Pagamento anual de jazigo perpétuo.

Estou ciente quanto à situação do jazigo de minha família.
Porém considero abusiva a relação entre as concessionárias e os titulares dos espaços públicos.

Havíamos feito a reforma completa do jazigo com granito e decorações. Essas decorações foram furtadas, as fotos de nossos familiares foram removidas e a tampa de granito foi quebrada. De que adianta pagar pelo serviço de concessão, se não há proteção por parte do cemitério?

Para devolvermos a titularidade é necessário remover os restos mortais de nossos familiares. Os serviços de abertura do túmulo, exumação, acondicionamento em caixas e transferência para ossuário geral são pagos um a um, a preço cheio, mesmo para fragmentos de ossadas. Por que pagar por cada um esses serviços, se a própria concessionária os fará quando da retomada do jazigo?

Nos contatos mais recentes, foram enviadas fotos do jazigo depredado e o valor de cobrança para regularização em aproximadamente R$ 11.000,00. Isso apenas demonstra a conduta que vemos em tudo o que envolve o emocional: serviços médico-hospitalares, cemiteriais e todos os correlatos (do material cirúrgico que não tem no SUS à coroa de flores) praticam preços exorbitantes.

O cemitério do Caju sempre deu transtornos, aborrecimentos e gastos durante as décadas em que serviu aos Imbroinise Figueira. Os serviços nunca foram bons ou empáticos. O serviço público nos trata como gado em vida e como esterco em morte.

Conforme novo entendimento do Supremo Tribunal Federal, a cobrança pelo serviço que antes era gratuito é legal. Eu li a irrecorrível decisão e os argumentos são sólidos. Eu optei por não pagar mais por essa manutenção de jazigo perpétuo.

É lúcida uma cobrança perpétua para guardar ossos de uma família que se foi? É lúcido pagar para fruir de um bem que não é mais seu? Para vê-lo ser depredado e ser obrigado por lei a restaurá-lo?

Meu avô ensinou: mortos ao chão, vivos ao pão. Aos mortos, oferto uma prece. E sigo minha vida.

Placas de granito não se quebram sozinhas.
Adornos de metal não se furtam sozinhos.
E o que é essa mancha marrom sobre a lápide?

Mês de dezembro é o mês de morte de meu pai, meu avô, minha tia, amigos de família, até animais de estimação. Mês de ser despejado, de gastar com hospital, de gastar com funerária, de me tornar doente crônico e de não conseguir atendimento médico (ou incontáveis outros problemas) porque ninguém trabalha.

Eu detesto dezembro.

Editado 23/12/2024. Quando eu era pequeno, em dois momentos diferentes, eu tentei salvar passarinhos que haviam caído de seus ninhos. Uma dessas rolinhas morreu em minha mão quando eu a levava para casa. Ontem, dia 22, mais uma rolinha caída veio aos meus cuidados. Mas não havia muito o que fazer. Foi a terceira rolinha que não consegui salvar. Todas em dezembro.

Eu odeio dezembro.