Cogito tornar-me um cafetão…

Oscar Maroni: o homem; a lenda; um herói. É meu ídolo. Um sujeito que consegue legalizar um puteiro no Brasil é um gênio do empreendedorismo. Um exemplo de garra, perseverança, audácia e sagacidade.

Poucos sabem, não comento, mas estou na pindaíba. Não passo por privações, porém destarte não tenho qualquer expectativa de melhorar minha situação financeira em curto prazo. Ser servidor do Estado do Rio de Janeiro garante-me meu razoavelmente estável estilo de vida modesto. Mas o acomodamento pode ser muito prejudicial. É necessário sempre sair da zona de conforto para podermos evoluir e progredir, tanto no campo pessoal como no campo financeiro.

Para tanto, vislumbrei aproveitar uma possibilidade que a lei me permite, que é abrir meu próprio negócio. Servidores federais não podem abrir empresas sob nenhuma hipótese, mas servidores estaduais podem, desde que essas empresas nunca negociem com órgãos estatais. E comecei a estudar como proceder em tal empreitada.

Poucos dias de estudo levaram-me à seguinte conclusão: para estabelecer um empreendimento econômico legalizado no país, é necessário antes de tudo saco. Um saco bem grande, resistente, com bastante capacidade e durabilidade invejável. O principal empecilho que vejo são as questões jurídicas. Exemplo: para legalizar sua empresa, por menor que ela seja, você será tributado a partir de R$ 50,00 por mês. Num país onde o salário mínimo é menos de R$ 1.000,00, isso significa 5% da renda bruta do indivíduo. Ou 12 passagens de ônibus aqui no Rio de Janeiro.  Só para você dizer que existe.

Se o pobre realmente quiser se embrenhar nessa senda, surgirão numerosos obstáculos. Para começar sua aventura, tal como precisaria de advogado para abrir processo judicial, você precisa contratar um contador. Ele é o profissional que te representará frente às juntas comerciais e outros trocentos órgãos e preparará as tulhas de papéis para poder legalizar seu negócio. Ou seja, num país onde os intermediários lucram mais que os varejistas, oficializaram a intermediação em tudo o que a gente precisa. Você só pode meter as caras e ir lá fazer por conta própria se for micro-empresário individual (só você com você mesmo). É tão complicado que você é obrigado (literalmente) a contratar um especialista que se formou exatamente para isso!

Há, grosso modo, duas formas de você investir seu tempo e dinheiro. A primeira é a franquia, a segunda é seu próprio negócio. Abrir uma franquia exige dinheiro e paciência. Algumas franquias são bem baratas, então dinheiro aqui não é dificuldade. Já os aspectos legais são. O contrato entre o franqueador e você, franqueado, é sempre bastante atrativo. Para quem está começando no mundo dos negócios, o sistema de franquia lhe oferece um monte de vantagens.

O modelo de negócios já está pronto. Tudo, da logomarca ao modus operandi, já foi previamente testado e desenvolvido pelo franqueador (em tese). Você entra com seu dinheiro num modelo de negócios que já dá certo (em tese), faz como eles mandam, aproveita os descontos que a rede de fornecedores oferece e lucra com essa marca (em tese), pagando os direitos ao franqueador. A única desvantagem é que você abdica de sua liberdade para modificar ou criar qualquer coisa, explorar outras áreas da região e restringir-se ao modelo de negócios proposto. Tudo muito bonito, não?

Bonito demais. Se você é ingênuo ao ponto de acreditar nisso, deve rever a lei maior desta pátria que é a Constitui… (cof-cof), digo, a Lei de Gerson. Ninguém faz nada nestas terras sem o intuito de tirar vantagem em tudo. O franqueador é sempre quem ganha nesta história. Ele expande o próprio negócio usando o TEU dinheiro e o TEU trabalho. Os funcionários são vinculados a VOCÊ, não a ele. É VOCÊ que responde se alguma coisa der errado naquele estabelecimento. É VOCÊ que vai à bancarrota se ele quebrar. É VOCÊ que se lasca se o modelo dele falhar.

A segunda forma é você abrir seu próprio negócio.

O sonho de todo brasileiro, que tem em si o espírito empreendedor e a vontade de desbravar novos horizontes de negócios, ser o próprio patrão, ser independente, ser livre…

Só faltou combinar com a legislação. Após ver como funcionam as franquias, fui ver como abrir meu próprio negócio. E descobri um fato interessante:

“Você vai abrir o quê?”
“Um negócio próprio!”
“‘Tá, mas QUAL negócio?”
“Faz diferença?”
“Muita.”

Porque cada tipo de negócio tem uma legislação própria. Além das tulhas e tulhas de documentos que o contador fará, também há uma legislação específica a ser seguida para o funcionamento de cada tipo de empresa. Legislação essa que mescla a legislação federal (válida para todo o país) com as legislações estaduais e municipais, que variam (às vezes bastante) de lugar para lugar, de cidade para cidade, e até dentro da cidade! Ou seja, não basta apenas saber o que se quer abrir, mas onde abrir. E você tem que lidar com os Conselhos Regionais, com a esparsa, desconexa e não-consolidada/não-unificada legislação local, fora alvarás, autorizações, permissões, vistorias, extorsões etc. etc. etc.

Daí Mamãe vira e fala jocosamente que é para eu voltar lá para o morro, que não tem nada disso. Na favela o sujeito abre um botequim, salão, armazém, mercadinho, não paga água, não paga energia, não paga imposto e vai vivendo.

Num país onde legalizar uma birosca é um trabalho hercúleo, Oscar Maroni, um indivíduo que consegue legalizar uma casa de tolerância, é meu herói.

Acho que virarei cafetão… É mais fácil…

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