Abate de criminosos: crime contra humanidade ou retaliação necessária?

A discussão do plano das idéias em contraposição com a realidade factual vem desde o ideologismo de Platão contra a materialidade de Aristóteles.

Uma coisa é o que discutimos filosoficamente. No campo das idéias, podemos falar de tudo, questionar tudo e interpretar livremente numa hermenêutica infinda acerca daquilo que seria o melhor ordenamento político ou a melhor linha de ação frente a um problema social. Outra coisa é o que é possível na realidade, quais ações são realmente factíveis e eficientes dentro do campo das ações em políticas públicas.

Indago, portanto: na realidade e no contexto em que vivemos, as outras opções efetivamente resolvem o problema? Nas últimas décadas desde Brizola, as outras opções têm sido utilizadas (diálogos, programas públicos, conscientização etc.) e não funcionaram. E enquanto não funcionam, dezenas, centenas, milhares de pessoas inocentes são penalizadas pela teimosia míope de continuar insistindo no que não está funcionando.  ”Porque é filosoficamente correto.” ”Porque é ético.” ”Porque é juridicamente legal.”

O que é belíssimo no campo das idéias nem sempre funciona na vida real.

É como a visão do Batman que se recusa a matar o Coringa. Batman, vigilante louco duma cidade em que a lei não funciona. Coringa, assassino imprevisível e irrecuperável. Mas Batman mantém-se convicto de que quer ”ajudar” o Coringa. De que ele tem salvação. De que pode ser recuperado. E a cada fuga, mais tragédias. Assim, ao não tomar uma solução eficiente, Batman torna-se o maior cúmplice do Coringa.

Filosoficamente a vida é santa em todas as suas formas, da concepção ao fim natural. Ninguém tem o direito de tirar a vida de outrem em hipótese alguma. Do aborto à pena de morte, toda supressão da vida doutrem é hedionda. Isso chama-se ”razão”. E numa guerra, a primeira coisa que morre é a razão.

Abater criminosos é um crime contra a humanidade? Que seja, então.

Na realidade em que estamos, é possível resolver de outra forma? Não agüentamos mais a vida em barbárie que já vivemos. Quanto tempo mais temos que esperar para que as outras ”soluções” comecem a surtir efeito? Quantas mães mais precisam chorar? Quanto mais medo precisamos ter? Até quando?

Por 22 anos morei na favela do Jacarezinho, uma das mais violentas e imundas favelas do Rio de Janeiro. Eu bem sei como é: eu vivenciei. E a insatisfação minha e da maioria das demais pessoas chegou ao ponto máximo. Não queremos mais condescendência. Os tempos de tolerância e de belos discursos só nos trouxeram tristeza, medo e dor. Já não falamos mais com a razão. Falamos agora com nossos corações partidos e ressentidos, magoados com tudo o que sofremos, clamando por uma solução não bela ou ética, mas que resolva.

Não queremos banho de sangue. Não queremos chacina. Não queremos o mal alheio. Não queremos mais mortes. Queremos apenas que ao menos os homens de bem possam lutar em iguais condições. Que os soldados dessa guerra saibam que ao menos podem revidar. E que os homens de bem possam continuar vivos. É simplório defender que os homens de bem não possam revidar, usando a força necessária para tanto, bem como as mesmas armas de nossos algozes.

Se a situação continuar, em breve nos tornaremos um narco-país. As facções criminosas, numa nova FARC (ou melhor, FARB).  A perspectiva absolutamente utilitarista afirma que é melhor o abate de 100 do que uma guerra civil.


 

Conversa entre o Demolidor e Justiceiro – DEMOLIDOR

Parte 1

Parte 2

 

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