Atocha no Brasil

Atocha no Brasil

Welcome, motherfuckers!

Eu estava esperando a abertura dos festejos para escrever e publicar este texto, mas como não há ânimo para começar festa alguma, vamos lá…

O tema são os Jogos Olímpicos. Evento privado, organizado por uma ONG, reconhecido e valorizado internacionalmente, que por algum motivo costuma atochar bem atochadinho nos países estúpidos o suficiente para sediá-lo.

Não preciso falar das condições em que se realizarão os jogos. Eu pretendia inicialmente escrever um texto falando das mazelas socio-economico-cultural-municipal-etcetera-e-tal, mas achei desnecessário. Basta ligar a TV ou ver uma banca de jornal. As principais manchetes refletem o caos em que o país e principalmente a cidade estão afundados. “Principalmente”, porque ela será a vitrine de nosso país para o mundo.

Também não preciso falar do contexto político em que se realizarão os jogos. Olimpíadas e Impeachment disputando o páreo na corrida pela atenção das pessoas. Em uma nação de analfabetos políticos, claro que haverá essa disputa, afinal, em que outro país dois eventos tão distintos têm torcidas tão semelhantes?

Vai, Brasil!

A grande massa não tem muita noção do que está acontecendo. O maior evento esportivo do mundo será realizado em poucos dias no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, a principal cidade turística do país. Delegações de centenas de países virão participar do evento, milhões de visitantes de todas as partes do mundo virão para torcer ou aproveitar a estada e bilhões de pessoas estarão observando o que ocorre aqui. Essa talvez seja a maior oportunidade na História que o Brasil tem de mostrar ao mundo que está preparado para grandes feitos. Não é à toa que Molusco&Cia regozijaram-se em êxtase com o anúncio de ânus atrás.

Tchu-tchu-tchu-pá!
Oba e Eba já eram mascotes aí.

Sim, porque ao que parece não foi a oportunidade de resolver as grandes questões, mas a maior oportunidade de roubar os cofres públicos; roubar até quebrar essa joça, tirar tudo que estiver na nossa frente e meter atrás. Reveja a foto e pense que a alegria deles é a de poder fraudar tudo. Aí sim, a foto faz mais sentido.

Historicamente, todos os países que sediam os jogos do COI sofrem com recessão.
Historicamente, todos os países que sediam os jogos da FIFA sofrem com recessão.
Historicamente, todos os eventos que ocorrem no Brasil são superfaturados, fraudados, corrompidos e trazem prejuízo ao patrimônio público.

Fazendo a conta, o prognóstico não é muito animador. Ora, se os jogos Olímpicos e Copa já foram rejeitados por tantos países (que “tinham assuntos mais importantes para tratar”[sic]), se sabidamente os gastos são sempre muito maiores que o retorno, portanto, o investimento não vale a pena, por que cargas d’água o Brasil, QUE TEM MUITOS ASSUNTOS MAIS IMPORTANTES PARA TRATAR, resolveu sediá-los? A resposta é óbvia: $_$

Mas as conseqüências econômicas desastrosas, nem ao menos se comparam com as conseqüências materiais e intelectuais que tais eventos, em especial as Olimpíadas trarão para o Rio de Janeiro. A grande massa, repito-me, parece não ter noção do que está acontecendo, ou se tem, não se importa.

Este país é o único no mundo que não precisa se preocupar com terrorismo. Tudo no Brasil dá errado, terrorismo não é exceção. A prova foi que a célula brazuca tentou comprar arma pela internet. Do Paraguai. Que porcaria de terrorista vai comprar arma pela web? E do Paraguai???

Não é por nada que somos motivo de chacota internacional. Os olhos do mundo estão voltados para cá, em especial para a cidade do Rio de Janeiro, capital de um Estado que declarou Calamidade Pública. Somos a vitrine de um país que não deu certo. Queremos mostrar um povo hospitaleiro, mas expulsamos pessoas de suas próprias casas para construir estacionamento. Queremos mostrar respeito ao meio ambiente, com superbactérias em raias de competição. Queremos mostrar segurança, matando crianças que levam saquinho de pipoca. Queremos mostrar diversidade, com VLT e favela da Maré. Queremos mostrar seriedade, mas não somos um país sério.

The Rio Olympics are in total disarray.

Como poderiam nos levar a sério, se nós mesmos não levamos o evento a sério? Estamos literalmente fazendo festa para gringo ver, pois os cariocas mesmo ficarão presos em suas casas. Diferentemente da Copa do Mundo, onde até havia alguma pintura, algum festejo, não há nada nas ruas que mostre que o habitante da cidade esteja com o mínimo de empolgação com o evento. Apesar de Rede Globo e outras compradas estarem se esforçando em tentar incentivar algum “espírito olímpico” na população, seus forçados esforços forçosos não estão surtindo efeito.

Desânimo justificado, pois mesmo não tendo muita noção, o futebolístico espírito brasileiro sabe a amargura de uma derrota. Pois perdemos a grande oportunidade de resolver definitivamente os problemas de nossa cidade e, talvez, seguir o “espírito olímpico” e servir de inspiração para o resto do país solucionar o insolucionável.

Perdemos a oportunidade de termos hospitais de ponta para toda a população. Ou ao menos cinco, que são os cinco indicados para os estrangeiros procurarem em caso de dor de barriga. Vão poder usar como latrina e só, pois nem Tylenol® tem mais.

Perdemos a oportunidade de sanarmos de uma vez o 3º pior trânsito do mundo. Agora temos um bondinho chique, um metrô para grã-fino, uma Supervia superfaturada, ônibus que não chegam aonde precisamos, asfalto que esburacará em 30 dias e uma ciclovia que parece a “ponte do rio que cai”.

Perdemos a oportunidade de termos alguma segurança pública. Alguma. Porque o verdadeiro terrorismo não é o homem-bomba que se explode na multidão. O verdadeiro terrorismo é sair de casa e não saber se vai voltar. Ou não saber se quem você ama vai voltar também. Todos os dias. Não só nas Olimpíadas.

Quando teremos outra oportunidade dessas? Nós já perdemos essas Olimpíadas. E perdemos feio.

Talvez a gente ganhe um canguru de consolação. Para substituir a onça…

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