Suicídios, setembro amarelo e vida que segue.

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Minha postagem sobre suicídios na UERJ continua sendo um de meus escritos mais lidos, muito mais do que eu acreditei que seria. Não sei se isso é bom ou ruim. Não tenho como saber se os leitores são pessoas passando por problemas, ou se estão apenas procurando estudar a matéria. Aquela postagem é direcionada a pessoas que estejam bem e que queiram ajudar. Este texto é para você que por hora está se sentindo mal.

Mais um ano se passa e mais um setembro amarelo acaba. Neste estranho ano de 2020 em que o mundo parecia acabar para muitos, para muitos outros realmente acabou. Vidas se perderam para a doença, trocadas pela tristeza daqueles que ficaram.

O que não quer dizer nada. Afinal, é você quem está mal. A vida é sua, não deles. Por que você tem que viver sofrendo só para não magoar os outros? Você quer que o sofrimento acabe. Isso é normal. Ninguém gosta de sofrer, ninguém gosta de viver triste (se é que isso pode ser chamado de ”vida”):

  • você acredita que não tem valor;
  • você acredita que as coisas que faz não fazem diferença;
  • você acredita que não faz falta;
  • você acredita que isso nunca vai mudar.

E a vida? Xi… a vida… Um milhão de coisas passam pela cabeça o tempo todo, repetindo e repetindo sem parar. Memórias de coisas ruins insistem em aparecer sempre que algo de bom acontece, numa contínua lembrança de que você não merece ser feliz. E rodam, e rodam, e martelam, e martelam todo o dia, o tempo todo, num turbilhão contínuo que não lhe deixa formar seus próprios pensamentos. A dor não vai embora, o corpo dói, o cansaço dói, a raiva dói, tudo dói e não pára.

A única coisa boa é dormir. Dormindo você esquece isso, ao menos por algumas horas. Ou cerveja, ou sexo, ou droga… Faz você sair um pouco da mesmice da sua cabeça. Daí, uma vez ou outra, você fica contente. Passou! Finalmente as nuvens negras passaram e você pode viver uma vida normal. E você fica alegre, faz planos e num belo dia: pá! Volta tudo outra vez. E cada vez mais forte.

Até o dia em que você resolve entender isso e procura na internet alguma coisa que te explique o que é. Você procura o Doutor Google e ele lhe diagnostica com tudo: de depressão a esquizofrenia. Mas você não quer procurar psiquiatra e tomar remédios, pois acha que vai piorar ou que não vai resolver.

E continua catando na internet alternativas e páginas e cai aqui.

Se espera por filosofia, lamento, sou bastante pragmático. Eis o que você precisa ler:

1 – Ninguém ”sabe” o que você está sentindo, nem tem como saber pelo que você está passando.

É balela essa história de outras pessoas passando pela mesma situação. Ora, não estão vivendo a sua vida, como poderiam saber? Cada um sabe em si mesmo o quanto dói. É impossível outra pessoa sentir o que se passa contigo.

Mas isso não quer dizer que você está sozinho. Há muitas e muitas pessoas ao redor do mundo que podem lhe ajudar e que podem contar como superaram essas experiências. O detalhe: embora o sofrimento de cada um seja diferente, a doença é a mesma.

2 – Isso mesmo: depressão é uma doença.

O principal problema é entender que ela é uma doença, porque as pessoas têm uma visão limitada acerca do que ”é uma doença”.

Quando uma pessoa está com uma perna quebrada ou uma infecção, você está vendo o corpo e sabe que ela precisa de atendimento médico. Quando a doença é num órgão interno fica tudo mais complicado, porque se afeta todo o resto do corpo.

O fígado é um órgão. Quando ele falha…
Os rins são órgãos. Quando falham…
O pâncreas é um órgão. Qual ele falha…
O coração é um órgão (músculo). Quando ele falha…

Daí vem o problema que mencionei: o cérebro também é um órgão. Só que ele é um órgão especial, ele controla a consciência, lida com a memória, lida com a tomada de decisões. Depressão é o que acontece com a pessoa quando o cérebro fica doente. E é o que está acontecendo com você neste momento.

Nada, repito nada, do que eu escrever agora vai resolver o que está sentindo agora. Seria o mesmo se eu escrevesse para curar um diabético, ou alguém que faz hemodiálise, ou quem tem pressão alta. Conhecer e entender o problema não resolve (ajuda, mas não resolve).

São numerosos os processos químicos que acontecem no cérebro e, quando o desbalanceamento desses processos se dá por longo tempo, ele se torna persistente se nada for feito. Assim como uma pessoa que se entope de doces sobrecarrega o pâncreas e fica diabética, uma pessoa que passa por um sem número de coisas na vida sobrecarrega o cérebro que fica literalmente lesionado de tanto ter de lidar com a vida. A capacidade de resposta do cérebro é danificada e isso vai direto para a consciência.

A pessoa passa então a não tomar as decisões corretamente, não reagir corretamente aos estímulos, assim como não consegue mais sentir (sentimentos) corretamente. O cérebro fica preso num sentimento só (tristeza e ausência de estima própria), como que se culpando por não dar conta.

Não é frescura, não é desânimo, não é fraqueza. Tudo o que acontece na mente são apenas os sintomas do problema neurológico infelizmente instalado.

Perceba o que estou tentando dizer: tudo o que você está sentindo agora não é você. Não é o seu verdadeiro eu. Neste momento a doença está te impedindo de ser quem você realmente é. Todos esses sentimentos, e culpas, e remorsos, e tristezas não se dariam se seu cérebro não estivesse ”quimicamente lesionado”.

É exatamente como pedra nos rins. Você passa uma vida sem beber água direito e ganha uma pedrinha que dói pra chuchu. A pedra não é o rim. Ela impede que o rim funcione direito. Ela não devia estar lá, mas está e não vai sair sozinha. A mesma coisa é com a depressão. A química do seu cérebro está desbalanceada. Não sei por que ficou assim, mas está. E não está deixando você pensar direito. Essa coisa aí dentro não é você, não faz parte de você e não vai sair sozinha. Mas você pode eliminar essa pedra da sua vida.

3 – TEM JEITO.

É aí que entram os remédios. Do mesmo jeito que existe tratamento para diabetes ou pressão alta, existe para depressão. Eu realmente não acredito que você seja contra alguém tomar insulina ou qualquer outro remédio. Não conheço ninguém que seja contra remédios para quem precise.

O mesmo é com o cérebro. Eu não vou entrar em detalhes fisiológicos, mas a medicação ajuda a regularizar o complexo sistema de hormônios cerebrais.

Os remédios funcionam assim: não tem como direcionar o fármaco para um ponto específico no cérebro. Então o que se faz é impregnar todo o cérebro com químicos que reestabeleçam as funções normais. Isso leva algumas semanas (duas ou três). Nos primeiros dias só se sentem os efeitos colaterais e a pessoa acha que não está funcionando. É assim mesmo.

Enjôo, dor de barriga, pressão na cabeça, suor frio etc. etc. etc. A bula inteira de efeitos colaterais passa nos primeiros dias. Depois de quinze dias os efeitos colaterais somem e aí o paciente começa a ver se aquele medicamento está surtindo efeito. Muitas vezes não dá certo na primeira vez e tenta-se outro fármaco. E assim após alguns meses chega-se ao remédio certo.

E bingo! O cérebro volta a funcionar normalmente. O remédio não é um escravizador, pelo contrário, ele é um libertador. Ele permite que o cérebro volte a funcionar normalmente e a desempenhar suas funções orgânicas. E assim a pessoa passa a ter uma vida normal.

4 – O principal empecilho é aceitar que não dá para fazer sozinho.

Seu cérebro está doente. E por mais que você não goste de ouvir ou ler, a verdade tem que ser dita: não vai melhorar sozinho. Você precisa de ajuda. Tem um monte de coisas na vida que você já não faz sozinho. A comida que come não foi você quem plantou, a roupa que veste não foi você quem fez… Tudo na sua vida tem a mão de outrem. Desta vez, também não será diferente. E, se você quebrasse sua perna ou tivesse uma infecção, dificilmente recusaria ajuda médica…

a) A primeira etapa é procurar um psiquiatra. São muitos medicamentos diferentes, é necessário alguém que saiba o que vai prescrever.

Dica muito importante: psiquiatra não é casamento. Você não tem obrigação nenhuma de ficar com um psiquiatra ou outro. Você não está traindo ninguém.

Você vai a um barbeiro cortar o cabelo. O cabelo fica horrível. Você volta nele? Não.
Você vai a um padeiro comprar pão. O pão tem gosto de sapato. Você volta nele? Não.
Você chama um pedreiro. O serviço fica um nojo. Você o chama para outra obra? Não.

Psiquiatra e psicólogo é a mesma coisa. Se não der certo com um, vai dar certo com outro. E se não for com o segundo, vai com o terceiro, quarto… Vai mudando até acertar.

b) A segunda etapa é aceitar a medicação.

Como disse logo acima, vai levar um tempo. Parar o tratamento no meio é a pior decisão que alguém pode tomar. É preciso esperar, mas para alguém que passa por isso há tanto tempo, esperar ainda mais por uma solução é horrível. Quem sofre tem pressa. É compreensível. Mas pense bem, se você agüentou tanto até aqui, tente agüentar só um pouco mais.

Também não se deve parar de tomar ao melhorar. Como eu disse, seu cérebro está lesionado. Não vai se curar sozinho. Não vai passar assim. Não se tira insulina de um diabético, nem remédio de pressão de um hipertenso. Sentir-se bem é o esperado do remédio. Não quer dizer que acabou.

O remédio simboliza um novo começo e não um final.

c) A terceira etapa é o tratamento psicológico.

Eu não sei o que se passa contigo, mas eu sei que foi o modo como encarou as porradas da vida que lhe levou a ter depressão. O modo como a gente encara o mundo é como o ”programa de computador” do cérebro. Um programa ruim ou ineficiente danifica a máquina. Se essas minhocas continuarem rodando aí dentro da sua cachola, não tem remédio no mundo que resolverá.

O remédio como que… ”zera” o turbilhão dentro da cabeça. Esse turbilhão de porcarias que ficam rodando e rodando finalmente pára. E vem a calmaria: um silêncio revigorante onde você pode finalmente começar a reorganizar seus pensamentos novamente. Sabe aquela vontade de que o mundo pare e lhe dê um tempo para pensar? Quando você quer sumir para ter um tempo para si mesmo? É exatamente isso que o remédio lhe dá.

Essa é a sua deixa para reavaliar tudo o que vem passando. Reavaliar o modo como encara a vida. Reavaliar seus conceitos e valores. Mas isso é para o momento oportuno. Por hora, só quero de alguma forma lhe passar a certeza de que por pior que esteja dá para resolver.

Sua vida agora pode estar muito ruim. Mas também pode se tornar muito boa. Peço que dê mais uma chance a si mesmo aceitando ajuda médica.


Oito anos depois, agora pai de dois filhos, sobrevivente condecora oficial em premiação por ações contra suicídios na ponte Golden Gate
https://www.dailymail.co.uk/news/article-2323468/Kevin-Berthia-Emotional-reunion-suicidal-man-hero-police-officer-Kevin-Briggs-talked-Golden-Gate-Bridge.html

Certa vez um apresentador espertinho quis fazer graça com Keanu Reeves (um famoso ator estadunidense). Keanu é conhecido também por ter tido uma vida difícil com várias tragédias no caminho. E o fulaninho lhe perguntou: o que acontece com a gente após a morte?

“As pessoas que nos amam sentirão nossa falta.”