Resposta ao “Paradoxo de Epicuro”

Em resposta (não solicitada 😉) à figurinha  com a qual vez ou outra a gente tromba nas redes sociais:

O problema da existência do mal atribuído ao filósofo grego Epicuro de Samos (que não era ateu).

1º – Não é um ”paradoxo”. Isso é um conjunto de argumentos fechados.

2º – O conhecimento do que é Bem só é possível por sua contraposição entre o Bem e o Mal. O Mal é necessário para que se conheça o que é o Bem.

3º – O argumento cristão da ”emanação” pressupõe que o Bem é o que está mais próximo da divindade, enquanto que o Mal é o que se mantém afastado dela. A exemplo dos anjos, que seriam emanações da divindade. Quanto mais próximos, mais elevada sua posição na hierarquia angelológica. Quanto mais afastado, menos relação com o divino. Daí a noção de formas etéreas (anjos), formas materiais com almas (homens) e formas materiais brutas (rochas, água etc.). (Essa noção se contrapõe ao animismo de outras religiões, como o Xintoísmo)

4º – A noção de divindade é transcendente à razão humana, portanto não é submissível ao escrutínio moral advindo dos homens. Os homens sendo falhos e incompletos não podem compreender a grandeza e transcendência da divindade, portanto, não cabe à criatura julgar seu criador.

5º – Ser onipotente não significa ter de exercer sua onipotência. Por exemplo, ”posso criar uma pedra que não posso levantar”. O fato de poder fazer, não significa que devo fazer. O ”direito” ou ”poder” de abdicar da onipotência não precisa ser exercido. Uma entidade pode ser onipotente sem precisar manifestar sua onipotência.

6º – Onisciência e Onipotência são praticamente sinônimas. Em amplo aspecto, um significa o outro.

7º – Há correntes cristãs como o Kardecismo que atribuem à situação de sofrimento passageiro a noção de ser uma forma de aprendizado. Desse modo, o que vemos com olhos humanos como sendo algo ruim, visto por olhos divinos (transcendentes – não presos à materialidade) na realidade é um caminho de evolução.

Ou seja, há vários argumentos contrários. Mas a análise epicurista faz sentido num mundo materialista.

Independentemente da existência ou não de deus, cabe ao ser humano fazer o bem. Não interessa se há ou não uma divindade superior. O que interessa é o que fazemos com nossas vidas. Não devemos esperar do céu um ”salvador”, mas nós mesmos nos salvarmos, fazendo o bem entre nós mesmos, deixando um mundo melhor do que aquele que encontramos.

Se há ou não um deus, não importa. O que importa é: qual é o bem que fizeste hoje?

Originalmente publicado em 04/11/2017