Suicídios na UERJ – Uma questão ainda não solucionada.

A UERJ, meu local de trabalho, é um trampolim de suicidas. Os números verdadeiros são ocultados pelo governo e isso não é ”teoria de conspiração”: o número divulgado repetidas vezes nunca passa de 16, sendo que eu mesmo, durante estes anos em que fui aluno e agora funcionário tive ciência de 10, estive presencialmente em 6 eventos, dos quais vi 3 cadáveres e testemunhei uma garota saltando. Nessa ocasião, eu estava em sala de aula e a vi caindo em velocidade. Alguns instantes após, o retumbante som oco do impacto no chão.

A melhor parte é, sem dúvidas o julgamento póstumo. Pois após o ocorrido, todo mundo se torna especialista em psiquiatria, psicologia, psicanálise e derramam suas mórbidas psicoses no morto, agora réu coletivo de inúmeros juízes altamente competentes, capacitados, habilitados e esclarecidos, de moral irrepreensível e ávidos por sentenciá-lo segundo suas convicções e preconceitos.

Ó, quão maravilhoso seria o mundo se pudéssemos trocar de vidas! Afinal, as pessoas sempre sabem resolver o problema dos outros, têm solução para tudo. Menos para os próprios problemas.

E julgam de todas as formas e modos concebíveis as ações alheias, olvidando hipocritamente suas próprias faltas e falhas. Conhecedores profundos do assunto (profundeza com a fundura de um fio de cabelo) não se obstam a, ironicamente, sentenciar o agonista ao báratro, como se criminoso fosse.

Assim, o julgamento póstumo pelos subitamente doutos doutores das dores alheias após a tragédia é ainda pior que o julgamento de si mesmo enquanto doente.¹

Isso apenas aumenta ainda mais o tabu. As pessoas têm medo da morte e de tudo o que envolve a morte. Incluindo falar da morte. Morte morrida é mais branda. Morte matada é mais grave. Mas a morte matada por si mesmo tem um tratamento diferenciado. Religiões a tratam como pior que o homicídio. Os julgamentos morais desses falsos ”imaculados” em nada ajudam o doente. E todos os estereótipos somados à desinformação e à informação falsa tornam a luta contra esse mal da sociedade moderna ainda mais difícil.

Por anos sempre vi o núcleo CVV da UERJ estar com as portas fechadas (permanecem abertos agora). Mas quantos procurariam na última hora essa ajuda presencial, se não conseguiram antes nem falar sobre o que estavam sentindo? Quantos sabem que ali no andar do RH dos funcionários tem um grupo CVV? E dos que sabem, quantos deixaram de lá adentrar com vergonha ou receio de serem visados? Essa última linha de defesa é absurdamente mal aproveitada, mal implementada e mal divulgada.

Outra ”solução” (menos que paliativa) apresentada por quem de dever foi a instalação de redes de proteção em algumas rampas, desconsiderando que a arquitetura de beleza inexistente e acinzentada propicia todo o prédio ser apto a tais intentos. A mesma arquitetura com passagens labirinticamente estreitas e salas quase (se não de fato) ocultas, sobre as quais ouvimos falar serem cenários de casos de assaltos à mão armada (roubo), furtos e estupros. E (aí sim, teorias conspiratórias) há quem diga que nem todos os saltos são ”suicídios”, e que se aproveitam da visibilidade quase nula de certas partes do prédio para de lá cometer o crime de lançar outrem para baixo.

O assunto é um tabu por si mesmo e as estruturas (concreta e abstrata) difusas da UERJ não ajudam em nada a lidar com o problema. Tanto o concreto armado convidativo aos saltadores, quanto a mentalidade do local em que sinto ninguém dar muito valor a qualquer coisa além de seus próprios interesses.²

E qual é minha proposta para lidar com essa situação?

Eu acredito que a UERJ poderia se utilizar de sua própria estrutura acadêmica para lidar com o problema. A Lei de Diretrizes e Bases  estipula que uma Universidade tem três (3) atribuições: Ensino, Pesquisa e Extensão.

Ensino é a função básica de toda instituição do tipo. Pesquisa é obrigatória numa Universidade e Extensão é o trabalho que a instituição realiza com a comunidade na qual está inserida. Ora, por que não usar o problema para desenvolver no Instituto de Psicologia e no Instituto de Medicina um trabalho conjunto de pesquisa sobre o tema que ocorre NO PRÓPRIO LOCAL de ensino, preparando novos psicólogos e médicos psiquiatras para lidar com essa questão. Esse trabalho de pesquisa também pode ser direcionado em conjunto com um trabalho com a comunidade, em campanhas permanentes de esclarecimento de doenças psicossomáticas e da importância do atendimento psicológico e psiquiátrico.

Isso não ocorre.

Há sim, campanhas esporádicas. E a inspiração para este texto veio de mais um folhetim que recebi em minha repartição. Volta e meia o assunto vem à tona. E esta é a questão que levanto: se o evento não tem data marcada para ocorrer, por que campanhas tão intermitentes? Não seria melhor uma campanha permanente? Um trabalho que assuma na doutrina institucional o reconhecimento dessa questão como integrante de facto da cultura da UERJ.*

Desse ponto de vista doutrinário, o Estado, representado pela UERJ, não apresenta institucionalmente uma postura eficiente de combate e prevenção ao suicídio. Este é um problema que se arrasta há anos (há quem diga que ocorre desde sempre, quando ainda era Universidade do Estado da Guanabara) e não há ações peremptórias, apenas pontuais (campanhas esporádicas), paliativas (instalação de um CVV), mitigatórias (eventos religiosos ecumênicos) ou até mesmo dissímulas (redes de proteção). Estas ações não se mostraram eficientes para solucionar a origem do problema, que é o esclarecimento da depressão e do suicídio como doença psicossomática.

Não me estenderei explicando pormenorizadamente o assunto. Simplificarei:

Você encontra uma pessoa com um problema de saúde. Suponhamos:

a) A perna está quebrada.
Você diz: ”ora isso não é nada. Faz uma força aí e ande normalmente.”

b) Está com febre gravíssima, uma infecção.
Você diz: ”ora isso não é nada. Faz uma força aí e abaixe a sua febre.”

c) Está com depressão.
Você diz: ”ora isso não é nada. Faz uma força aí…”

NÃO, VOCÊ NÃO DIZ para alguém com a perna quebrada para fazer força e andar. A perna do sujeito está quebrada e ele não vai andar tão cedo assim. VOCÊ NÃO DIZ para o sujeito ignorar uma infecção, porque o sujeito precisa de tratamento médico.

ENTÃO, NÃO DIGA A UM DEPRESSIVO PARA FAZER FORÇA!

O fígado é um órgão. Quando ele falha, uma série de problemas bioquímicos acontecem no corpo.
Os rins são dois órgãos. Quando falham, o sangue pára de ser filtrado e o corpo sofre danos.
O pâncreas é um órgão. Qual ele falha, você fica diabético e tem vários problemas de saúde.
O coração é um órgão (músculo). Quando ele falha, você sofre os efeitos da arritmia e pode até morrer.
O cérebro é um órgão. Então por que você insiste em tratá-lo como se não fosse? Por que problemas bioquímicos no cérebro são tratados como um tabu?

O cérebro é um órgão e é responsável por várias atividades de nossa mente (consciência, memória, volição). Se ele falha, sua consciência fica alterada, isto é, sua capacidade de perceber a realidade ao seu redor fica comprometida. Sua memória fica alterada, isto é, você pode perder memórias, ter memórias confusas, ou informações desencontradas. Sua volição fica alterada, isto é, sua capacidade de fazer escolhas fica danificada e VOCÊ NÃO CONSEGUE FAZER AS ESCOLHAS CERTAS, POR NÃO TER AS MEMÓRIAS SOB CONTROLE NEM A CAPACIDADE DE ENXERGAR A REALIDADE AO SEU REDOR.

Tenha uma atitude pró-ativa em favor da pessoa. Abaixo segue uma cartilha com indicações básicas. Mas jamais permita que a situação passe em branco. Faça o possível para convencer a pessoa a procurar tratamento psiquiátrico. Lembre que ela não está em perfeitas condições para decidir, pois seu cérebro está doente e muitas vezes não é capaz de perceber por si mesma que precisa de ajuda.


* Em tempo: este texto está de acordo com as restrições que tenho enquanto servidor público de escrever e publicar artigos críticos aos órgãos de Estado.

https://web.facebook.com/pffilosofia/posts/1174987689215070

DECRETO Nº 2479 DE 08 DE MARÇO DE 1979

APROVA O REGULAMENTO DO ESTATUTO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS CIVIS DO PODER EXECUTIVO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

CAPÍTULO III
Das Proibições

Art. 286 – Ao funcionário é proibido:

I – referir-se de modo depreciativo, em informação, parecer ou despacho, às autoridades e atos da Administração Pública, ou censurá-los, pela imprensa ou qualquer outro órgão de divulgação pública, podendo, porém, em trabalho assinado, criticá-los, do ponto de vista doutrinário ou da organização do serviço;

1- Tragédia. Agonista. Ágon = guerra, luta, batalha. Protagonista, Antagonista. Báratro.

2- Este é um sentimento que venho trazendo já há algum tempo, não só da UERJ, como de meus locais de trabalho e estudos anteriores, e que se afina com os relatos de amigos que afirmam o mesmo ocorrer em suas vidas. As notícias, os relatos, tudo aponta para o mesmo: a humanidade empurra sua vida com a barriga.

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