Sobre o autismo
Recentemente, em outubro de 2025, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil elaborou um relatório atualizado com as mais recentes descobertas e parametrizações de tratamento referentes ao autismo em crianças. Aqui tenho que ser pedante e dizer que o relatório está cheio de erros de português… Independentemente disso, é de muito valor divulgar essas informações para auxiliar pais que tiveram seus filhos recentemente diagnosticados com o transtorno, ou que suspeitam que suas crianças sejam autistas.
Veja mais: https://pedrofigueira.pro.br/tag/autismo/
A primeira e mais importante informação a você, pai/mãe que caiu por estas páginas, é a de que internet não é médico. Doutor Google não serve para tratar ninguém. É necessário procurar ajuda profissional, um psicopedagogo, um psiquiatra ou neurologista infantil, alguém que possa efetivamente diagnosticar o autismo e orientar como iniciar o tratamento. Quanto mais cedo for iniciado o tratamento (intervenções), melhores são os resultados na qualidade de vida e desenvolvimento da criança.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta nos primeiros anos de vida por comportamentos que incluem: dificuldades na interação social/comunicação e presença de comportamentos repetitivos e interesses restritos. A última atualização do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais — 5.ª Edição (DSM- 5) aboliu vários subgrupos existentes e simplificou o diagnóstico com o termo Transtorno do Espectro Autista [não se trabalha mais com síndrome de Asperger, por exemplo — agora tudo é um grande espectro, desde o retardo mental gravíssimo e incapacitante até os comprometimentos mais sutis, que levam à depressão ou suicídio]. Adicionalmente, estabeleceu níveis de gravidade de acordo com a necessidade de suporte do indivíduo, variando de pouco suporte (nível 1) até muito suporte (nível 3).
Para o diagnóstico, as características clínicas devem estar presentes desde o início do desenvolvimento, em diversos contextos sociais, com uma clara evidência de prejuízo na adaptação ou na qualidade de vida da criança. Além disso, os sintomas não podem ser mais bem explicados pela deficiência intelectual (Transtorno do Desenvolvimento Intelectual) ou pelo atraso global no desenvolvimento neuropsicomotor (ADNPM).
Talvez esse seja o principal fator para corretamente diagnosticar o autismo: o evidente prejuízo cognitivo e social. Com sua banalização e romantização oriunda de filmes e séries, parece que o autismo perdeu no grande público o significado de ser um transtorno, passando a ser vinculado a pessoas ”inteligentes e anti-sociais”. Não é o caso. O autismo é um problema psiconeurológico de largo espectro e ainda não totalmente compreendido. Não se sabe ao certo o que o causa e por que há tanta diferença entre os acometidos. A escala varia desde aqueles que podem passar despercebidos aos que precisarão de suporte integral a vida toda.
O autismo é caracterizado por acometer duas características humanas: a habilidade de comunicação social e a forma de interação com o ambiente. Pessoas normais também podem apresentar comportamentos parecidos, “sintomas” à primeira vista, o que dificulta o diagnóstico e causa falsos positivos. Não basta ler a tabela abaixo e achar que tal indivíduo tem autismo. São necessários vários testes e acompanhamento profissional por meses antes de se estabelecer o diagnóstico. Existem por volta de 50 marcadores que caracterizam o autismo e a maioria da população apresentará ao menos 25 deles. Porém só quando esses sintomas tornam-se incapacitantes para a vida ou clinicamente prejudiciais para o bem-estar geral do paciente, pode-se definir que está estabelecido o quadro autista.
Independentemente do diagnóstico, aproveitar a janela de plasticidade neuronal da primeira infância para proceder às intervenções é essencial para minimizar os prejuízos. Tão breve você ou o pediatra que acompanha seu filho note que a criança tem algum atraso no desenvolvimento, é preciso iniciar a abordagem terapêutica correta.
Dificuldades Sociais e de Comunicação
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Interesses Restritos e Repetitivos
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Como diagnosticar?
O diagnóstico somente pode ser dado por um profissional especializado com experiência clínica prática no atendimento a crianças autistas. Há uma miríada de problemas no desenvolvimento de crianças e o autismo é apenas mais um deles. Por exemplo, pouco se fala na demência infantil, que você pode conferir aqui: Demência infanto-juvenil
A avaliação é feita por uma série de testes que irão mensurar a escala e rastrear os sintomas. É necessário identificar e distinguir os sintomas de autismo de outras morbidades, tais como TDAH, TOC, TOD etc. Esses testes estão em constante aprimoramento e não há um teste “unificado”, “definitivo” ou “infalível”. Uma vez comprovada a suspeita, passa-se então a estabelecer qual é o nível de suporte necessário ao autista. Esse nível de suporte pode variar com o tempo, dependendo de como o paciente reaja ao tratamento psicoterapêutico.
Embora haja uma certa relação entre gravidade de sintomas observados nas duas esferas de sintomatologia do TEA, a diferenciação entre os níveis reflete mais a ideia de prognóstico, por consistir em avaliar a necessidade que o paciente requer para as atividades da vida cotidiana e a sua independência funcional. Para tanto, vale ressaltar que os níveis de suporte requerem, pelo menos, uma certa idade e tempo de evolução para serem estabelecidos, devido às próprias características inerentes ao desenvolvimento infantil. Portanto, não é recomendável classificar crianças recém- diagnosticadas ou muito pequenas, pois a gravidade dos sintomas pode variar com a abordagem terapêutica e a maturidade do cérebro.
Não se espante se o seu médico solicitar uma bateria de exames complementares, pois é necessário afastar a suspeita de várias outras possibilidades. Embora não haja marcadores genéticos conhecidos para o autismo, várias síndromes apresentam sintomas parecidos. Também serão solicitados exames neurológicos, oftalmológicos, auditivos etc.
Como tratar?
Não há cura. Então, se alguém lhe prometer “curar o autismo”, ou “reverter o quadro”, ou “remédio para autismo”, ou “dieta para autismo”, ou qualquer coisa parecida, está tentando tirar seu dinheiro. Lidar com charlatões fará parte de sua rotina como pai/mãe de autista.
O tratamento consiste em abordagens e intervenções psicoterapêuticas individualizadas sob medida para cada paciente. A freqüência, a carga e a intensidade das sessões variam de paciente para paciente. E como você que está lendo este texto muito provavelmente é brasileiro, saiba que são poucos os profissionais especializados nestas terras atrasadas. Você vai sim precisar participar ativamente do tratamento da criança. Vai precisar aprender algumas técnicas, participar de treinamentos etc. E vai sim precisar de acompanhamento médico. Não tente aprender sozinho alguma técnica que viu na internet e fazer em casa: você precisa de treino especializado. Sua função é ajudar os parcos médicos especialistas, não é prejudicar ainda mais a criança.
Atualmente as abordagens com maior evidência de eficácia e benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), associada a terapias eficazes, como fonoterapia, terapia ocupacional com integração sensorial e outras […]
E os remédios?
Os médicos muito provavelmente receitarão vários remédios que podem auxiliar a minimizar os inconvenientes sintomas. Eles não tratam o autismo em si, mas os sintomas que aquele paciente específico pode apresentar, como irritabilidade, distúrbios do sono (muito comum em autistas), hiperatividade etc. Antipsicóticos são úteis nesses casos mais graves e, como em qualquer caso psiquiátrico, precisam ser usados sob supervisão médica. Por vezes, apenas suplementação de melatonina pode ajudar.
Canabidiol?
O canabidiol ainda é objeto de muita especulação e tem sido investigado em vários estudos, com resultados ora positivos, ora negativos ou inconclusivos, ainda sem a qualidade metodológica necessária para aprovação das agências regulatórias e indicação de prescrição. Possivelmente, novos estudos que estão por vir poderão indicar ou não a eficácia do canabidiol e outros derivados da cannabis para uso em pacientes com TEA. Indicar uso de canabidiol em indivíduos com TEA deve ser considerado, até o momento, experimental e sem garantia de eficácia, baseado na relação do médico-paciente-família, preferencialmente após assinatura de termo de autorização e consentimento.
Para saber mais a fundo sobre o assunto, eu deixo aqui o relatório da SBNI (tanto o hyperlink quanto o arquivo) e um vídeo. Procure fontes confiáveis e lembre sempre que “médico não é casamento”. Se você estiver insatisfeito com a abordagem de um especialista, procure uma segunda ou terceira opinião. Sempre busque as fontes, sempre questione se aquele conteúdo é verídico ou não. E fuja de curas milagrosas, que não existem.
Texto completo: Recomendações SNBI para o Transtorno do Espectro Autista 2025
Eu particularmente não gostei de algumas partes do vídeo a seguir, porém seu autor procura deixar claro que o autismo é um transtorno que causa prejuízos importantes ao seu portador. É uma condição limitante, que não deve ser romantizada.
Você Conhece os 12 Padrões de Comportamento e Interesses no Autismo? | Luna ABA
Quais são os comportamentos e interesses restritos mais comuns em crianças autistas? Neste vídeo, Lucelmo Lacerda explica de forma clara e objetiva os 12 padrões mais frequentemente descritos na literatura científica, ajudando pais, professores e profissionais a entenderem o que de fato caracteriza o Transtorno do Espectro Autista. Ao longo do vídeo, ele aborda desde prejuízos na comunicação social, movimentos repetitivos e sofrimento diante de mudanças, até hiperfocos intensos, padrões rígidos de pensamento, seletividade alimentar e alterações na sensibilidade sensorial. Lucelmo também esclarece por que esses comportamentos não devem ser interpretados como “manias”, “birra” ou falha na educação, mas sim como manifestações clínicas do desenvolvimento neurológico. Um guia direto, baseado em ciência, para reconhecer esses padrões com mais precisão, reduzir julgamentos equivocados e promover intervenções mais adequadas e respeitosas.
Em tempo: não tenho vínculos com o apresentador, tampouco aprovo, recomendo ou incentivo a aquisição de seus produtos e serviços.