Feliz Natal, seu animal imundo. E um feliz ano novo…

Antes de começar, lembremos que os festejos do Solstício¹ são muito (muito) anteriores às celebrações cristãs, que se apropriaram das festas que já existiam por sua popularidade. Hodiernamente, entretanto, pela proximidade de exatamente uma semana ao Dia Mundial da Paz (1º de janeiro), cristãos ou não celebram o Solstício como um dia de afeto e compaixão.

Véspera de Natal. Por algum motivo as pessoas não querem esperar o dia 25 e celebram o feriado no dia anterior (24). Assim emendam a véspera de feriado com o feriado e fazem um feriado maior. Interessante a ansiedade e afobamento generalizado, as pessoas tratam o dia da véspera como o dia do fato. É feriado na sexta: quinta vai ter alguma coisa? É feriado na quinta: enforca sexta!

E há lugares em que na véspera da véspera não tem mais nada…

Seja como for, voltemos à véspera de Natal (e sua véspera). Empurra-empurra no supermercado, no mercado, no mercadinho. Um monte de gente amontoada para comprar na última hora as coisas para um festejo anunciado desde dois meses atrás, quando já era Natal na Leader Magazine².

Nos centros comerciais (a.k.a. Shopping Center) corre-corre: se matam por brinquedos para crianças, lembranças para adultos, lembrancinhas para os velhos. Compra-se e vende-se de tudo. Presentes para todos: bonecas, laptops, bibelôs, eletrodomésticos, meias, vibradores. E cristãos celebram no nascimento de seu Cristo salvador, que veio expiar os males do mundo, com um piru de borracha de 40cm.

Na noite vemos o foguetório. É meia-noite! É dia 25! Jesus nasceu! E se embebedam, tocam músicas de carnaval, e queimam dinheiro (literalmente) com fogos e mais fogos de artifício. Donde pergunto: “raios! cadê a crise?” Todo mundo reclamando que está sem dinheiro, que está difícil, mas tem dinheiro para os comes e bebes e fogos e presentes…

Ou é muita falta de noção ou é muita falta de vergonha.

Não nos esqueçamos que vivemos (eu vivo) no Rio de Janeiro. E não há festejos sem a tão celebrada rajada de armas de fogo. Juntamente com os fogos, tiros de fuzil são escutados a torto e a direito. “Celebremos o nascimento de Cristo mostrando nosso poder de matar!!!”

E chega o dia de Natal. Manhã de segunda. Crianças xingando palavrões no meio da rua, felizes com seus brinquedos novos. As mães, repreendendo a bagunça com palavrões de mais baixo calão ainda. Um vizinho tocando samba em seu aparelho de som novo, já se preparando para o carnaval daqui há alguns meses; outro vizinho na algazarra matinal, regada ao vinho/cidra/cerveja da noite passada; e um terceiro vizinho tocando músicas culturais da periferia afrodescendente oprimida, onde descreve-se com minuciosos detalhes como um pênis entra numa vagina, excertos de poesia: “toma-toma toma-toma senta-senta senta-senta”.

Neste dia de celebração da ”paz na terra e boa vontade no coração dos homens”³, época propícia a desatar os nós da amargura, à prática do perdão, da reconciliação, da caridade aos irmãos na terra e nos céus, veremos chegar ao dia em que Virgem Maria dançará Anitta, José não terá gênero (ou será travesti) e o menino Jesus vítima de pedofilia.

Neste dia de Papai Noel, os presentes caros (muitos comprados apenas para mostrar que se tem dinheiro); as brigas familiares nas forçadas reuniões de família de fim de ano, às quais ninguém queria ir mesmo para ver seus desafetos; os comas alcoólicos de adolescentes; as orgias sexuais dos elfos no Pólo Norte e dos hipócritas deste hemisfério Sul enfeitam os pinheiros de muitos lares por aí afora.

E damos graças…
Feliz Natal para todos nós…

“toma-toma senta-senta”.


¹ – Solstício é o dia mais longo do ano no hemisfério Sul e correspondentemente a noite mais longa no hemisfério norte. Há milhares de anos caía no equivalente ao nosso dia 25. Devido ao gradual movimento da Terra, hoje em dia cai dia 23.
² – Leader Magazine é uma rede de lojas muito conhecida por fazer propaganda de natal ainda em outubro, setembro, março…
³ – “Paz na terra e boa vontade entre os homens” é a tradução correta. A expressão “entre os homens de boa vontade” foi um erro de tradução para o português.

O título desta postagem refere-se à passagem do filme “Esqueceram de mim 2”. Saudades de quando o fim de ano tinha essas coisas…

Anúncios