Discussão e debate no país dos analfabetos.

Discussão e debate no país dos analfabetos.

Preâmbulo

Este texto é uma reflexão acerca do adendo do texto anterior 200 milhões de babacas.

Não passearei pela seara da farsa do PROUNI, do PRONATEC e do FIES, programas conspurcados pelos governos petistas*, que culminaram no endividamento dos estudantes mais pobres, exatamente aqueles mais necessitados e que não conseguiram vagas nas instituições públicas de ensino superior. Isso é mais que revoltante e quero manter a salubridade deste escrito. Concentrar-me-ei apenas na educação pública.

*PROUNI – “Programa universidade para todos” criado em 2004 é um sistema de concessão de bolsas integrais ou parciais pagas pelo governo federal a instituições privadas de ensino. Em contrapartida ao fornecimento de vagas, as instituições recebem benefícios fiscais e tributários. No caso de bolsas parciais, cabe ao aluno o pagamento da parcela restante.

*PRONATEC – “Programa nacional de acesso ao ensino técnico e emprego”, criado em 2011, funciona nos mesmos moldes do PROUNI, sendo voltado aos cursos de ensino médio técnico.

FIES – O “Fundo de financiamento estudantil” é uma modalidade de financiamento de estudos no ensino superior implementada pelo regime militar (chamava-se CREDUC) para custear a educação a juros razoáveis. Atualmente o valor dos juros equivale ao da poupança.


Primeira parte: A ignorância coletiva brasileira

Seção 1

Durante o regime militar (ou ditadura, como queiram) representantes, grupos, organizações e atores de movimentos ”de esquerda” infiltraram-se e instalaram-se nos mundos acadêmico e cultural. A tomada gradual de posições de destaque e de controle tanto na exposição midiática quanto nos bastidores intelectuais os pôs em uma posição privilegiada para a divulgação e defesa de suas pautas, bem como facilita a captação de novos adeptos. Personalidades admiradas pelo grande público utilizam há décadas sua exposição para influenciar (em especial) jovens a aderir ao movimento de viés marxista.

Filósofa Nana Caymmi citando chupadores.

Essa tomada do poder por meio da influência intelectual e cultural é o que se chama gramscismo. Proposta desenvolvida pelo filósofo marxista italiano Antonio Gramsci, o gramscismo, grosso modo, propõe a constituição de uma hegemonia cultural, isto é, a formação de uma contracultura que esteja tão impregnada na comunicação, nas artes, nas relações sociais que se torne ”senso comum”. Isso se observa atualmente no uso da linguagem cotidiana, que traz em si as marcas do pensamento marxista. A idéia de ”classes” em lugar de profissões, ”gênero” em lugar de sexo, e os demais jargões como ”empoderamento”, ”opressão”, assim como a praticamente desconhecida defesa de ”bem-estar social” fora da ideologia ”de esquerda”.

O controle da linguagem (do que se fala, de como se fala, do vocabulário) é uma das mais poderosas (e perigosas) ferramentas para o controle do pensamento coletivo, como bem aponta Jordan Peterson:

I’m against the use of legislation to determine what words up that myself and other people are required to utter […] I don’t believe that other people have the right to determine what language I use especially when it’s backed by punitive legislation and when the words that are being required are the constructions there are artificial constructions of people I regard as radical ideologue who’s viewpoint I do not share […]

Eu sou contra o uso da legislação para determinar quais palavras eu e outros somos requeridos a proferir […] Eu não acredito que outras pessoas têm o direito de determinar qual linguagem eu uso, especialmente quando compelidas por legislação punitiva e quando as palavras que estão sendo requeridas são construções artificiais de pessoas que considero radicais ideológicos cujo ponto de vista não compartilho […]

I don’t think it boils down to respecting their human rights I think that it’s an imposition on freedom of speech […]

Eu não acredito que isso se fundamente em respeitar seus direitos humanos. Eu penso que é uma imposição sobre a liberdade de expressão [..]

[…] to produce a transformation in the manner in which people spoke has a very dangerous precedent [nazifascism/socialist movement] so it’s one thing to tell people what they can’t say so for example we have legislation making it illegal to do such things as deny the Holocaust; it’s a completely different thing to demand that people use certain words when they’re formulating their own ideas […]

[…] produzir uma transformação na maneira com a qual as pessoas falam tem um precedente muito perigoso [movimento nazi-fascista/socialista]. Uma coisa é dizer às pessoas o que elas não podem falar, como por exemplo temos uma legislação que torna ilegal fazer certas coisas como negar o holocausto; isso é uma coisa completamente diferente de demandar que pessoas usem certas palavras quando estão formulando suas próprias idéias […]

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=SiijS_9hPkM
Heated debate on gender pronouns and free speech in Toronto (29/10/2016) – CBC News

O cerceamento à liberdade de expressão de quem tem o que exprimir é uma ”frente de ataque”. Evitar que novos argumentos e novas idéias sejam aduzidos ao debate, e dificultar ou até mesmo impedir que perspectivas contrárias tenham alcance fazem parte da estratégia gramsciana de hegemonia cultural para a manutenção do monopólio do pensamento e do discurso.

Outra frente é evitar que tenham o que dizer. Esse é um processo que leva tempo, ou melhor, levou. Observemos a história recente de nossa educação pública.

Para quem não desenvolveu a habilidade de análise crítica, dados estatísticos são vistos como retratos fiéis da realidade. Porém isso está incorreto, pois os dados numéricos sempre precisam ser interpretados. Devemos ter em mente que uma coisa é o fato, outra é o nexo causal. Os números são, portanto, apenas indicadores que precisam ser analisados e contextualizados segundo o que está sendo observado. Deixe-me exemplificar com um “recurso ao extremo”.

Em certa sociedade o crime de estupro chegou a 85% das mulheres. Esse dado alarmante levou o governo a tomar uma atitude e no mês seguinte o índice caiu para 0%. O crime deixou de ocorrer imediatamente. Ora, qualquer pessoa acharia esse dado surpreendente e por curiosidade iria procurar saber como resolveram o problema tão rapidamente. Resposta: descriminalizaram o estupro.

Percebe? Índices são apenas índices. Os números por si mesmos não refletem se algo é bom ou mau, se determinada decisão ou ação foi correta ou errada. Faz-se necessário compreender e interpretar a situação para daí ponderar (exercer juízo de valor) sobre o nexo causal entre o fato e o dado. ”Maquilar” os índices e usar números estatísticos falaciosamente é muito fácil (e uma atitude antiética).

Essa atitude antiética vem sendo utilizada para mascarar o fiasco da educação pública brasileira há anos, bem como para acobertar e facilitar o subjacente processo de hegemonia cultural que vem ocorrendo.

Caso 1: “As crianças não estão indo bem na escola, veja: o índice de repetência é alto!”

Resposta: passagem de ano automática. Independentemente se a criança aprendeu ou não a ler e a escrever, se aprendeu ou não aritmética básica, ela deve passar para o ano seguinte, seguindo não seu grau de instrução, mas sim sua idade, alocando-a na série estipulada para sua faixa etária.

Conseqüência: crianças e mesmo adolescentes analfabetos completos, isto é, incapazes de ler, escrever e calcular, mas que possuem certificação de ensino básico e até mesmo ensino médio.

Porém… ”Governo atinge meta de escolaridade para faixa etária!”.

E um problema mal resolvido gera outro:

Caso 2: “As crianças não estão permanecendo na escola! O índice de desistência é alto!”

Resposta: para receber bolsa-esmola, seu filho deve freqüentar a escola. Rima sem graça, muitas crianças somente vão à escola para receber a merenda escolar, algumas vezes a única refeição do dia. E os pais vêem nisso dois paliativos: o almoço dos filhos e a esmola oficial do governo. Colocar uma criança na escola por conta não da instrução e sim por conta de comida e dinheiro é um indício do nosso fracasso enquanto sociedade. Quando a fome obriga a ação, os belos discursos dos teóricos não têm valor algum.

Conseqüência: crianças e adolescentes escravizados pelo estômago, dependentes do Estado que lhes dá o que comer e uma esmola para subsistir. Nada aprendem e, sem instrução, não conseguirão melhorar suas condições de vida. Terão filhos a repetir o mesmo caminho de dependência de si mesmos e de seus pais.

Porém… “Governo reduz índices de evasão escolar!”

Essas falaciosas ações governamentais visam autopromoção. Embora tenham sua utilidade estratégica, não são suficientes para formar uma boa manada dependente. Faz-se necessário também moldar seu pensamento. Para isso, o Brasil elegeu (ou ao menos os interessados elegeram) Paulo Freire como patrono do fracasso da Educação Brasileira. Uma educação marxista na qual os alunos são ensinados a contestar a autoridade e a ordem, a introjetar a crença de serem ”oprimidos pela sociedade”, a defender a divisão da sociedade e a luta de classes.


Para saber mais:

Padre Paulo Ricardo sobre gramscismo


Todavia formar uma nação de analfabetos absolutos não é interessante. É ruim para a economia, ou seja, para gerar riqueza ao grupo dominante. Logo se ensina o mínimo necessário para que possam seguir instruções, obedecer a ordens, trabalhar irrefletidamente, viver mediocremente. Formam-se, portanto, analfabetos funcionais.

O mais grave no analfabetismo funcional não é o indivíduo acreditar que ele é alfabetizado por saber identificar os sinais de linguagem escrita. Tampouco o é o fato de ele não se perceber carente de instrução mais apurada. O mais grave é o fato de esse indivíduo depender de outrem que interprete por ele uma informação, ou seja, que lhe diga o que ela significa. É o fato de não ser capaz por si mesmo de concatenar idéias próprias; de elaborar suas próprias interpretações; de construir seus próprios conceitos; de julgar, avaliar e questionar uma informação. Esse indivíduo é facilmente manipulável porque vive sua vida segundo o ”assim dizer”: não pesquisa, não se informa, não aprende por não ser capaz de fazê-lo sozinho, dependendo de outros para tal.

Currículo e cidadania devem compor o âmago da formação infanto-juvenil para que as novas gerações sejam independentes e livres. Porém o aprendizado curricular e o desenvolvimento intelectual daquela criança que passou pela aprovação automática e pela necessidade foi relegado a segundo plano. Por conseguinte sua preparação enquanto cidadão também foi em muito comprometida.

Nessa realidade de ensino deficitário (que afirmo ter sido intencional), professores são acusados de substituir os conteúdos programáticos por uma ”doutrina de esquerda”. Gostaria de levantar um comentário/contraponto/hipótese a esse respeito: a educação pública básica é tão ruim que a acusação de doutrinação deve ser falsa em parte considerável dos casos. Pelas informações que tenho de amigos que trabalham na rede pública de ensino, os estudantes estão tão dispersos disciplinarmente e desassistidos socialmente que nem ao menos têm condições de serem doutrinados. A doutrinação só ocorre (podemos afirmar por sabermos que ocorre) nos melhores colégios. O que acontece na maior parte dos casos é a repetição e a aplicação dos conceitos freireanos que mencionei, massificando indelevelmente no senso dos jovens os conceitos marxistas.

E chegamos ao Ensino Superior (área de especialização deste que vos escreve).

Conforme já escrevi tantas vezes, cursei Filosofia numa faculdade pública onde ora sou servidor (UERJ). Chamam-me de ”sobrevivente” por ter passado (e permanecer) incólume, sem descambar para o alinhamento ideológico marxista que há na Academia (e com que hodiernamente convivo no ambiente de trabalho). Mas repito um desagravo que faço questão deixar claro: não tive um único professor que doutrinasse em sala de aula. Não sei se foi coincidência ou se a imagem da vida política lá dentro é exagerada… Nem ora sou ”perseguido” politicamente, sempre tendo sido devidamente respeitado, assim como não tenho conhecimento de discriminações político-partidárias entre trabalhadores. Para mim, essas histórias são balela. O que ocorre é a composição interpessoal informal de grupos polarizados (vulgo ”panelinha”: quem é de fora, não entra

:-p).

A imagem externa da instituição é ruim. Certa vez enquanto eu aguardava no ponto de ônibus, estava ao lado de algumas pessoas conversando, e uma disse à outra estar indo para a UERJ. Garotos vindos da escola próxima brincaram entre si: “Ih… UERJ?! ‘Tá indo para a boca [de fumo]!“. Essa imagem pervertida se estende para as demais instituições públicas de educação do país, em especial os centros de ciências humanas.

A estratégia de hegemonia cultural para formação de reprodutores de ideologias marxistas em lugar de profissionais de nível superior hoje cobra seu preço: a imagem e a respeitabilidade das instituições. Estas hoje são vistas como verdadeiros cartéis acadêmicos em que só se entra (seja no ingresso, seja na pós’) se houver alinhamento doutrinário com quem lá já está. Além da seqüela inevitável na aparência, outras surgiram na essência.

Historiei há pouco que a formação básica e média é muito ruim. Quando esse jovem adulto chega ao tempo do ensino superior, surge um novo problema (pois ”um problema mal resolvido gera outro”):

Caso 3: “Alunos de escolas públicas não conseguem passar no vestibular! Como resolver o problema?”

Resposta: cotas. Para aumentar o número de estudantes oriundos do ensino público nas instituições de ensino superior, não é necessário melhorar o sistema de ensino básico. Basta deixá-los entrar por um vestibular separado! Em lugar de corrigir as falhas dos ciclos iniciais, é muito mais fácil permitir que as deficiências (dos estudantes e do sistema) perdurem até o final da formação superior.

O programa de cotas não atende apenas estudantes de escolas públicas, abrangendo também negros, índios etc. Observo nisso não apenas a manutenção do discurso da luta de classes (pobres contra ricos), mas também a construção artificial de uma luta social (inexistente) entre etnias.

Conseqüência: ingresso cada vez maior em curso superior de pessoas sem preparo prévio e, por conseguinte, diminuição da qualidade do ensino ministrado em classes cujos componentes têm graus de instrução em níveis distintos. Esse problema ocorre especialmente nos cursos técnicos e tecnológicos bem como nos cursos de formação de profissionais liberais.

Os professores não têm como manter um alto nível curricular em uma turma heterogênea onde parte significativa dos graduandos não tem condições de acompanhar o conteúdo. São casos em que se faz necessária a escolha entre baixar o nível de complexidade das aulas (nivelar por baixo) e manter a busca pela excelência (nivelar por cima). No primeiro caso, o grau de instrução final estará aquém do esperado, porém mais alunos se formarão. No segundo caso, o grau de instrução final estará de acordo com o esperado, porém o número de desistências e abandonos de curso será mais alto. Continuando a linha de raciocínio da falácia estatística:

”Governo aumenta número de formandos oriundos de escolas públicas!”
”Governo aumenta número de negros, índios, asiáticos, homossexuais, esquimós, sacis-pererês, mutantes e alienígenas cursando universidades!”

Ainda assim, mesmo com cotas, continuou sendo difícil fazer passar alunos das escolas públicas (ou outros grupos de interesse), pois…

Caso 4: ”Cada instituição tem um vestibular próprio! É difícil estudar para tantas bancas!”

Resposta: ENEM. Não escolheram orientar as bancas examinadoras a fazer provas que visem aferir o aprendizado real em lugar dos tradicionais testes de ”capacidade de memorização de conteúdo” ou testes de ”o que vai cair naquela banca”. Também não escolheram desenvolver programas de ensino eficientes nos ciclos da educação básica.

Optaram por unificar tudo numa prova só. Ficou muito (muito) mais fácil examinar se os aprovados traziam o mesmo arcabouço de idéias (afinal, numa nação comunista a doutrina deve ser igual em todos os lugares…). Invariavelmente aquelas idéias acabariam por dever ser estudadas caso se quisesse passar na prova.

Conseqüência: homogeneização cultural (ou ao menos ideológica) dos ingressantes nas instituições de ensino superior em todo o país. E toda homogeneização, por definição, é nocente à pluralidade de idéias, conceitos, teses, hipóteses, perspectivas, enfim à liberdade de pensamento humano.

Porém… ‘‘Governo traz igualdade para todos os jovens num vestibular nacional!”


Seção 2

E voltamos aos números! As estatísticas são claras: mais crianças freqüentando as escolas; mais jovens cursando as séries corretas; índice de repetência zerado; escolas públicas com maior aprovação no vestibular; mais negros (ampla maioria da população) indo para a universidade; etc. etc. etc. Tudo indo muito bem.

As pesquisas sobre o analfabetismo funcional demonstram a gravidade do problema*. 78% dos pós-doutores (repetir-me-ei: setenta e oito por cento das pessoas que têm dois ou mais títulos de doutorado) são analfabetos funcionais.

-* Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em associação com a Ação Educativa e apoio IBOPE.

Tabela 2b – Níveis de alfabetismo por escolaridade (% por escolaridade) Total

  Total   Analfabeto Rudimentar Elementar Intermediário Proficiente
Base   88 457 843 453 161
Até Fund. – séries iniciais 417 100% 19% 49% 27% 4% 1%
Ens. Fund. – séries finais 459 100% 2% 32% 53% 10% 3%
Ens. Médio 795 100% 0% 11% 48% 31% 9%
Ens. Superior ou +. 331 100% 0% 4% 32% 42% 22%
Total 2.002 100% 4% 23% 42% 23% 8%

Nota: O nível de escolaridade indicado na tabela informa sobre o ingresso do sujeito na etapa descrita e não a conclusão da mesma.

A maioria de quem chegou ou concluiu o superior permanece nos níveis Elementar (32%) e Intermediário (42%). Somente 22% situam-se no nível pleno de alfabetismo.

Eis a realidade que encontro em meu trabalho. Muitas vezes atendo formandos de mestrado e doutorado que (parafraseando Enéas Carneiro) você olha e pergunta “Meu deus, pra que diploma?“. A criatura é incapaz de compreender e interpretar idéias simples… Como se formou?

Esse sujeito se formou por força de vontade. Em minha primeira graduação, aprendi que não se deve permitir que a faculdade atrapalhe seu curso. Ela fará de tudo para te impedir de se formar: burocracia quase infinita, (alguns) professores de péssima qualidade encostados na estabilidade do serviço público, filiais de partidos políticos auto-intituladas ”centros acadêmicos”. E o corpo discente conivente complementa a etilicamente regada baderna dentro e no entorno dos campi, com inescapável música ambiente durante as aulas e o maconheirismo passivo… (Metade de meus neurônios ficou na fumaça dos corredores.)

Minha foto de formatura

Acuso: intencionalmente formou-se um exército de doutores desempregados enquanto mostrava-se à sociedade e ao estrangeiro análises estatísticas falaciosas com resultados supostamente satisfatórios.

Egressos das instituições de ensino superior encontram um mar de concorrentes tal como a si mesmos (muitas vezes) com uma formação deficitária. Não aprenderam em seus cursos os expedientes práticos de seus ofícios, apenas um cipoal doutrinário, lições esparsas e teorias impraticáveis, deixando ao dia-a-dia da atividade profissional o aprendizado do que realmente funciona e do que deve fazer.

As válvulas desse sistema quebrado jorram continuamente um excesso de formandos no já saturado mercado de trabalho. A principal seqüela disso neles é sua superqualificação, isto é, desemprego por qualificação maior que a necessária. Parece contraditório, mas é a praxe do mercado: se alguém possui um currículo acima do exigido para o cargo, o empregador pleiteado pode rejeitá-lo por receio de que ele vá exigir um salário mais alto; por receio de que tenha problemas prévios de relacionamento trabalhista; por falta de experiência em funções abaixo de seu nível de escolaridade. (Fonte: experiência própria do que vos escreve.)

Isso culmina na irônica baixa empregabilidade de pessoas que estudaram ”demais” acrescida da falta postos de trabalho de 3º grau, o que pode ser observado na relação atual entre emprego e escolaridade. Os dados da PNAD de 2018 apresentam que ao menos metade dos formados empregados trabalham em funções que exigem menor escolaridade (táxi, motorista de aplicativo, vendedores autônomos etc.). Embora os que estejam empregados conforme suas formações recebam salário superior à média nacional, eles não são mais o padrão. Temos sim um oceano de formados cujos diplomas servem para enfeitar as paredes de seus quartos.

E nada garante a qualidade dessas formações. Presenciamos uma legião de doutos analfabetos. Segundo o que expus, a qualidade do ensino superior é muito baixa, tanto na entrada de estudantes com baixa instrução, quanto na saída de formados com baixíssma produtividade. Baseio esta segunda afirmação em números que devem ser corretamente interpretados fazendo a contraposição entre a produção que é feita na academia e o valor que lhe é dado. Embora o país esteja entre os que mais produzem material acadêmico, o conteúdo produzido é desprezível e muito pouco contribui para o avanço científico.

O valor da produção acadêmica pode ser mensurado por seu impacto no próprio mundo acadêmico. Isso pode ser aferido pelo chamado CPP (citações por papel), isto é, índice que mostra quantas vezes as obras foram citadas em outras pesquisas, demonstrando a importância de tal descoberta ou a influência de tal proposta nova. Os números brasileiros são pífios.

Fonte: https://infograficos.gazetadopovo.com.br/educacao/qualidade-producao-cientifica-no-brasil/

Em especial nas cadeiras de Ciências Humanas, ultimamente motivo de chacota mesmo no meio universitário, encontramos pesquisas para as quais, mesmo com esforço mental e boa vontade, não é possível cogitar em que contribuem. São produções inúteis e irrelevantes. Além disso, saber que essas pesquisas foram custeadas com dinheiro público gera justa revolta do contribuinte que não teve acesso ao ensino superior público (a maior parte da população). “Se eu estivesse na faculdade, estudaria outra coisa.” ”Se eu mandasse na faculdade, o dinheiro não seria gasto nisso.”

O que leva à última conseqüência que gostaria de mencionar: além de formarmos em ampla maioria jovens sem instrução básica e adultos sem instrução adequada, parte considerável daqueles poucos formados adequadamente não devolvem à sociedade uma produção digna do esforço despendido para formá-lo. E a parcela ínfima dos bem formados que bem produzem academicamente tem melhores chances de sucesso indo para o exterior, pois são pouco valorizados na própria pátria.

Esse é o resultado do Estado mal administrado. Mas isso ainda não responde minha questão inicial. E mais: como isso tudo interage entre si?  E o outro lado da história? É o que veremos na segunda parte.


Adendo à parte primeira

Em resumo: gastamos muito e descobrimos pouco. Quando afirmo que “gastamos muito”, também me refiro ao tempo. Nossa pesquisa é feita muito lentamente – mesmo nos melhores laboratórios – devido a inúmeros entraves burocráticos (em especial para a importação de materiais de pesquisa) e absurdas ineficiências estruturais de nossas universidades. Por outro lado, muitos professores universitários fazem pesquisa de baixa qualidade e trabalham na ciência apenas por obrigação de ofício. Enchem seus currículos de publicações inócuas e inflacionam a produção nacional com lixo acadêmico. Para piorar, a universidade pública é “socialista”, pois um pesquisador que produz ciência ruim, que não é citada, recebe o mesmo salário que um cientista citado 500 vezes por ano – qual o estímulo para a excelência científica?

Marcelo-Hermes Lima (UnB)

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/tamanho-nao-e-documento-nossas-universidades-produzem-milhares-de-pesquisas-mas-impacto-global-e-pequeno/

 

Cito abaixo alguns casos amplamente noticiados:
(nota 1 – Não cito o nome dos autores, pois meu foco é na relação trabalhos – instituições.)
(nota 2 – A produção desses trabalhos envolveu diretamente ou indiretamente dinheiro público.)

  • “Vamos fazer uma sacanagem gostosa?”: uma etnografia do desejo e das práticas da prostituição masculina carioca Curso: Mestrado em Antropologia da Universidade Federal Fluminense;
  • Festas De Orgia Para Homens: territórios de intensidade e socialidade masculina Curso: Doutorado em Antropologia Universidade Federal Fluminense;
  • Fazer banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas na Estação da Lapa e adjacências. Curso: Mestrado em Antropologia na Universidade Federal da Bahia;
  • A estética Funk Carioca: criação e conectividade em Mr. Catra. Curso: Doutorado em Sociologia e Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • Mulheres perigosas: uma análise da categoria piriguete. Curso: Mestrado em Sociologia e Antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • A Zuadinha é tá, tá, tá, tá: representação sobre a sexualidade e o corpo feminino negro. Curso: Mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia;
  • Erótica dos signos nos aplicativos de pegação: processos multissemióticos em performances íntimo-espetaculares de si. Curso: Mestrado em Lingüística Aplicada na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
  • Personagens emolduradas: os discursos de gênero e sexualidade no Big Brother Brasil 10. Curso: Mestrado em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás;
  • Agora eu fiquei doce”: o discurso da auto-estima no sertanejo universitário Curso: Mestrado em Lingüística e Língua Portuguesa na Universidade Estadual Paulista (Unesp);
  • O herói na forma e no conteúdo: análise textual do mangá “Dragon Ball” e “Dragon Ball Z” Curso: Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporânea, Universidade Federal da Bahia;
  • Experimenta-te a ti mesmo: Felipe Neto em performance no YouTube Curso: Mestrado em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais;