Uma breve crítica à Academia.

E mais uma vez deparo-me com a Academia e sua estupidez.

Em tendo o dom natural para o magistério, e desejando bem preparar-me para seu ofício, obtendo conhecimento teórico e metodológico, tão como refletindo sobre o ensino e a aprendizagem em si, resolvi fazer especialização em Docência. O motivo de escolher Docência em lugar de Pedagogia/Licenciatura é minha inépcia em lidar com o caos que ora se apresenta no Ensino Médio e na Educação pública em geral de nossa estimada nação.

Em meu curso de docência, verifico que muito do que eu proponho como prática andragógica possui sim fundamentos. Postura essa em grande parte derivada de minha própria experiência enquanto estudante. Com vistas à obtenção do grau, cogitei escrever sobre as críticas que freqüentemente faço acerca do Ensino Superior no Brasil.

Afirmo que as más práticas magisteriais no Ensino Superior se devem a problemas estruturais de grande escala, como a “fábrica de diplomas”; o despreparo ou a inaptidão vocacional dos docentes, cujo único pré-requisito é a titulação; a “síndrome do barranco”, em que o professor público fica “encostado” no cargo, sabendo que não vai perdê-lo, e não faz nada; ou as “panelinhas” de doutores que regozijam sobre os próprios títulos, controlam feudalmente as concessões de bolsas (eles suseranos; bolsistas, vassalos) e, muitas vezes, possuem capacidade intelectual duvidosa; todos assuntos sobre os quais já escrevi anteriormente.

Segundo as regras da Academia, não é possível escrever sobre um amplo tema, tendo que delimitá-lo, cerceá-lo, cortá-lo, recortá-lo até que se torne tão específico quanto possível. Assim é a Academia e sua cientificidade. Eu compreendo a necessidade de que os artigos sejam delimitados, pois sua produção visa alimentar de forma padronizada o acervo informacional da própria comunidade científica. Entretanto uma coisa é pesquisar sobre a condutibilidade elétrica do grafeno no zero absoluto em campos gravitacionais extremos, outra coisa é falar de Filosofia.

Se a Filosofia for cerceada, ela deixa de ser Filosofia. Críticas¹, enquanto posições de pensadores, podem se formar empiricamente. Ainda que isso não constitua uma defesa, pois defesa exige argumento, é válido, pois convida a pensar e refletir.

Ainda segundo essas regras, para que eu possa fundamentar essa crítica, que aos meus olhos e possivelmente aos olhos vistos de muitos é evidente, faz-se necessária uma ampla e extensiva pesquisa de dados estatísticos, o que demanda tempo e recursos de que ora não disponho. E sem a produção de provas que fundamentem minha crítica, ela não se torna uma defesa, logo inviabiliza a produção de um artigo científico acerca do tema delimitado.

Descartando esse tema, cogitei em seguida dissertar sobre a discrepância entre as exigências andragógicas contemporâneas do Ensino Superior e a formação pedagógica de jovens estudantes em um sistema tradicional no Ensino Médio, ou seja, questionar o choque didático que o aluno sofre ao sair de um sistema de ensino em que a padronização exige dele submissão e condicionamento ao modelo para outro sistema de ensino que lhe exige protagonismo, pró-atividade, independência e auto-regulação.

E novamente deparo-me com as exigências da Academia. Pois tu, caríssimo aluno de humanas, és incapaz de pensar por conta própria ou criar algo do zero, logo, precisas de referências de outros autores, pessoas que possivelmente escreveram qualquer coisa só para colar grau ou ter o número de artigos exigidos, esses sim com competência para fundamentar o TEU trabalho.

E sinto-me constrangido a novamente citar fontes que não usarei, apenas para cumprir a formalidade de ter referências em meu trabalho. Mais uma vez restritamente restrito, opto mais uma vez a mais uma vez restringir-me restritivamente ao material fornecido pelos próprios professores e a temas previamente debatidos em aula. Minha monografia do 3º grau foi assim, dissertando sobre um recorte temático de um dos cursos da própria graduação².

Sugiro, portanto, a todos os alunos de graduação e educação continuada, que procurem mais informações sobre como publicar independentemente da academia. Paralelamente ao trabalho acadêmico, é possível produzir com liberdade e expressar-se autenticamente (Valeu Gilmar! |:^D)³, sem ter de cumprir os compromisso exigidos por uma comunidade por um lado acorrentada em suas próprias engrenagens, e por outro lado infectada por ranços e brios de um orgulho vazio.

1 Escreverei no futuro minha conceituação dos 5 tipos de críticas.
2 Ter saído de “O Pequeno Príncipe” para “O Príncipe” foi inefável…
3 SANTOS, G. N. dos. Liberdade e individualismo no pensamento de J. S. Mill. Rio de Janeiro, 2015.

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