Discussão e debate no país dos analfabetos.

Segunda parte: o mau caráter coletivo brasileiro e sua ignorância específica

Seção 1

Na primeira (longa) parte, apresentei uma imagem geral e generalizante da realidade escolar e acadêmica contemporânea. Situei-nos num país composto por analfabetos funcionais da mais tenra infância até o mais alto grau de escolaridade. Massas de pessoas incapazes de interpretar dados pré-fornecidos e, por conseguinte, trabalhar com essas informações autonomamente, independentemente. A grande maioria das pessoas, incluindo membros da academia, acaba dependendo de outrem que lhes diga o que é o certo, o que devem dizer, o que devem fazer, o que devem pensar. Não são capazes de formar autonomamente, independentemente, opinião própria, aderindo à opinião alheia.

Vejamos agora nesta segunda parte outra faceta da nossa sociedade: a competitividade.

Neste país de vítimas autovitimizadas, muito fácil é reclamar do governo, pois ”a culpa sempre é do outro” como apresentarei logo a seguir. O povo sempre reclama de tudo, em especial do governo. E gosta de reclamar por reclamar. Na parte anterior desenvolvi bastante sobre o reclamado. Hora de ver a hipocrisia dos reclamantes, que não são tão ”santos” assim…

Vivemos num país onde a lei maior não é a Carta Magna, e sim a Lei de Gérson. É preciso levar vantagem em tudo; é preciso ser malandro. Mas cuidado porque ”malandro demais se atrapalha!” Até hoje me dói o espírito por ter perdido a fonte deste causo: encontrei um texto (e não recordo se era em livro ou artigo) em que um alemão tentava explicar (em alemão, pois) o que é malandragem. Foram vários e vários parágrafos para explicar o que brasileiro já tem que nascer sabendo!

A capacidade de burlar normas e regras estabelecidas para obter vantagem pessoal ser bem quista quando praticada na medida correta, o famoso ”jeitinho brasileiro”, causou um verdadeiro nó conceitual (e gramatical) no gringo. O impensável lá fora é o padrão aqui dentro. E motivo de orgulho…

Essa necessidade de vantagem está ligada a outra característica de nosso povo: a necessidade de vencer. Faz parte da cultura popular que é preciso sempre vencer. Mesmo que desde cedo nos digam para não ”cantar vitória antes do tempo’‘, a mera idéia da derrota ou do fracasso é repudiada veementemente. “Não pode levar desaforo para casa!”, nos dizem também. Só há valor na vitória, sendo o segundo lugar motivo de desprezo e zombarias. A vitória alheia é vista ou com inveja ou com frustração. Torcer contra um rival para que não ganhe de um terceiro é comum, apesar de ser das mais tolas formas de estupidez. Não se cultiva o sentimento de alegria pelo sucesso do outro. É uma nação de maus participantes (maus vencedores e maus perdedores).

 

Cartoon vector stickman three males standing on the winners’ podium rostrum, winner is enjoying and celebrating, losers are watching him in anger

Um adendo: eu não vejo a vida como vitórias ou derrotas. Vejo apenas como experiências que podem ser agradáveis ou não. Não compartilho dessa visão de mundo. Talvez isso também seja mais um motivo para eu me sentir tão inadequado…

Para o brasileiro, a vida é um grande jogo de futebol. Ninguém gosta de perder, e aceitar a derrota é difícil. Basta se lembrar do comportamento do brasileiro na Copa do Mundo. Depois que o time do Brasil perde, a audiência desaba, a festa acaba e a torcida reclama. O mesmo vale para as Olimpíadas ou qualquer evento desportivo. Reclamam da derrota, mas ninguém vai lá fazer melhor. E, principalmente, ardentemente desejam se identificar estarem em posição de vitória ou de vantagem.

Esse comportamento doentio não se restringe somente aos esportes: no trânsito, não se deixa passar; na fila, não se cede a vez; no trabalho, não se dá sua oportunidade ao colega. Vale para tudo, sempre é a mesma história: ”farinha pouca, meu pirão primeiro”. Fora do ambiente familiar (algumas vezes até mesmo ali) é como se todo o resto da humanidade fosse um grande adversário. Animosidade é a regra; agressividade, o padrão. É preciso competir. É preciso vencer…

Esse pensamento se reflete na linguagem. E não me refiro a fofocas entreouvidas, maldizeres ou coisas do tipo. Refiro-me ao fato de que até mesmo na linguagem, é necessário estar sempre certo.

— Bom dia!
— Não é bom dia, é boa tarde.

Esse minúsculo diálogo me acompanha há algum tempo. O fato de ser corrigido ao cumprimentar alguém sempre me incomodou desde pequenino. Eu quero crer que não há outro lugar no mundo em que tal estapafúrdia aconteça: desejar que a outra pessoa tenha um bom dia, e receber dela como resposta (literalmente ou semanticamente): “Não. Você está errado e eu estou certo. Já passa de meio-dia e agora se diz boa tarde.”

A obsessão em ”estar com a razão” e demonstrar que a tem, em estar certo enquanto o outro está errado, em ”vencer” impregnou-se tal sorte que nem mesmo uma gentileza escapa dessa loucura: a gentileza se perdeu no meio segundo em que foi pronunciada. Em terras tupiniquins, onde as leis ”pegam” ou não, a lei gersoniana é zelosamente respeitada até mesmo nos corriqueiros cumprimentos e saudações.

Compulsão que também se dá no curso de um diálogo em que duas ou mais correntes de pensamento divergentes se encontram. A análise conceitual minuciosa e objetiva feita com contraposição de idéias (ou a mera atitude de se calar e ouvir o que outro tem a dizer) é natimorta, cabendo ao palavrório não buscar a verdade, e sim ser ferramenta para ”ganhar”, deixar o outro sem fala, sem resposta. Para isso, mais do que a fundamentação crítica e racional do discurso, os expedientes utilizados são as frases de efeito e os sortidos subterfúgios que tornam belas as palavras, ainda que carentes de sustentação. Falar bonito é melhor e mais importante que falar a verdade. Fato exacerbado se houver público ouvinte. Choque de egos, o pseudo-deslinde não difere de uma disputa futebolística com dois lados a torcer pela ”vitória” do seu e pela ”derrota” do outro.


Seção 2

Uma vez já apresentado o que considero ser uma falha no caráter do homem médio brasileiro (competitividade descomedida), gostaria agora de explanar alguns conceitos desconhecidos ao mesmo em sua ignorância específica acerca do debate formal. A grande maioria das pessoas não conhece a diferença entre o debate e a discussão, pois não conhece a diferença entre opinião e argumento. Discriminá-las-ei, pois.

Antes, porém, gostaria de discorrer sobre mais uma característica que considero ser uma falha de caráter, mas desta vez não generalizadamente. O ”eu sei, você não sabe”. É o ato de zombar de outrem por este não ter conhecimento sobre um assunto, um evento, um fato. Este é um evento corriqueiro em minha vida: ser alvo de zombarias por desconhecer alguma coisa. Como meus interesses são peculiares, é comum que eu não saiba sobre coisas muito conhecidas. E ao perguntar sobre elas, sou escarnecido por minha ignorância.

Além de não ser uma atitude bem-educada do interlocutor, esse comportamento aponta dois problemas subseqüentes. O primeiro retorna à competitividade pré-mencionada (saber mais, estar à frente, tripudiar). O segundo será apresentado com mais detalhes posteriormente e consiste na autodelusão de intelectualidade, isto é, acreditar que possui o conhecimento correto e não aceitar (e até mesmo tolerar) contra-argumentação (presunção e preconceito).

Durante os longos parágrafos até agora, tenho escrito duras críticas ao caráter das pessoas, o que pode dar a entender que estou me jactando em ser um homem santo… Muito longe disso, acho que sou quem mais tem para aprender por aqui. Mas por mais pedante e pernóstico que eu seja, exemplo da chamada ”cultura de verniz”, eu reconheço minhas limitações (que não são poucas). E também sinto muito constrangimento ao ver outra pessoa sendo alvo de chacota por não saber isso ou aquilo. O fato de não ser perfeito não me impede de identificar defeitos na conduta dos outros.

Leonardo da Vinci
Leonardo da Vinci sendo perfeito…

 

Acusações e confissões feitas, sigamos então com a explanação dos conceitos.

 

Premissas:

Juízo de fato: a compreensão racional da realidade de algum fato ou objeto.

Exemplos: ”Está chovendo.”; ”Isto é uma bola.”

Juízo de valor: a classificação ética e moral de uma ação ou acontecimento.

Exemplos: ”A prática da caridade é uma boa ação.”; “Aquele imposto é injusto.”

 

a) Opinião

Opinião é um sentimento. Consiste na sensação de aprovação ou desaprovação, algo que parte do foro íntimo do indivíduo: “eu sinto que está bom”, “eu sinto que está mau”; ”isso me agrada”, ”aquilo me desagrada”; ”eu acho”. Opiniões não são passíveis, portanto, de análise argumentativa, pois não cabe juízo de valor sobre sentimentos ou sensações.

Disso deriva que a única opinião que me importa (ou seja, que vem para dentro de mim) é a minha própria. Independentemente do que ”achem” sobre algo, ou seja, como o considerem (bom ou ruim; agradável, desagradável ou indiferente; desejável ou repudiável), eu, e somente eu, sei o que sinto. As opiniões das outras pessoas sobre como devo agir, o que devo dizer, como devo me portar, quais decisões devo tomar são as opiniões delas, ou seja, são considerações que fazem a partir de seus próprios sentimentos e não devem ser tomadas como parâmetros por mim frente à minha própria vida.

Sou eu, e somente eu, que vivenciarei meus sentimentos, logo, a minha, e somente a minha, opinião deve ter importância. Para esclarecer esse argumento, utilizo o expediente da exemplificação:

”É errado você se sentir triste com isso, pois há pessoas que estão em situação muito pior que a sua.”
“É errado você se sentir feliz com isso, pois há pessoas que estão em situação muito melhor que a sua.”

Essas duas frases tornam facilmente perceptível o cerne de meu argumento. As duas assertivas possuem exatamente a mesma construção lógica, a qual afirma que os sentimentos de um indivíduo e o seu posicionamento frente à vida devem ser pautados pelas outras pessoas. Essa afirmação é absurda, pois nega a independência e a liberdade individuais mais íntimas.

Com isso quero afirmar que opiniões são estritamente individuais e não podem ser consideradas para um debate formal. Pertencem ao âmbito exclusivamente privado. Devem ser respeitadas, porém se encerram em si mesmas: sua opinião é só sua e só importa a você mesmo.

Resumindo: você gostar ou não de alguma coisa não define a natureza dela, apenas mostra a sua própria.

 

b) Argumento.

Do Latim arguere, que significa ”tornar brilhante”, ”iluminar”.

Ao contrário de opiniões, argumentos podem ser refutados, invalidados ou comprovados, julgados e criticados. Por terem conteúdo próprio, é possível exercer juízo (de fato e de valor) sobre eles a qualquer tempo. Argumentos são proposições racionais que visam afirmar a verdade sobre alguma coisa (dizer o que algo é ou não é), e por isso podem ser verificados ao compararmos a afirmação com a realidade, ou seja, podemos provar se são verdadeiros ou falsos, saber se estão corretos ou não. A correição de um argumento se dá pela investigação de seus fundamentos e de sua estrutura lógica.

Afirmo que a verdade independe da fala, independe dos observadores, não é ”criada” ou ”construída” pelos homens. Cabe a eles tão somente descobri-la, pois ela lá já está. Uma expressão matemática é verdadeira independentemente de quem a profira, seja um analfabeto, seja um doutor em matemática pura. A soma dos ângulos internos de um triângulo forma uma linha reta; ponto, reta e plano têm definição axiomática; os lados e a diagonal de um quadrado são grandezas incomensuráveis. E isso é assim mesmo se nunca houvesse quem o conhecesse.

Afirmo que essa realidade não se restringe à matemática: é assim em todas as ciências, em todo o corpo do conhecimento, incluindo os campos da ética e da moral. Os conceitos de Bem e Mal existem independentemente dos homens e de suas ações. Divirjo, portanto, da idéia hegeliana bem como de toda e qualquer idéia antropocêntrica de produção da verdade por ação ou construção humana. A história existe independentemente dos homens tal como uma árvore faz sim barulho ao cair sem testemunhas.

Um argumento é uma proposição lógica. Deve ser fundamentado em alguma coisa inegável, partir de premissas corretas, ter sentido lógico e ser racional. A partir do processo de dedução (conclusão necessária) ou indução (conclusão possível) afere-se a validade ou a força (respectivamente) da propositura. Assim exercemos juízos sobre as afirmações.

Falácias são falsos argumentos (não são argumentos). Contêm erro(s) de estrutura lógica. O estudo formal das falácias permite identificar falhas no discurso do interlocutor, bem como falhas no próprio raciocínio. As principais falácias são:

-) Erro de silogismo: falta de nexo entre as afirmações;
Todo carro possui rodas. Este veículo possui rodas. Logo, este veículo é um carro.

-) Erro de princípio: partir de pressupostos falsos ou não-comprovados;
Eu sou um homem rico pois (porque) tenho um carro, e todo homem rico tem um carro.

-) Argumento circular: afirmações que afirmam a si mesmas;
A é verdade por causa de B. B é verdade por causa de A. Logo A e B são verdadeiros.

-) Questão complexa: questões que implicam a veracidade de um terceiro elemento;
– Seu irmão mais velho trabalha na marinha mercante?
– Eu não tenho irmãos!

-) Conclusão irrelevante: a conclusão não atende à proposta.
Eu devo comprar um carro novo porque gosto de jogar carteado.

Esses exemplos (grosseiros) facilitam a compreensão do que é uma falácia. Há muitos outros casos, mas não é o foco deste texto um estudo detalhado. Quero apenas apontar a ignorância específica da grande maioria das pessoas que não aprendeu a discernir quando uma fala é válida ou não.

 

c) Discussão

A discussão é o esporte nacional até de quem não pratica esporte. É o muito bem conhecido bate-boca. Todo mundo fala ao mesmo tempo, ninguém escuta o que o outro está falando, e ninguém chega a lugar algum. Corta aqui, interrompe ali, xinga lá. É a alegoria do pombo-enxadrista: já imaginou um pombo jogando xadrez? Ele não conhece as regras e irá derrubar todas as peças, fazer cocô no tabuleiro e sair voando de peito estufado cantando vitória.

Fonte: https://www.flickr.com/photos/markcarey/2310361322/

Todo mundo tem a sua ”razão”, pois todo mundo quer ”estar certo”. É o outro que está errado! Todo mundo acha tudo, de tudo, e tudo de tudo. Esse é o resultado da cultura gersoniana que mencionei anteriormente. Não há interesse na verdade, mas em demonstrar que está certo (mesmo quando não está).

Não tenho muito a escrever sobre ”discussão”. Já esgotei minha cota disso. Levei mais tempo do que gostaria para entender que não vale a pena tentar debater com quem quer discutir. Como respondia a vovó: sim-sim, amém-amém. E deixa o outro falando sozinho.

 

d) Debate

E por fim, o que é um debate? Debate é a contraposição formal de argumentos divergentes acerca de um mesmo tema. É o estudo e o apontamento de falhas na fundamentação e na construção lógica do discurso. Consiste no indivíduo expor sua estrutura de pensamento ao crivo de outrem para que ”do lado de fora” este possa observar com outra perspectiva (muitas vezes não vista pelo próprio indivíduo) e submeter esse pensamento ao exame externo com resultados confirmatórios ou negatórios.

É a busca de ajuda para averiguação dos resultados de sua própria ciência. Um debate não consiste em vencer ou perder, mas fortalecer ou reformular os próprios conceitos. Ao expor um conceito que verifico por meio do debate ser errado, me beneficio por me livrar de um equívoco; ao expor um conceito que verifico ser correto, me beneficio e fortaleço a estrutura argumentativa daquele conceito para mim e para os demais. Assim, num trabalho humano conjunto, nos aproximamos cada vez mais de conhecer a verdade sobre algo.

A oportunidade do confronto entre dois pontos de vista divergentes permite a interação entre pessoas cujos pensamentos não se corresponderiam de outra forma. Permite a troca de idéias e experiências e contribui para o desenvolvimento de ambos os lados. Para isso o exercício de um debate exige regras muito bem estipuladas e muito bem acatadas pelos debatedores, como aguardar a vez para falar, observar a linguagem e etiqueta, etc.

Infelizmente a idéia de debate no Brasil se restringe ao ”debate” eleitoral que se dá na TV a cada dois anos. Aquilo é tudo (circo, espetáculo, pastelão) menos debate. Ainda assim são mais aceitáveis que os programas de auditório da TV aberta…

Um debate verdadeiro é aquele em que ambos os lados estão dispostos a verificar seus próprios argumentos, pô-los à prova, com fins não de ”derrotar” o lado ”adversário”, mas em melhorarem-se a si mesmos. Lamentavelmente a cultura do debate não existe no Brasil. Ao assistir a vídeos de debates realizados nos EUA, Canadá e Europa, fica evidente o abismo cultural que separa nossos povos.

Em adendo, novamente coloco a Pirâmide de Graham, para conhecimento.

Hiearquia de Graham

 


Seção 3

E qual é a importância em conhecer esses conceitos?

Aprender a reconhecer e diferenciar esses conceitos propicia melhor uso de uma das principais liberdades humanas, que é a liberdade de expressão. Percebo que as pessoas não têm muito clara a importância da liberdade de se exprimir e quais deveriam ser os limites de tal liberdade.

Liberdade de expressão não é apenas a liberdade de manifestar-se livremente sem censura estatal ou social. Se assim fosse, se resumiria a um bem-estar íntimo de cada indivíduo. Liberdade de expressão consiste na liberdade de poder apresentar idéias, conceitos, argumentos e opiniões. Essa liberdade traz ao seio do debate público a miríada de construções do pensamento humano, favorecendo a heterogeneidade cultural.

Também tem como benefício indireto a possibilidade de facilmente reconhecer quem defende o quê. A identificação de pessoas ou grupos cujos pensamentos e crenças são prejudiciais ao ordenamento do corpo social é facilitada em uma sociedade em que haja ampla liberdade para o indivíduo ou o grupo falar o que quiser.

Os antigos gregos possuíam a idéia de ”parresia” (franqueza na fala). Durante certo período festivo, era permitido a todos falar absolutamente tudo o que quisessem, incluindo criticar (acidamente) os políticos, as instituições, a religião etc. Esse momento de liberdade permitia ao grupo social uma válvula de escape pela qual se aliviavam as pressões socioculturais vigentes. Também permitia a apresentação de novas idéias e conceitos, muitas vezes divergentes da opinião da maioria ou inaceitáveis durante os demais períodos do ano. Era o momento de falar o que quiser, sem receios de punições posteriores.

Essa liberdade absoluta para falar qualquer coisa (exceto criminosamente) é ao meu ver muito bem-vinda em especial na Academia. Ou ao menos deveria ser… O cerceamento praticado pelo status quo por meio de censura explícita ou velada prejudica o livre desenvolvimento intelectual na Academia (e em todo lugar). Temas que não podem ser discutidos, argumentos que não podem ser apresentados, lados que não podem ser defendidos. A imposição sobre determinados temas de uma narrativa a ser seguida para que a produção ”científica” seja aceita reflete em parte o já apresentado anteriormente, qual seja: a idéia de estar sempre certo.

Sustento que a livre apresentação de idéias, conceitos e argumentos permite a averiguação ilimitada da correição das propostas. Se estou certo sobre algo, meus argumentos sairão fortalecidos do debate. Se me for provado o erro, aproximo-me mais da verdade e elimino de meu pensamento conceitos equivocados. Mas para tanto, preciso ter a permissão do corpo coletivo onde o debate ocorrerá para poder expor qualquer idéia ou argumento, por mais estranhos que sejam à corrente de pensamento principal.

Também se faz necessário que o corpo coletivo conheça (e essencialmente respeite) as regras do debate. Não é isso o que vemos. Encontramos discussões em que não se permite a contraposição de idéias se contrárias ao ordenamento estabelecido ou aceito pela maioria; ou monólogos em que grupos se reúnem para escutar mais do mesmo, bebendo da mesma fonte, sem renovação de conceitos ou apresentação de novidades ao discurso.

É exatamente o dueto ”poder falar” e ”ser escutado”, sem o pano de fundo da competitividade, sem a presunção de saber mais do que os outros, que permite uma conversa realmente produtiva, edificante e salutar a todos. Porém quando o assunto são as crenças… Fica muito mais complicado. É o que apresentarei na terceira e última parte deste texto.