem em todos os quadrinhos. Sempre há algo que escapa, não tem jeito. Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem erros grosseiros de tridimensionalidade. Quem desenha sabe que a parte mais difícil de desenhar são as mãos e os pés dos personagens, e mesmo nisso há pouquíssimos equívocos. Há também algumas falhas de continuidade, mas nada grave.

O principal problema estético em Wolf Guy – Ookami no Monshou é a altíssima flutuação da qualidade da arte. Ora de excelente qualidade, em poucos quadros (frames) decai para um amontoado de rabiscos incompreensíveis, para logo depois retornar a alto nível de qualidade. A arte é suja: há muitas tentativas de efeitos visuais, uso excessivo de onomatopéias sobrepostas às composições (subjects), exagero no uso de hachuras e inarmonia no uso de texturas (background)… Há a sensação de sujeira visual (noisy visuals), desproporcionalidade e desnecessariedade no uso de aproximações (close-up) e, especialmente, repetições, repetições, repetições… Voltarei a falar dessas repetições na parte do enredo, mas na questão da arte ela demonstra pobreza na composição visual, pois não é usada com qualquer efeito estratégico, mas sim apenas para preencher espaço.

Esses problemas são ainda mais graves nas cenas de ação. Essas, que deveriam ser claras para o leitor acompanhar o movimento dos personagens, são tão ofuscadas pelo ”ruído visual” que, confesso, houve momentos em que eu não consegui distinguir o que estava acontecendo. Isto mesmo: eu olhei, olhei e não consegui entender o que eu estava vendo. Isso numa cena de luta é equivalente ao camera shaking (edição com câmera trêmula mais 50 cortes por minuto) que a franquia Bourne lamentavelmente trouxe para o cinema.

Há páginas que se parecem com testes de Rorsharch, como se coubesse ao leitor imaginar, descobrir ou supor o que estava acontecendo. Isso até poderia ser um recurso visual usado para ocultar a verdadeira imagem do monstro e fazer suspense. Esse argumento é inválido, pois o problema continuou mesmo após o monstro (que é bonitinho ಠ_ಠ) ter sido revelado em alta definição no primeiro volume. Essa péssima qualidade contrasta tanto com a alta qualidade e detalhamento das cenas de tranqüilidade que não seria difícil crer que, apresentando a quem não leu, a pessoa diria se tratar de obras ou até de autores diferentes.

Do desenvolvimento do enredo

O nome deveria ser Wolf Guy – Encheção de lingüiça. 90% do enredo consiste em rechear lingüiça com preenchimento sem valor (fillers) e erotização apelativa (fan service) que em nada contribuem para o avanço da história (que não há). Há apenas motes para situações de violência sem sentido. Esses motes (repetidos) se dão em capítulos enfadonhos com demasiada repetição de quadros (acima mencionado), ao ponto de páginas inteiras serem repetidas em plano de fundo para preencher espaço onde não há o que colocar. Os personagens são sempre exibidos nas mesmas posições de efeito, de retrato ou de perfil, contribuindo para a sensação de repetição e ausência de progressão na história.

Os capítulos são desconexos entre si, não há linearidade no compasso. Há momentos em que mil coisas acontecem ao mesmo tempo, enquanto que em outros há apenas morosa exposição (recurso usado quando você precisa explicar algo ao leitor). Os personagens são apenas exibidos ao leitor, mas não são desenvolvidos, não evoluem. São tão somente cascas vazias com sentimentos superficiais. Não possuem motivos reais para suas ações incoerentes, nem os eventos que os envolvem contribuem para contar uma história coesa no geral.

Há sim uma suposta linha condutora central, que seria o desolamento lovecraftiano frente à tragédia inevitável (maldição). (A obra do autor Lovecraft trata da impotência e da pequenez humanas frente a poderosas e inescapáveis forças incompreensíveis.) Porém todas as tragédias do enredo envolvendo tal ”maldição” são facilmente evitáveis e são culpa exclusiva das ações voluntárias dos próprios personagens. A ”maldição do lobisomem” é só uma expressão temática empregada para indultar/relevar/transigir/contemporizar/condescender/justificar as péssimas escolhas das pessoas e as funestas conseqüências negativas dessas escolhas. Conseqüências perfeitamente evitáveis se não tivessem feito besteira em primeiro lugar.

Ou seja, a história não ensina nada, não agrega nada, não soma nada. É uma história de pessoas imbecis que se lascam por sua própria estupidez, eximem-se de responsabilidade e culpam o metafísico por seu infortúnio. E quem são essas pessoas? Quais são suas histórias?

Dos personagens

Ainda que sejam personagens, caracteres fictícios, como em toda obra de arte, eles são facetas da psique humana. Uma forma de vermos, no outro, outro aspecto de nós mesmos. É a idéia do teatro, do cinema, da literatura: mostrar, no outro, outra face de nós, ou melhor, daquilo que poderíamos ser. Em uma boa história, nós nos identificamos com os personagens, nos colocamos em seu lugar, vivemos com eles suas aventuras e emoções. Quem não chorou quando morreu Artax, o cavalo de Atreyu (História sem fim)? Quem não ficou feliz quando Babe, o porquinho, venceu o concurso de cães de pastoreio? Nós acompanhamos a jornada dos personagens a seu lado, nos colocamos em seu lugar, pensamos no que faríamos diferentemente. Os personagens são um recurso que os autores usam para tomar o leitor pela mão e conduzi-lo adentro da trama. Identificar-se com os personagens é ponto essencial para a constituição de uma boa história.

Mas é impossível se identificar com qualquer um numa história com enredo tão ruim quanto a de Wolf Guy – Ookami no Monshou. A história se passa com jovens de 14~15 anos que se comportam e vivem como adultos em uma escola pública japonesa para onde decide ir o personagem principal. Antes de falar do personagem principal, quero falar da coadjuvante. Creio que se eu explicitar a história dela primeiro você entenderá porque eu tenho tanta raiva desse título.

Akiko Aoshika é apresentada como uma jovem professora divorciada. O motivo do divórcio? Não se sabe e em nenhum momento tem qualquer relevância para a história. Não faz diferença. Por que adulta? Somente para se encontrar com o personagem principal na primeira cena de violência, que se passa de madrugada, pois jovens normais de 15 anos não caminham de madrugada sozinhos na rua. Apenas por causa dessa cena ela precisa ser caracterizada como adulta. Fora isso, não faz diferença alguma, ela poderia perfeitamente bem ser apenas mais outra adolescente. E por que professora? Foi a forma (conveniente para o enredo) de pô-la na mesma escola para onde vai o personagem principal. Ela não existe por si mesma, existe em função da história.

Ela é vítima de estupro quando adolescente, sua família (que não aparece) não a apóia, ela se casa e se divorcia (motivo não revelado) e vai trabalhar como professora. Daí num período de dois meses (dois meses) ela:
……a) na mesma noite presencia um linchamento seguido de dezenas de mortes brutais, e é molestada sexualmente;
……b) em outra noite é molestada sexualmente (de novo), e atacada por um leão;
……c) a escola em que trabalha é vítima de um adolescente atirador: 82 mortos e dezenas de feridos;
……d) na semana seguinte a mesma escola é vítima de um segundo atentado: 30 e tantos mortos e sei lá quantos feridos;
……e) a imprensa torna a vida dela um inferno e repórteres a assediam sexualmente (de novo);
……f) na semana seguinte é seqüestrada e molestada sexualmente (de novo).

E parei de ler. Porra, que merda é essa? Ela existe só para ser estuprada? A desculpa é a de que ela estaria sob ”a maldição do lobisomem”, por culpa do personagem principal. Não, isso se chama: ”a maldição do roteirista taradão”. E ela não apresenta nenhum sinal de trauma psicológico! Pelo contrário, ela nutre tensão sexual para com seu aluno (o personagem principal), menor de idade. É como se ser uma pedófila estuprada fosse totalmente normal. Cara, se em dois meses (antes mesmo do seqüestro) esses eventos acontecerem com um ser humano de verdade, uma pessoa normal tem que parar numa sala de terapia, no mínimo. A pior parte nisso tudo é ela ser apresentada no início como o alívio cômico* do enredo! (*toda história pesada precisa de um alívio cômico, normalmente usado no entre-atos)

O desgraçado do personagem principal, Akira Inugami, 15 anos. Teoricamente ele é amaldiçoado por ser um lobisomem. Sim, isso deveria ser uma história de lobisomem. Só que:
……a) seus pais são mortos quando ele tem 5 anos e ele não faz nenhum esforço para investigar o assassinato, mesmo sabendo que tem ligação com o fato de serem lobisomens e ele ser obcecado com o tema;
……b) ele dedica sua vida a estudar lobisomens, mas não conseguiu encontrar um que mora na mesma cidade em que ele;
……c) ele afirma que as tragédias que acontecem ao seu redor se referem à ”maldição do lobisomem”, se sente culpado e deprimido por isso, mas não faz absolutamente nada para evitá-las (pelo contrário, instiga as coisas a ficarem ainda piores);
……d) ele tem parentes milionários que nunca aparecem, o que resolve todo o problema com dinheiro (conveniente para o enredo);
……e) ele mora sozinho aos 15 anos e ninguém liga para isso.

Até aí, é só um personagem incoerente. Porém ele tem uma grave falha de caráter, que é o pacifismo. Ele não é pacífico, isto é, aquele que não procura conflito; ele é pacifista, isto é, aquele que mesmo quando o conflito vem a ele, ele não age, não revida, permitindo que o mal se torne cada vez maior. Pelo contrário, sua apatia travestida de orgulho e pretensão de superioridade alimenta os ímpetos de conflito. É exatamente sua inação frente ao mal que causa todos os problemas que acontecem. Cada vez que ele se recusa a revidar, as forças do mal se tornam mais e mais fortes, ao ponto de afetar os inocentes ao seu redor.

Além disso, ele, com pena de si mesmo, reiteradamente afirma que quer ficar sozinho e se afastar da humanidade. Então por que diabos fica mudando de uma escola para outra, instigando agitações por cada lugar que passa? Ele afirma que não quer lutar. Então por que diabos enfrenta delinqüentes com arrogância e desdém? O discurso do personagem é completamente díspar de suas ações e posturas. Em última análise, é culpado de tudo de ruim que acontece ao seu redor não por uma ”maldição”, mas por suas próprias atitudes. Não passa de um autocomiserante irresponsável.

E o enredo trata de eventos desconexos ligados a esse sujeito apenas para justificar cenas violência e sexo explícito.

Da história

A professora bêbada (Akiko) sai à noite e encontra Inugami caminhando. Ela se apaixona pelo adolescente e o segue. Então uma gangue aparece do nada e o lincha enquanto molesta a professora. Daí ele vira lobisomem, mata todo mundo e deixa a Akiko desmaiada lá mesmo. Ele tem super-força mesmo na forma humana, então poderia ter evitado tudo isso. No dia seguinte vai para a escola como se nada tivesse acontecido. Akiko chega com os policiais à escola para trabalhar, vindo direto da delegacia (quem é que vai trabalhar depois de uma noite dessas?) e reconhece o garoto, mas fica por isso mesmo.

Daí aparece uma garota pervertida que passa o tempo todo usando roupa erótica. Essa guria é chama-se Ryuuko, 15 anos. Ela também foi estuprada, mas foi quando era criança. Depois ela foi vendida de mão em mão para mercadores de escravos sexuais até ser comprada pela Yakuza. E por alguma razão vai para a escola estudar (não sei o quê). Diferentemente da professora, ela ficou viciada em sexo e fica sexualmente excitada com violência. Ela aparece várias vezes no roteiro apenas para ter relações sexuais, mostrar nudez aleatória ou masturbar-se vendo outros sendo agredidos. Não serve em absolutamente nada para a história e está lá somente para ”cenas de sexo explícito com uma adolescente pervertida”.

No primeiro dia de escola, Inugami já arruma confusão com a gangue local. Levam-no para tomar uma surra perto de outro aluno que estava sendo estuprado. Nos dias seguintes, a escalada da violência toma proporções exponenciais. Você percebe claramente que o roteirista perdeu o controle da própria história quando (ainda no primeiro volume) traz de volta um personagem que estava para morrer. Aparece ”seu irmão gêmeo” que agora quer vingança. Esse gêmeo aparece como um atirador escolar descontrolado, não após um capítulo inteiro dedicado à sua masturbação.

Também há o recorrente mote de pessoas se urinando nas calças. Por algum motivo, o autor resolveu que todo mundo deveria se urinar nas calças de vez em quando. Akiko se mija quando vê o lobisomem pela primeira vez, o diretor se mija quando vai ser morto, uma aluna se mija quando é molestada pelo atirador da escola que também é mijão, tal como seu irmão gêmeo, ambos com fimose (sim, isso está descrito e é parte do enredo).

No meio dessa bagunça, é construído o real vilão da história, que é o filho do chefe da Yakuza, Harugo. Ele tem 15 anos, mas mostra o porte atlético de adulto olímpico, aleijou um campeão adulto de MMA, é especialista em armas, explosivos, táticas de combate urbano, praticamente um Rambo. E a cada dois ou três capítulos tem uma cena de sexo com a pervertida. (na primeira cena em que ele aparece eles estão transando) Daí Haguro descobre que Inugami é lobisomem e passa a caçá-lo. Não o encontrando, ele mutila, estupra e defeca sobre um amigo de Inugami. Esse amigo morre no hospital e vira lobisomem-zumbi. O tal zumbi mata um monte de bandidos da Yakuza, mas (conveniente para o enredo) perde seus poderes logo antes de matar Haguro.

Nada disso teria acontecido se Inugami tivesse revidado Harugo e sua gangue. Sua incoerência é evidente, pois durante isso tudo ele mata aleatoriamente outros vagabundos. Não precisava nem matar, eu já disse que ele tem super-força, uma surra já ‘tava bom. Não há qualquer motivo para não revidar a gangue de Haguro, exceto ser conveniente para o enredo.

No meio disso tudo tem um jornalista, que também é lobisomem, mas não faz diferença alguma para a história, então eu não o mencionei, mesmo tendo uns dez capítulos só para ele. Depois de toda essa confusão, Inugami resolve fugir para viver sozinho em sua autodepreciação. Ele se muda para outra cidade e resolve cortar contato com todas as pessoas. E o que ele faz? Vai fazer compras perto de um ponto turístico cheio de gente. Raios, afinal quer viver sozinho ou não? O que está fazendo no meio da cidade? Vai para a montanha, para o meio do mato, vai capinar um roçado. Ele é o típico Emo (aqueles insuportáveis adolescentes melodramáticos).

Nesse ponto turístico cheio de gente para onde ele foi se isolar (ಠ_ಠ), ele reencontra uma garota que estava gostando dele e a maltrata sem motivo. Daí a professora é seqüestrada e parei de ler.

O único termo técnico existente adequado para qualificar o personagem principal é babaca. O sujeito é um babaca, só faz merda e ainda se tem a presunção de maltratar os outros que lhe querem bem. Tem mais é que se foder mesmo.

Para sanar sua curiosidade, eu posso resumir o resto da história, pois li a sinopse completa. Procurei saber se algo que presta aconteceria e se valeria a pena continuar lendo essa bosta, antes de atirá-la pela janela.

Só depois de a professora ser estuprada (de novo), Inugami resolve salvá-la. Ele cata a mulher em todo lado, mas não a acha em lugar algum. Enquanto isso ela vai sendo estuprada e vídeos disso sendo postos na internet. Um tempo depois ele entra em contato telepático com a mulher e (conveniente para o enredo) descobre sua localização. (De onde ele tirou telepatia? Do cú? Desde quando lobisomem tem telepatia? Por que não podia ter feito isso antes?)

Daí ele vai atrás dela e é atacado por tudo possível e imaginável, mas consegue sobreviver (conveniente para o enredo) graças ao ”real poder do lobisomem”, uma aura dourada que salva ele e a mulher. Ou seja, ele vira super-sayajin Dragon Ball. E morre no final. Daí a professora se muda para o Alaska para viver isolada com lobos. (Com que dinheiro? No primeiro capítulo ela era uma pé-rapada e agora pode custear férias infinitas?) E o Inugami ressuscita, porque é lobisomem, mas ficou com amnésia de tudo o que aconteceu e vira cobaia dos militares. Fim da história.

Pela puta que pelo cú pariu o diabo: que merda é essa? Em quê que essa história pode ser considerada boa? Nem ao menos final feliz tem. Em quê essa história eleva o leitor? Em quê essa história traz esperança? Em quê essa história mostra o mal sendo vencido? O quê de bom você pode aprender com isso? Que raios o autor quis passar? Alguém pode me explicar o que leva pessoas a gostarem disso? E tem fãs! O que mais me dá raiva é que há mercado consumidor para esse lixo. Não é só o troço ser ruim, é também haver quem goste… Ah, se me fosse possível estapear telepaticamente os outros…

O problema com a telebasura (Ver também: Gosto se discute, sim.), é que ela só existe porque há quem a consuma. Se não houvesse mercado consumidor, o editor não a teria publicado. Cada vez mais e mais somos saturados com todo tipo de lixo, chafurdando cada vez mais profundamente numa torrente de esgoto intelectual. Essa não é a primeira vez que me decepciono com uma grande bosta, mas é a primeira vez que ela é tão ruim que sou obrigado a parar no meio.

Crítica comparativa

Sobre outros títulos que também foram uma bosta, um dos que eu tenho em péssima conta é Elfen Lied. E, refletindo agora, ambos apresentam um traço em comum, que é a ”tortura dos personagens”. De forma sádica, o autor impõe a seus personagens situações de grande sofrimento físico ou psicológico. Ele deleita-se com o cruel martírio contínuo a que são lançados os personagens. E, creio, a única explicação para que tais títulos sejam apreciados, seja a de que os leitores também compartilhem do mesmo sadismo e crueldade.

Em Elfen Lied, porém, o autor faz uso de ganchos de enredo (cliffhangers), isto é, a cada capítulo ou fase ele cria uma situação que atiça a curiosidade do leitor para continuar querendo saber mais. Entre as seqüências de ondas de tragédias, o autor não destrói o fio de esperança de que algo bom aconteça. O grande problema em Elfen Lied é que isso nunca acontece. Até o final, até o último capítulo, nada de bom acontece. Todos sofrem (especialmente dor psicológica). Sempre que uma situação aparenta se encaminhar para a resolução, um inesperado revés surge do nada e tal situação fica ainda pior. E, sim, Elfen Lied também é carregado de violência sem sentido, erotização apelativa e gente se urinando nas calças.

Eu li Elfen Lied integralmente e foi uma grande decepção. O autor conseguiu me reter com os ganchos de enredo, tal como iludiu os personagens com a falsa esperança, com a expectativa a ser frustrada, de tempos melhores. A frustração em ver que, naquela horrível história, os personagens não encontram paz nem mesmo após suas mortes é revoltante.

Essa é a mesma sensação que tenho com Wolf Guy – Ookami no Monshou. Parece-me que esses autores expressaram seus sadismos, e seus consumidores aprouveram-se com esses sadismos, numa mórbida cumplicidade. Não tenho outra explicação para esses títulos fazerem algum sucesso, a não ser a de que essa gente, mais do que anestesiada frente ao mal, está mentalmente corrompida, degenerada, pervertida. E não tendo como, em agir, expressar essa psicopatia /sociopatia no mundo real, seja por covardia, seja por incompetência, contentam-se em encontrar na ficção o prazer com o sofrimento alheio.

Esse tipo de título não traz nada de bom para o leitor. Apenas contribui para a doentia apatia frente às mazelas do mundo. É diferente de outros títulos dos quais eu não gostei por questões técnicas ou de desenvolvimento do enredo. Por exemplo, Doragon Kuesuto: Dai no Daibōken. Dragon Quest – A grande aventura de Fly é uma história amável do bem vencendo o mal. Trata do amor, da amizade, do perdão, da superação, da perseverança. Eu não gostei tão somente do desenvolvimento, pelo excessivo uso dos recursos deus ex machina (artifício de enredo) e cliffhangers. Ou seja, minhas divergências são apenas técnicas e não com o teor da obra (muito boa por sinal). Já Death Note é exatamente o contrário: o uso dos recursos de enredo é a chave para fazer a história funcionar, pois o enredo é horrível, partindo de uma premissa impossível e inviável. Os personagens em Death Note são densos, coerentes, podemos nos identificar dentro da história por conta da genialidade como o autor a conta, mesmo partindo de uma idéia estúpida.

Mas Wolf Guy – Ookami no Monshou não tem nada. Não tem arte, não tem enredo, não tem personagens, não tem premissas, não tem desenvolvimento, não tem final feliz. Só tem público… Mas mesmo uma ruma de bosta na estrada também atrai moscas, então… cada qual com seu igual.

Jane Zhang – Dust My Shoulders Off (Official Video)

Embora a música seja… meh… eu gostei mesmo foi da homenagem às obras de arte.

Em ordem são:

0:20 Aves da noite, Edward Hopper, 1942
0:40 Auto-retrato, Vincent Van Gogh, 1889
0:48 As respigadoras, Jean-Francois Millet, 1857
0:57 Garota com brinco de pérola, Johannes Vermeer, 1665
1:23 O mundo de Christina, Andrew Wyeth, 1947
1:39 Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, Georges Seurat, 1884
1:53 O grito, Edvard Munch, 1893
2:02 A tentação de Santo Antão, Salvador Dalí, 1947
2:20 Subindo e descendo, M.C. Escher, 1960
2:50 O filho do homem, René Magritte , 1964

Por que a beleza importa? – Roger Scruton

Why Beauty Matters? (Por que a beleza importa?) Roger Scruton
https://www.youtube.com/watch?v=bHw4MMEnmpc
https://vimeo.com/512027224

[Wordpress não permite integração gratuita com o Bitchute, é necessário clicar no link acima]

Produzido pela BBC, este programa apresenta o filósofo Roger Scruton num provocante ensaio sobre a importância da beleza nas artes e nas nossas vidas.
Scruton argumenta que no século XX, a arte, a arquitectura e a música viraram as costas à beleza, fazendo um culto à fealdade e levando-nos a um deserto espiritual.
Usando o pensamento de importantes filósofos, Platão e Kant, e conversando com os artistas Michael Craig-Martin e Alexander Stoddart, Scruton analisa onde a arte correu mal e apresenta sua apaixonada proposta para restaurar a beleza à sua posição tradicional no centro da nossa civilização.

Para que servem os pedais do piano?

What do the pedals on a piano do? | Cunningham Piano Company, Philadelphia, King of Prussia, PA

Jonas Mello e Christopher Lee

Neste vídeo faço homenagem a duas das grandes vozes da dramaturgia. Dublagem de Christopher Lee e Jonas Mello para o urso guerreiro de “A bússola de ouro”.

In this video I make homage to two great voices of dramaturgy. Voice over of Christopher Lee and Jonas Mello to the warrior bear of “The golden compass”.

Superman – A Era de Ouro da animação

Superman – The Golden Age of Animation

Bob Ross e a alegria de pintar

Para quem ainda não conhece:

Você conhece a arte dos dioramas?

How to build an eye-catching diorama – Realistic Scenery Vol.12

Luke Towan

“A step by step guide in creating a super realistic suburban scene with a twist (HO Scale). In this tutorial I take you through the process of building a laser cut wood structure that is typically used for model railroad scenery and then I’ll demonstrate all the techniques used to create an awesome dystopian themed diorama. Nearly all of the tiny details I use not only to model the interior but also all of the exterior details were printed on the Anycubic Photon 3D printer. All of the interior details were downloaded from Thingiverse.com whereas all of the exterior details including the garage were designed using TinkerCad.com and then printed. It’s quite amazing what can be built and designed using such a simple program with basic building blocks. You’ll also see me using the Noch Gras-Master 2.0 to add the static grass, it’s quite an expensive unit but you are paying for quality and assurance. The grass applicator was sent to me for inclusion in the upcoming eBook and I decided to get a head start and try it out on this diorama.”