Diário da academia 25-07-2021

Você é sedentário? Está fora de forma? Está sem motivação para treinar?
Assim como eu, é um arremedo do que foi um dia?


Desde que eu era criança, nunca gostei de nenhum esporte coletivo. Associado ao fato de ter sido muito gordo, pode-se inferir que minha vida desportiva não era das melhores.

Pequenino, ganhei uma bicicleta. Não lembro se era ”Caloi” (entendedores entenderão), mas era uma bicicleta. Sendo uma criança gorda, o selim sempre me machucou muito, muito mesmo, e não conseguia usá-la direito. Nunca aprendi, sempre dependendo de rodinhas. E era, pois, motivo de chacota das outras crianças, tanto por ser gordo, quanto por usar rodinhas. Além de sentir muita dor e assar (ferir) o traseiro, também tive o desprazer de ter o pescoço cortado por linha de pipa com cerol. Estava andando na rua ao lado da rua da vovó, a mesma em que um cachorro me mordeu atrás do joelho, finalmente aprendendo a me equilibrar na pesada bicicletinha azul, quando a linha cortante me freou pelo gogó. Acidente sem complicações maiores (felizmente), foi a última vez que me aventurei a sentir dor naquela coisa.

E claro, desde aquele dia, também detesto pipas com cerol ou não.

Certa vez dois moleques montados em bicicletas roubaram meu boné. Eu já era um pouco maior. Na hora de retomar o boné, acabei cortando meu braço na bicicleta de um deles. Sangrou um pouco, mas nada grave. Outro motivo para eu não gostar de bicicletas.

Gordo, nanico e asmático, meus pais decidiram que eu deveria ir para a piscina. Só que não tínhamos piscina para nado, então eu deveria entrar num clube. A natação me faria emagrecer, dizem que resolve asma e eu ”conviveria com outras crianças”. Faltou combinar com a água nojenta do clube da Telerj. E com a touca: minha mãe resolveu que eu tinha que cobrir minhas orelhas com a touca de mergulho e até hoje lembro aquilo apertando minhas orelhas.

E, desde aquele dia, também detesto qualquer coisa que se aproxime dos meus ouvidos.

Envergonhado por minha aparência, compleição física e por não saber nadar, enfrentei essas coisas e lá fui me atirar na água. Engoli água pelo nariz e fiquei muito assustado. Não lembro se chorei, mas tendo sido uma criança muito chorosa, devo ter aberto o maior berreiro (mesmo já sendo ”maiorzinho”). Eu dizia que a água não ”dava pé”, e realmente eu não conseguia ficar em pé com o rosto emerso. Mesmo com a pranchinha-bóia (que ainda está guardada no armário), não consegui seguir a turma. Assustado com a água e mais uma vez motivo de chacota das outras crianças (que eram menores e sabiam nadar), desisti no segundo dia.

Até hoje não sei nadar e por isso tenho medo de chegar perto de piscina ou do mar.

Continuei engordando tal como um porquinho roliço até a época de adolescente na escola. E desenvolvi ginecomastia. É uma condição de fundo hormonal em que o homem desenvolve glândulas mamárias e tecido adiposo, tal como uma moça. Meu busto tinha uns 110cm, vestia calças número 56 e usava suspensórios por baixo da camisa, pois nenhum cinto mais as segurava.

Jogar bola com os outros garotos sempre foi um fiasco, pois não gosto desses esportes, não sou uma pessoa competitiva e nunca tive fôlego para brincar. Minha asma era muito forte e mal conseguia fazer alguma atividade física sem entrar em crise. Também tenho a pele muito sensível (qualquer coisa me machuca) e as colisões são uma tortura. Por exemplo, após um único jogo de vôlei de 10 minutos, fiquei com os braços completamente roxos, com a aparência de como se tivessem quebrado. Levou uma semana para os hematomas passarem.

O prof. de Educação Física Júlio foi o primeiro que me deu algum apoio para eu tentar emagrecer. Prof. Risovaldo também dizia que eu precisava ao menos caminhar ou correr, então assim comecei fazendo caminhadas durante as aulas de Educação Física (que parei de cabular para ir jogar fliperama na esquina). Caminhei, caminhei, mas ainda não era o que eu queria, ou o que eu precisava. Eu sentia uma vontade muito grande de fazer algo para ficar mais forte¹, mas não sabia o quê. Eu queria fazer alguma coisa, treinar algo, mas não conhecia nada. E já que não era o que eu queria, então eu não fazia nada. O prof. Júlio me vendeu a preço irrisório um remo seco para treinar em casa, que usei bastante. Foi esse remo seco que instilou em mim a primeira semente dos treinos de força. Ela haveria de ficar inerte por um tempo, pois outro fato haveria de ocorrer.

¹ Quando jovem eu sempre admirei artes marciais e queria ter praticado, mas meus pais achavam que seria ruim para mim e acabei não tendo essa experiência (só fui tê-la já adulto). Mas eram os anos ’90 e chegava ao Brasil, pelo 1406, TAE BO! ”Braços fortes, pernas definidas, abdômen marcado, flexibilidade nos movimentos: Tae Bo infundirá em você a mais poderosa energia que você já sentiu!” (sim, eu ainda recordo o comercial…)

Por livre e espontânea pressão fui ”convidado” a fazer a tal cirurgia de ginecomastia, e precisava emagrecer. O tratamento feito pelo SUS não estava sendo ”eficiente” o suficiente: emagrecia saudavelmente, mas não rápido. Por conta própria, associando o TAE BO (que já praticava) a uma semi-anorexia, se é que tal coisa existe, perdi 30 kg em 3 meses. Quase não comia e treinava como um doido todo dia, ao ponto de evacuar nas calças (quase um Crossfitter). O tratamento para emagrecer foi iniciado na Santa Casa do Rio de Janeiro, que a época ainda era antro de desvio de recursos públicos por administradores corruptos. Não havendo muita segurança, a cirurgia acabou acontecendo em clínica particular.

Ao deixar de ser centenário e chegar aos 74 kg, estava pronto para ser operado. Os eventos da cirurgia não foram bons para mim, não são boas recordações. Além de ter sentido muita dor no pós-operatório e a parte estética ter ficado insatisfatória, questões familiares sopesaram o evento. Mas é inegável o benefício em minha saúde após ter me recuperado da cirurgia e estar bem magro.

Foi nesse período que a semente do bicho do ferro começou a germinar. Iniciada minha primeira faculdade, sem um tostão furado e desempregado, usei tanto quanto pude o velho remo seco, associado a tantas bicicletas ergométricas e TAE BO. Foi aí que nasceu a vontade de ter um espaço só meu com equipamento próprio para treinar do meu jeito. E ficava fantasiando sobre como poderia organizar um espaço que, até então, nunca tive.

Daí veio meu primeiro emprego. Eba! E com ele voltou o sedentarismo… Eca…

Tantas e tantas tentativas de ter alguma atividade física sempre foram frustradas. Nunca tive tempo, ou organização, ou disposição para fazer qualquer coisa. Comecei a engordar de novo, enquanto colecionava aparelhos de ginástica Polishop que ficavam pegando poeira ou servindo de cabide de roupas… Nessa época, já com alguns tostões furados, comprei o que um novato inexperiente e ignorante compra quando quer fazer ginástica em casa, um famigerado aparelho ”peck deck”. Passamos por despejos, mudanças, problemas de saúde, mudança de emprego, mais despejos, mais mudanças, mais problemas de saúde.

Interessante notar que até esse ponto da minha vida eu ainda não sabia bem o que eu queria, ou o que seria bom para mim. Eu ficava pulando de tipo em tipo, de aeróbica para ginástica, de remo seco para caminhada, mas sempre insatisfeito.

E finalmente chegamos a 2014! Descubro que dentro da UERJ há uma academia de musculação pertencente à Faculdade de Educação Física, que fica disponível para ser usada por servidores e alunos da UNATI. Resolvo experimentar. E aquela sementinha do bicho do ferro floresce. Fico completamente apaixonado pelo esporte de musculação. Acabou sendo aquilo que eu sempre procurei, desde a época do prof. Júlio, mas não conhecia. E tão breve conheci a musculação, o esporte do halterofilismo me adotou. Finalmente havia encontrado meu lugar.

Nisso também temos uma grade ironia: meu avô trabalhou carregando peso uma vida inteira, assim como seus antepassados, e sempre disse que eu deveria estudar bastante para nunca ter de trabalhar levantando peso. E qual é o esporte que eu escolhi? Qual é a atividade que eu tanto tento (como veremos a seguir) fazer?

Tento, pois com essa paixão também veio o Pica-Pau. A vida é um Pica-Pau [<< clique para entender] e toda vez que suas engrenagens começam a aquecer, ela precisa ”fazer uns ajustes”.

Eu chamo de Pica-Pau o diabinho que me atravanca o progresso desportivo. O safado sempre aparece com algum empecilho para me fazer voltar à fase de planejamento.

 

Tem academia disponível em seu lugar de trabalho? Que tal se ela fechar em dias aleatórios e você nunca saber quando vai abrir? Ou você ficar doente toda hora?

Um dos fundamentos da musculação é a consistência. Sem isso, não há progresso. Desejoso de mais ganhos, optei por procurar outro lugar para treinar.

Tem uma segunda academia disponível em seu lugar de trabalho? Que tal se ela for paga (dentro de uma instituição pública) e o equipamento for podre?

Esta foi só visitação. Se eu tiver de pagar (o que achei errado), que seja por algo adequado às minhas necessidades.

Tem uma academia bem pertinho de sua casa. Que tal se o transporte público for tão ruim que você chega exausto e não consegue treinar?

Eu moro na contramão do serviço e a condução é inadequada. Além de acumular muitas faltas (falhando no objetivo de consistência) não estava fazendo o que queria. Precisava encontrar um lugar para treinar halterofilismo. Só que as parcas academias especializadas ficam em áreas para as quais o transporte é ruim para mim.

Pouco importava! Precisava encontrar alguém que me treinasse! Após bastante garimpar, encontrei o prof. Jorge Califrer. Tive minha primeira experiência no esporte na ”caverna”, lá no bairro de Botafogo, e gostei.

Tem uma academia de halterofilismo? Que tal se você não conseguir pagar o transporte até lá? (Só de transporte são R$ 1.000,00 por mês!)

— Garoto, você leva jeito. Eu te treino de graça.
— Meus horários e o transporte não fecham. Meu salário não comporta o valor do transporte…

Já desanimado, poucos meses depois, para minha surpresa, ele abre uma turma de levantamento de peso no Maracanã! (sem relação comigo, foi coincidência mesmo) Para encontrar novos alunos, ele resolveu tentar abrir uma turma na Zona Norte, alugando um horário num Box de CrossFit.

O professor abrir uma turma próximo a você é uma chance em um zilhão. Que tal se o dono da CrossFit for um bosta, maltratar o professor e este ter que ir embora?

Foi um vexame. E fiquei sem treinador… Mas não vou desistir do esporte, Pica-Pau miserável! Se não tenho quem me treine, EU ME TREINO! Vou aprender por conta própria esse negócio! Nesta maldita cidade decadente, precisei encontrar um Box de CrossFit que me deixasse usar o equipamento, porém sem fazer parte dos insanos WOD’s rabdomiolíticos. Catei, catei e achei um lugar que me aceitasse no Méier. Ali fui batendo cabeça (às vezes literalmente), me corrigindo, me gravando em vídeo, testando, experimentando, evoluindo razoavelmente bem para um completo amador.

Agora cai doente aí.

Nessa época peguei uma Dengue que me derrubou feio… Além disso, era chegado o tempo de retomar os estudos e fazer minha pós. Só que o valor da mensalidade do CrossFit era o valor da faculdade. Juntando a impossibilidade de treinar com os estudos à frente, optei pela pós, adiando um pouco a retomada do esporte

Tem condições de voltar ao esporte? Que tal se agora a Crossfit mudar de dono e não te aceitar mais?

Mamãe e eu então fizemos uma pesquisa de campo, indo a várias e várias academias pelo Rio de Janeiro, conhecemos Marcello Hoof (campeão CONBRAFA), passeamos por vários bairros, mas não encontramos nenhuma academia ou Box de Crossfit que pudesse me adotar e fosse alcançável pela condução pública. Em Saes Peña, fica em frente a uma cracolândia; o bairro do Grajaú é uma ilha dentro da cidade; Barra da Tijuca nem fomos; no Méier não tinha. Só quem mora no Rio de Janeiro e depende de ônibus sabe como é.

E volta o cão arrependido para a academia de bairro, aquela de parágrafos anteriores. Nessa época, eu já havia me tornado vegetariano. Como muitos ex-carnistas, engordei. Não estava tão gordo como antes, mas fiquei fofinho. Retornando, consegui perder um pouco de peso. Mas eu estava insatisfeito com algumas coisas e optei por mudar de academia. Experimentar outros ares, ver outras opções. Tentei outra academia próxima, mas também não deu certo lá, não me senti bem. Também tive vários problemas pessoais e desisti de lá também.

Continuei afofando e estufando desde então… Mesmo voltando a colecionar aparelhos Polishop em casa, não consegui estabelecer a consistência de um bom treino tal como eu queria. Neste momento o nobre leitor pode usar minhas palavras contra mim: “E já que não era o que eu queria, então eu não fazia nada.”. Não exatamente assim. Pois todas as vezes que retomei os exercícios, alguma coisa aconteceu que me impediu de continuar. Ou eu ficar doente, ou minha mãe ficar doente, ou ter de resolver problemas, ou ter de estudar pós etc. Não foi mais falta de motivação, pois agora eu já sabia o que queria.

Após sair da segunda academia, acabei ganhando muito peso, chegando a 120 kg. No início de 2019 procurei endocrinologia/nutricionista e até meados daquele ano consegui perder 25 kg. Após perder esse peso, recomecei a fazer remo seco (quando dava), voltando às origens e me preparando para voltar ao esporte.

Passou dos trinta? Aqui está sua hérnia de disco!

Passei o ano de 2020 praticamente acamado. Perto do final daquele ano, mais uma vez, por recomendação médica o cão arrependido voltou para a tal academia de bairro. Naquele momento senti que talvez o levantamento de peso não fosse mais viável para mim. Afinal, com essa contínua dor nas costas, arranco e arremesso não estão mais nos meus planos. Qualquer movimento brusco hoje me trava. Esta semana mesma tive uma crise de coluna horrível. É uma dor incapacitante, não consigo fazer nada além de me medicar, deitar e esperar a dor passar. Com tantas crises de dor nas costas, acabei faltando mais do que comparecendo, abandonando enfim (pela terceira vez) a pobre academia.

Mas para que contar tantas desventuras? Qual meu objetivo com todo esse palavrório? A resposta está no vídeo que segue.

Tal como a saga para me formar, a saga para mudar de emprego, a saga para publicar meu primeiro livro, a saga para comprar casa própria, a compra desse equipamento também foi uma saga. Relatarei no futuro. Por hora, quero deixar a quem por aqui passar que, por mais contratempos que você tenha, por mais desventuras por que passe, uma hora sua vez chegará. Demora sim, demora muito mais do que a gente gostaria, mas uma hora vem.

Se você também passa por dificuldades, contratempos, empecilhos e parece que o universo conspira contra, (no esporte ou em outra área de sua vida), saiba que não está sozinho nessa. Considere isso um teste de resiliência, ou de teimosia mesmo. Por dificuldades todos passamos, nossas obrigações vêm antes das nossas vontades. Acabamos deixando para depois. Mas se insistir bastante, uma hora você também alcançará seu objetivo. Nunca é tarde para começar outra etapa da sua vida.

Todos passamos por dificuldades, alguns mais, outros menos. Mas não há data limite para começar, recomeçar, tentar ainda mais uma vez. Você pode mudar de emprego aos 35. Viajar o mundo aos 45. Casar-se aos 60.
Só quem tem a vida resolvida aos 30 anos é a sua lombar.