Discussão e debate no país dos analfabetos.

Terceira parte: A religião marxista e o papado Lulopetista no país de Paulo Freire

Seção 1

A fé é irracional. Ela parte daquilo em que se acredita, ou seja, daquilo ao que se dá crédito. Cada indivíduo pode dar ou tirar crédito daquilo que quiser, do que sentir ser mais adequado ou alinhado ao seu próprio espírito. Esse sentimento, tal como a opinião, não é submetível ao crivo racional. Não importa o que se diga, o que se argumente, o que se prove: o indivíduo acreditará naquilo em que quiser acreditar.

Difere da mera opinião, pois nesta o indivíduo tem uma participação passiva enquanto naquela a participação é ativa. Uma opinião é um sentimento acerca de algo, não é controlável. Já a fé é uma escolha intuitiva feita pelo indivíduo, que controla o que escolhe a partir de seu livre-arbítrio.

Nesta terceira e última parte, procurarei responder à pergunta que deu origem a esta reflexão: por que ainda há pessoas que defendem a ”esquerda” (dentro do recorte sociocultural brasileiro)?

Segundo expus na primeira parte, vivemos em uma sociedade composta em sua maioria por analfabetos funcionais, isto é, pessoas que não desenvolveram a capacidade de autonomamente obter informações a partir de fontes primárias e por isso em última instância dependem de outras para formar seus próprios conceitos e valores. Esses intermediários que interpretarão por elas (não para elas) as informações podem agir de forma benevolente ou maldosa, neste caso explorando a ignorância alheia para mais facilmente manipulá-las segundo seus próprios interesses.

O sistema de educação público hoje não forma adequadamente os estudantes. O nível de instrução obtido pelos eles é muito baixo. Isso é derivado de uma série de fatores, como descrevi em meu artigo A falácia sobre a educação. Ao final do ciclo de estudos , os alunos continuam alunos (do latim alumnus, ”sem luz”) e não são capazes de exercer sua cidadania dentro da sociedade. Sem poder interpretar sozinhos o mundo, dependendo de outrem para lhes explicar, não podem plenamente exercer a mais íntima liberdade: a liberdade de pensar por si mesmo (filosofar).

Antes de continuar discorrendo sobre o tema, gostaria de salientar que creio que o distanciamento entre letrados e ignorantes por vezes afete a noção da realidade daqueles. Para quem tem acesso à informação, é quase inacreditável certos eventos acontecerem, como uma adolescente engravidar por não saber o que é um preservativo. Ou quando certa vez uma jovem engravidou por ter utilizado erroneamente a pílula: antes da relação sexual, ela tomou uma e deu outra para o namorado tomar.

O nível de ignorância de parte da população chega a esse ponto. São pessoas que não têm noção de conceitos básicos de saúde, de seus direitos e até mesmo de civilidade. Ignorantes quase que em absoluto, sabem apenas o necessário para subsistir.

Para além disso, dessa lamentável situação em que se encontra um extremo da população, no outro extremo a situação também não é das melhores. A Academia não debate com fins de busca da verdade. Conforme bem descrito pelo professor Barros no vídeo em minha postagem A máfia da Academia, dentro do sistema do ensino superior formou-se uma máquina de reprodução de narrativas e ideologias. Aqueles que estão no controle do sistema impedem que correntes de pensamento divergentes do status quo ingressem e/ou participem do diálogo.

Uma vez que a ampla maioria dos nichos acadêmicos na área de ciências humanas é impregnada com a perspectiva de pensamento hegeliano/marxista, em muito auxiliada pelo deturpador sistema de educação de Paulo Freire, radicou-se uma máquina reprográfica de discursos. O aluno chega com uma educação de viés marxista, vai para uma faculdade (d)onde se propaga o viés marxista, produz academicamente em bancas de viés marxista.

Não há conflito de idéias e argumentos. É a perfeição gramsciana: a completa homogeneização do discurso e do pensamento. Um só pensamento, uma só voz. Claro que essa afirmação é um exagero meu, não é uma verdade absoluta. E felizmente estamos longe disso. O que quero é chamar a atenção ao fato de que é possível uma pessoa, por toda a sua formação, nunca ter contato com argumentos contrários às idéias a que foi ensinada desde pequena a defender.

E sem o hábito do debate, o resultado do fortuito encontro com uma posição divergente ou antagônica é terrível. Conforme expliquei na segunda parte, o debate tem como objetivo procurar ativamente falhas nos argumentos, utilizar a criatividade para encontrar contra-argumentos, tudo com o fim claro de saber se estamos certos ou enganados.

Já nossa cultura acredita que um debate é como nos programa de TV, todos apenas exemplos da Telebasura que invade os lares da população, retroalimentando um ciclo vicioso de estupidez e ignorância.

A falta do hábito do debate (e de saber a diferença entre um debate e uma discussão) invariavelmente resulta em discussões acaloradas com opiniões tomadas como argumentos. Sem o hábito de se questionar sobre as próprias crenças e os próprios conceitos, as pessoas defendem apaixonadamente os valores que lhes foram ensinados, muitas vezes sem nem ao menos refletir se estão certos ou não. O indivíduo toma seu pensamento como natural, algo ao qual não se colocam dúvidas e não se toleram críticas.

Associando isso à polarização da Lei de Gérson (vencer em qualquer situação, estar certo sempre enquanto o outro está errado, não aceitar quando está errado) temos uma disputa em lugar de um diálogo. A ânsia em estar do lado ”vencedor” leva o indivíduo a transitar menos entre o argumento e mais entre a paixão.

Quero apontar que não é uma causa específica, mas é a soma de todos esses fatores (doutrinação na educação, ignorância coletiva, homogeneização ideológica, cultura gersoniana) que faz com que pessoas ainda continuem defendendo propostas ”de esquerda”.

Resumindo: as pessoas não sabem nem entendem o que defendem e não querem dar o braço a torcer quando estão erradas. (Puxa vida, tanto texto resumido numa frase só…)


Seção 2

Há ainda os casos mais extremos, aquelas pessoas que se identificam com o grupo, isto é, tomam como própria uma identidade externa. O movimento psicológico passa a ser pautado não pela visão individual, mas pela visão do grupo (que sempre é controlado/influenciado por um ou mais indivíduos).

Ressalvadas todas as ressalvas (não são poucas) que tenho acerca de Olavo de Carvalho, cito-o:

“Uma das experiências mais perturbadoras que tive na vida foi a de perceber, de novo e de novo ao longo dos anos, o quanto é impossível falar ao coração, à consciência profunda de indivíduos que trocaram sua personalidade genuína por um estereótipo grupal ou ideológico. Diga o que você quiser, mostre-lhes mesmo as realidades mais óbvias e gritantes, nada os toca. Só enxergam o que querem. Perderam a flexibilidade da inteligência. Trocaram-na por um sistema fixo de emoções repetitivas, acionadas por um reflexo insano de autodefesa grupal. O histérico não sente o que percebe, mas o que imagina.”

O Lulopetismo é exatamente isso. É mais do que uma questão ideológica, é uma questão de fé. É um caso de fanatismo. Dentro da histeria coletiva, o grupo coloca sua crença naquilo que lhe é dito para acreditar. Invariavelmente compartilhando a visão dos ”detentores da verdade”, cada indivíduo não é capaz de escutar argumentos contrários nem ver as provas de seu engano. Acredita tão cegamente que não é capaz nem ao menos de tolerar o divergente. A realidade não importa: interessa-lhe apenas que está certo e sabe disso.

Agora gostaria de analisar o último caso. E aqueles que não foram ”doutrinados”? Quais são os casos em que as pessoas cientemente defendem o Lulopetismo, ou o marxismo, ou o ideário da assim chamada ”esquerda”? Levanto algumas hipóteses:

 

a) Possivelmente por falta de informação confiável.

Eu bem sei o que é garimpar na internet para obter alguma informação digna de nota. Há pouquíssimo conteúdo de valor em português, por isso faço a maior parte de meus estudos em inglês. Ainda assim, mesmo reclamando, sou grato. Graças à internet posso ter acesso a esse conteúdo. (E escrever em meu site! ^_^) Tendo asma e todo tipo de alergia respiratória, uma biblioteca física é para mim a ante-sala do hospital. Sebos são inadentráveis, exceto se for meu desejo passar ao menos três semanas acamado.

Vivemos numa era maravilhosa em que o conhecimento está a cliques de distância. Mas como mencionei a informação é de má qualidade. Se o indivíduo depender da grande mídia, estará em maus lençóis. Se assistir ao telejornal, estará mal informado. Se não assistir, estará desinformado.

Bem informar-se passa a ser uma responsabilidade individual. É necessário desenvolver sensibilidade própria para saber em quais fontes deve acreditar, a quais conteúdos deve dar atenção. É necessário desenvolver a habilidade de distinguir as opiniões permeadas em um jornalismo não isento, checar as fontes daquilo que lê. Ver se é aquilo mesmo, constatar se os dados condizem com o razoável.

Levanto a hipótese de que algumas pessoas defendem cientemente o marxismo por não terem obtido informações fidedignas para daí estabelecer um correto juízo de valor sobre tal ideologia. Defendem, portanto, a subjetividade da doutrina, a bela roupagem sob a qual se encobertam os verdadeiros objetivos dos líderes. Em suma: possuem informações incompletas e superficiais sobre a matéria.

 

b) Possivelmente pela falta do debate.

Seguindo a citação de Jordan Peterson na primeira parte deste ensaio, a prática do debate associada à liberdade de expressão permite o confronto salutar de idéias, argumentos e conceitos com vistas à formação de uma sociedade intelectualmente saudável e sinceramente interessada na verdade e no desenvolvimento científico.

Afirmei que é possível uma pessoa passar por toda sua formação sem ter contato com correntes de pensamento divergentes daquelas com as quais está acostumada a lidar. Nesse caso, a falta de um agente externo que mobilize a reavaliação de conceitos pode culminar na aceitação inquestionada dos mesmos. Levanto a hipótese de que neste caso o indivíduo defende os argumentos em que sinceramente crê, não tendo por si mesmo cogitado contra-argumentações. O erro origina-se, portanto, em sua (inadvertidamente) incompleta metodologia de estudo.

 

c) Possivelmente pela inserção social.

A necessidade social é uma constante na vida humana. Vivemos em sociedade, seja na família, seja no trabalho. E, para fazer parte de um corpo social, faz-se necessário abdicar de algumas liberdades individuais. Algumas vezes essa liberdade é a de exprimir-se livremente.

Adequando-se ao ambiente da família ou do trabalho, o indivíduo pode sentir ter a necessidade de afirmar aquilo em que não acredita de fato. Levanto a hipótese, portanto, de que algumas pessoas defensoras das correntes assim chamadas ”de esquerda” o fazem de forma mentirosa, por receio de represálias ou por interesse estratégico.

Por exemplo, se no ambiente de trabalho houver uma grande quantidade de partidários de ”esquerda”, alguém que defende o liberalismo pode sentir receio de ser prejudicado ou perseguido, talvez até demitido caso livremente manifeste-se a favor da ”direita”. A pressão social, então, o leva a concordar (externamente) com seus colegas enquanto na realidade não crê naquilo.

Também é possível que o indivíduo tenha interesse em ingressar em determinado grupo social. Nesse caso ele compactuará com as narrativas do grupo em que almeja entrar, porém sem estar sinceramente aderindo ao discurso. Embora evidentemente uma ação moralmente repreensível, esta é uma possibilidade a ser considerada.

 

d) Por má vontade.

E o último caso é aquele em que o indivíduo conhece de fato a doutrina marxista e a defende.

Conhece o fundamento da revolução e da luta de classes, o ideal do “homem novo”, o conceito de família como origem do mal, os conceitos econômicos da mais-valia e da soma zero, os preceitos contrários às famílias, às religiões e à propriedade privada, e, especialmente, conhece a história das experiências marxistas. Alguém que realmente tem esse conhecimento e ainda defende a ideologia o faz por má fé. Não é um homem de bem.


 

Conclusão

Com isso encerro este breve estudo finalmente respondendo a questão: o que leva alguém a defender o marxismo? Respondo simplesmente: ignorância ou má fé.

 

Referências

http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2016/09/INAFEstudosEspeciais_2016_Letramento_e_Mundo_do_Trabalho.pdf
http://acaoeducativa.org.br/wp-content/uploads/2018/08/Inaf2018_Relatório-Resultados-Preliminares_v08Ago2018.pdf
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais.html (PNAD e PNADc)
https://ipm.org.br/inaf
https://infograficos.gazetadopovo.com.br/educacao/qualidade-producao-cientifica-no-brasil/
https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/tamanho-nao-e-documento-nossas-universidades-produzem-milhares-de-pesquisas-mas-impacto-global-e-pequeno/
http://olavodecarvalho.org/os-histericos-no-poder/


 

Falha de expressão ou ato falho?