Blade Runner não é um filme filosófico

Embora Blade Runner (1982) seja reconhecido (hodiernamente) como um dos filmes mais importantes e influentes da história, eu nunca o havia assistido. Sempre me recusei. Ocorre que ao longo das décadas cerca de um milhão de versões diferentes do filme foram editadas, cada qual mudando alguma coisa na história. E eu me recusei a fazer parte dessa bagunça. Eu havia decidido que somente iria assisti-lo quando fosse feita uma versão definitiva da obra. Assim, em 2007, após décadas de entreveros com os estúdios da famigerada indústria cinematográfica, o diretor Ridley Scott finalmente teve permissão para criar sua própria versão com total liberdade artística. Finalmente eu poderia assistir ao filme.

“— A estrela do espetáculo é o diretor! Neste caso, o Seu Madruga” Brux Srta. Clotilde.

Só faltou combinar com minha precariedade conectiva. À época com linha discada e depois (até hoje) com 3G, eu assisto Youtube em 144p ou 240p, caro leitor. Tive, portanto, o privilégio de poder assistir recentemente The Gift (2000), The Dead Zone (1983) e O Crepúsculo das Baratas (Gokiburi-tachi no Tasogare, 1987) com mais pixels que um Tamagotchi. Baixar qualquer coisa é um tormento. Lá se foi o tempo em que eu tinha a paciência de deixar o computador baixando o filme “300 de Esparta” no eMule por duas semanas, para ele vir com piadinhas nas legendas. Havendo tantas diferentes versões, e sendo tão difícil encontrar a versão correta, correr o risco de baixar o filme errado por meio de uma conexão cara e lenta ficou fora de cogitação.

Foi somente graças à compaixão e conectividade da amiga Tamiris que pude finalmente, após 19 anos, pude assistir Blade Runner Final Cut 2007.
Pude finalmente apreciar a visão do diretor!
Pude finalmente inteirar-me de uma das mais aclamadas obras cinematográficas já feitas! E minha reação ao filme foi…

Teria eu caído na “armadilha da expectativa”? Deixe-me explicar o que é isso. Que eu lembre, a primeira vez em que a armadilha da expectativa fisgou o grande público foi com a série Lost (2004). Essa série foi um grande fenômeno de audiência, milhões de pessoas ao redor do mundo ansiosamente esperando pelo próximo episódio, tal como aqui em terras tupiniquins o povão queria saber quem matou Odete Roitman. Incontáveis teorias, previsões e fofocas fervilhavam nas incipientes redes sociais. E, num grande puxão de tapete, a série terminou abruptamente,  sem resolver o mistério da ilha, deixando nos espectadores o gosto da decepção. Foi este o primeiro exemplo da armadilha da expectativa capturando audiência em massa (que recordo). O mesmo aconteceu posteriormente com Game of Thrones (2011). Enquanto as primeiras temporadas foram aclamadas pela crítica e pelo público, o desfecho da série foi duramente criticado, levando novamente fãs pelo mundo afora a se decepcionarem com uma história à qual dedicaram sua atenção e afeto por tanto tempo.

Conforme a produção artística foi mudando ao longo das últimas décadas, mais e mais exemplos dessa armadilha foram aparecendo. Antes os estúdios produziam a obra, lançavam-na ao público e, após isso, vinha a reação deste. Mas agora o público leigo acompanha desde a pré-produção até a meta-análise crítica. Os estúdios anunciam com bastante antecedência o que estão gravando, anunciam quais atores foram escalados (por vezes até liberam as audições de teste), e mostram os bastidores da produção. Os atores também mudaram suas atitudes frente à platéia. Engajados em redes sociais, estreitaram e imediatizaram sua relação com o público/os espectadores/a audiência. Este, agora transformado em “seguidores”, acompanha o making of ao vivo,  interage e reage a cada postagem pessoal das ”celebridades”, e decide se assiste ou não a uma obra dependendo do quão simpático lhe é o ator principal; de quais são suas posições políticas; de como é sua vida particular.

Rachel Zegler, Brie Larson, Amber Heard e Erza Miller destruíram seus próprios filmes e suas carreiras ao se tornarem personae non gratae fora da grande tela. O oposto também é verdade. Atores e produtoras muito bem quistos pelo público, ou a boa e velha propaganda (enganosa), levam ao que a gíria contemporânea chama de hype (lê-se “ráipi”). E quanto maior o hype, maior o risco do flop (gíria contemporânea para dizer que o filme mixou). Por vezes pessoas vão ao cinema apenas para ver os atores queridos, ainda que os filmes em que atuem sejam ruins. Existe a piadinha que, se Keanu Reeves and Brendan Fraser fizerem um filme que seja só os dois jogando conversa fora, seria um grande sucesso.

Essa realidade não é restrita ao mundo dos filmes. Música, jogos, teatro, literatura, ou seja, a indústria de entretenimento em geral sofre com exatamente o mesmo problema: não se produzem mais clássicos, não se produz mais arte; produz-se material de consumo para fins imediatos. E tal como num restaurante, onde o consumidor pode não gostar de pizza de atum com banana, novas obras são descartadas ao lixo antes mesmo de serem lançadas.

E quanto a mim? Terei eu caído na armadilha da expectativa com relação a Blade Runner? Hmm… Não.

Não porque o assisti sem nenhuma expectativa. Eu não sabia nada da história, nem do enredo, nem ao menos sabia quem eram os atores. Fiz questão de manter-me totalmente ignorante quanto ao filme antes de assisti-lo, pois queria uma experiência autêntica. Assisti “para ver se era bom mesmo”. Como não esperava nada, não fiquei frustrado. Pelo contrário, achei o filme razoavelmente bom.

A história de Blade Runner se passa no futuro cyberpunk distópico (pois todo futuro tem que ser distópico) de 2019. Visto do ponto de vista de 1982, até que o pessoal da época tinha boas esperanças quanto à nossa realidade do século XXI… Seja como for, ele reflete as grandes preocupações sociais que estudei na minha época de escola: a superpopulação, a poluição, a precariedade das condições de trabalho. Enquanto que hoje em dia a gente discute cota legal para homossexuais em empresas privadas e modinhas TikTok, o pessoal de 1980 tinha questões mais prementes a pensar…

Veja também: GUNNM – Anjo de batalha: Gally

Nesse futuro distópico a engenharia biológica teve um grande avanço e humanóides com super-habilidades passaram a ser fabricados para trabalhar para os humanos. Esses ”replicantes” são escravos e, para evitar revoltas, a expectativa de vida deles é reduzida a apenas 4 anos. Quando algum replicante se revolta e foge, agentes especiais, os Blade Runners os caçam e os ”aposentam”, isto é, os matam.

O filme levanta duas questões: a primeira é “o que é ser um ser humano?”; a segunda é “o que é ser um escravo?”. A primeira questão é muito mal trabalhada nesta obra.

  • O que significa ser humano?
  • Somos definidos por nossos corpos humanos, por nosso código genético?
  • Ser humano reside na diferença entre ter nascido ou ter sido fabricado?
  • Ser humano é ser dotado de emoções?
  • E se uma inteligência artificial puder emular/imitar emoções?
  • Pode uma inteligência artificial vir a ter emoções verdadeiras?  Pode uma máquina amar?
  • Nossa humanidade, ou melhor, nossa identidade é definida por nossas memórias?
  • São as memórias o que nos distingue enquanto indivíduos?
  • E se nossas memórias puderem ser implantadas, modificadas, apagadas?
  • O que é o fenômeno da consciência?
  • O que é a alma?

Essas questões sobre a natureza da humanidade foram muito melhor exploradas em outras obras como Ghost in the Shell (1995) e Dark City (1998). Portanto podemos dizer que elas apenas compõem o enredo e subjazem-no, mas não são seu foco. A principal questão em Blade Runner está entre a liberdade e a escravidão de seres sencientes. Temos nós, humanos, o direito de escravizar outros seres sencientes? Nós já fazemos isso com bois, cavalos, cachorros, elefantes, camelos. Todo tipo de animal de trabalho é um escravo. E isso levanta uma série de questões morais.

  • É moral usar animais para trabalho forçado?
  • É moral clonar animais?
  • É moral fabricar animais?
  • É moral fabricar humanóides?
  • É moral escravizar humanóides?
  • Até onde pode o homem ”brincar de deus”?
  • Onde precisamente se define a linha que separa o que é moral do que é imoral?
  • Qual é o limite ético da manipulação genética?
  • O que é certo e errado na manipulação da vida?
  • O que é a vida?

Essas profundas questões são o mote para o desenvolvimento do enredo, porém elas não são respondidas, são apenas levantadas. E isso é muito bom. Se fosse feito hoje em dia, seriam duas horas de propaganda ideológica para defender uma tese. Deixar as questões abertas para que a própria audiência reflita sobre esses assuntos é uma demonstração de respeito à autonomia do público e reconhecimento por parte do diretor que ninguém tem todas as respostas. O filme é muito bom enquanto film noir de ação e de detetive. Tem tiroteio, tem o vilão que não é vilão, tem investigação, tem o plot twist (o detetive também é replicante) e o detetive fica com a garota bonita no final. Tudo o que se espera de um bom filme. Contudo, eu esperava mais do ponto de vista filosófico. Esse é um assunto tão complexo e profundo que, creio, merecia ser explorado mais minuciosamente.

Cata-pulga

Terminada a digressão acerca da profundidade filosófica do filme, está na hora de esmiuçar certas coisinhas que me encafifaram. Há certos eventos e conceitos no filme que não fazem muito sentido se a gente pensar bem.

Mas antes preciso falar sobre Harrison Ford. Preciso tirar o elefante da sala. Como posso dizer… Harrison Ford tem o que considero um rosto socável. Eu não sei porque, mas não tenho simpatia pelo sujeito (em tela). Seja em Indiana Jones, seja em Star Wars, cada vez que ele aparece em cena quero socá-lo. Não gosto da atuação inexpressivamente entediante dele. Dizem as más línguas que ele é uma pessoa desagradável na vida real, mas isso pouco me importa. Eu não simpatizo com outros artistas na vida real, mas admiro o trabalho deles. A mim só interessa o trabalho em cena. Foi uma surpresa descobrir que ele interpreta o personagem principal em Blade Runner e isso pode ter contribuído para minha reação ao filme. Afinal, assistir durante 2 horas um sujeito que você quer socar e abstrair a situação para aproveitar o filme foi um esforço cognitivo pelo qual não queria ter passado.

Agora sim, catando pulgas:

.) Como León conseguiu entrar com uma arma no QG da Tyrell Corporation? Ainda mais aquele canhão de mão capaz de fazer um homem atravessar a parede… Isso não faz sentido algum! Eles estavam sob segurança reforçada exatamente pela suspeita de que replicantes rebeldes poderiam se infiltrar ali! E eles tinham a foto dele! E como ele conseguiu escapar?!

.) Por que replicantes recebem nomes? Ora, se são produtos, o máximo que deveriam receber são números de série. E por que têm rostos diferentes? Não deveriam ter um rosto padrão, facilmente reconhecível? Não deveriam ter marcas no corpo, como código de barras ou algo do tipo?

.) Por que replicantes não saem de fábrica com bombas implantadas? Ou ao menos rastreadores? No momento em que saírem de controle, podem ser ”aposentados” à distância.

.) Por que a construção de replicantes é feita em pedaços separados? Chew faz os olhos (ou ao menos fornece o código genético aprimorado para eles), Sebastian faz outra parte… Se Tyrell é tão esperto assim, por que deixa pedaços dessa tecnologia nas mãos de outras pessoas? Compreendo que é um mundo em que até camelôs têm acesso à tecnologia de bioengenharia, mas se presume que a construção de replicantes é um processo restrito. A quem mais Chew ou Sebastian poderiam vender seus serviços?

.) Por que Zhora fugiu? Ela poderia ter primeiro matado Deckard ali mesmo e depois ter fugido. Ela sabia que o Blade Runner continuaria caçando-a. Não faz sentido nenhum essa cena!

.) Ao menos preciso concordar que Sebastian ter doença genética faz sentido. É estabelecido que nesse universo código genético de um indivíduo não pode ser mudado. O que não faz (muito) sentido é Roy não saber isso. Ele pesquisou bastante sobre o assunto e sabe os detalhes da manipulação genética. E ele conversou com o Sebastian, descobrindo que ele não pôde ir para as colônias extraterrenas exatamente por ter deficiência genética. Ora, se alguém que trabalha com replicantes não pode se curar alterando seu próprio código genético, que chance ele, como replicante teria de se curar?

.) Pris poderia ter matado Deckard com facilidade. Nesse ponto, o escudo de enredo (plot shield) foi aplicado duas vezes. Vai ver, esse é o superpoder do Deckard enquanto replicante… ಠ~ಠ

.) O nome “Blade Runner”…

Origem do Termo

Curiosamente, o termo veio de um livro anterior chamado The Bladerunner (1974), de Alan E. Nourse, onde “blade runner” referia-se a contrabandistas de instrumentos cirúrgicos no mercado negro. Ridley Scott comprou os direitos apenas para usar o nome, pois soava “legal” e distópico, mas o enredo não tem relação com o livro de Nourse.

Bônus: Blade Runner 2049

A piedade internética de Tamiris também me concedeu acesso à continuação, feita por outro diretor, mas ambientada no mesmo universo. Embora as legendas estivessem em russo e eu não tenha entendido algumas cenas, não foi nada que atrapalhasse. Blade Runner 2049 acontece, ora pois, 30 anos após os eventos do primeiro filme, 35 anos na vida real (1982~2017). Ryan Gosling interpreta um replicante Blade Runner chamado [K]. Diferentemente dos filmes contemporâneos que alimentam o vício em dopamina com gritaria e cenas que mais parecem um pisca-pisca, Blade Runner 2049 toma seu tempo para contar a história. Uma obra de arte contemporânea, respeitosamente expande as questões levantadas no universo do filme anterior. Porém há muitos desenvolvimentos de enredo que não fazem o menor sentido dentro daquele universo.

.) O avanço tecnológico permitiu a criação de replicantes mais dóceis e obedientes. Entretanto, também lhes concedeu emoções, memórias e autonomia. Será que ninguém vê que isso é um risco para a estrutura social? Em um mundo arrasado pela superpopulação, com programas governamentais de emigração para colônias extraterrenas, fabricar ainda mais indivíduos (geneticamente superiores) não parece absolutamente contraditório? Se replicantes são realmente necessários nesse futuro ainda mais distópico, não seria melhor remover completamente sua autonomia?

.) Agora a inteligência artificial é muito mais avançada comparada a do primeiro filme. Não muito diferente do que estamos vivenciando na realidade, o salto tecnológico da I.A. é sensível. Complacente, obediente e com um botão liga-desliga, é muito mais confiável do que um replicante. Então, qual é a vantagem de se construir replicantes, se já é perfeitamente possível construir robôs que façam o trabalho muito melhor do que humanóides? (E que não precisam ser substituídos a cada quatro anos.)

.) Por que cargas d’água replicantes têm direito a ter um apartamento próprio, a salário e a comprar coisas por si mesmos? Como replicantes saem andando por aí, tomando decisões por conta própria? Não são eles escravos (ou ao menos uma casta inferior)? Não há a idéia de que eles não têm alma? Por que estão inseridos na sociedade? A idéia de que, após tantos problemas com replicantes, seja-lhes dada (alguma/qualquer) autonomia não faz sentido algum.

.) Exceto os antigos modelos Nexus 7 e 8, replicantes continuam tendo expectativa de vida de 4 anos. Que raios de rebelião eles pretendem? Que exército eles pretendem montar? Qual objetivo pretendem atingir? Mesmo se a rebelião der certo, basta esperar uns 5 anos, todos estarão mortos e uma nova safra de replicantes escravos será produzida.

.) A cena de Ana Stelline (interpretada por Carla Juri) é muito, muito, esquisita. Eu não sei se foi proposital, ou se a atuação dela foi aquém (muito ruim), ou sei lá o quê, mas a Dra. Stelline caiu no vale da estranheza (uncanny valley) para mim. Considero a cena muito forçada, muito artificial. Em um filme de ficção científica, isso diz muito.

.) [K] morre no final. Só que eu não percebi que ele morre no final, eu achei que ele só estava descansando na escada. Muita gente também não entendeu o que levou o roteirista a confirmar que ele morre. A morte dele é importante para o desenvolvimento do personagem, deveria ser um evento não ambíguo.

.) O personagem Dr. Wallace, interpretado por Jared Leto, não faz sentido algum. Ou melhor dizendo, seu objetivo não faz sentido. Diferentemente dos replicantes que querem liberdade, Dr. Wallace quer o segredo da reprodução de replicantes para produzir uma força de trabalho ainda maior. Que idéia estúpida! Um bebê leva 9 meses para nascer e mais 20 para se tornar apto ao trabalho. Replicantes são fabricados já em formato adulto, prontos para o serviço. Não há vantagem alguma na gravidez de um replicante!

Basta procurar em fóruns ao redor da internet que você poderá encontrar ainda mais questões sobre o universo de Blade Runner. (um exemplo nos “Extras” abaixo).

E assim foi meu carnaval 2026. Enquanto que esbórnia corre solta na sociedade, eu alimento minha mente com questões filosóficas e artísticas.

 

Extras:

Kicksave: https://gamefaqs.gamespot.com/boards/227-movies-new-and-upcoming-releases/75853065

  1. Why did Dr. Ana Steline implant Replicants with her own memories? What purpose would that serve?
    2. Was Dr. Steline aware of her own past? (If so, implanting others with her memories is about the dumbest and riskiest action possible).
    3. Why in the world would Replicants be allowed again after the Nexus-6 models from the original movies? If the actions of Luv (especially) and the rebel Replicants are any indication, the newer models aren’t any safer than the prior generation.
    4. Why did Freysa want Deckard dead? She knows that he has no ability or desire to seek out Ana.
    5. Joe just kind of said to Deckard “yeah, don’t worry I told them you’re dead” after the final fight scene. Really? With no evidence/body, except for Luv’s, Wallace will just believe that the most valuable person on earth is dead? From an off-baseline Blade Runner gone rogue and known to be helping Deckard? Yeah….ok.
    6. It’s illogical Joe to take Deckard to a Wallace facility, expose his survival, expose his daughter, and then die on the doorstep. Yeah, let’s pretend Wallace doesn’t have cameras around one of his price assets.
    7. Why isn’t Freya more interested (like Wallace) in unlocking the secret of Replicant reproduction? It’s literally the only way their race can survive.
    8. Why does Wallace think that allowing Replicants to naturally reproduce is actually faster than growing them?It appears to take Replicants as much time (decades) and resources as humans to reach maturity, making that a far inferior means of reproduction vs. being made in a test tube. Looks like they can be made quickly…they were all over society by 2019 with 2 newer generations widespread by 2049. No problem there. .
    9. Why is Joe even getting a salary and living a middle class life? It’s not a very good “slave force” if you are paying your slaves, letting them buy toys and apartments. Other Replicants appear to be living independent lives as well with no “master”.

Does Blade Runner make any sense? | Pictures in Motion
Blade Runner is an influential masterpiece of the sci-fi genre. But rarely do people praise its script. Are there plot holes in Blade Runner and does the movie even make any sense?